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AS JÓIAS DE GWAHLUR - parte 1

Por Robert E. Howard,
Originalmente publicado em março/ 1935


1. Os caminhos da intriga

Os penhascos se erguiam verticalmente da selva. Constituíam elevadas muralhas de pedra que brilhavam com resplendor azul e vermelho sob os raios do sol e se curvavam à distância, a leste e oeste, por cima do ondulante oceano de árvores. Pareciam um obstáculo insuperável, mas, apesar disso, havia um homem subindo pelas rochas, e já se encontrava na metade do caminho.

O homem pertencia a uma raça de montanheses, acostumados a escalar penhascos inacessíveis. Além disso, tinha uma força e uma agilidade pouco comuns. Usava como única roupa um par de curtas calças vermelhas, e sandálias penduradas às costas, assim como sua espada e adaga.

O homem era alto, robusto e esbelto. Sua pele estava bronzeada pelo sol e sua cabeleira estava amarrada às têmporas com uma faixa prateada. Seus poderosos músculos, a vista aguçada e os pés firmes lhes eram de grande utilidade ali, pois aquele penhasco punha à prova as qualidades do melhor escalador. Cinqüenta metros abaixo, estava a selva. Faltava-lhe uma distância similar para chegar ao topo, que recortava-se contra o céu da manhã.

Agia como que empurrado pela necessidade ou pela pressa, apesar de que se via obrigado a avançar bem devagar, agarrando-se com todas suas forças às saliências rochosas. Seus dedos encontravam cavidades e saliências, mas em muitas ocasiões sustentava-se praticamente com as unhas. No entanto, continuava subindo; arranhava-se e suava a cada passo. Às vezes, parava para descansar seus músculos doloridos e para enxugar o suor de sua testa. Então, seu olhar percorria a espessura, pra ver se percebia algum sinal de seres humanos.

Agora, o topo não estava tão distante, e ele viu, acima de sua cabeça, uma abertura na rocha uniforme do penhasco. Pouco depois, alcançou a abertura. Tratava-se de uma pequena cova, situada logo abaixo da parte superior do talude. Quando sua cabeça estava acima da beirada da cova, o homem grunhiu e ficou com os cotovelos apoiados na saliência. Mais que uma cova, aquilo parecia um nicho talhado na pedra. Dentro dele havia um ocupante. Tratava-se de uma enrugada múmia pardacenta que estava sentada no chão da cova, com as pernas cruzadas, os braços dobrados sobre o peito ossudo e a cabeça afundada. Seus membros estavam amarrados com tiras de couro que se transformaram em simples fios apodrecidos. Se a múmia usara alguma vez uma roupa, as inclemências do tempo fizeram-na desaparecer completamente. Mas, entre os braços e o peito, se via um rolo de pergaminho amarelo-marfim.

O homem estendeu seu longo braço e se apoderou do pergaminho. Sem parar para olhá-lo, o guardou debaixo de seu cinto e tomou impulso até ficar de pé sobre o chão da cova. Deu um pequeno salto e agarrou-se à borda superior do talude. Logo, com outro impulso, completou sua ascensão.
Uma vez no alto, parou ofegante, e olhou pra baixo pelo outro lado.

Era como olhar pra dentro de uma enorme tigela, bordeada por uma parede circular de pedra. O chão da tigela estava coberto por árvores e por uma densa vegetação, embora não fosse tão compacta quanto a da selva lá fora. Os paredões se prolongavam continuamente ao redor do enorme vale. Tratava-se de um acidente geográfico tão raro que talvez não tivesse igual em todo o mundo. Aquele anfiteatro natural media meia légua de diâmetro, mais ou menos, e estava isolado do resto do mundo pelos escarpados taludes rochosos que rodeavam-no.

Mas o homem que estava em cima não parou para admirar aquele fenômeno topográfico. Examinou atentamente as copas das árvores que haviam debaixo dele e suspirou de alívio, ao avistar o brilho de umas cúpulas de mármore entre o espesso verdor da floresta. Então, ele pensou, não era um mito; diante de seus olhos, encontrava-se o fabuloso e desabitado palácio de Alkmeenon.

