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O Teste de Nobreza (in: Raleht, o plebeu)


(Introdução)
         Após degustar da costela assada de javali e beber seu hidromel, Yakko vestiu sua pele de urso, pegou lança e escudo e partiu de seu chalé marrom rumo a Amofot.
         Atravessou o florido vale de Ömbreorth, chegando ao bosque do Unicórnio, pelo qual facilmente atravessou seguindo a margem leste do fino rio da Fruta-Que-Caiu, até chegar às terras de Schann, pegando a estrada de Loandor, atravessando as colinas da Tonga da Mironga do Kabuletê até chegar à falésia da Brecha Molhada, quando notou que esquecera seu saco de moedas.
         Resolveu voltar por outro caminho até sua casa, só para não repetir os nomes que já citei. Contornou, assim, a encosta quente dos malamizianes - onde, nos tempos de Ühr, vivia um dragão de três caudas; passou pela caverna escura de Gahahaiz, novamente chegando ao vale de Ömbreorth, porém, pelo atalho do outono. Lembrara que precisava apenas de quatro moedas e um torrão de almíscar para completar sua missão. Guardou tudo em sua bolsa de couro, e rezou aos deuses: “Gafrat de Caucain, fazei-me não mais esquecer-me de minhas propriedades, e livrai-me dos espíritos noturnos de Nuvem-Cinza. Pelo cetro de Rez. Assim seja”. E voltou a tomar seu caminho até finalmente chegar à vila de Amofot, próxima aos bosques de Ebion. Lá, procurou pelo anão de nome Gliffwin. Indicaram que morava agora na árvore oca da rua sul. O anão esquentava um guisado de lebre quando o viajante chegou.
         - Trouxe as moedas e o almíscar. Saúdo-te com o braço de Obla-di-Obla-dá. Tens a última pintura da coelhinha elfa-selvagem de verão, versão pôster?
         - Pelos deuses! Achas que esqueci? Ei-la. Essa foi eleita a especial do ano. Repara só que pernas. Parecem as musas de Cluan, de Mber de Khuonfrid.
         Feita a troca, Yakko voltou, enlouquecido pela voluptuosa coelhinha, o jovem Yakko, seu tarado pervertido.
         Gliffwin, com essas moedas, comprou uma acha melhor. Graças a ela, resistiu às invasões do povo bárbaro do norte de Pholüan com bravura, sendo o único sobrevivente da vila. Casou-se depois com uma mulher de Lort, nas províncias de Vianff, o manso.

         Esse anão foi o mais longínquo ascendente do lorde Noblerrier que consegui alcançar, em meus estudos.
         Bem, se não fosse o Yakko, Gliffwin não teria sua acha, não resistiria aos bárbaros, e o lorde Noblerrier não teria nascido, para fazer parte dessa história.

(Alguns séculos depois...)
         Os camponeses aumentavam em número, e a nobreza era muito pequena. Outorgou Noblerrier a Prima Nocte para povoar suas terras de fidalgos. Um caso especial aconteceu com Sarah Peartreex - irmã de Raleht Peartreex, que foi casar com um vilão de confiança do lorde. Na noite do casamento, portanto, o lorde tomou Sarah e deitou-se com ela. O bravo marido desafiou, na mesma noite, o lorde para um duelo. Pela arrogância, foi morto pela guarda real naquela madrugada, sem saber que Sarah ficara grávida do lorde. A mulher chorou amargamente a morte do esposo de um dia, e quanto mais crescia em seu ventre o estupro social da nobreza, mais aumentava sua dor e tristeza. Ao nascer o menino, teve compaixão e resolveu criá-lo como se fosse de seu falecido esposo.
