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Meirol e a Pedra Sácer - III

 9. A confirmação
Handaf estava doente. Pressentia que algo terrível estava para acontecer. Agora ele estava sentado, sozinho, observando toda a atividade maztena ao seu redor. Rumores de uma guerra contra os dole-mundii haviam feito o espírito dos seus conterrâneos ficar abatido.
Muitos maztenas de vilas distantes porém não sabiam de nada, e em especial os aroeres do sul, de onde veio Meirol, que ignoravam totalmente a possível guerra contra os dole-mundii. Seria uma surpresa para estes ver os atacantes penetrando em suas vilas.
Handaf refletia nos últimos acontecimentos: A última notícia que recebera sobre Meirol viera com Greices, até que recebera um mensageiro asnarlahal que relatara brevemente o encontro de Greiteli com o Grande Líder asnarlahal. Através dele, Handaf soube algo que o estremecera! O Grande Líder dos manvatopias soubera sobre a perda da Pedra Sácer. Pela proximidade com os dole-mundii, os manvas estão informados sobre esses assuntos e o segredo revelado poderia custar caro! Será que os manvatopias revelariam o assunto aos doles? Essa dúvida temível arrastou Handaf para uma grande depressão resultando por dois dias num fortuito problema estomacal. Através do asnarlahal mensageiro, Handaf soube também que pelo menos todos da comitiva estavam vivos, e que Greiteli em breve voltaria para casa!
Handaf continuava refletindo enquanto os preparativos para despedir-se do mensageiro formalmente ficavam prontos. Mas eis que naqueles instantes, Handaf recebeu outra mensagem que o deixara sem forças: uma comitiva dole-mundii estava se aproximando.
Todos ficaram aflitos. “Que fazer? E agora, que fazer? Como esconder dos doles que a pedra sumira? Porque vieram antes da data costumeira? Eles souberam do sumiço da Pedra Sácer! Os manvatopias, ... aqueles desapiedados! Delataram a situação! Que fazer?”
Todos estavam assustados. Nunca viram Handaf demonstrando tamanha fragilidade. Um grande temor abateu-se sobre todos. Antes que as coisas saíssem de controle, Handaf se recompôs e tomou uma postura firme novamente. Ordenou que houvesse preparativos para a recepção em frente ao aposento do corro e se retirou.
O asnarlahal, que receberia a despedida formal de Handaf, recebeu um pedido para que ficasse mais um pouco e visse o desfecho dessa nova situação.
Horas depois, uma comitiva de 20 doles e 50 mundii (12 deles homens de destaque e sacerdotes; os demais eram guerreiros guardas) aparecia na vila principal. Os aldeões olhavam espantados para aquele séquito. Já viram outros, mas eram sempre compostos de 3 doles, 3 mundii, e uns dez guerreiros mais ou menos. Agora, vinha uma multidão!
“Avise Handaf, o Grande Líder, que Caruari, irmão e representante de Caruanã está aqui”
Após algumas formalidades, como o anúncio da presença de Handaf e a reverência a ele prestada, a conversação iniciou. Caruari detestou inclinar-se ao chão para esse líder de uma tribo militarmente fraca, mas seguira as instruções de seu irmão de respeitar os preceitos maztenas, afinal os visitantes eram minoria e não podiam com milhares de maztenas.
“Viemos, em nome de Caruanã, Grande Líder dos doles e também dos mundii, solicitar que nos mostres o amuleto do ancianato”
Na hora, Handaf lembrou-se de que poderia ter feito uma réplica exata da pedra para uma ocasião como essa, mas agora era tarde. De qualquer forma, Handaf odiava o engano!
“Não há mais tal amuleto em nossas terras” – disse Handaf
Os mundii guerreiros se arranjaram em formação, estupefatos com o que ouviram. Não sabiam de nada sobre o sumiço da pedra. Repentinamente sentiram o perigo de ouvir uma notícia que não poderia sair das terras maztenas.
“A confirmação” sussurrava Caruari, “a confirmação”, depois disse em voz alta aos guerreiros mundii:
“Tolos, não sabem que Handaf não ousaria nos fazer mal? Ele agora precisa fazer o possível e o impossível para que Caruanã não decida atacá-lo, e atacar a comitiva em que o próprio irmão de Caruanã integra não parece ser a melhor decisão!”
Depois, olhando para Handaf, disse: “Maztenas amaldiçoados! Cresci ouvindo a história do amuleto do ancianato e da importância dele para os irmãos mundii. Agora finalmente a hora de reaver o artefato está perto!”
O sumo-onaraitan (mundii-sacerdote) então olhou para os companheiros mundii e gritou “Númaior!” e os demais mundii celebraram levantando em êxtase os braços. Acreditavam que Númaior era o espírito subalterno de Onarai que manobrava as situações de forma que na hora devida o amuleto voltaria para mãos mundii.
Handaf olhou severamente para o grupo e ordenou que parassem imediatamente, porque uma celebração alienígena era imprópria na frente do aposento do corro. Caruari riu e ameaçou ordenar que os mundii continuassem, mas ao ver os guardas maztenas cercando toda a comitiva, aquietou-se.
“Se o Grande Líder meu irmão me permitir, eu mesmo te encontrarei no campo de batalha Handaf. Espero ansioso ver a queda maztena. Farei você rebaixar-se até o chão no mesmo gesto de reverência que fui hoje obrigado a exercer!”
A um gesto de Handaf, a guarda maztena rendeu todos os guerreiros mundii e Bedzar apontou uma ponta de lança para o pescoço de Caruari.
“Sou um embaixador. Não posso ser atacado dessa maneira” – Disse Caruari, agora assustado!
“És um embaixador. Não podes atacar-nos dessa maneira” – Disse Bedzar, chefe da guarda da vila principal. A um aceno de Handaf, forçou todos os doles-mundii a deitarem de bruços no chão.
“Dole insolente, para mim era vantajoso manter-te cativo, sem levares a inoportuna informação aos dole-mundii. Mas os costumes dole-mundii de traição e quebra de lealdade são raros entre os maztenas e mesmo significando uma grande adversidade para nós, eu os deixaria ir. Seu atrevimento em olhar para mim e seu insulto feriu o costume local e me deu o motivo que queria para manter-vos cativos. Caruari, seu tolo! Agora seu irmão demorará mais até receber a confirmação desejada, sugerida pelo Grande Excremento manvatopia. Quanto a batalha, sou homem de idade e você é jovem. É possível que nos encontremos no campo de batalha e eu pereça às tuas mãos. Mas saiba que o Grande Líder maztena não é como o Grande Líder dole-mundii, um covarde que se esconde atrás das habilidades militares dos dois irmãos mais novos.”
Todos assustaram-se. Handaf nunca ousara dizer tais palavras baixas, principalmente ao referir-se a um Grande Líder. Como Handaf sabia sobre o manvatopia, Caruari não imaginava, mas o sacerdote mundii esclareceu o assunto ao ver o que parecia ser um asnarlahal no meio daquela “gentalha maztena”! Entenderam que de alguma forma os asnarlahals foram avisados sobre o incidente na terra dos eromês.
Depois, Handaf convocou seus generais e a alguns deles ordenou que percorressem a tribo e chamassem toda a força militar dos maztenas. Alguns deles foram tomados de um pavor súbito, pois não queriam lutar sem a Pedra Sácer, e previram uma terrível derrota contra a forte e numerosa tribo dos dole-mundii.
Depois Handaf dispensou Assilésio, o mensageiro asnarlahal e disse:
“O que vistes, relatai! Os maztenas estão em apuros e são poucos se comparados ao inimigo. A moral de meus líderes militares está abalada. Se há laços entre nós que ultrapassam os simples vínculos comerciais, é chegada a hora de os asnarlahals a demonstrarem. Vós vos mostrastes muito competentes em tempos de paz, confio que sejais igualmente hábeis em tempos de guerra!”
Alguns dias passaram-se até que o mensageiro regressava e com ele Greiteli. Handaf ficou satisfeito em revê-lo e pediu que fosse ao aposento do corro.
“Meu Grande Líder, senhor dos maztenas”
“Dispenso as formalidades agora. Olha para mim.”
“Senhor, sabes o que realmente está acontecendo?”
