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Texto

FÁBULA SOBRE ESCOLA

CONCURSO DE CONTOS E POESIAS "PRÊMIO CATARATAS",
DE FOZ DO IGUAÇU

10º LUGAR: UMA ESCOLA FABULOSA
AUTOR: PAULO FRANCO
CIDADE:RIBEIRÃO PIRES


UMA ESCOLA FABULOSA

CAPÍTULO I

O REI

     Era uma vez um Leão que herdou o reino da selva. Para poder governar sem dar com os burros n’água, precisava entender as necessidades dos animais. Então, disfarçado de um felino qualquer, passeou pela floresta e visitou todas as tocas, tocos, buracos e galhos. Logo percebeu que poderia cair do cavalo. A selva estava muito perigosa. A luta pela sobrevivência gerava violência. Os animais não conversavam a mesma língua. Era tanta cobra engolindo cobra que os bichos menos favorecidos hibernavam de medo. Uma floresta tão encantadora, mas que não podia ser apreciada em paz.
     De volta ao palácio o rei determinou aos conselheiros a tarefa de solucionarem o problema da ignorância dos bichos para acabar com aquela selvageria.
     A Coruja, rapidamente, apresentou uma grande idéia: o rei deveria dar escola para todos, uma escola que qualificasse cada bicho para o trabalho de encontrar alimento sem a necessidade de engolir o próximo.
     Imediatamente o Leão mandou o João de Barro arquitetar um projeto para a selva ter uma escola animal.
     Dúvidas surgiram apenas na hora de escolher um bicho que não fosse cabeça de bagre para ser o professor. Os conselheiros rapidamente olharam para a Coruja que se defendeu sem pestanejar:
     - Cada macaco no seu galho! Eu não conseguiria manter a disciplina da turma. Inteligente, domesticável e enérgico é o Cão Policial. Ele é o bicho!
     O Rei nem se lembrou que cão que muito late não morde. Chamou o indicado, acertaram os detalhes. O salário não era muito, mas afinal, ele iria apenas dar aulas.
     O cachorro, todo orgulhoso, saiu do palácio latindo forte, com a incumbência de montar a sua equipe de trabalho e preparar as lições ideais para todos os bichos.
     Agora, era só esperar tudo isto ficar pronto e os problemas da selva estariam resolvidos.

CAPÍTULO II

A ESCOLA

     O João de Barro encarregou as raposas e algumas aves de rapina para construírem a escola. Claro que problemas aconteceram. De cara escolheram uma ribanceira imprestável para a grande obra. Gastaram pouco e disseram que o terreno tinha sido caríssimo. Até o Tatu-Bola participou do esqueminha para tirar algum lucro. O João de Barro não gostou nada da história. Percebeu que tinha boi na linha, mas comeu gato por lebre achando que eram ordens do Rei.
     Na marcenaria o mar também não estava para peixes. A madeira que os Gaviões compraram era ruim. Mas as Águias falaram que era pau para toda obra. Além disso, decidiram que as carteiras deveriam ser iguais para que a produção fosse mais rápida. Mas os Pica-paus não protestaram porque a Raposa não queria ninguém fazendo bico mole. Um cupim ainda tentou alertar que o Elefante não caberia naquela mesinha e que a cadeira não agüentaria seu peso, mas o Gavião grasnou estridente para mostrar que sapo de fora não chia.
     E finalmente, apesar de tantas rapinagens, a escola ficou pronta. Bonita, apesar de não ter espaço para correr, não ter lagos, árvores, que, como todos sabem, os bichos adoram.
     Faltavam apenas os preparativos para o início das aulas.
     O Rei, sem saber que tinha montado no porco, tratou logo de fazer um grande discurso:
     - Bicharada, esta será a escola dos sonhos, e patati-patatá e patatá-patati e todos aqueles urros que as feras usam quando querem dominar a manada.

