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Os esquilos de Catarina Juliana (in: Raleht, o plebeu)


            O mercado fervilhava com as pessoas que acabavam de sair da missa dominical. O doce aroma de cravo ainda se sentia no ar, saído dos últimos incensos acesos cujo perfume atravessava os humildes vitrais entreabertos da capela local. Era certo que, com exceção dos clérigos, ninguém havia entendido o culto, pois o santo sacrifício havia sido proferido em latim, como de costume, mas a imponência das cerimônias fazia os camponeses sentirem que pertenciam àquilo tudo.
            Catarina Juliana esperava o pai junto ao velho pinheiro, já que trouxera seus novos animaizinhos de estimação, e esperava que Raleht lhe comprasse algo do mercado.

            Presos a uma coleira que a própria menina havia confeccionado, seus esquilos observavam o mercado, e tudo o quanto se vendia lá. Apagiaur, o caçula dos roedores, admirado com uns artefatos à venda como brinquedos, pergunta aos demais o que era tudo aquilo. Todos olharam por uns instantes para a interessante prateleira. Nela estavam miniaturas de cavaleiros armados e seus cavalos, pequenas espadas e escudos de madeira, miniatura de dragões em metal fundido e até uma coleção de objetos, com o seguinte dizer informativo em uma plaqueta pendurada acima deles: “Objetos da coleção Cruzadas vendidos separadamente”. Consistia em um cavaleiro em várias versões: com armadura de malha-de-ferro, armadura-de-verão, armadura-noite-dos-espólios, e não era só isso, também estavam à venda seus companheiros de aventura: os escudeiros, com três versões de cota de malha; a donzela, versão gótica, versão moura e versão ibérica; e o vigário, versão indulgência e versão inquisidor. Todos eles podiam usar os mais variados acessórios, em miniatura: lanças, bestas, clavas, punhais, entre tantas.
            - Alguém pode me dizer por que alguém venderia isso?! – perguntou Apagiaur.
            - Oras, porque compram! – respondeu prontamente seu irmão Omecix.
            - Sim, mas por que compram? Por que alguém iria gostar de brincar de destruir um ao outro? – não se satisfazendo Apagiaur.
            - Oras, porque... Bem, porque... Diz pra ele, Salbri! – conduziu Omecix novamente.
            - Vejamos... – refletiu Salbri. – Responder a essas perguntas seria o último passo no processo de explicação para a venda desses brinquedos. Comecemos por nos remeter ao princípio desse comércio.
            Nesse instante, Catarina Juliana puxou-os a todos por suas coleiras e Salbri teve que falar enquanto eram levados por entre as barracas do mercado.
            - Bem, eu dizia que devemos retornar ao princípio desse comércio. Irmãos, imaginem se os castores entrassem em guerra contra as abelhas. Tanto uns como os outros deixariam de realizar suas tarefas habituais para participar das batalhas. Depois de pouco tempo ambos os lados perceberiam que os recursos para sua sobrevivência estariam por se esgotar: para os castores lhes faltaria quem juntasse a lenha, para as abelhas lhes faltaria quem produzisse o mel, de modo que a fome e o sucateamento das mais básicas necessidades começassem a descontentar esses seres. Eles começariam a pensar que a guerra acertadamente é uma coisa errada. Então chega a hora de convencê-los do contrário, ou, no mínimo, de que se acostumem com ela. Os senhores da guerra iniciarão, assim, uma propaganda em que o seu lado é anunciado como o lado certo. As crianças não entenderiam esse discurso e logo é preciso que elas o aceitem também. Não demoraria muito para que alguém inventasse um brinquedo que ensinasse que a guerra, a destruição alheia, a opressão, tudo isso é bom. Eis o princípio desse comércio.
            Continuou Salbri:
            - Uma vez aceitos esses brinquedos, a uma geração inteira se incumbiria o papel de naturalizarem o absurdo, isto é, a guerra. E às crianças que vêm ao longo do tempo, esse comércio não só se teria tornado comum como desejoso e patriótico. Pronto. Até as crianças estão convencidas a respeito dos valores da guerra que lhes são vendidos. E não só a guerra lhes passa a ser natural como esses brinquedos são mesmo um ensaio do que hão de fazer quando crescerem, ou seja: guerras. Ó, quão cruel é o homem! – lamentou Salbri.
            - Os castores e as abelhas também são cruéis? – espantou-se Bacoliom, desta vez.
            Salbri olhou para seus irmãos: Omecix, Abuc, Bacoliom, Anapam e Apagiur. Olhou para o pescoço ferido de sua avó, e disse:
            - Só o homem é cruel. Sendo ele o mais fraco dos animais, não teria chance de subsistir se lhe faltasse esta característica: a crueldade. O homem domina não só todos os animais mas também outros homens, pois que é cruel. O homem nos tem é inveja.
            - É por isso que estamos usando coleira e antes não usávamos...! – encerrou Mércia Natália, a avó dos esquilos.

            Chegando em casa, Catarina Juliana surpreendeu aos seus animaizinhos com um presente. Raleht havia comprado a Masmorra-da-Tortura-Feliz para seu filho Noblerrierington, mas o brinquedo não correspondia às especificações etárias da criança, e Catarina Juliana resolveu fazer do brinquedo a nova casa dos bichinhos. Eles não gostaram muito, mas era melhor do que o Calabouço-Brumário, versão romana.
Vitor Junior
Enviado por Vitor Junior em 18/04/2006
Reeditado em 18/04/2006
Código do texto: T141280
Classificação de conteúdo: seguro
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Sobre o autor
Vitor Junior
Maringá - Paraná - Brasil, 36 anos
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Vitor Junior