“Se sei? A comitiva Dole-mundii veio com antecedência e com mais guardas do que o costumeiro e o próprio irmão de Caruanã a integrava. Eles ainda estão aqui, encarcerados!”
“Sei da vinda deles, mas manténs cativo o próprio irmão daquele que vem ao nosso encontro com uma grande massa de gente? Pretendes usar Caruari para pedir termos de paz em troca da vida dele?”
“Este é um costume eromê, manva ou tassu-assu. Mas não um costume maztena. Nosso código de honra não nos permite fazer tal negociação (Handaf cita seus princípios pessoais como se fossem costumes da tribo, o que não é verdade). Sabes dizer agora onde está Meirol?”
“Se não fossem os eromês, ele teria alcançado a caravana levinote ...”
“ ... E Quin-Néser e Caldiens a teriam resgatado.”
“Ah ... Sim, agora entendo porque os dois melhores guerreiros foram retirados da guarda da vila para acompanhá-lo! Achei que era para simplesmente garantir a segurança de Meirol. Mas, ... a caravana levinote era grande, composta de várias pessoas ...”
“Já viste a dupla em ação ... um mata a distância com perfeição e os que escapam dele caem nos braços do outro para igualmente encontrar a morte.”
“Disseste que Caruanã mandou investigar o paradeiro da Pedra Sácer ... se seu irmão não voltar ele logo estará a caminho com sua força militar ...”
“Sim! Tenho batedores naquelas terras de ninguém que os achis não permitem que seja povoada. No conselho de guerra o Rauquem, líder militar dos aroeres do norte, sugeriu que fosse montada guarda ao norte de nossa tribo, aqui nas terras entrerrienses, pois considerou que Caruanã poderia usar terras manvatopias para chegar aqui, já que seria uma boa opção evitar os achis ununaios. Assim que ele aparecer, receberei o rebate (sinal).”
“A propósito, parece que Meirol atravessara as terras dos asnarlahals do sul, cruzando o Grande Rio ao norte da Marloan (a Marloan é a terceira queda do rio Silivrens)”
“Meirol, o que você anda fazendo?” Handaf suspirou aflito.
“As descrições dos companheiros e de Meirol batiam com eles, mas haviam um outro integrante no grupo, o que me fez duvidar um pouco se tratava de nosso Meirol. Acho que ele não sabia que ainda me mantinha por lá, e por isso nem me procurou., A propósito, o asnarlahal mensageiro tem uma mensagem encorajadora para o povo maztena”
“O mensageiro, ia me esquecendo ... chame-o até aqui à frente do aposento do corro”
Logo depois de convocado, Assilésio cumprimentou o Grande Líder indo até o chão e passou a dizer:
“Grande Líder dos maztenas, não é costume asnarlahal intrometer-se nos assuntos de outras tribos. Nem a tribo asnarlahal do norte auxilia ou prejudica a do sul nem a do sul faz isso com a do norte. Que diremos de uma intervenção em assuntos extra-asnarlahals? Nosso Grande Líder tem de zelar pela tradição asnarlahal. Mas eis que o grande Djeiko-Bihel não é homem insensível. Não é apropriado um asnarlahal morrer por um estranho, mas essa antiga lei não se aplica aos escravos, sejam eles asnarlahals ou não. Temos muitos escravos treinados para a batalha, homens de infantaria. Esses estarão a caminho, assim que o senhor dos maztenas desejar e me enviar de volta como mensageiro de sua necessidade”
A um aceno de Handaf o internúncio disse:
“Toda ajuda é bem vinda, asnarlahal. Homens de infantaria serão uma prestativa ajuda, pois carecemos de homens capazes de suportar um ataque corpo-a-corpo. O que queres em troca por tal ajuda?”
“Sua simples existência como tribo é para nós gratificante. Se o Grande Líder dos maztenas concordar, gostaríamos de continuar a ter primazia no comércio com os maztenas.”
Com um novo aceno de Handaf, o internúncio concedeu o pedido e despediu Assilésio, implorando que fosse rápido até sua tribo trazer ajuda!
Nesse momento Rauquem recebe um mensageiro assustado e esgotado, que o informa da presença dole-mundii nas terras ao sul dos manvatopias, mas estão em campanha contra sulinos rebeldes à liderança do Grande Líder manvatopia. Rauquem ordena que seja dado o rebate.
Vários arautos, subordinados do internúncio, começaram a clamar em vários pontos até que as vozes começaram a ficar quase inaudíveis. Enquanto isso mensageiros montados saíam em disparadas para vários pontos da rosa-dos-ventos. Os homens convocados para a batalha precisavam apressar-se.
Quando enfim um líder local dos aroeres da vila de Meirol convocou o vilarejo, Pes-Ean sentiu um aperto no peito. A saudade de seu esposo era forte, pois Meirol era homem bondoso e romântico com sua esposa. O coração dela batia muito forte agora, de modos que ela tinha a impressão que outros notavam isso através de seu decote generoso (não era exatamente o coração que estava chamando a atenção). Greices ficara doente devido a uma picada de algum inseto desconhecido e ardia em febre, de modo que estava atuando seu substituto.
Após reunir o povo, o substituto passou a cumprimentá-los, gerou expectativa do que haveria de dizer, e depois falou:
“Homens e mulheres maztenas. Recebi a pouco um mensageiro da vila principal que veio alertar-nos sobre um ataque à nossa tribo. Doles-mundii estão a caminho para nos exterminar.” Nesse ponto do discurso, o pavor tomou conta de muitos. Não sabiam o que era um dole-mundii, e nem desejam saber mesmo!
“Eis que nosso Grande Líder, senhor dos maztenas, convocou sob a minha liderança todo homem capaz de segurar uma lança ou manusear um arcadã. Por nossas esposas, que ninguém se acovarda”.
Defender o território maztena e as mulheres que consideram indefesas, eram os dois lemas maztenas para incitar os homens às armas. Sempre funcionavam pois os maztenas amavam seu próprio povo, e seu código de honra os fazia verem a si mesmos como defensores das suas mulheres. Mais tarde no tempo seu lema fez menção aos filhos também.
A situação desenrolou-se de forma que batalhões de guerreiros logo estavam diante de Handaf, preparando-se para a batalha. Homens de infantaria com lanças, e arqueiros habilidosos no uso do arcadã. Alguns poucos cavalarianos também compunham a força militar.
“Onde estão os homens de Ovidas, do riacho Habunã e de Manassa?” Perguntou Handaf, vestido para a batalha, com o cabelo amarrado, uma proteção de couro ao redor do abdome e uma longa veste em tons de cinza e verde acinzentado segurada por alças, passando por baixo da proteção, indo até os pés. O peito estava nu.
“Meu senhor, Grande Líder, não veio ninguém de lá, mas há notícias de que estão a caminho.”
“Os aroeres do sul já estão aqui, e os homens de terras mais próximas ainda não ..., ... se não chegarem em breve serão punidos ... mande uma mensagem até eles.”
Os homens ficaram atemorizados. À Questal, chefe dos cavalarianos, Handaf explicava depois que o comandante indulgente torna os soldados imprestáveis. Quem relaxa a disciplina pode ter soldados arrogantes ao seu lado.
Enfim, os aroeres do norte já haviam recuado suas famílias e trouxeram notícias de que o norte fora arrasado pelos dole-mundii. Handaf passou a mobilizar suas tropas e dividi-las em dois grupos, sendo que Handaf comandava a vanguarda com uma tropa de elite, e Bedzar o acompanhava. Na retaguarda ia uma grande multidão de homens, dispostos em grupos de lanceiros e arqueiros. Teria sido sábio proteger os flancos com  os cavalarianos, mas os silvos desconheciam tais táticas de guerra, e Handaf os trouxe na vanguarda.

10. A comitiva atravessa o solo manva


Agora Meirol havia feito o caminho inverso até os asnarlahals. O mesmo comerciante de Rashnáki de cenouras os vira e os atravessara pelo Vantaás-Eás. Mais tarde, tendo cruzado o território asnarlahal, fizeram a perigosa e demorada travessia do Grande Rio Silivrens.