CAPÍTULO III

A CLASSE

     No primeiro dia de aula a classe estava um balaio de gatos: mugidos, urros, uivos, cacarejos, miados e o latido descontrolado do Cachorro Policial tentando conter aquela cena animal.
     Não demorou muito para a Onça beber água e o Hipopótamo quebrar uma carteira quase que sem querer. O Jabuti, desesperado para ajeitar o seu duro casco na cadeira, acabou rolando pela sala e machucando o focinho do Tamanduá, que fuçava o assoalho à procura de algum bichinho de terra. O Elefante, ofegante de calor, não sabia aonde enfiar a tromba para sugar um pouquinho de água e jogar um refrescante jato sobre si. Os felinos subiam nas carteiras, os macacos se penduravam no lustre e a Girafa, coitada, nem mesmo conseguia entrar direito na sala com o seu pescoço comprido. As hienas, bem hostis, no fundo da classe, arquitetavam traquinagens e riam o tempo todo da situação deprimente na qual o Cão se encontrava. A Pomba, toda de paz, se sentia uma barata tonta, enquanto que o Condor só conseguia pensar em se ver livre daquela aflição.
     O Professor sabia que precisava tirar um coelho da cartola. Fez cara de bravo, mordeu os mais exaltados e encheu a lousa de lição. Por algum tempo, um quase silêncio reinou entre as feras. Porém, copiando o tempo todo estavam apenas as Ovelhas e o Papagaio. Os demais,  bastante aflitos, tentavam inutilmente exercer as habilidades que não possuíam. O Pato, nem mesmo conseguia pegar no lápis. O Morcego sequer enxergava a lição. A Tartaruga, muito lenta, tentava, mas o Cão apagava a lousa ainda quando ela estava copiando o cabeçalho. O Bicho Preguiça cochilava, o Castor roía a cadeira. O Gato fazia pose de esperto e ronronava disfarçando para não ser questionado. A Avestruz escondia a cabeça debaixo da carteira, toda envergonhada por não entender a tarefa.
     Distraído em sua árdua função de escrever e apagar a lousa, o Cão Policial nem percebeu quando o Burro, revoltado por não saber fazer nada, deu um coice no Galo de Briga que saiu dando esporada no Tigre que arranhou a Cobra que picou o  Panda que saiu da classe, sem autorização, soltando lágrimas de crocodilo.
     Era hora de bater na cangalha para o Burro entender. O Policial, que havia sido treinado para atacar quando fosse preciso, olhou para a classe, babando de raiva e latiu:
     - Macaco que muito pula quer chumbo! Vou tirar dois pontos de toda a classe e ficarão sem ir ao recreio.
     A turma ficou revoltada. A bagunça aumentou. O Lobo acabou tomando uma advertência e o Papagaio foi suspenso por três dias porque falava mais do que uma matraca.
     Finalmente soou o Cuco e a aula terminou.

CAPÍTULO IV

O CACHORRO LOUCO

     Ao término do ano letivo, o resultado desastroso. O Cachorro, de tanta raiva, acabou ficando louco. Babava o tempo todo e esbravejava pela selva acusando a Coruja de amiga da onça. Afinal, ela o teria metido naquela cama de gatos.
     Os alunos também acabaram em papos-de-aranha. Quase todos foram retidos. Muitos desistiram do curso, inclusive a Tartaruga que tinha ótimo comportamento. Promovidos, apenas as Ovelhas e os Papagaios por nota e o Bicho Preguiça por freqüência, já que de tanta preguiça nem saía da escola.
     Ao saber da catástrofe, o Rei ficou uma fera. Reuniu os conselheiros e exigiu uma boa explicação, e eles, para tirarem os rabos da reta, jogaram a culpa no professor.
     O Rei até quis conversar pessoalmente com o Cão, mas a Coruja, que era uma ovelha negra, o convenceu de que não seria seguro chegar perto de um Cachorro Louco. É claro que ela não queria era entrar em uma fria, mas o Leão nem percebeu.
     Convencido de que precisava encontrar um professor melhor preparado, o Rei decretou que haveria um grande concurso na floresta. A Coruja se encarregou de divulgar a bibliografia. Os candidatos deveriam conhecer obras famosas como a Pedagogia do Bicho Oprimido, O Construtivismo na Selva, Pedagogia da Exclusão de Espécies, Avaliação da Aprendizagem Animal, A Relação Bicho/Escola, Pedagogia Diferenciada para Feras e tantas outras.
     A notícia sobre a vaga se espalhou rapidamente. Uma fila enorme se formou na frente do palácio. Muitos bichos estavam desempregados. Só não se via na fila nenhum cachorro policial. Afinal, gato escaldado tem medo de água fria. Mas até os Vira-Latas se propuseram a disputar a vaga. A maioria dos candidatos nem imaginava que o futuro professor teria que lidar com um monte de bichos com espírito de porco.
     O Leão tinha pressa. Mandou divulgar o resultado do concurso rapidamente. E para surpresa geral um outro Cachorro seria o novo professor. Só que desta vez ele era um Pastor.

