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A árvore de Salbri (in: Raleht, o plebeu)

Naquele tempo.
Estavam os soldados em guerra contra o povo de Hauiuiliv. O que se sabia é que eram bárbaros muito selvagens, que afrontavam a ordem das coisas, comendo com os pés.
Como as terras do lorde Noblerrier eram ricas em madeira, foi dada aos camponeses a tarefa prioritária de acumularem o material necessário para a construção de armamentos e postos de batalha.
Raleht, levantando mais cedo para terminar o serviço antes do ocaso, pegou seu machado e procurou uma árvore próxima ao bosque de Outshield, antigo bosque do Unicórnio. Achando uma que lhe parecia fácil cortar, tratou de pôr o machado a trabalhar.
Um esquilo morava naquela árvore, e acordou, assustado, com o chacoalhar da sua casa. Correu para fora, equilibrando-se num galho e interrompeu o trabalho do camponês com seus gritos:
- (Ic! Ic!) O que está fazendo, homem? Tá a fim de me matar!?!
        Tudo bem que o esquilo falou, mas naquele tempo os homens ainda falavam com os animais.
        Raleht explicou que estavam em guerra e que precisava da madeira para construir flechas, lanças, escudos, catapultas, torres, fortes, barragens, carroças.
        - Por acaso você vai morar nesse forte e nessa torre? – quis saber o roedor.
        - Ó, não, imagina! Essas edificações são para a guarda real e os grandes generais. Muitos duques e viscondes se instalarão aqui, mas nunca um camponês tem acesso a isso.
        - Então você sai construindo uma casa para que more quem não a construiu! Isso não é muito inteligente de se fazer, sem dizer que não parece justo.
        - Ah, mas sempre foi assim. Cuidamos de cavalos que nunca montaremos, tecemos roupas que nunca vestiremos... O que podemos fazer?
        - Nunca pensaram em todos trabalharem e todos usarem o que confeccionam? Acha justo que os que não fazem nada, mandem, e os que fazem, obedeçam?
        - Mas se todos trabalharem quem nos dirigirá? E se todos quiserem dirigir, quem trabalhará? É do jeito que as coisas são que devem continuar a ser, senão haverá guerras e destruição entre os homens!
        - Há! Há! Há! – e chegou a cair do seu galho o esquilo, que continuava a gargalhar, se debatendo na mata: - Você não é um camponês, é um ator de comédia! Há! Há! Há! Você diz que se as coisas forem diferentes haverá guerras? Pois é como as coisas estão que haverá e há guerras, caos e destruição entre os homens! Como você acha que aqueles que estão no poder chegaram ao poder? Ora, pela guerra! O que faz circular o dinheiro dos soldados, qual o objetivo do rei, do que se tem vivido até hoje? A resposta de tudo está na guerra e na destruição entre os homens. E não pense que guerra é só quando um exército luta contra o outro. É quando os guardas reais lutam contra os rebeldes, quando uma frota conquista uma ilha de povos desarmados, sem falar na guerra pelo espaço dos ricos contra os plebeus. Por que acha que o seu rei quer dizimar o pacato povo de Hauiuiliv? Acreditou que é porque eles são de costumes diferentes dos vossos? Você não sabe, mas a minha prima marmota, que mora lá, me disse que descobriram ouro e ferro nas montanhas de Ecsplorâs, onde vivem, e por isso querem destruí-los: para possuir aquelas riquezas! E para ficarem mais fortes e guerrear mais. Camponês, guerra e caos é como as coisas estão!
        - Esquilo, queiras me desculpar, mas tu és pequeno demais para entender das coisas dos homens. Para que o bem prevaleça, algumas pessoas acabam sofrendo. Por exemplo, tu: ficarás sem tua casa porque é preciso que construam algo melhor, e a vitória sobre Hauiuiliv, então, trará mais benefícios do que a destruição. Tu falas de riquezas porque não tens nada, nem sabes como se produz riquezas. Esclareço-te: é pelo trabalho.
        - Há! Há! Há! – outra sessão de risos. – Sim, pelo trabalho, sim, mas pelo trabalho dos outros que os mais fortes roubam para si. Como foram feitas as riquezas dos grandes? Pelo roubo do trabalho dos outros. Tanto antes como agora se amontoa dinheiro roubando. Piratas e mercenários enriquecem os grandes reinos roubando e pilhando a riqueza dos reinos militarmente mais fracos, e até você, camponês, é roubado pelo seu rei, pois você trabalha por ele, e ele usa o que deveria ser de você. Olha, se vocês camponeses não pensarem em uma vida melhor vão acabar sendo também escravizados e destruídos. E o que virá, amanhã?
        Porém, Raleht não podia mais perder tempo e terminou de cortar a árvore. Teve pena do esquilo - que até tinha família, a qual ficou desabrigada -, e acabou levando-os para casa: o esquilo, a esposa-esquilo, as irmãs e os irmãos-esquilo, a vovó-esquilo, e até a sogra-esquilo.
        Nos dias que se seguiram, os camponeses do feudo ficaram empenhados no trabalho até extraírem madeira suficiente para a confecção dos materiais de guerra. Com isso, Raleht não encontrou tempo de cuidar dos silvestres inquilinos. Logo, sua filha Catarina Juliana, que adorava domesticar os animais, adotou para si os roedores. Como os animais não tinham nome (um chamava ao outro de esquilo mesmo), também os nomeou. Chamou a mamãe esquilo de Mércia Natália; e ao tal que dialogou com Raleht chamou de Salbri.
        Catarina Juliana começou a brincar com eles e com um tanto de madeira que sobrara da árvore de Salbri ela fez uma jaula onde guardava a todos. Mas essa já é uma outra história...
Vitor Junior
Enviado por Vitor Junior em 13/04/2006
Reeditado em 13/04/2006
Código do texto: T138377
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Vitor Junior
Maringá - Paraná - Brasil, 36 anos
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Vitor Junior