Como não sabiam da presença de Greiteli (e como não havia poucas vilas naquelas vastas terras) continuaram seu trajeto. Acertaram no plano de interceptar o dole com a pedra. Pois estavam atrás, mas escolheram o caminho mais curto, algo que deviam à experiência de Ninfa.
Só havia um inconveniente: teriam de atravessar o território dos manvas do sul, onde estavam agora, sem serem vistos.
Nessa altura muitas coisas já tinham acontecido! O Grande Líder manvatopia já delatara a situação ao Grande Líder dole-mundii, Handaf já havia recebido a comitiva dole-mundii e Greiteli estava a caminho do território maztena. Meirol não sabia, mas estava em vantagem sobre o dole que trazia a Pedra Sácer consigo.
Nas terras manvas procuraram evitar as estradas de algumas vilas que passaram a encontrar no caminho, mas isso estava atrasando o cavalgar porque longe das estradas o chão estava irregular e a vegetação, bem fechada. Lembrando-se das palavras de Greiteli, que disse que os manvas sabiam da história da Pedra Sácer, estavam um tanto ansiosos. De repente viram-se numa pequena elevação de campo aberto, com algumas gramíneas aqui, outras ali. Viram lá embaixo pessoas aparentemente amassando uvas num lagar, e parecia que outras dançavam ao redor. Uma moça, de tez mais clara ainda do que geralmente os loiros manvas são, olhou para o grupo maztena do meio de uma roda de dança. Percebeu o susto estampado nos estranhos ao se verem descobertos. Ela preferiu não dizer nada aos demais, uma gentileza que logo se mostraria de pouca valia. Todos os maztenas recuaram rapidamente para não serem mais vistos e cavalgaram para longe dali, mas repentinamente viram-se diante de um grupo de soldados manvas. O capitão daquela divisão pareceu bastante surpreso de ver aquela gente diferente ali.
Ao sinal de um estranho som gutural os soldados cercaram os maztenas, ordenando que erguessem as mãos. O capitão manva não conhecia aquela gente de pele morena clara e estranhou aquele homem que parecia envolto num manto (Aduneius), também ficou admirado de ver aquele crina dourada, montaria de Meirol.
Não sabendo de toda a movimentação ocorrida em sua tribo, causada pelos manvatopias, aquele manva do sul sabia que não era por mero acaso que estranhos fossem encontrados nas terras dos manvas do sul. Decidiu-se portanto, por levar os homens ao seu Grande Líder.
“Alguém entendeu uma palavra do que esses estranhos dizem?” Perguntou Meirol
“Por Handaf, esses coitados tem um falar tão estranho, que parecem que estão se amaldiçoando mutuamente” – Disse Servensaus
“Não me parece desconhecida ... obviamente não sei o que dizem, mas acho que já  a ouvi antes” – Completou Aduneius, sem lembrar que o som era o mesmo dos sussurros dados pelos manvatopias na terra dos eromês,
Os maztenas tiveram suas mãos atadas, porém não foram empurrados ou tratados com outra descortesia. Mas a eles era indicado o caminho e o seguiam. Estavam sendo levados a um governador regional, para que lá ele decidisse o que fazer com os estranhos. Os cavalos foram levados junto, mas todos estavam desmontados.
Caminhadas e caminhadas depois entraram em terras que os manvas chamavam de Cadmon, e o grupo de Meirol viu-se diante de uma construção simples, mas de belo jardim. Córregos com água límpida e grama e flores belamente situadas, com borboletas azul Royal e outras num vibrante laranja aguardente voavam pela paisagem. Havia uma estradinha pavimentada com pedras brancas que levavam até a edificação.
“Pardês ...” sussurrou Aduneius!
Servensaus olhou, intrigado, ao que Aduneius explicou:
“É o lugar de Panol para onde vão as índoles dos homens, segundo uma antiga lenda carachi, contada entre grupos que migraram para . Os de bom caráter teriam sua índole vivendo para sempre em felicidade sempiterna na Pardês. Alguns homens em libros crêem nesta história, mas a modificaram, sendo a Pardês chamada de Paradeisos e acrescentando um lugar de punição para os maus. Estes seriam escravos eternos das boas índoles, recebendo delas punições severas e à noite se recolheriam num lugar onde teriam intenso sono, mas não poderiam dormir.”
Um arrepio correu pelo corpo de Servensaus, ao ouvir aquela história. Era totalmente nova para os maztenas, mas ecos desse mito eram encontrados entre dunos, eromês e asnarlahals, povos descendentes de carachis. No entanto, logo a atenção dele voltou-se novamente para o jardim acolhedor diante dele. Sentiu por um sopro de tempo um revigoramento dentro de si, que logo evaporou-se diante de guardas carrancudos que começaram a falar naquela língua estranha.
Foram levados perante um homem bem adornado, gordo, que bebia uma bebida fermentada a base de laranja, o qual autorizou que fossem desamarrados. Fê-los uma pergunta que não compreenderam. Meirol perguntou aos espectadores se alguém falava a língua dos maztenas. Não houve resposta, mas o homem gordo riu com um canto da sua entreaberta boca, pois achou curioso aquele idioma! Ao pedido de Meirol, Aduneius perguntou na língua comum se alguém falava aquele idioma.
“Converse comigo, pois sou um mastariano cativo de guerra que cresceu aos olhos de meu senhor, e em Mastaris se fala a língua comum.” Depois o homem voltou-se para seu senhor e explicou-lhe na língua manva o que estava acontecendo. O homem mastariano era de uma fala tão calma que apaziguou o medo que ia crescendo dentro do maztenas. Mastaris era uma tribo altamente civilizada, mas sem muita força militar. Era menos populosa que as tribos asnarlahals ou levinotes, outros dois povos desenvolvidos. Moravam num ângulo formado pelos rios Silivrens (o grande rio) e o Avalen-Tiste, que os mênlistes chamavam de Cados. Tais rios os cercavam ao oeste, sul e norte. Ao leste viviam os manvas, do norte e do sul. Os mastarianos não tinham muitos problemas com os manvas do sul diretamente, mas os do norte eram belicosos e dispostos a saques, e ao travar embates com os manvas do norte os mastarianos acabavam por entrar em rota de colisão com os manvas do sul.
“Conheço os mastarianos” disse Ninfa.
O governante manva falou algo ao servo mastariano e se retirou, ordenando que os estranhos fossem confinados a um aposento trancado, mas cômodo. O mastariano foi junto e passou a prosear com Aduneius.
Horas depois, o próprio governante manva passou por perto do aposento e ouviu comemorações e risadas. Ao ordenar que a porta fosse aberta viu pedras no chão e Aduneius explicando naquela “palavras ininteligíveis”  algo sobre o jogo. A um pedido seu, o servo respeitosamente explicou sobre o imbatível Aduneius e seu joguinho de pedras. Isso aguçou a curiosidade do homem. Ao ver que os hóspedes eram gente interessante os convidou para alimentar-se a sua mesa e contar de onde vieram e o que faziam em solo manva. Meirol alertou a todos de que podia se tratar de uma gentileza com fins específicos e ordenou-lhes que nada falassem da Pedra Sácer.
Durante a refeição, usando o mastariano como intérprete, Aduneius conversou sobre como a matemática era avançada em sua terra. Explicou-lhes alguns princípios fundamentais e contou o que os homens de libros chamam de “O problema do viciado”, segundo o qual um jogador tinha moedas no valor de 16 pésets  de prata e foi até uma casa de jogos. Ganhasse ou perdesse, ele sempre apostava a metade de seu dinheiro. Numa notinha apostou 6 vezes, perdeu 3 e ganhou 3. Aduneius perguntou com quanto dinheiro ficou o jogador e parecia razoável a todos que fosse os mesmos 16 pésets, uma vez que independentemente da ordem das perdas e ganhos, o que perdia recuperava e o que ganhava perdia. Através de cálculos Aduneius provou ao líder manva que o jogador sempre perdia 9,25 pésets, independentemente da ordem de ganhos ou perdas.
Foi um problema para o manva compreender a fração 0,25 que compunha aquele 9,25, mas ficou muito satisfeito com seu aparentemente ilustre sábio.