CAPÍTULO V

A EQUIPE DO CÃO

     Havia uma boa explicação para o Cão Pastor ter passado no concurso do Rei. Não tinha sido apenas sorte de coelho. Ele já sabia que uma ovelha má põe um rebanho a perder. Porém, agora a cobra iria fumar. Afinal, ovelhas são dóceis, iguais e dificilmente se dispersam. Estava ciente de que diante de tantos animais diferentes, não adiantaria cacarejar e não botar ovos. Para vender o seu peixe não poderia deixar a vaca ir para o brejo.
     Sua primeira atitude foi solicitar ao Rei que contratasse mais alguns bichinhos para o auxiliarem na tarefa. Não resolveria aquela espinha de peixe sozinho. Precisava de animais bem preparados e alimentados, para que um não ficasse tentando comer o outro.
     Enquanto aguardava, o Cão Pastor resolveu procurar o Cachorro Policial. Queria ouvi-lo para não correr o risco de colocar o carro adiante dos bois.
     Distante da escola, ele já estava menos doente. Os conselheiros do Rei, inclusive, propuseram que passasse a tomar conta da biblioteca dos bichos.
     O antigo professor ficou muito contente com a visita do novo mestre, pois, afinal de contas, tinha adquirido bastante experiência com tudo o que tentou fazer para a escola funcionar. Logo de cara foi dizendo:
     - Saí de lá babando de tanto jogar pérolas aos porcos. Aquilo estava um ninho de serpentes. O prédio era inadequado e faltavam bichos cozinheiros, bichos inspetores, bichos psicólogos. E em uma classe superlotada de animais tão diferentes, se correr o bicho pega e se ficar o bicho come.
     O Cão Pastor olhou pensativo para o Cachorro Policial que agora mais parecia um vira-lata e entendeu que o buraco era mais embaixo e voltou para a escola com a incômoda impressão de que o bicho ia pegar.
     O Leão, depois de receber as informações do novo professor, percebeu que tinha caído no pulo do gato da Coruja. Irado, botou os bichos pra fora e usou toda a sua língua felina contra a sua mais antiga conselheira para que ela tirasse o cavalinho da chuva:
     - Chega de bicho intelectual com corpo mole! Você vai é botar as garras na massa. Vai fazer parte da equipe pedagógica do Cão para entender que focinho de porco não é tomada.
     O Rei, na realidade, matou dois coelhos com uma cajadada só: arrumou uma boquinha para sua fiel companheira nomeando-a para o antigo posto da Coruja. Afinal, atrás de todo Leão existe sempre uma grande Leoa.
     Na primeira reunião com sua equipe, o Cão Pastor deixou um dente de coelho que ninguém esperava, perguntando:
     - Considerando que cada bicho emite um som, que linguagem nos uniria para a construção de uma selva melhor?
     Os educadores, visivelmente, foram para casa com a pulga atrás da orelha.

