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Medieval Forum Club

Para M. P.


Houve uma época, há muitos anos atrás, em que o rei de um determinado reino, pessoa muito criativa e inovadora, bem como excêntrica, aparentemente preocupado com a educação de seu povo, resolveu implementar um novo sistema de envio de mensagens, uma coisa revolucionária, que ninguém nunca havia visto antes.

- Será um sistema de comunicação completamente diferente de tudo o que já foi criado, e vai se chamar "fórum"! - disse o monarca, satisfeito e bonachão. - Será um espaço amplo, onde as pessoas poderão escrever mensagens públicas, para que as outras leiam.

E um decreto foi baixado, criando uma lei em que uma série de artigos estabelecia os deveres e obrigações dos cidadãos do reino para com o novo espaço de comunicação.

Marceneiros foram contratados, muita madeira foi comprada, e os arquitetos reais foram incumbidos de desenvolver um projeto que acomodasse as diversas lousas previstas em um ambiente único. O resultado do trabalho dos projetistas foi a construção de uma grande galeria, onde havia uma série de lousas, dispostas em fileiras. Remessas de giz foram encomendadas, bem como apagadores.

No dia da inauguração do novo projeto, o povo foi conclamado, e o próprio rei estava lá, para verificar os resultados de sua nova invenção. Centenas de camponeses, famílias inteiras, reuniram-se em torno das fileiras de lousas, guarnecidas pela guarda real. As trombetas soaram, anunciando o arauto, que, em um alto patamar, abriu o pergaminho de regras do assim chamado Fórum Real, lendo os ditames de seu conteúdo em alta voz a todos.

Como o povaréu, receoso ante o novo recurso, não manifestasse nenhuma disposição em relação a usá-lo, o primeiro a empregar o fruto da própria criatividade foi mesmo o rei, que, diante de todos, aproximou-se de uma das lousas, pegou uma barra de giz, e escreveu em grandes letras: "sejam todos bem vindos ao Fórum Real".

- Neste local, todos poderão escrever o que pensam, e as mensagens estarão à disposição de todos que quiserem lê-las.

O povo aclamou e aplaudiu. Mas, passado o entusiasmo inicial, percebendo que, após alguns dias, ninguém do populacho ainda havia se prontificado a escrever, o rei resolveu ordenar que a guarda real fosse retirada de suas posições junto do Fórum, liberando o espaço para o povo.

No dia seguinte, apareceu a primeira mensagem escrita por um camponês:
"McCarnagh ama Rita Lucrezia"

E no outro dia, debaixo da primeira mensagem, que fora a do rei, apareceu o seguinte escrito:

"As frases devem começar com letra maiúscula."

Tal frase acabou sendo removida. Seu autor foi descoberto, preso e por pouco não foi enforcado, mas, no fim das contas, um S maiúsculo foi aplicado por um mensageiro ao começo da frase escrita pelo rei.

Os dias passavam e novas mensagens iam sendo deixadas pelos súditos, preenchendo as lousas. Algumas delas, imbróglios praticamente indecifráveis, como...

"emtao ta cobinado nosencontramop vocez la preto do descapado"

... ou...

"simestavatudonoslanosalaodefestadorei"

... , ou manifestações políticas ou religiosas escritas por rebeldes de forma anônima, na calada da noite.

"Morte ao rei!"

"Queremos eleição!"

Houve quem usasse do novo meio para promover seus negócios...

"Compre lanças e espadas no Barnab's, e NÃO no Joshafa's!"

... e também quem promovesse a si mesmo.

"Se você é homem, venha me conhecer e tenha uma noite de prazer intenso ao custo de vinte xelins. - Flor da Noite"

Alguns súditos escreviam enormes mensagens, ou mensagens pequenas de LETRAS enormes, que ocupavam diversas lousas. Outros enchiam os espaços de desenhos e rabiscos sem significado. Outros ainda xingavam e escreviam frases de baixo calão. Certas pessoas apagavam o que as outras tinham escrito; outras garantiam a perenidade de suas mensagens, cravando-as na madeira com malho e cunha; outras apagavam comentários mal intencionados ou mórbidas revelações em relação a elas mesmas com machados e uma explosão de fúria que reduziam tanto a mensagem quanto as lousas a ruínas; outras ainda roubavam barras de giz e apagadores, escrevendo mensagens nas paredes das casas próximas. Havia quem comesse as barras de giz...

Passado um mês, muitos consertos de lousas e algumas invasões de residências por parte da guarda do reino, que resultaram em uma série de prisões e um ou dois enforcamentos, o rei chegou à conclusão que deveria colocar alguma espécie de vigia que tomasse conta do espaço.

Alguns dos membros mais confiáveis da guarda foram convocados e treinados para exercer essa função de vigia, ganhando um novo posto, aprendendo o básico da leitura, e passando a serem chamados de Moderadores. Não que tal promoção tivesse mudado alguma coisa na vida dos soldados escolhidos, uma vez que o soldo continuava o mesmo.

Foram colocados Moderadores armados de lanças e escudos nas entradas e saídas da galeria de lousas, bem como perambulando no interior destas. Estes soldados tinham toda a liberdade para reprimir quem quer que se excedesse ao publicar mensagens no Fórum Real, podendo conduzir os transgressores à masmorra, caso fosse necessário.

Por um tempo, a situação se acalmou, o que fez com que a quantidade de mensagens escrita decrescesse de forma dramática.