(pésets é uma medida monetária dos mastarianos, empregada pelos manvas também. Aduneius não a conhecia, mas aqui teve a ajuda do mastariano)
No decorrer da noite Aduneius foi contando a respeito de onde ele era, de como era a terra de Libros, e da origem da civilização em Númaior. Falou da nazbiata (embarcações vindas do continente daneliano se perdem no mar e param neste continente) e de como carachis escravos das embarcações se espalharam em pequenas tribos. Todos ficaram surpresos quando ele mencionou que destes carachis descenderam as tribos dos asnarlahals, levinotes (ao falar dessa tribo apontou a Ninfa) e dos mastarianos, entre outras.
“A maioria dos carachis conhecia a língua comum falada na Danélia, por isso levaram-na consigo pelo nosso continente afora …” Explicava Aduneius, diante da agonia de Meirol que tinha pressa em se livrar daquele homem gentil, mas ainda assim seu captor e possivelmente um perigoso manva. Os demais, porém, pareciam se deliciar com aquele vislumbre do começo, algo que intrigara tantas mentes por tanto tempo. Perguntado por Servensaus (pergunta que foi devidamente traduzido para a língua manva), o que exatamente era essa terra de Libros, Aduneius respirou fundo como se em sua mente se passasse uma lembrança gostosa tal qual uma brisa fresca num dia que queima em calor. Depois falou a respeito de sua terra natal, das duas grandes cidades, Libros e Abratena, das consecuções de engenharia, dos sistemas de irrigação, dos aquedutos e do sistema numérico baseado em 10 desenvolvido orgulhosamente por seus antecessores. Até Meirol esqueceu-se um pouco de sua missão e ficou imaginando aquela terra, em especial aquela “Casa do Pensamento” da qual fazia parte Aduneius.
Logo Aduneius principiou a narrar sua expedição para as terras desconhecidas do norte, justamente essas tribos silvas que ele agora estava percorrendo. O norteador geográfico da Casa do Pensamento, com permissão real, levou muitos homens importantes para reconhecer as terras e a gente  ao norte de Libros, pois registros antigos mencionavam povos carachis povoando o norte. Depois Aduneius lhes falou do animal selvático que lhes atacou, arrastando um deles para longe. Falou ainda da busca ao homem perdido e de como ele (Aduneius) veio a se perder, na correria, do seu grupo. Desorientado, ele passou a perambular pelas terras de Romvelt, uma gente hostil que o maltratou mas descuidou de guardá-lo devidamente. Logo ele andou entre os dunos, um povo muito simpático e simples. Ali Aduneius ficou algum tempo, fazendo anotações sobre aquela gente, até que a saudade de sua terra apertou. Saiu para procurar Libros, atravessou o Vantaás-Eás, mas foi para o norte (geografia não era o forte dele). Até se dar conta de seu erro já estava quase na terra dos asnarlahals. Voltou e encontrou os aroeres do norte maztena, que o encaminharam à Handaf. Sendo tratado de maneira arrogante por líderes maztenas, Aduneius começou a perder a paciência com aquela gente. Demasiadamente ansioso (devido aos assuntos relacionados à Pedra), Handaf também o tratou com rudeza, e Aduneius, no seu orgulho, respondeu rispidamente olhando para Handaf. Ao ser advertido por um guarda maztena a não olhar mais para o Grande Líder, Aduneius o olhou novamente e continuou fitando o potentado. Não muito depois disso, arrasado por estar longe de casa, cansado e com ódio, à caminho da detenção, seus olhos lacrimejantes encontraram os de Meirol.
Quando terminou de falar, notou que todos os maztenas estavam cabisbaixos, como se estivessem envergonhados. O governante manva estava pra lá de satisfeito com toda aquela história que o entreteve, enquanto Meirol queria livrar-se dele, mas viu que Aduneius estava no caminho certo ao tentar ganhar a aprovação deste.
O governante manva, já embriagado, perguntou aos maztenas para onde iam. Um silêncio tomou conta de todos ao ouvirem a pergunta traduzida.
“Estamos a caminho do oeste” Foi a resposta.
“Ao oeste?”  A resposta intrigou o manva, que sem suas faculdades mentais normalizada teve dificuldade em fazer qualquer associação.
“O oeste é um lugar perigoso …não confio nesses dole nem nesses mundii, e depois deles os maras e os corohires mostram-se extremamente selvagens. Não aproximem-se muito das margens do Grande Rio, onde a concentração de vilas é alta. Como desejo que vós vos mantenhais vivos, ofereço uma pequena guarda, se me contares o segredo de sua vitória naquele jogo de pedras.” – Disse o agora flatulento manva.
“Aceite Aduneius, pois agora teremos que interceptar um dole talvez em terra dole-mundii. Precisaremos de mais força, maior da que possuímos agora.”
Ao ser aceita a proposta, o manva perguntou quantos guardas deveriam acompanhá-los.
“O número de tuas esposas, com o número dobrado a cada uma delas, e me darás um pequeno exército, pois sei que potentados manvas possuem muitas delas.” Disse Aduneius
O manva riu: “Só tenho 12 esposas meu amigo, e aceito esses termos”
Feitas as contas, percebeu-se que seria um guerreiro para uma esposa, dois para a segunda, 4 para terceira, 8 para a quarta, 16 para a quinta, assim sucessivamente, de modo que terminou em  2048 guardas para a última esposa.
O governante ficou em apuros. “Isso é toda a guarda de Cadmon. Como podem 12 esposas render-lhe tanto?” Ao mesmo desesperado e admirado pela sagacidade de seu visitante, o governante manva viu-se na mesma situação que o Grande Líder eromê. Havia dado sua palavra diante de muitos, e não desejava vê-la sem valor.
“Para que sejamos razoáveis, que acha de 50 homens?”
Meirol falou baixo com Ninfa e a um aceno positivo de Meirol, Aduneius aceitou a proposta: “É o suficiente para guardar-nos”, disse. Na verdade, era o suficiente para interceptar o dole com a pedra.
Curiosamente, como o assunto desviara-se para o problema do número de guardas, ninguém lembrou-se mais do jogo de pedras, e a curiosidade do manva bêbado não foi saciada.
No caminho foram barrados algumas vezes por guardas do Grande Líder manva do sul e regionais, mas ao verem o salvo-conduto do governante manva de Cadmon e a guarda de 50 homens com eles, sempre podiam seguir seu caminho.
E lá se foram os maztenas, o homem de libros e o levinote, na sua busca ao dole, devidamente protegidos.

 11. Meirol logra a Pedra Sácer

 “Tudo está muito calmo por aqui, os mundii e os dole são numerosos e suas vilas costumam  fervilhar de gente”, disse Ninfa, ao perceber a falta da agitação freqüentemente narrada por seus amigos mercadores e percebida por ele mesmo nas suas viagens comerciais de muitos anos atrás.
Estavam penetrando na terra dole-mundii com uma guarda manva e ninguém os fazia parar. Muitas pessoas ao vê-los inclusive se trancavam em seus casebres ou corriam sabe-se lá para onde!
“Meirol, algo está errado” Reafirmou Ninfa!
“A guerra começou”, disse Servensaus. “Aqui está vazio porque o Grande Líder dole-mundii organizou uma expedição aos maztenas. Sem dúvida ele sabe do sumiço da Pedra Sácer”
Meirol afastou-se do grupo. Olhando para os céus e seu azul límpido, sentiu uma grande angústia e falou baixinho, como se alguém morasse lá em cima e pudesse ouvi-lo. Uma lágrima caiu-lhe com velocidade, deixando seu rastro molhado na face até alcançar o pescoço. Pensou na esposa amada, e um aperto no peito insuportável fê-lo prostrar-se.
“Se a guerra já começou o mal já está em andamento, mas ainda há esperança! Podemos interromper a guerra se ainda obtermos a Pedra”
“Para onde iremos agora?” Perguntou Caldiens.
“Para o templo principal de Onarai” disse Ninfa. “Lá devemos buscar a estrada norte, que é de onde virá o dole com a Pedra”

O Grande Líder dole-mundii teve de regressar de sua luta nas terras maztenas. Recebeu notícias de ataques dos faachitas, que habitam as terras ao norte dos dole-mundii, até a margem do rio Avalen-Tiste. Um homem dole pôs fogo em entulhos perto de uma floresta num dia de muito vento, e o fogo espalhou-se de tal forma que ardeu toda a região. Agora faachitas acham que se trata de fogo dole criminoso e estão atacando os dole-mundii que ficaram indefesos.