         Quando o lorde soube que a criança completara um ano e que era muito forte e bonita, ordenou que seus guardas a tirassem de sua mãe, porque queria que seu filho fosse duque, um dia. Os soldados tinham ordem de não machucar Sarah, pois o lorde gostava dela. No entanto, após o dia em que seu filho foi tirado de suas mãos, adoeceu de desgosto, amarrou uma corda na viga central de sua casa e se enforcou. No dia seguinte, o capataz notou sua falta na roça e foi conferir sua casa. Aterrorizado com o ocorrido, chamou em segredo o próprio lorde, o bispo Don Bedurfnis, o médico real Sir Ape Stem, o comandante Sir Gewalter e o soldado que cuidava dos camponeses dali.
         - Que faremos? – Desesperava-se o capataz. – Se todo camponês achar que deve se enforcar ficaremos sem trabalhadores! O sistema ruirá e teremos de ser nós os camponeses! Ó, tragédia, porque o suicídio contagia os desesperados!
         E antes que o histérico capataz cometesse o seu suicídio, Noblerrier acalmou a situação:
         - Não se alarmem! Faremos o seguinte: Como ninguém sabe que o menino está agora em meu castelo, diremos que ontem, Sarah Peartreex morreu de causas naturais, em nota médica a ser divulgada em praça pública por Sir Stem. E digamos que eu, como pai zeloso, acolhi meu filho, pois não o desampararia jamais. Don Bedurfnis, batize logo meu filho para que a desgraça não recaia sobre ele. Todos concordam com essa decisão?
         Não houve aversão. E a partir daquele dia se espalhou a notícia. Raleht enterrou sua irmã, e o lorde batizou seu filho de Newmann, e crescia tendo tudo de melhor. Passeava pelos jardins do castelo, cavalgava habilmente, lia bastante e aprendeu esgrima. Tornou-se como os demais filhos do lorde.
         Aconteceu que alguns camponeses, e nas tabernas da cidade, e comerciantes forasteiros e padres já aposentados começaram a comentar:
         - Se o jovem Newmann Noblerrier é filho de uma camponesa, por que ele é nobre, come, age, fala, e se veste como nobre?
         E começou a formigar a maior discussão nos centros das vilas sobre o desejo de Deus em criar os nobres já nobres e os camponeses já camponeses. Porque se não fosse assim, o que determina que os nobres continuem nobres e os trabalhadores não mudem de vida? Já havia vilão planejando construir castelo, soldados se reunindo para planejar dominar o reino, e camponeses com dor de cabeça. Raleht resolveu convocar os mais influentes dessa discussão para uma reunião em sua casa. Afinal, era de seu sobrinho que falavam e havia quem achasse Raleht um nobre perdido ou coisa assim.
         - Irmãos, não vos enganeis pensando! Não podemos questionar as leis de Deus, que estão acima de nós. Um questionamento assim trará pragas, e mais mil dias no purgatório! – Tentava encobrir o assunto - que a cada dia trazia novas instigações – certo padre barrigudo.
         - Qualquer um pode ser nobre, se criado na nobreza, e qualquer um pode ser pobre, se criado na pobreza! – Bracejava um camponês. – faz dias que me iluminei com esse pensamento. Somos a maioria, a nossa vontade deve ser feita e não a deles, que se nutrem do nosso suor! O bebê Peartreex nasceu aqui, todos o vimos, era um de nós. Crescesse aqui, carpiria, debulharia, construiria como um camponês, e ninguém negaria que era um Peartreex. Mas hoje ninguém nega que Newmann é um Noblerrier. Exijamos explicações desses ricos nobres!
         - Mas, se não fossem eles... Protegem-nos dos bárbaros e nos deram terras, e quem mandaria em nós se eles não existissem? Haveria o caos, anarquia, e de certo expiraríamos. Sempre houve o rico e o pobre, o senhor e o servo. Se nos revoltarmos, eles, por serem mais fortes, nos aniquilariam. – dizia outro camponês.
         E a reunião se estendia por dias, até chegar aos ouvidos de lorde Noblerrier.
         - Senhor, todos os dias os camponeses têm se reunido nas tabernas, nas casas e nas praças, construindo idéias, se mobilizando, se unindo, se fortalecendo! Um horror!