CAPÍTULO VI

O TRABALHO COLETIVO


     Na reunião seguinte, tentando mostrar serviço, e ainda se sentindo um sapo de fora, a Coruja foi a primeira a erguer a asa e ulular, disfarçando, sem eficácia, a sua arrogância:
     - Desculpem a ignorância do macaco, mas a OMSS, que para aqueles que não sabem é a Organização Mundial da Saúde da Selva determina que a quantidade ideal de bichos em uma sala é de no máximo vinte.
     O Sabiá, atento, e também se sentindo um estranho no ninho, acrescentou:
     - E, além disso, precisamos de uma educação mais doce se quisermos atrair as moscas.
      A Águia parabenizou os colegas e grasnou:
     - Os bichos têm habilidades diferentes. Não podemos imaginar uma selva com todos cumprindo os mesmos papéis.
     O uivo do Lobo caiu feito uma luva sobre os dizeres da Águia:
     - Então também precisamos reformar o prédio escolar. Criar lagos para os Hipopótamos e Elefantes, salas adaptadas para bichos menores, um pátio com árvores para os Macacos e carteiras apropriadas para os animais mais sensíveis e para os mais pesados.
     A Ovelha parecia uma vaquinha de presépio. Só balançava a cabeça.
     Já o Papagaio, ouvindo e sintetizando as opiniões, arrematou:
     - É preciso falarmos a mesma língua.
     O Cão Pastor ia pegar a palavra quando a Coruja alertou a todos para um problema muito sério:
     - Não quero que pensem que estou puxando a sardinha para o meu lado, mas não podemos nos esquecer de que alguns animais necessitam de um curso noturno de qualidade: o Morcego, o Pirilampo, o Vaga-lume e, é claro, as Corujas.
     - Muito bem lembrado, disse o Cão, enquanto fazia as suas anotações. E habilidoso, com toda a sua cara de pastor, completou:
     - Parabéns, bicharada! Vocês encontraram a resposta. A linguagem que pode nos unir para a construção de uma selva melhor é o respeito à natureza. E este respeito às diferenças entre os seres e a cada pedacinho da floresta está claro um pouco na resposta de cada um. A escola é o reflexo das espécies que estão na mata.  Não podemos querer que todos virem cordeiros. Uma educação de qualidade valoriza o que cada um tem de melhor.
     A equipe se sentiu realizada. E em ambiente de felicidade o Cão encerrou a reunião afirmando que uma escola fabulosa acabava de ser inventada.

CAPÍTULO VII

UMA ESCOLA MEIO AMBIENTE

     Antes do início das aulas o Cão Pastor levou ao Rei as conclusões de sua equipe e solicitou algumas reformas na escola.
     O cavalo, que era macaco velho, organizou uma manada para fazer a grande obra. Eles trabalharam como burros de carga. Mudaram o ambiente respeitando o meio ambiente. E como desta vez o Leão não queria comer gato por lebre, mandou aumentar o tamanho do terreno. Agora havia nascentes, cascatas e lagos por todo lado. Afinal, o Elefante adorava dar nó em pingo d’água e o Sapo Cururu gostava de ficar encolhido na beira do rio. Os bichos iriam o tempo todo aprender com a mãe natureza. Era natural, portanto, que o Rei mandasse plantar muitas árvores. Plantou até uma palmeira real. Assim, o Macaco, quando estivesse com a Macaca, poderia sair traquinando pelos galhos, sem quebrar, é claro, o galho de ninguém, porque até ninhos e casinhas de João de Barro existiam por ali. Aliás, a intenção da equipe do Cão era mesmo que nenhum bicho se sentisse um peixinho fora d’água.
    As salas de aula foram reformadas. Cada uma era de um jeito. Tinha até sala redonda e em formato de coração, que era para nenhum animal se esconder lá no fundão. E o quadro negro não era mais um retângulo. Até porque, não haveria mais aulas sobre abobrinhas. Quando o tema fosse frutas, elas estariam lá, para serem tocadas, chupadas, mordidas, lambidas até que todos os bichos ficassem bem lambuzados.
     Havia carteiras grandes para bichos grandes, pequenas para os pequenos e se o animal tinha alguma deficiência, como o Canguru Perneta, era construída uma carteira bem especial. Assim, nenhum bicho ficaria pensando que precisava dar o passo maior do que a perna.
     E para que os professores não se sentissem num mato sem cachorro, prepararam uma sala de descanso com o teto pintado de céu e com som clássico de sossego orquestrado pelo canto das aves mais afinadas da floresta.
    Quando tudo estava pronto, os cavalos ficaram emocionados. E como não eram bestas queriam que os seus potrancos estudassem em uma escola feliz.