Caruanã voltou com uma enorme força militar, mas mesmo assim ainda deixou sob o comando competente de seu irmão mais novo, Abuani, as forças de invasão aos maztenas. Trouxe consigo muitos mundii, pois tinha medo dos faachitas e os doles não tinham a mesma bravura na batalha. E Abuani, como seu irmão Caruari, é homem valente e estrategista militar competente, soube melhor do que Caruanã o que fazer. Avançando impiedosamente sobre solo maztena, fê-los recuar em muitas frentes de batalha. Mas os maztenas não recuavam com facilidade … e com suas táticas de guerrilha e conhecimento da região, fizeram muitas emboscadas aos dole-mundii.
Ao fim do dia, muitos lanceiros haviam caído e os arqueiros não podiam ficar descobertos. Seguindo o conselho de Bedzar, Handaf recuou o que restou da vanguarda e os reagrupou com o grupo da retaguarda. As batalhas reiniciaram e Handaf sempre ia recuando gradativamente, e vidas, tantos dos maztenas como dos dole-mundii, iam se perdendo no ardor da guerra. Rauquem fora ferido gravemente ao procurar resgatar aroeres que caíram numa emboscada. Delor, um dos chefes de exército, tombou junto com um grupo de homens valentes que viram Handaf em apuros e foram em seu auxílio. Sem tal intervenção Handaf com certeza estaria morto. Quanto a Delor, era filho de dunos, a tribo ao sul dos maztenas, mas decidiu casar-se com uma mulher da vila principal maztena e jurou lealdade à Handaf.
A batalha continuava desesperadora e Handaf ordenou o deslocamento de todo inapto para a batalha para mais ao sul. Multidões de mulheres, idosos e crianças tiveram de abandonar suas modestas moradas rapidamente. Com sua incapacidade de manter posições e seus recuos forçados, os maztenas logo estavam voltando para as terras da vila principal. Ali a luta seria mais feroz, porque os maztenas não pretendiam entregar aquele lugar aos dole-mundii. Os dole-mundii recuaram um pouco, aparentemente para se reagruparem e organizarem-se novamente. Abuani apreciou toda a bravura maztena, e considerou que tanto seus homens como os inimigos mereciam um descanso. Conhecendo Handaf, Abuani foi em pessoa perguntar sobre seu irmão Caruari. Num gesto de honradez, Handaf o respeitou como mensageiro e ambos sentaram-se para negociar a libertação de Caruari. Como maztenas e doles cercavam os dois, Abuani respeitou os costumes maztenas por estar em terras maztenas e abaixou-se curvando-se perante seu inimigo, e tratou de não olhar para Handaf.
“Caruari sai da detenção se cancelares a guerra.”
“Sabes que a guerra não é decisão minha, é descuido teu e decisão de meu irmão. Mas mesmo que ele decidisse não atacar-te, os mundii fariam isso por si só. Eles são desorganizados, mas numerosos. Não podemos correr o risco de desagradá-los. Se libertares meu irmão, pouparei de sofrimento tu e tua família contigo, ao arrasar tua força militar.”
“Teu irmão ofendeu os costumes maztenas, e não pode ser simplesmente libertado, a menos que eu tenha um bom motivo para apresentar aos meus comandados. E vantagem pessoal não é esse motivo. Não o libertarei.”
“Mas eu o libertarei, e te farei cativo no lugar dele” – disse o dole, levantando-se furiosamente e dando as costas para Handaf.
Apesar da aspereza das palavras, Abuani considerava a Handaf um homem respeitável. Quisera que seu próprio irmão, o Grande Líder dole-mundii Caruanã, tivesse a mesma decência do grande Líder maztena.

“O templo de Onarai” Disse Meirol ao avistar o tão esperado templo.
“Não ‘o templo’, mas sim ‘o principal deles’ - corrigiu Ninfa. “Há muitos outros espalhados por aí.
O templo era feito de Pedra, mas era cercado por madeira de cedro, belas e vigorosas toras. Na entrada havia um portão voltado para o sul e duas colunas com totens de face atroz. Na empena haviam esculpidos rostos severos, alegres e tristes. Um deles era o do espírito que chamavam Númaior, um dos principais entre os deuses mundii; uma outra face, uma humana, era a do profeta Merindóremi, das terras do oeste, de onde vieram os antepassados mundii. O trabalho não era bom, não era belamente entalhado. O clima estava frio e parecia que uma tempestade se aproximava. Como o céu enegrecia-se a partir do norte, dava a impressão que o negrume partia do templo. Raios lá atrás deram um aspecto sombrio ao lugar. Não era característico dali, mas aos maztenas parecia que era. Havia neblina baixa e guardas estavam postados no portão do templo.
O séquito de Meirol afastou-se do templo e buscaram a estrada norte.
“Se estivermos com sorte, ainda interceptaremos os doles que estão com a Pedra” Afirmou Ninfa.
Distanciaram-se do templo pela estrada norte o suficiente para manterem-se longe da guarda templária e aguardaram a vinda da Pedra Sácer com o dole. Foram, porém, vistos pelos defensores do templo, que entraram em conselho sobre o que fazer com aquele enorme grupo de mais 50 pessoas.
A espera não foi cômoda, tamanho o número de mosquitos e similares no lugar, mas foi recompensada: Lá adiante apareceu um grupo de pessoas, vindo pela estrada Norte.
“O grupo que comprou o amuleto do ancianato de Assai” Disse Ninfa, quase não se contendo de expectativa de ver o desfecho dessa situação. Ele desejava muito poder reparar o problema que causou desintencionalmente ao levar em sua caravana a Pedra Sácer, algo que já havia custado centenas de vidas na batalha que acontecia naquele momento.
Esconderam-se e prepararam uma emboscada sob o comando de Quin-Néser. No meio daquela espera Alaicha encontrou cogumelos. Ofereceu-os a Esmálforas e Quénsel, dizendo parecer muito bom, mas ele mesmo não comera, pois disso se proveu pela vida inteira. Como ele cultivava cogumelos, ambos acreditaram que era bom e comeram com prazer.
Na hora exata em que os doles passavam pelo local, jamais imaginariam que tão perto do templo, uma área sempre tão protegida, seriam atacados por manvas e maztenas. Poderiam ter prestados atenção aos sinais: As vilas por onde passaram estavam praticamente desprotegidas, indício de que os guerreiros dole-mundii estavam em guerra longe daquelas terras.
Foi grande a sua surpresa quando o dole viu-se cercado por todos aqueles homens, seus próprios guardas rendidos pelos manvas e seu principal servo, que fez um movimento brusco, ser pregado pelas mangas da túnica em um tronco de árvore por punhais lançados à distancia. Rendido e sem intenção de perder a vida, entregou-se.
“Há algo com você que precisamos” – Disse Meirol
O dole, homem de boa cultura, fluente na língua comum, na manva e na maztena, ia negar que tinha consigo algo importante, mas viu Ninfa entre a multidão.
“Deve estar engana ... Olá, acho que nos conhecemos levinote. Então você vende objetos e depois os rouba para vendê-los de novo?”
Ninfa ofendeu-se.
“Não sou este tipo de comerciante, estou aqui porque participei de algo que não desejava e quero auxiliar a pôr as coisas no lugar. E quero que saibas…”
Ninfa fora interrompido por Servensaus, que assustado tentava ajudar Esmálforas, que lacrimejava e suava muito, reclamando de forte cólica estomacal e tontura. Quénsel, assustado, também estava lacrimejando muito. Caldiens apontou para um outro cogumelo, do mesmo tipo e alertou aos demais que vira os dois comendo aquilo.
“Um chapéu de cobra … eles comeram um chapéu de cobra … vão morrer” Disse Aduneius.
O dole disse aos seus servos algo que Meirol não entendeu, e quatro deles deixaram o grupo. Perplexo, Meirol não quis evitar que se fossem. Logo voltaram com algumas espécies de tâmaras, dando-as aos dois maztenas intoxicados. Tal fruta tinha um forte efeito laxante, e praticamente limpou o organismo dos dois homens.