         O lorde correu para os seus aposentos reais, arregalava os olhos, dava voltas pelo tapete persa, franzia a testa e falava alto:
         - O rei está viajando, e convocar o conde Locke seria uma humilhação. Meu filho virou motivo de reuniões. Em breve haverá revoltas, insurreições. Esse povo é ingrato e se torna bárbaro. Convocarei meus ministros e conselheiros, os quais certamente saberão me elucidar.
         Assim, foi convocado o conselho real.

(O teste)
         Lorde Noblerrier tomou a palavra:
         - O que faremos, então, para aniquilar esses pensamentos xucros desse povo intragável?
         - Pois bem, para proteger e mascarar nossa estabilidade econômica, porque se descobrirem nosso segredo, pode ser que haja algum cérebro entre eles, e algum deles queira dividir lugar nessa nobreza...
         - Matá-los-emos, pois! O que eu disse! Vamos esmagá-los com a nossa força, de certo venceremos. Morte aos cérebros! – Esbravejava o comandante da guerra, interrompendo o bispo.
         - Continuando – voltou o bispo -, proponho o seguinte: que usemos a religião para reforçar nossos objetivos. Vamos dizer que Deus quis mesmo que o filho do lorde nascesse nobre e não plebeu! E se algum pensar que Deus pode ter querido que algum deles também nascesse nobre, e requererem alguma igualdade, diremos que se fosse assim Deus teria providenciado que morassem em castelos. Mas já que nasceram na plebe, Deus quis que fossem plebeus. Hoje será o dia do Nobre, pronto! Vamos rezar uma missa pela graça dos nobres, e eles esquecerão este assunto. Vamos desviar a atenção deles para um culto onde ninguém precise pensar. O que questionar está com o diabo!
         - Bela, belíssima idéia, bispo! Vamos explicar tudo pela religião, para que não se perceba que nosso interesse é manter o nosso conforto e dinheiro conosco e mantê-los na condição em que estão. Sua bênção, bispo. Sua bênção - agradecia o lorde.
         O médico real - que não gostou de ficar de fora - inspirou-se e propôs também uma solução:
         - A ciência pode também provar a incoerência no questionamento desses ratos. Tudo é bem explicado: o filho do lorde nasceu nobre, apesar de ser filho também de uma camponesa, porque o sangue nobre do lorde prevaleceu sobre o fraco sangue da camponesa, provando que o nobre é superior ao plebeu. Mas será que entenderão?
         Aplausos na sala de conferência.
         - Não haverá quem relute sobre tais argumentos. Convenceu-me completamente – alegrou-se o lorde.
         - Esperai um pouco, sem guerra? Sem destruição? Vamos massacrá-los! – tentava ainda o comandante Gewalter.
         - Calma, a força fica para quando as coisas começam a sair do controle. Mostremos que ainda estamos no comando – procurava concluir o conselheiro real. – Façamos um teste, sim, uma prova definitiva que elimine toda a dúvida, na linguagem em que eles entendam, até o mais humilde. Coloquemos o filho do lorde em um cavalo e o filho de um camponês em outro, e que os dois apostem uma corrida até os bosques de Ebion. O primeiro que chegar provará que seus defensores têm razão no que dizem.
         - Os bosques de Ebion... - divagou o lorde, enquanto sua mente era assaltada pela imagem de um pequeno comerciante de pinturas de elfos nuas.
         - O senhor está bem, milorde?
         - Eu? Ah, sim, claro, claro. - Respondeu um lorde ruborizado sabe-se lá pelo quê. - Bem, voltando ao plano... E se os camponeses vencerem o teste? – Cogitou.
         - Não vencerão. Assim como o céu é superior ao inferno, é certo que venceremos. Temeis? Confiai no vosso poder. Que eles têm que seja maior do que nós a não ser o número de pessoas?

         No mesmo dia, correu oficialmente pelas províncias do lorde, tanto em carta como a brado, que todos os camponeses, vilões, e demais plebeus comparecessem aos campos murados reais, para que a questão fosse esclarecida publicamente.