Conan da Ciméria, também chamado das Ilhas Barachas, da Costa Negra e de muitos outros lugares pra onde suas aventuras o levaram, tinha ido ao reino de Keshan, atraído pela lenda de um fabuloso tesouro que superava o dos reis de Turan.

Keshan era um reino bárbaro situado na zona oriental de Kush, onde os grandes prados se misturavam com as florestas que estendiam-se na direção sul.

Os habitantes da região eram de diferentes raças misturadas, e uns nobres de pele escura governavam a maioria, de negros puros. Os governantes – príncipes e grandes sacerdotes – diziam descender de uma raça branca que, em épocas remotas, havia governado um reino cuja capital era Alkmeenón. Uma série de lendas tentava explicar o motivo da decadência da raça e do abandono da cidade por parte dos sobreviventes. Igualmente vagos eram os relatos sobre os Dentes de Gwahlur, o tesouro de Alkmeenón. Mas aquelas lendas incertas haviam bastado para levar Conan até Keshan, depois de ter atravessado grandes distâncias através das planícies, selvas tropicais e montanhas.

Uma vez em Keshan – considerado um país mítico por numerosos povos do norte e do oeste –, ouviu o suficiente para achar que podia dar crédito aos rumores acerca do tesouro chamado de Os Dentes de Gwahlur. Mas não pôde investigar o local exato onde se encontrava o tesouro e, assim sendo, teve que dar logo uma explicação a respeito de sua presença em Keshan, onde os estrangeiros não eram bem-vindos.

Sem deixar-se intimidar, fez sua oferta com toda a frieza e segurança aos desconfiados nobres do reino bárbaro. Disse que era um guerreiro profissional, que chegara a Keshan em busca de trabalho. Por uma quantia determinada, treinaria as tropas do reino e guiaria-as contra Punt, seu inimigo ancestral, cujos êxitos recentes no campo de batalha haviam suscitado a fúria do irascível rei keshani.

Esta proposta não era tão insensata quanto parecia, posto que a fama de Conan havia chegado até aquele país distante. Suas façanhas como chefe dos corsários negros - aqueles lobos das costas do sul - haviam tornado seu nome conhecido, respeitado e temido em todos os reinos negros. Nem sequer se negou a realizar as provas que lhe impuseram os senhores de pele escura. As escaramuças eram incessantes nas zonas fronteiriças, e permitiram que, em numerosas oportunidades, o cimério demonstrasse sua destreza na luta corpo-a-corpo. Seu arrojo e ferocidade impressionaram os governantes de Keshan que, também conhecendo sua reputação, se mostraram muito bem predispostos para com o bárbaro.

O que Conan desejava secretamente era conseguir aquele trabalho, para poder justificar sua presença em Keshan o tempo suficiente e conseguir, assim, descobrir o tesouro dos Dentes de Gwahlur. Então, ocorreu um fato inesperado: Thutmekri chegou a Keshan à frente de uma embaixada de Zimbabo.

Thutmekri era um aventureiro stígio que conhecera Conan há muito tempo, embora ambos sentissem pouca amizade. Thutmekri também tinha uma proposta para o rei de Keshan, relacionada com a conquista de Punt. Este reino, que ficava a leste de Keshan, havia expulsado, há pouco tempo, todos os mercadores de Zimbabo, depois de incendiar seus estabelecimentos.

Sua oferta superava até a de Conan. Thutmekri se comprometia a invadir Punt do leste, com um exército de lanceiros negros, arqueiros shemitas e mercenários, ajudando o rei de Keshan a anexar o reino hostil. Os benévolos reis de Zimbabo só queriam o monopólio do comércio, com Keshan e seus tributários, e, como prova de boa fé, uma parte do tesouro dos Dentes de Gwahlur. Thutmekri se apressou em esclarecer, aos desconfiados chefes de Keshan, que o tesouro não seria tocado, e sim colocado no templo maior de Zimbabo, junto aos ídolos de ouro, de Dagon e Derketo. Deste modo, selar-se-ia o acordo entre Keshan e Zimbabo. Tais manifestações foram favoráveis a Conan.