CAPÍTULO VIII

A SALA DAS LETRAS

      Os alunos iam chegando e se encantando com a fabulosa escola. O professor recebia os bichos e apresentava o novo espaço:
     - Esta é a sala das letras. Sabemos que a natureza nos presenteou com inúmeras linguagens. E são tantas, que às vezes, não nos entendemos. O que é importante para um, vez ou outra, ao outro não convém. Afinal, nos alimentamos, brincamos e amamos de diferentes formas. Os nossos lares também não são iguais. Inclusive, nem mesmo os nossos pais. O Jacaré, por exemplo, aprendeu desde pequeno que se ficar parado vira bolsa, mas adora tanto ficar ao sol que não suporta parar na classe. E é natural. Assim como não podemos culpar a Onça por querer pegar os coleguinhas. Às vezes, é perigoso, alguém pode sair machucado. Mas faz parte do seu crescimento. Não está necessariamente fora da lei. O único problema é que a natureza só nos respeitará quando respeitarmos o espaço, o sentimento e a fome do próximo. Como se fôssemos o próprio próximo.
     E neste instante, a Cigarra, que queria exercitar canto, perguntou sobre o horário do recreio. Mas o professor percebeu que o maravilhoso é que já havia bicho rascunhando sentimentos para o texto de sabedoria que fariam em breve.

CAPÍTULO IX

A SALA PRÁTICA

     Na sala prática tudo era prático. Os bichos exercitavam suas habilidades naturais. O Gato melhorava o seu pulo. O Pato desenvolvia mergulho enquanto trocava experiências com o Peixe. O Galo aprendia a cuidar do galinheiro para poder um dia, quem sabe, realmente cantar de galo. Alguns produziam coisas, como o Bicho-da-Seda e a Abelha. Em campo aberto, os coelhos e os felinos disputavam provas de velocidade. O Veado até salto triplo dava. O Macaco se sentia o rei com seus malabarismos pelos galhos e cipós. O Mico-Leão-Dourado, às vezes, desaparecia pela selva, distraído de felicidade. Era difícil encontrá-lo. Os inspetores tinham que cuidar para que ele não sumisse. O Lobo só jogava em coletivo. As alcatéias aperfeiçoavam o sentimento de conjunto enquanto que o Porco-Espinho, isolado, preparava-se para o tiro ao alvo. Dentre os mais amadores, tinha o Gato que só brincava de pega-pega com o Rato, o Preguiça que exercitava paciência, e o Peru que parecia um pavão, brincando de passarela, para um dia, quem sabe, fazer desfile de moda.
     De quando em quando, a escola da natureza marcava demonstrações aos pais, que bem corujas, cuidavam para que seus pimpolhos fizessem o melhor.
    O Macaco, além das macaquices, se desenvolvia a olhos vistos na arte de encontrar e colher bananas. Começou a repartir o resultado do seu trabalho com aqueles que não tinham a sua agilidade. O Jabuti ficou muito grato e aprendeu a lição. Dividiu um cantinho do seu casco com o Grilo, que apesar de muito falante, no aconchego do novo lar, cochilou.
     Enquanto isso, o Cão Pastor, como um leão de chácara, cuidava para que os alunos não se ferissem no exercício de praticarem a vida. A Aranha, aliás, sempre em posição arriscada, tecia a sua teia subindo pelas paredes e galhos.
     Era certo que até as Ostras já fabricavam pérolas naquela escola de sobrevivência. Mesmo assim as Formigas foram convidadas para uma palestra porque eram exemplos de animais bem sucedidos.
     No dia marcado, elas vieram em correição. O objetivo era ensinar, na prática, que uma andorinha só, não faz verão. As Andorinhas observavam as palestrantes, buscando ampliar os conhecimentos que já possuíam. E carregando uma folha com peso várias vezes superior ao próprio corpo, uma Formiga, para exemplificar a vida em sociedade, explicou:
     - A força se multiplica a partir da nossa vontade e da nossa união. É difícil conseguirmos o que não sabemos se de fato queremos.
     Ao término da palestra, a Anta, com toda a sua dificuldade de aprendizagem, surpreendeu a todos com uma pergunta tão importante, que até o Cão Pastor ficou pensativo:
     - Mas se é tão nobre essa cooperação, por que as formigas têm rainha e operárias e por que viraram notícia por não ajudarem a Cigarra?
     E o Boi, já meio de chifre virado, continuou:
     - É! Isso parece conversa mole para boi dormir. Essa história de cooperação é muito boa quando é com o couro do outro.
     O Gato, bem felino, observava cauteloso.
     Emocionado, antes de levar a turma para a sala da emoção, o professor meditava sobre tudo o que tinha aprendido, muito mais do que ensinado. Descobriu, inclusive, que a igualdade, a liberdade e a fraternidade, só seriam possíveis quando a fera de cada um se desarmasse.