Exercendo de seu direito de ir e vir pelo Fórum Real, alguns guardas Moderadores passaram a postar mensagens eles próprios, enquanto outros impediam o acesso do povo às lousas durante seus próprios turnos de serviço, pois era muito mais fácil "não ter que controlar ninguém". Alguns dormiam em serviço, ou não se apresentavam. Outros roubavam apagadores, ou giz. Muitos visitavam a tal Flor da Noite em horário de expediente e os xelins que recebia faziam com que a cortesã florescesse também durante o dia.

E caso alguém tivesse escrito "Morte ao rei!", ou "Queremos eleição!", nunca era culpa de nenhum dos Moderadores.

Cansado de tudo e preocupado com sua minguada popularidade junto ao povo, o Rei optou por abolir o novo sistema de controle, dispensando os soldados de suas novas funções.

Em lugar deles, o monarca convocou um mago famoso, especialista em feitiços, urucubacas e maldições de toda sorte, o qual vivia recluso em uma montanha vulcânica distante do reino.

Na audiência, foi oferecida ao mago uma chance de se redimir dos diversos crimes de magia negra que ele havia cometido contra o reino e a humanidade - e também uma generosa quantia em ouro - para que, através de sua arte arcana, mantivesse o Fórum Real sob controle, impedindo abusos.

Interessado na novidade e na possibilidade de obter o perdão de suas dívidas - e principalmente na generosa quantia em ouro - o mago aceitou a proposta, e as lousas foram novamente liberadas aos súditos, desta vez contando com impressionantes novidades. Foi introduzida uma espécie de giz mágico que permitia a quem quer que escrevesse alguma mensagem ilustrá-la com imagens de incrível realismo, retiradas dos pensamentos e memórias do próprio autor, bastando que a pessoa riscasse a madeira com o giz e se concentrasse um pouco para que as ilustrações se materializassem nas lousas. Tais imagens superavam até mesmo as mais incríveis reproduções artísticas dos mestres da época, e foram aclamadas pelo povo, mesmo sendo consideradas obra do demônio pelos mais fanáticos.

Outra novidade era a possibilidade de introduzir objetos nas mensagens através de magia, endereçando-os a outras pessoas. O impressionante recurso requeria bem mais concentração do que as estampas de giz e memória, e a princípio poucas pessoas conseguiam realizar a inserção mágica com eficácia.

Havia também as mensagens que mudavam de cor conforme o tempo passava, ou as mensagens semoventes, que não paravam de se mexer, como se estivessem vivas, que caíram nas graças dos cidadãos, ambas muito mais fáceis de se utilizar.

Na área de segurança, o mago, que passou a ser conhecido como Administrador do Fórum, possuía controle irrestrito sobre o que acontecesse, podendo verificar facilmente quem havia escrito cada mensagem, além do que certas mensagens que tinham um único destinatário apareciam borradas e só poderiam ser compreendidas pela pessoa à qual estivessem destinadas.

Por um tempo, tudo correu às mil maravilhas, até que os exageros começaram a acontecer...

O primeiro problema aconteceu com as imagens, que começaram a revelar detalhes que deviam permanecer obscuros, tais como uma das passagens do rei pela alcova da Flor da Noite, ou a bela nudez da filha de um dos mais ricos senhores feudais - ali exposta pela PRÓPRIA donzela! Eram imagens de gente de bem apanhada em atitudes ilícitas, como roubos e assaltos, ou ridículas, as quais divertiam o perverso mago Administrador, que as retirava de circulação somente depois de terem sido amplamente divulgadas e comentadas pela população.

Era um que aparecia nu em pêlo, alguém caindo do cavalo, um outro tirando tatu do nariz ou urinando onde não era permitido, ou alguém flagrado comendo as barras de giz, vomitando ou tendo um ataque de diarréia.

Pior foi quando alguém conseguiu inserir uma vaca inteira dentro de uma das lousas mágicas, remetendo-a como presente para o tal McCarnagh por seu matrimônio com a bela Rita Lucrezia, dizendo tratar-se o remetente de um companheiro de longa data. Ao acessar a mensagem particular, dias após, o pobre indivíduo acabou morrendo pisoteado pelo bovídeo, que saiu correndo apavorado, escoiceando as lousas e pessoas que houvesse pelo caminho.

A gota d'água aconteceu quando o armeiro Barnab recebeu uma mensagem de autor anônimo, junto da qual fora inserido um certo pacote, que, ao ser retirado do interior da lousa mágica, explodiu, matando o armeiro e levando consigo boa parte das dependências do Fórum. Sem poder ser acusado de nada, o armeiro concorrente, Joshafa, que, segundo as más línguas, fizera um sórdido acordo com o mago Administrador - o único capaz de preparar um explosivo naquele feitio - viu seus negócios prosperarem.

Ainda hoje circulam comentários de que tal acontecimento foi o estopim que colocou término ao tão falado Fórum Real, e também à monarquia naquelas terras, pois, meses mais tarde, abandonado pelo mago traiçoeiro e por boa parte da corte, o rei acabou enlouquecendo e sendo condenado à forca em meio a uma revolta de seus súditos.

"Morte ao rei!"

"Queremos eleição!"

Mas isso é uma outra história...
Fabian Balbinot
Enviado por Fabian Balbinot em 15/03/2006
Reeditado em 16/03/2006
Código do texto: T123616
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Sobre o autor
Fabian Balbinot
Caxias do Sul - Rio Grande do Sul - Brasil, 44 anos
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Fabian Balbinot