O cimério não tentou confrontar sua astúcia e capacidade de intriga com as de Thutmekri e seu amigo shemita, Zargheba. Mas sabia que, se Thutmekri ganhasse, pediria a eliminação de seu rival. A Conan não restava outra solução: encontrar o tesouro antes que o rei de Keshan se decidisse – pois decidiria, provavelmente, em favor de Thutmekri –, e fugir com o que pudesse. Mas o cimério estava certo de que o tesouro não se encontrava em Keshan, a cidade real, que era um conjunto de cabanas de tijolo cru, com tetos de palha, que rodeavam um muro; dentro deste, encontrava-se uma espécie de palácio de pedra, barro e bambu.

Enquanto Conan se consumia de impaciência, buscando dados sobre o tesouro, o grande sacerdote Gorulga anunciou que, antes de tomar qualquer decisão sobre a aliança com Zimbabo, tinha de consultar a vontade dos deuses, através do oráculo de Alkmeenon.

Aquilo infundia medo e inquietou os moradores do palácio e das choças vizinhas. Durante um século, nenhum sacerdote havia visitado a cidade deserta. O oráculo – diziam – era a princesa Yelaya, a última governante de Alkmeenon, que havia morrido ainda jovem e bela, e cujo corpo havia se conservado miraculosamente intacto através dos anos. Desde épocas remotas, os sacerdotes se dirigiam à cidade encantada, onde ela ensinava-lhes sua sabedoria. O último sacerdote que consultou o oráculo foi um homem perverso, que tentava apropriar-se das valiosas jóias que os homens chamavam de Os Dentes de Gwahlur. Mas alguma maldição havia caído sobre ele na cidade deserta, porque, ao fugirem dali, seus acólitos contaram tamanhos horrores que, durante cem anos, nenhum dos aterrorizados sacerdotes ousou aproximar-se da cidade, nem do oráculo.

Atualmente, Gorulga era o sumo-sacerdote. Este tinha confiança em sua administração, e anunciou que iria com um punhado de homens para reviver o antigo costume. Com a empolgação que o fato causou, as pessoas falavam sem parar, e Conan captou, finalmente, o indicio que aguardava há várias semanas. Ouviu-o da boca de um sacerdote menor, e o cimério abandonou imediatamente a cidade na véspera do dia em que os sacerdotes o fariam.

Depois de cavalgar durante duas noites e um dia, chegou, ao amanhecer, aos paredões de Alkmeenon, que encontrava-se na área sudeste do reino, entre uma selva quase inexplorada, evitada pela maioria dos homens. Ninguém, exceto os sacerdotes, ousava aproximar-se do local enfeitiçado, e nem mesmo estes haviam entrado em Alkmeenon nos últimos cem anos.

Nenhum homem havia conseguido subir por aqueles paredões, e ninguém, além dos sacerdotes, conhecia a entrada secreta que levava ao interior do vale. Conan não perdeu tempo procurando a entrada secreta. As paredes, que assustavam os habitantes das planícies e das florestas, não eram inacessíveis para um homem nascido nas montanhas da Ciméria.
Agora, o bárbaro se encontrava no alto do penhasco e estava olhando pra baixo, em direção ao vale circular. Se perguntou que praga, guerra ou superstição teria feito aquelas pessoas de uma antiga raça branca abandonarem sua fortaleza natural, para irem misturar-se com as tribos negras que cercavam a área.

Aquele vale fora sua cidadela. Ali se encontrava o palácio real e, no dito vale, só haviam vivido os reis e seus cortesãos. A cidade real se encontrava fora do vale cercado pelo talude, e a densa vegetação escondia agora suas ruínas. Assim pois, as cúpulas que brilhavam diante do cimério eram as da antiga morada dos reis de Alkmeenon e pareciam ter desafiado com êxito o passar do tempo.