CAPÍTULO X

A SALA DA EMOÇÃO

     Um imenso palco enfeitava o centro da sala da emoção. O professor explicava que ali um bicho iria representar o papel do outro. Sem conseguir disfarçar, o Rato, com olhar matreiro para o Gato, chiou:
     - Esta brincadeira me parece saudável!
     O Gato não comentou. Até porque, olhava para o Rouxinol, contracenando um semblante dramático que desafinou o pássaro.
     Os animais não sabiam, ao certo, se estavam entendendo plenamente as explicações, mas a maioria se maravilhava com a paz que o ambiente irradiava. A pomba, que já tinha um texto quase pronto, transformava-o em roteiro teatral. O título acabara de ocorrer-lhe: “Paz na selva aos bichos de boa vontade”. O Vaga-Lume se prontificou a cuidar da iluminação do espetáculo. Algumas aves e a Cigarra comporiam a trilha sonora. As Borboletas cuidariam do cenário. O Panda, do figurino. O Grilo criaria um poema de abertura. O dia foi curto para tanta criação. A Coruja e o Morcego acabaram tendo que trabalhar durante toda a noite.
     A peça começava com o Anu passeando sobre os Bois e os Cavalos, cumprindo o seu papel de retirar Carrapatos. No cenário havia orquídeas enraizadas em árvores frondosas. Tinha o Macaco que comia frutas sobre o rio e alimentava os peixes. Um roedor esquecido que enterrava alimentos e era avisado pelos pássaros sobre como encontrar o seu tesouro.
     E de repente, o Condor surpreendeu a todos com uma homenagem ao professor.
     O Cão chorou emocionado. Não esperava. E os aplausos da floresta ecoaram como o som de um Deus que os animais não conheciam.
     A escola estava fabulosa. Os bichos, encantados. O próximo já não representava uma fera.
     Sabendo dos bons resultados apresentados pela escola, a Secretaria de Educação da Selva ficou preocupada. Os bois já não pareciam gado. Isto, no futuro, poderia representar alguns riscos para o reino. Rapidamente mandaram um alerta ao Rei:
     “Majestade, se não quiser ficar com o rabo no meio das pernas, coloque as barbas de molho! Tem bicho ficando esperto pra cachorro!”.
     O Rei ficou virado no siri baiano e mandou a Leoa, que era uma raposa, preparar uma medida provisória para desarmar aquela arapuca.