Dole e maztena, trabalhando lado a lado para salvar os dois …
Meirol quis ser mais gentil com o homem que mesmo sendo considerado inimigo salvou os dois carregadores.
“Teriam morrido sem a limpeza estomacal” Disse o dole.
Aduneius desejou levar uma muda daquela planta para Libros, mas nem mesmo sabia se veria aquele reino novamente.
“Que graça te designaram ao nascer?”
“Noseanã, chamado de O Multilíngüe, por meu senhor, o Grande Líder Dole-mundii”
A menção desse nome fez Meirol lembrar de novo da pedra.
“Noseanã, eis que estás em número muito menor que eu, e se medíssemos forças tu não prevalecerias de forma alguma. Por favor, permita que eu te faça a gentileza de ordenar que a guarda manva que me acompanha abaixe suas armas. Prometa que não atentarás contra mim, pois não desejo apontar armas para aquele a quem sinto gratidão.”
“Ainda estás em solo dole-mundii. Não estou em muita desvantagem, mas considerando minha posição atual, aceito seus termos.”
“Diga-me dole, por que os homens daqui parecem tão assustados? Passei por várias vilas, que desprovidas de guarnição, evidenciava medo”
“Ao norte um homem, na sua tolice, pôs fogo em algo que desejava descartar. As chamas foram levadas pelo vento para lá e para cá, até atingirem uma floresta que os faachitas consideram seu território. Consideraram que o incêndio era criminoso e decidiram atacar. Como não havia, segundo relatos, forte resposta do nosso lado, pode-se concluir que Caruanã está em campanha contra os maztenas.”
Meirol voltou sua atenção à Pedra Sácer.
“Deixe-me ver … a Pedra.”
O clima voltou a ficar tenso …contra a vontade, voltando a olhar para aquela multidão com o maztena e fixando o olho naquele grandalhão que era Caldiens e lembrando-se da habilidade com punhais exibida por Quin-Néser, o dole permitiu que o amuleto fosse retirado de sua bolsa.
Meirol olhou espantado para aquele objeto quase sem graça, uma pedra num formato triangular, com uma inscrição.
“O que é?” Perguntou Meirol, apontando para a inscrição
“Segundo meu amigo Ashnaquir, trata-se do nome do deus mundii Onarai. Ashnaquir é um Onaraitan, um dos sacerdotes de onarai. Um tan é um “escolhido para um trabalho especial”, assim um Onaraitan é um  escolhido para trabalhar para Onarai. Na língua comum, Onaraitan é traduzida por Sacerdote.”
Servensaus adiantou-se e foi logo perguntando?
“Sabes porque muitos a chamam de Pedra Sácer?”
“Os maztenas chamam assim, para os mundii ela sempre foi o amuleto do Ancianato”
Outro onaraitan, ou sacerdote, cochichou algo aos ouvidos do dole, e este falou:
“Que fareis com o amuleto?”
“Sabes que precisamos levá-lo à nossa tribo novamente”
“Meu senhor me matará se eu permitir isso.”
“Não tens escolha, a menos que seus 8 guardas possam vencer nós todos. Queres tentar? Não quero que tentes! Não quero opor-me a ti numa luta desigual.”
O dole pensou um pouco e falou: “Meirol, és homem de discernimento e parece haver compaixão em ti. Faz 100 ciclos (anos) que os mundii não adoram Onarai decentemente, e cada ano que passa se sentem mais amaldiçoados. Dizem os relatos da época que quando a pedra era usada Onarai se abria e permitia que os Onaraitans fizessem oferendas, e que agora o deus fechou-se para eles. Dizem que o amuleto dava poderes ao templo. Sinto-me curioso para ver se há alguma verdade nisso. Porque não leva a pedra até o templo pelo menos uma única vez, e então leva-a de volta ao teu povo? Além do mais uma forte chuva se aproxima … o templo nos abrigará!”
“Parece justo”
Todos foram ao templo. Lá Meirol não vira mais a guarda no portão, e isso não o tranqüilizou. Todos entraram e a Pedra Sácer continuava na mão de Meirol. Andaram por um labirinto de pedras e logo estavam numa câmara fria, com uma grande parede cheia de caracteres estranhos.
“Foi aqui que eles se refugiaram” – pensou Meirol, ao lembrar da história contada por Handaf, da guerra ocorrida há cem anos e dos maztenas que recuaram e se protegeram ali.
“Shpatan cunsil um onaraitan” Leu o sacerdote apontando para um texto.
“A permissão é dada aos sacerdotes” traduziu Nozeanã, o dole. “Dê Meirol, o amuleto ao sacerdote.”
Agora quem hesitou foi Meirol, mas a curiosidade foi superior. Entregou a Pedra ao sacerdote e quando este colocou-a no lugar, um dispositivo foi acionado, como se ela fosse uma espécie de chave, e logo a parede abriu-se para o lado, como uma porta. Carcaças de animais sacrificados sobre um altar ainda podiam ser vistas.
“Então é verdade, há uma força neste lugar” – disse o dole maravilhado, não percebendo que se tratava de pura engenharia.
“Não acham curioso que um SACERdote precisem de algo que os maztenas chamam de Pedra SÁCER?. Sacerdote na língua mundii é Onaraitan. Onarai é o nome do deus mundii, mas também é parte da palavra para Sacerdote. De forma que na língua comum, parte da palavra para sacerdote é SACER. Alguém deve ter feito tal associação ao designá-la de Pedra Sácer.”
Todos olharam espantados. Fazia sentido. Os tans, eram ajudantes de templo, servos dos onaraitans. Os onaraitans (sacerdotes) eram servos de Onarai. Daí alguém falou:
“Então TAN deve significar DOTE, para completar a palavra” – Ninguém se importou com o comentário, somente um dole chamado Kuari.
Meirol, lembrando da invasão aos maztenas, apanhou rapidamente a Pedra e cheio de pressa convocou todos a saírem do lugar. Saíram todos rapidamente e o dole tentou pará-los, mas as lanças dos manvas falaram mais alto. Sabendo da morte que o aguardaria por sua falha, o dole decidiu ir com Meirol. Deixaram o lugar e andaram por vários quilômetros, até que o líder da guarda manva perguntou através de Aduneius para onde Meirol se dirigia.
“Para as terras maztenas”
“Então aqui acaba a obrigação de meu senhor de Cadmon para consigo. Nossa obrigação era de levá-lo ao leste, mas agora estás indo para o sul.”
Meirol lamentou, pois ainda estava em solo dole-mundii, agradeceu a ajuda manva e despediu-os.

Na demorada viagem de volta, Caruanã tinha pressa em castigar os intrusos faachitas, “oportunistas que esperam a tribo ficar sem defesas para atacá-la”, segundo o pensamento dele.
Para atacar os faachitas, ele teria de pegar a mesma estrada norte do templo, e por isso mesmo passou por aquele lugar. Ao aproximar-se do templo, viu um mundii da guarda templária correr em sua direção e falar da intrusão de Meirol).
Imediatamente reuniu os homens que o acompanhava, 2000 guerreiros, acrescentados da guarda do templo, e enviou-os aos faachitas e lembrou de perguntar onde estava o multilíngüe. Ouviu dos mundii sacerdotes ainda quase em transe o inteiro relato de como a Pedra Sácer entrou e saiu só templo, e da decisão de Noseanã de ir-se com eles. Irritado por tamanha traição e angustiado por ver que esse Meirol ainda estava na busca da pedra, Caruanã ordenou que 20 batedores fossem trazê-los até ele. Enquanto isso continuou ouvindo a respeito do que comentaram sobre o significado da palavra Onaraitan, e nesse momento Kuari explicou-lhe:
“Disseram que tan significa dote”
“Dote? Nosso nome tribal de outrora, que depois Jabalahal mudaria para dole. Nós somos os tans. Eu como Tan principal, devo ser o sumo-onaraitan.” Assim, num momento de êxtase, Caruanã penetrou num lugar sagrado somente permitido aos onaraitans, dentro do templo, para investigar ali algum vestígio que apoiasse sua autodesignação. Ele estava blefando, pois sabia que os doles nada tinha a ver com a adoração à Onarai, mas sempre cobiçara o cargo de sumo-onaraitan, para poder manter os mundii sob maior controle. Sua presença ali, naquele local sagrado permissível somente aos onaraitans, desencadeou uma revolta dos mundii do templo, que o entregaram à morte.