Conan passou uma perna sobre a beirada e começou a descer. A face interna do penhasco era mais quebrada, não tão lisa, razão pela qual demorou menos da metade do tempo em descer do que demorara em subir.

Com a mão no cabo da espada, o cimério olhou cautelosamente a seu redor. Não havia razão alguma para acreditar que havia homens em Alkmeenon, que tinha fama de estar deserta e povoada apenas por espectros de um passado remoto; mas Conan era desconfiado e cauteloso por natureza.

Ali reinava um silêncio absoluto. Não se movia uma única folha no vale. Quando se inclinou para olhar entre as árvores, o bárbaro não viu mais que as intermináveis filas de troncos que se estendiam à distância.

Mesmo assim, seguiu em frente, com extremo cuidado, observando inquietamente cada uma das sombras que se via a seu redor e sem fazer o menor ruído. Começou a encontrar sinais evidentes de uma antiga civilização; fontes de mármore secas e meio caídas, que erguiam-se em algumas clareiras do bosque. Os capins e matagais haviam enchido os jardins, mas ainda podia-se apreciar a primitiva disposição daqueles parques. Largas calçadas se estendiam sob as copas das árvores, mas o pavimento estava rachado e semeado de capins. Viu muros cuidadosamente talhados, que pareciam ter pertencido a antigos pavilhões de caça.

Diante do cimério, entre as árvores, dava para avistar as cúpulas e o edifício que as sustentava. Finalmente chegou a uma grande clareira e se encontrou diante das colunas do pórtico do palácio.

Ao subir pelos amplos degraus de mármore, Conan percebeu que o edifício estava em muito melhor estado de conservação que as demais construções, vistas até o momento. Os grossos muros e os pilares maciços eram, sem dúvida, resistentes demais para que o tempo os abalasse. A mesma quietude real pairava sobre todo o lugar. Apesar da suavidade das pisadas de Conan, que andava como um felino, seus passos pareciam ressoar ruidosamente no denso silêncio.

Em algum lugar daquele palácio, encontrava-se a imagem que, em tempos passados, servira como oráculo aos sacerdotes de Keshan. E, também no palácio, a menos que o sacerdote houvesse mentido, estava escondido o tesouro dos reis de Alkmeenon.

O bárbaro passou por um enorme vestíbulo cercado por altas colunas que formavam arcadas, entre as quais havia portas cuja madeira estava ressecada pela passagem do tempo. Continuou avançando na meia-penumbra e, no outro extremo da sala, passou por uma entrada, cujas portas de bronze estavam entreabertas. Entrou num amplo salão abobadado, que certamente havia servido como local de audiências aos reis de Alkmeenon.

O recinto tinha forma octogonal, e a cúpula no teto tinha numerosas clarabóias, de modo que a claridade ali era mais intensa que nas salas anteriores. No outro extremo, havia um estrado com degraus de lápis-lazúli, que conduziam a um trono maciço com braços talhados e um alto recosto. Conan grunhiu e seus olhos cintilaram. Estava diante do trono de ouro de Alkmeenon, do qual falavam as lendas! O cimério observava-o com olhar de conhecedor e disse a si mesmo que, por si só, valeria uma fortuna, caso conseguisse levá-lo. Aquele trono acendeu a imaginação do cimério a respeito do que poderia ser o verdadeiro tesouro. Ansiava afundar os dedos entre as pedras preciosas, cuja descrição ouvira na praça do mercado de Keshia e que não tinham nenhum paralelo no mundo: rubis, esmeraldas, diamantes, safiras, opalas e muito mais, frutos do saque de antigos tesouros.

O cimério esperava encontrar a figura do oráculo sentada no trono, mas deveria estar em outro lugar, se é que realmente existia. Mas desde que chegou em Keshan, muitos dos mitos transformaram-se em realidade, pois não duvidava que encontraria o que estava procurando.