CAPÍTULO XI

A ESCOLA PRODUTIVA

     A escola estava parecendo um conto de fadas, mas lá fora ainda era uma selva. Os professores sabiam que existia lobo comendo lobo. Cada animal estava ficando cobra no que fazia. Mas a escola não poderia continuar produzindo apenas conhecimentos. Já tinha bicho ficando uma jararaca porque a prática não estava sendo valorizada, como bem observou a Coruja:
     - A Macaca, só para exemplificar, apesar de todas as suas habilidades escolares, ainda não sabe nem mesmo pentear macaco.
     E o Cão Pastor arrematou:
     - Lá fora tem bicho abandonado, bicho passando fome, tem bicho no esgoto. Tem bicho vivendo em goiaba e até bicho-do-pé. Tem outro virando bicho-grilo por decepção. Tem bicho em extinção. E bicho revoltado virando bicho-papão.
     E a Águia, que não tinha titica de galinha na cabeça, fez uma proposta:
     - Vamos banir o chupim que existe em nós. Um bicho não pode continuar sendo alimento do outro. Enquanto formos presas e predadores não haverá paz na selva.
     O Urubu, sempre muito prestativo, foi o primeiro a se prontificar a algumas atividades sociais.O Rei mandou construir depósitos para que as frutas colhidas pelos alunos fossem armazenadas para serem negociadas na floresta. O rendimento era administrado pela Associação dos Pais da Mata e usado em benefício da própria escola. Obviamente o Chupim foi o primeiro a pedir ajuda. Mas tinha critérios sérios para a utilização do bem comum. Pintinhos órfãos, ninhos abandonados, eram visitados e auxiliados rapidamente. Até mesmo as formigas operárias ameaçaram parar a sua produção se a rainha não autorizasse que a parte excedente da colheita fosse doada para os bichos carentes.
     Mas o Leão, que via tudo como um porco, tinha unhas de gavião e coração de escorpião, comemorava apenas que agora gastava menos para manter a escola. E a Leoa, sempre uma víbora, propunha ao Rei que tirasse a responsabilidade do reinado e jogasse para a comunidade da selva o dever de gerenciar a educação. Nos discursos, bem felino, o Leão urrava:
     - A nova Lei de Domação dos Bichos propõe a autonomia da educação dos animais. É hora dos amigos da floresta assumirem o compromisso sobre a escola dos seus filhotes. O reinado não pode continuar um elefante. Cada um cumprindo a sua parte poderemos investir mais na saúde e na segurança de todos.
   E tinha até Toupeira que acreditava. Tinha bicho que era uma Mula e ainda aplaudia feito Foca.

CAPÍTULO XII

O PODER

     E como a qualidade da escola era imensa, os bichos ficavam cada vez mais feras. O Papagaio já falava com mais segurança. Quase nem usava palavrão. O Tigre, que não era uma zebra, fazia reuniões com o Lince e com o Leopardo, para inventarem um outro tipo de governo para a floresta. Por que apenas o Leão se dava ao luxo de ser o rei? Já o Gato, bem matreiro, convenceu a Jaguatirica de que era perfeitamente possível haver uma eleição para que o poder não ficasse sempre nas garras do mesmo. E com o tempo ele já dizia abertamente que possuía o pulo do gato. E aquilo virou uma briga de Gato e Rato. O roedor também organizou o seu palanque e acusou o Gato de tentar comer tudo o que era peixe pequeno. O Gato reagiu e o chamou de ratazana. Espalhou faixas e cartazes denegrindo a imagem do adversário acusando-o de Rato de esgoto. E o Rato, coitado, que não tinha um gato pra puxar pelo rabo, fugindo de ratoeiras, desistiu da campanha.
     Com o grupo do Tigre foi tudo mais simples. Eles já tinham muitas coisas em comum. O Leopardo colocou que o professor seria um ótimo candidato. Tinha boa formação e influências na corte. Mas como a natureza não dá asa a cobra, o que se vai fazer? Quem não tem cão, caça com Gato. E trepado em uma grande tora, excitava a bicharada:
     - Felinos unidos, jamais serão vencidos!
     Mas tudo isto, o Leopardo só fazia porque já tinha aceitado a proposta de ser vice-rei na chapa do Gato.
     O professor não sabia que era usado nos discursos e nos panfletos da campanha. Diziam que era inaceitável o salário que o Rei pagava para os educadores. Prometiam que, se eleitos, mudariam esta situação. Reduziriam a quantidade de aulas para que nunca mais o professor enraivecesse por levar uma vida de cachorro.
     Ao saber, o Cão Pastor nem abanou o rabo. Era macaco velho e não metia a mão em cumbuca.
     O Gato percebeu que o professor não tinha cabeça de camarão e também dava os seus pulos.
     Não demorou muito para que a Coruja, desesperada para recuperar o seu antigo posto de conselheira, procurasse o Rei para avisá-lo sobre as intenções do Gato. E como o Leão sabia que malandro é o gato, determinou que o felino menor fosse banido da escola. Alguns Pitbulls foram enviados para amedrontá-lo. E deu certo. O Gato percebeu que tinha arrumado chifre na cabeça de cavalo. Ele fugiu para a floresta e acabou virando um Gato do Mato.
     Quando perceberam qual era o grilo, os outros felinos, feito ratos, silenciaram e também desistiram da campanha.
     Enquanto isso, a Leoa, dizendo que o Sapo não lava o pé porque não quer e distribuindo lambidas bem felinas, sussurrava ao Rei que a escola para todos até que poderia nem ser bem para todos. Sugeriu que fosse criada uma escola separada só para leões. Os outros bichos seriam aprovados pelo pouco que sabem fazer. Afinal, um bicho parasita deve continuar parasita. As presas devem continuar presas para que o predador sobreviva.
     O Leão dormiu tendo pesadelos horríveis. Sonhou com uma selva só de leões e amanheceu com a juba encharcada de suor.  Era dia de formatura e ele não queria ser pego de calça curta.