Assim morreu Caruanã, Grande Líder dos Dole-Mundii.
Quanto aos 20 que foram no encalço de Meirol, acharam-no na vila de Suanai, às margens do gigantesco Silivrens. Quando os viram, o grupo de Meirol já estava embarcando para cruzar o rio, numa embarcação obtida pelos contatos de Noseanã. Os 20 também cruzaram o rio e entraram em solo perigoso, por onde violentos achis ununaios mantinham guarda. Nessas terras os comandados de Caruanã aproximaram-se do séquito de Meirol e alvejaram com uma flecha o peito de Noseanã. Este prostrou-se de joelhos, e ainda vivo olhou para Meirol e estendeu o braço como se pedisse ajuda, e tombou. Esmálforas e Quénsel, num gesto de bravura que seus corações incitaram a cometer por seu curador, atacaram os doles e Esmálforas, mesmo tendo o braço curto, fez um profundo corte num dos homens, mas foi apunhalado por outro, nas costas. Quénsel também fora morto, e enquanto os doles vinham para matar os demais, iam tombando à medida que Quin-Néser atirava seus punhais, até acabassem, seis punhais ao todo. Caldiens, ardoroso lutador corpo-a-corpo embrenhou-se na luta com sua larga espada e fez que mais três tombassem pela força de seu braço. Os doles recuaram assustados. Nunca viram tamanha eficiência nem nas suas mais aterradoras batalhas. Já estavam em 11 contra oito e reavaliaram a situação. Como derrotar aqueles dois? Parecia impossível. Cada vez que tais lutas aconteciam, Meirol compreendia mais porque Handaf os tinha enviado junto.
“Temos que derrubar aquele grandalhão, porque o que lança projéteis parece estar sem munição.” Foi a decisão que tomaram. Assim, foram como um só corpo na direção de Caldiens, mas os demais maztenas correram para auxiliá-lo. E na luta que se seguiu Caldiens estava novamente prevalecendo, mas seus amigos não ofereciam muita ajuda, com exceção do momento em que Ninfa acertou uma pancada na cabela de um dole que pegando Caldiens de costas, o golpearia fatalmente. Mas no mesmo momento que Caldiens virou-se para agradecer-lhe, eis que Ninfa estava sendo golpeado, e Alaicha também. Ambos caíram ao solo no mesmo instante. O grito de desespero de Meirol fora alto o suficiente para que todos abaixassem as espadas por um segundo, depois tomados de ira, os maztenas devastaram os doles, até que nenhum permaneceu vivo.
Foram até os dois corpos ali jazendo ao chão, e viram que Ninfa tinha, de fato, perecido. Ninfa teria desejado mais a morte do que uma vida sem ajudar os maztenas nesse problema que ele desintencionalmente desencadeou, através de seu sócio Le-In.
Quanto a Alaicha, ainda estava vivo. Entre suas palavras ditas com dificuldade, Bafor-Nul entendeu algumas, e Alaicha pereceu. Ainda segurando a mão dele, Bafor-Nul explicou:
“Ele viera conosco a pedido de Tarastir”
“Tarastir? Alaicha era nosso inimigo?”
“Ele disse que sua missão era nos atrapalhar, não nos permitir que alcançássemos a Pedra Sácer, para que um grupo sob o comando de Tarastir a recuperasse no meio do caminho. Por isso ele ficou tão perturbado quando nosso heróico inimigo levinote (apontou para Ninfa), disse que vendera Pedra. Isso significou que os planos de Tarastir dera errado, e só aí foi que Alaicha percebeu um gigantesco problema. Provavelmente sempre achara que Tarastir tinha tudo sobre controle. Ele disse depois ‘Greiteli também’, e morreu.”
“Eu achei exagerada a insistência dele em nos sugerir que fôssemos para o oeste, quando paramos ao pé do pico Andeias.
“Será que Greiteli está com Tarastir nessa trama, justo ele que deixei para trás pra avisar Handaf? Deveria ter procurado notícias de seus feitos ao cruzarmos as terras dos asnarlahals pela segunda vez. Agora só uma coisa importa, que os mundii vejam que estamos novamente com a Pedra Sácer.”
Assim, Meirol ordenou que Caldiens e Quin-Néser, possuidores dos cavalos adejantes, cavalgassem o mais rápido que pudessem a fim de levar a pedra à Handaf.

12. De volta ao lar


A batalha contra os doles-mundii era aterrorizadora. Agora os maztenas perderam até a vila de Handaf.
Ao encontrar a casa de detenção, Abuani aumentou sua admiração por Handaf ao ver que ele não executara os prisioneiros, e libertou seu irmão, Caruari. Este, desprovido da mesma honradez que o irmão mais novo, convocou mais da metade dos comandados, todos que eram mundii e estavam mais dispostos à luta, chamou-os a si e foi no encalço de Handaf. Abuani alertou para não seguir Handaf rapidamente, mas aconselhou o irmão a bater a região antes.
Dono de grande arrogância, Caruari levou seus exércitos a uma perseguição à Handaf. Vendo que seu inimigo o perseguia, Handaf levou-o até o desfiladeiro Magaf. Ali, por cima das elevações, arqueiros e seus potentes arcadãs faziam os mortos dole-mundii ascenderem a um grande número. Mesmo assim, eram tão numerosos, que ainda haviam muitos deles, e os lanceiros postados na boca do abismo, uma passagem estreita, eram poucos, mas mantiveram através de sua formação os dole-mundii sob controle. Bedzar, homem competente em batalha, chefe da guarda da vila principal, um dos homens mais leais à Handaf, tombara aqui. Com o passar do tempo, os arqueiros lá em cima passaram a diminuir em número, alvejados por projéteis vindo de baixo. Sem os hábeis mestres do uso do arcadã, tal batalha seria impossível de vencer, mas cada arqueiro, ao morrer, tinha levado consigo muitos dole-mundii para a morte.
A situação agora era desesperadora. Caruari pedira auxílio à Abuani e este deu a volta em torno do local da batalha e ia atacar a retaguarda maztena, que estava totalmente desprotegida. Tal informação fora dada por Questal, chefe dos cavalarianos, oriunda de seus batedores. Não haviam mais muitos infantes nem mesmo para segurar o ataque na vanguarda, e muitos arqueiros haviam tombado. Agora, a desguarnecida retaguarda seria alvo de Abuani com uma tropa composta só de doles.
“Se falharmos aqui, as forças de devastação irão ao encontro de nossas esposas e nossos pequenos. Tem de haver alguma esperança.” Disse Handaf à Questal. No mesmo momento, Quin-Néser e Caldiens apontaram no leste. Sua nuvem de poeira fora vista por amigos e inimigos. Mas os inimigos é que viram antes e foram ao seu encontro. Antes mesmo de poder entregar a pedra à Handaf, Caldiens e Quin-Néser estavam sendo atacados. Caldiens segurou com forte seu braço os que pôde e mandou Quin-Néser continuar a cavalgada. Questal e alguns cavalarianos com ele foram em direção à Caldiens para o ajudá-lo, mas era demasiado tarde. Enquanto os mundii tombavam vítimas dos braços fortes dele, o próprio Caldiens era apunhalado por todos os lados. Quando viu que Quin-Néser estava a uma distância segura, parou de lutar, e já quase sem vida caiu de joelhos, olhou toda a devastação ao seu redor, viu de longe muitos maztenas tombados e seus olhos procuraram Handaf, até que ele caiu e adormeceu na morte.
Quin-Néser levou a pedra até Handaf, que solicitou uma reunião diplomática com os mundii, concedida por Caruari. Logo depois na reunião, com generais maztenas e líderes mundii, além de Handaf e Caruari, Handaf levantou uma mão com um objeto coberto por um lenço. Puxou o lenço e clamou:
“Conosco está a Pedra Sácer” e foi caminhando e clamando a mesma coisa, ao passo que um mundii a reconheceu e confirmou a posse dela. O resultado foi surpreendente: Milhares de mundii curvando-se instantaneamente. Possuído de uma ira incontrolável, Caruari correu até Handaf, para acometê-lo, mas foi barrado por maztenas, que o entregaram a morte.