Atrás do trono, havia uma pequena porta que, certamente, estivera coberta em outros tempos por ricos tapetes. Deu uma olhada e verificou que a porta levava a uma habitação vazia, da qual partia um corredor estreito. Sem cruzá-la, Conan examinou outro arco que havia à esquerda do estrado e viu que, ao contrário dos demais, neste havia outra porta. Esta não era comum, pois também era feita de ouro, como o trono, e havia sido talhada com estranhos desenhos.

O bárbaro empurrou a porta e esta se abriu com facilidade, como se suas dobradiças tivessem sido lubrificadas recentemente. Uma vez lá dentro, Conan parou.

Encontrava-se numa moradia quadrada, de dimensões reduzidas, cujas paredes de mármore se erguiam até um teto adornado com incrustações de ouro. Ricos frisos deste mesmo metal reluziam na parte superior das paredes. Não se via outra porta, exceto aquela pela qual o bárbaro havia entrado. Mas deixou de lado todos estes detalhes. Sua atenção estava centrada na figura que se encontrava no estrado de marfim à sua frente. Conan esperava encontrar uma imagem habilmente esculpida, mas não havia arte que pudesse reproduzir a perfeição da figura que o cimério estava vendo.

Não se tratava de uma figura esculpida em metal, pedra ou marfim, mas do corpo real de uma mulher, que se conservara durante séculos, graças a alguma arte desconhecida. Até a roupa da mulher estava intacta. Conan franziu a testa ao ver aquilo, e uma estranha inquietude o invadiu. As artes que preservavam o corpo não tinham razão de haver conservado os vestidos. No entanto, ali estavam: uma curta saia de seda, segura por um cinto com gemas incrustadas, e um corpete com placas de ouro e pedras preciosas. Nem os tecidos nem os metais davam a impressão de terem sido afetados pelo passar do tempo.

Yelaya era uma mulher de fria beleza, o que não tinha nada a ver com o fato de estar morta. Seu corpo parecia de alabastro; era esbelto e ao mesmo tempo voluptuoso. Na escura cabeleira da princesa, brilhava um rubi de grandes dimensões.

Conan continuou com a testa franzida, olhando a mulher. Logo, deu uns golpes no estrado com sua espada. Talvez o tesouro estivesse escondido em alguma cavidade, mas o som indicou que o estrado era maciço.

Virou-se e caminhou pela moradia com certa indecisão. Onde procurar primeiro, com o pouco tempo de que dispunha? Um sacerdote, o qual ele ouvira falar com um cortesão, dizia que o tesouro estava escondido no palácio. Mas aquilo era vago demais, por causa das dimensões do edifício. Se perguntou se devia esconder-se até que os sacerdotes tivessem ido embora, para depois continuar a busca. Mas achou que era bem possível que levassem as jóias ao voltarem para Keshia. Conan estava certo de que Thutmekri havia subornado Gorulga.

O cimério havia feito uma idéia dos planos de Thutmekri, graças a seu conhecimento da natureza humana. Certamente foi ele quem propôs a conquista de Punt aos reis de Zimbabo, embora seu verdadeiro objetivo fosse apoderar-se dos Dentes de Gwahlur. Sem dúvida, aqueles reis cautelosos pediram provas de que o tesouro realmente existia, antes de tomarem qualquer medida. As jóias que Thutmekri solicitara como garantia seriam uma prova convincente.

Uma vez certos da existência do tesouro, os reis de Zimbabo atuariam. Punt seria invadida simultaneamente por leste e oeste, mas os homens de Zimbabo se esforçariam para que os nativos de Keshan carregassem o peso da luta. Então, quando tanto Punt quanto Keshan estivessem esgotados pela contenda, Zimbabo aniquilaria os dois povos, saquearia Keshan e levaria o tesouro, mesmo que tivessem que desmontar cada edifício pedra por pedra, ou torturar todos os habitantes do reino.

Mas havia outra possibilidade: se o próprio Thutmekri encontrasse o tesouro, seria mais provável, então, que ele enganasse seus amos e levasse as jóias.