CAPÍTULO XIII

A FORMATURA

     Os objetivos gerais da escola estavam atingidos. Sobreviver não era mais uma questão de um eliminar o outro. Já se sabia que como os pingos que formam a correnteza, a extinção de um pode gerar o extermínio do outro.
     As autoridades da selva estavam todas lá. Algumas mais dóceis, outras mais hostis. O Pingüim, com seu terninho elegante, era o mestre de cerimônia. Ele iniciou a solenidade pedindo que os formandos ocupassem os toquinhos da frente no imenso auditório florido. Infelizmente os alunos do curso noturno faltaram porque estavam muito cansados. Na hora de montar a tora de honra, o Leão franziu a testa porque o Pingüim colocou o professor para ocupar o lugar mais nobre dentre os convidados.
     O diploma era um canudo de bambu, simbólico, vazio. Eles sabiam que o saber não estava nos títulos. A verdadeira sabedoria só poderia ser comprovada com atitudes. E isto ficou bem claro no latido do mestre paraninfo:
     - Esta escola, apesar de fabulosa, é o reflexo dos nossos instintos. Não pode mudar a floresta. A Formiga quando quer se perder cria asas. Víboras e borboletas, Sanguessugas e colibris sempre demonstrarão as forças contrárias da natureza. Poucos se permitem domesticar. A poucos a tarefa de polinizar. Garras para muitos. Mas cabe a cada um a liberdade de decidir o que fazer com a fera interior.
     Nos urros do Rei, meio sem jeito e se sentindo cutucado com vara curta pelo discurso canino, ele foi curto e grosso enquanto esboçava um sorriso de lagarto:
     - Estamos construindo uma escola ideal para o ideal de cada bicho. Cada qual tem que nadar conforme pode. E isto é também uma lei da natureza! Afinal, alguém tem que ser galinha e alguém tem que mandar no galinheiro. Sempre foi assim e sempre será!
     É claro que o Leão não estava se sentindo em casa com tantos felinos por perto. Fez questão de entregar o canudo para a Toupeira e voltou para o palácio rapidamente. Nem ficou para ouvir o discurso do Castor, que de dentinhos para fora, tinha superado seus complexos e aceitado o papel de orador da turma:
     - O bicho, que embora meigo, sobreviva entre feras, amplia seus instintos, de querer também ser fera. Mas aqui, aprendemos que na selva há espaço para todos.
     Todos aplaudiram emocionados, enquanto que os Vaga-Lumes iluminavam toda a escola porque aquilo virou uma festa que entrou noite adentro. As hienas, como sempre, riam muito. Os pássaros cantavam. O Papagaio falava alto. Os bichos brincavam, felizes, como se soubessem, que apesar de tudo, a escola nunca teria fim.
     E há bicho que diga que foi visto caminhando pela floresta, um animal muito estranho, curioso e sorrateiro. Meio parecido com o Macaco. Duas pernas, sem rabo, pouco pêlo, sem garras, mas com jeito nocivo. De olhos arregalados, a Coruja viu o bizarro ser. E ele estava espiando a escola da natureza, mas não se sabe exatamente a razão.
     Só o cachorro, a olhar a lua, uivou. Como se tivesse saudades de um grande amigo. Mas, entretidos, os outros bichos nem perceberam. E a grande obra continuou.

PAULO FRANCO
PAULO FRANCO
Enviado por PAULO FRANCO em 07/12/2008
Reeditado em 14/12/2008
Código do texto: T1324021

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Sobre o autor
PAULO FRANCO
Ribeirão Pires - São Paulo - Brasil, 53 anos
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