         No dia marcado, não houve quem faltasse ao pronunciamento do lorde. Do alto de uma sacada, aparecia ele ao povo, e perguntou:
         - Respondei, vós, compatriotas, o que concluístes?
         - Nada concluímos, senhor. Dir-nos-á? – ansiavam os oradores da plebe.
         - Confirmo que é, portanto, por isso que nós fomos escolhidos para proteger-vos da ignorância e da selvageria: para trazer organização, ordem e fartura para todos. Com a palavra, o médico real, Sir Ape Stem, que vos explicará tudo:
         - Plebeus e plebéias, a natureza de todos os seres que existem nesta terra explica o próprio ser existente. Cada um de vós é o que é desde que nasceu. O filho de vosso lorde nasceu nobre porque seu sangue é nobre, e só é assim porque é filho do lorde. Mesmo se ele crescesse entre vós certamente seria vosso líder, e montaria um reino sobre vossos suores. O sangue nobre é mais forte que o sangue plebeu, o do lorde Noblerrier prevaleceu sobre o da camponesa Peartreex.
         Houve murmúrios e testas franzidas pela platéia. Somente alguns entenderam o esclarecimento. Percebendo que o povo ainda continuava perplexo, tratou de empurrar o bispo para que pregasse a eles. E falou:
         - Leigos e leigas, tomai reverência, porque foi da vontade de Deus que Sir Newmann Noblerrier nascesse nobre. Por isso, todos estão convidados à Missa da Nobritude em ação de graças aos santos nobres. Rezai, que hoje é dia de São Newmann.
         A multidão se pôs de joelhos. Alguns deixaram cair uma lágrima pelo rosto, e até havia quem comprasse pedaços da roupa de São Newmann para benzer sua casa. Mas, ainda assim, alguns não se deram por vencidos. Já prevendo isso, o conselheiro real deu sinal ao lorde para chegar a hora do mais boçal dos boçais entender. Novamente o lorde:
         - Servos e servas, vamos à prova final! Eis aqui o meu filho...
         - Abençoe-nos, São Newmann!! – gritou uma velhinha.
         - Bem, meu filho montará em seu cavalo e competirá contra um parente camponês para confirmar que o que é nobre está acima da plebe. Como Sarah não teve mais filhos porque se enforc... digo, teve um ataque fulminante, escolhemos um de seus sobrinhos, ou seja, um dos filhos do camponês Raleht. Já que vós pedistes um esclarecimento, eu escolho o filho: Peter Peartrex, toma o teu cavalo e compete contra o teu primo!
         - Mas, senhor, Peter é vesgo! – lembrou Raleht.
         - Ora, ele é um camponês ou não? Tens preconceito contra os filhos de Deus? Discriminarás teu próprio filho? Vem, pequeno Peter, monta.
         Então, em posições, cada qual em seu cavalo, foi disparada a flecha de partida. Aquele que chegasse primeiro aos vinhedos seria o mais forte, o nobre, o vencedor da tese. Na metade do percurso, Peter avistou os vinhedos onde era o lago e mergulhou com seu cavalo nele, quase se afogando. Os olhares atônitos, agora, percorriam o jovem Noblerrier, que facilmente alcança as primeiras árvores do bosque de Ebion.
         A derrota de Peartreex foi tão humilhante e a nobreza rugia tanto que, assim, todos ficaram convencidos das verdades do lorde e seus ministros. Nunca mais houve dúvida quanto ao sistema, e os camponeses, cobertos de vergonha, evitavam sequer falar sobre o assunto.
         Esse foi conhecido como o Teste de Nobreza, que calou a plebe e aliviou os bolsos da nobreza.



Vitor Junior
Enviado por Vitor Junior em 11/04/2006
Reeditado em 25/02/2012
Código do texto: T137552
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Vitor Junior
Maringá - Paraná - Brasil, 36 anos
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