Quanto à Abuani, seus doles não cederiam á posse da Pedra, mas foram interceptados por uma brilhante companhia de infantaria oriunda dos asnarlahals. Handaf não teria forças para derrotar Abuani, mas enfim os maztenas não estavam só nessa batalha que aparentemente não podiam ser vencedores. Os asnarlahals e doles tiveram uma luta ferrenha, mas os asnarlahals renderam os doles e pouparam a vida de muitos deles. Abuani, também fora poupado e à pedido de Handaf pôde voltar à sua tribo.
Logo no horizonte da vila principal vinham Meirol e seu grupo. Ele e seu crina dourada, mais Servensaus e Aduneius, e Bafor-Nul, o carregador. Ao passo que se aproximavam do aposento do corro, observavam a destruição ao seu redor.
“Está acabado, falhei ... a confiança depositada em mim provou-se vã” Clamava Meirol, chorando. Foi grande a sua surpresa quando viu distante alguns cavalarianos, e Questal com eles, aproximando-se com grande velocidade e saudando-os com grande felicidade.
“Seja bem-vindo novamente ao lar, abençoado Meirol, sejam bem-vindos os teus companheiros.”
Ao descer do cavalo Questal proseou com Meirol e contou-lhe de tudo, da resistência maztena, de como Handaf encurralou os mundii sob Caruari no desfiladeiro Magaf e suavizou a desvantagem numérica, dos asnarlahals que vieram em auxílio e enfrentaram Abuani e os doles com ele. Explicou também de como a Pedra Sácer retornou em boa hora e falou dos mundii se prostrando perante Handaf, possuidor da Pedra. Meirol explodia de satisfação, mas ela desvaneceu-se quando foi lembrado por Questal de que o norte fora devastado, assim como as terras que ele mesmo podia agora ver. Sua alegria diminuiu mais ainda ao saber que Caldiens tombara. Um enorme pesar tomou conta dele, e sentiu uma incontrolável vontade de agradecer pessoalmente à Caldiens por ser um herói de tamanha magnitude.
Horas e horas depois, e os homens importantes da tribo estavam de volta à vila principal. Handaf abraçou calorosamente aos integrantes da comitiva de Meirol dentro do avariado aposento do corro, oculto dos demais maztenas. Todos estavam ali, os sobreviventes dessa aventura por terras estranhas: Meirol, Aduneius, Servensaus, Quin-Néser, Greiteli e Bafor-Nul.
Mais tarde, uma festividade solene foi preparada para lembrar dos que tombaram na batalha, bem como do levinote Ninfa, do dole Noseanã, do valente Caldiens e dos carregadores Esmálforas, o pequeno, Alaicha e Quénsel. Quanto a Alaicha, os integrantes da comitiva decidiram-se não falar nada a seu respeito.
Mais tarde, já à noite, novamente em reunião com Handaf, Meirol e seu grupo deu mais explicações à Handaf. Falaram de Tarastir e seus planos de fazer a pedra sumir para somente poder resgatá-la. Handaf percebeu aí a manobra de seu filho: queria crescer aos olhos do pai. Sua atitude custou a vida de muitos. Meirol ainda relatara do rico asnarlahal que aliou-se a Tarastir. Ao ser indagado do nome do homem, Meirol disse que não fora revelado. Servensaus adiantou-se e disse:
“Ojina é o nome dele. Sendedcol falou esse nome sem querer nas suas muitas explicações.”
“Eu o conheço” – disse Handaf. “Aquele patife, isso será reportado ao Grande Líder Asnarlahal. Sabes porque Greiteli está constantemente cochichando com Tarastir?”
“Greiteli não sabe que sabemos, mas ele está apoiando Tarastir. Provavelmente acreditava que Tarastir não falharia no resgate da Pedra.”
Handaf ficou abismado ... seu próprio filho e um de seus principais conselheiros. “Por isso Greiteli insistira tanto em ir junto ... precisava acompanhar o andamento de tudo!”
E assim, a Pedra Sácer foi novamente recolocada na gruta de Outrora, e sua guarda foi reforçada. E Meirol pôde voltar aos aroeres do sul. A despedida de seus amigos não fora fácil, mas a saudade de sua esposa era imensa. E a terra dos maztenas começou sua recuperação de todo o mal causado.


13. Eventos posteriores

Quanto à Servensaus, foi bem recebido por Míten. Seu senhor foi enaltecido por Handaf, por ter trazido tal homem num momento de necessidade. Servensaus serviu à Handaf na vila principal, tomando o lugar de Greiteli.
Greiteli tornou-se escravo. Sua família foi reduzida à mesma condição. Esta era a paga considerada justa por sua atitude de ocupar-se com algo que não deveria.
Caldiens virou um mito com o passar do tempo. Lendas a respeito dele foram criadas, mas as histórias ficaram muito deformadas, além da realidade.
Quin-Néser pereceu em outra batalha, desta vez apoiando uma revolta contra Handaf. Sua lealdade mudara de lado com o passar dos anos.
Tarastir foi condenado à Morte. O próprio Handaf o executou. Sua guarda foi poupada da morte por sua bravura na luta contra os dole-mundii.
Bafor-Nul tornou-se mais um líder regional, assim como Míten e Greices.
Abuani tornou-se Grande Líder dos dole-mundii, no lugar de irmão. Ele decretou o maior luto já visto naquelas terras por causa de seus dois irmãos. Desse dia em diante, ele passou a respeitar e a odiar mais ainda a Handaf.
Aduneius nunca pôde retornar ao solo de Libros. De todos que partiram com ele para inspecionar essas terras, nenhum na verdade voltou. Aduneius fora atacado de uma doença que lhe acometeu. Regressou ao solo maztena e passou seus últimos dias com o governante de Cadmon, na tribo manva do sul, levando consigo um grandioso presente de Handaf, o que causou desconforto entre o governante de Cadmon e seu grande Líder manva, aliados dos manvatopias. Lá ele revelou o segredo do jogo das pedrinhas. Ele pediu audiência com o Grande Líder dos eromês na ocasião em que os maztenas foram aprisionados porque soube da existência dessa lei, nas suas perambulações. O reino de Libros faria uma segunda expedição por aquelas terras, mas dessa vez fariam navegando o rio Silivrens. Foi relacionado com essa expedição que os império sistarte, ao leste de todas essas terras, declarou guerra à Libros, destruindo o mais belo reino do continente (mais informações, veja http://grandmaster83.tripod.com/sistartes/vilzafe.html).
Igualmente recompensado como o manva de Cadmon foi Sendedcol, o asnarlahal que avisara Meirol sobre Tarastir.
Greices falecera da doença que o acometera, mas Meirol negou-se a ser o líder regional, apesar das insistências do Grande Líder. Para ele, o abraço de sua esposa Pes-Ean e sua vida simples de pescador era o melhor que a vida podia oferecer. Não queria participar das debelações dos grandes.
Uns 200 anos depois, muitas daquelas tribos uniram-se num conselho, para organizarem-se militarmente contra a ameaça sistarte. Maztenas e dole-mundii entraram nesse conselho somente 300 anos depois, quando o conselho já tinha quase 100 anos. Como aliados nesse chamado “conselho dos silvos”, os dole-mundii não mais importunaram os maztenas com sua inspeção da pedra Sácer, que continuou a existir até então. O conselho apresentou falhas e exatamente 200 anos depois de ser formado, deu lugar a um império que reunia todas essas tribos.
Maztenas e dole-mundii combateram lado a lado as forças silvas numa revolta contra o conselho. Esta era uma guerra que começou uns 60 anos depois de seu ingresso no conselho. Mais tarde, no período imperial, tanto maztenas como dole-mundii, bem como outras tribos, foram excluídos dos direitos de cidadania, por seus envolvimentos nessa luta.
Séculos mais tarde toda a civilização silva caiu numa gigantesca batalha contra os sistartes, os mesmos que os fizeram unir-se um dia, e aquelas terras foram colonizadas por sistartes, que fundaram por ali uma gigantesca cidade chamada Livren-Roar.


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Êferos Masopias
Enviado por Êferos Masopias em 08/03/2006
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Êferos Masopias
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