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Um fato científico

O astronauta sobrevoava um vale rochoso e árido à procura de um porto seguro para seu pouso quando viu despontar ao longe copas de árvores estrela, o que indicava sem sombra de dúvidas que havia junto àquelas árvores vida inteligente e capaz de se comunicar através de uma linguagem. Excitado, o astronauta aproximou sua flor-pão de uma estrada de terra e a manteve flutuando a alguns palmos do chão, o que aumentava sobremodo a velocidade do veículo, levantando uma nuvem de poeira as suas costas que o seguiu até um campo relvado. A planície coberta de verde o intrigou por não tê-la notado quando estava em altitude de observação. À sua frente surgiu então uma floresta de árvores-estrela e seus gigantes e robustos troncos de cinco pontas que atingiam grandes alturas e que tinham a seus pés arbustos de amoras rama azuis e amarelas que o verbonauta não hesitou em colher enquanto passava.
Chegando ao fim da floresta, o astronauta avistou um vilarejo de sobrados multicoloridos com telhados brancos que refletiam incessantemente a luz do sol, reduzindo a velocidade de seu silencioso veículo com um leve afrouxar do puxavante conectado ao rabo-de-gato e dando início a sua busca por aglomerações de rodas-vivas pelas ruas de paralelepídedos azuis. Não demorou para que a presença exótica do astronauta fosse notada pelos habitantes do vilarejo, como não demorou para que ele encontrasse uma turba exaltada em uma esquina. Horrorizados, homens e mulheres da multidão não notaram a presença do verbonauta que havia estacionado a seu lado a flor-pão procurando se inteirar do assunto daquela discussão fervorosa.
No meio daquela gente toda havia um garoto, um adolescente de cabelos negros compridos que lhe cobriam o rosto em sinal de vexame. O menino tinha sido flagrado se masturbando em um beco atrás de um muro por onde olhava através de uma abertura deixada por um tijolo uma jovem moça que dormia despreocupada em uma rede na varanda de sua casa.
– É um depravado! Um nojento! Um tarado! Onde já se viu. Não se pode mais descansar ao sopro do vento nesta cidade, maldizia uma senhora grisalha.
– Não há zelo em demasia com criaturas como esta espreitando pelas ruas e becos. Chamem os pais desse imoral, esbravejava outra. As bocas gritavam palavras em defesa da moral e dos bons costumes e as mãos davam tapas e cascudos no garoto que parecia impassível àquilo tudo. O astronauta sentiu o momento e decidiu interferir na discussão moralista.
– Ora, ora, pessoal. Não sejam assim tão cruéis com o garoto. Afinal, é fato comprovado cientificamente que a masturbação é saudável no processo de amadurecimento e manutenção fisiológica dos seres humanos. Tanto homens quanto mulheres podem e devem praticá-la sem pudores, e no caso específico dos homens há um prolongamento sensível da vida sexual em anos, com baixíssimos índices de tumores malignos na glândula prostática. Creio que o infante onanista teve razões para praticar o auto-prazer em um local inapropriado, não? O garoto meneava a cabeça em aprovação com os olhos cheios de esperança de que sairia ileso daquela situação embaraçosa. Orgulhoso de seu discurso, o astronauta não percebeu que a turba o encarava embasbacada, enfurecida, e se retirou da roda-viva com ares de dever cumprido saltando em sua flor-pão e partindo sem cerimônias.
As pessoas estavam caladas, estupefatas e o garoto estava certo de ter se encrencado ainda mais. Em seguida, chegaram seus pais que o arrastavam pelos cabelos enquanto o povaréu se dissipava pelas ruas azuis do vilarejo. Dois velhos que participavam da aglomeração, caminhavam em direção a um bar. Um deles praguejava e gesticulava excitado enquanto que o outro, curioso, perguntava:
– Quem era aquele homem de cartola, afinal?
O companheiro respondeu inflamado:
– Deve ser mais um desses sem-vergonhas multiplicadores de azulejos.
galileugall
Enviado por galileugall em 11/04/2006
Código do texto: T137634
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Sobre o autor
galileugall
Curitiba - Paraná - Brasil, 42 anos
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