Conan acreditava que aquela consulta ao oráculo não era mais do que uma desculpa para persuadir o rei de Keshan a concordar com a vontade de Thutmekri, pois não duvidava que o sacerdote Gorulga fosse tão sutil e astuto quanto os que faziam parte daquela grande maquinação. O cimério não havia tentado comunicar-se com o grande sacerdote, pois naquele jogo de subornos, ele não tinha nenhuma possibilidade ao lado de Thutmekri. Se tentasse, cairia diretamente nas mãos dos stígios. Gorulga podia denunciar o cimério, criar uma reputação de honestidade para si e livrar Thutmekri de seu rival, tudo de uma vez. Conan se perguntou de que modo Thutmekri havia subornado o sumo-sacerdote, e quanto poderia ter oferecido a um homem que tinha o maior tesouro do mundo ao seu alcance.

Sem dúvida, o oráculo diria que era vontade dos deuses que Keshan aceitara as propostas de Thutmekri, e não deixaria de dizer algo relativo a Conan. A partir de então, Keshia seria um lugar bem incômodo para o cimério, embora este já houvesse decidido não voltar para lá ao sair de Alkmeenon.

A sala do oráculo não deu nenhuma pista a Conan. Este voltou à sala do trono e colocou as mãos sob os braços da grande poltrona. Era pesada, mas pôde movê-la para um lado. O chão era de mármore maciço. Voltou à moradia, pensando numa cripta secreta que pudesse existir perto do oráculo. Começou a bater nas paredes, até que finalmente ouviu um som oco. Ao olhar com mais atenção, viu que havia uma fenda no mármore, e que a placa seguinte era muito maior.  Então, ele inseriu a ponta da adaga na fenda e fez pressão.

A placa começou a se abrir silenciosamente, mostrando uma espécie de nicho na parede, e mais nada. O cimério praguejou. Estava vazio, e não tinha aspecto de haver abrigado um tesouro. Então, ele se inclinou sobre o nicho e viu uma série de pequenos orifícios na parede, à altura de sua boca. Olhou através deles e lançou um grunhido ao perceber do que se tratava. Aquela era a parede que separava a sala da moradia do oráculo. Os furos não eram vistos do outro lado.

O bárbaro sorriu ao compreender o mistério do oráculo. De qualquer forma, era mais simples do que esperava. Gorulga se colocaria ali pessoalmente, ou mandaria algum de seus acólitos, e falaria pelos orifícios. Os crédulos negros aprovariam aquela voz como se fosse o oráculo.

Naquele momento, o bárbaro lembrou de algo e tirou do cinto o pergaminho que havia tirado da múmia. Desenrolou-o com todo o cuidado, já que parecia estar a ponto de despedaçar-se. Franziu a testa ao ver os sinais que estavam escritos nele. Em suas viagens por todo o mundo, o gigantesco aventureiro havia adquirido conhecimentos mui diversos, sobretudo a respeito da escrita de muitas línguas estrangeiras. Esta capacidade lingüística do cimério havia salvado-lhe a vida em várias ocasiões.

Aqueles símbolos, no entanto, lhe confundiam. Eram, ao mesmo tempo, familiares e ininteligíveis, e finalmente descobriu o motivo. Era a escrita arcaica de Pelishtia, que tinha muitos pontos de diferença com relação à escrita moderna daquele país, a qual ele conhecia e que, três séculos atrás, fora modificada quando uma tribo nômade o conquistou. Aqueles sinais mais antigos e puros lhe intrigavam. No entanto, descobriu uma palavra que se repetia: Bit-Yakin. O cimério deduziu que se tratava da pessoa que havia escrito o pergaminho.

Com a testa franzida e os lábios movendo-se silenciosa e inconscientemente, Conan tentou decifrar o significado do texto, mas se deu conta de que, em sua maior parte, era intraduzível.

Entendeu algo, sem dúvida; o misterioso escriba, Bit-Yakin, havia chegado de longe, com seus criados, e entrado no vale interno de Alkmeenon. A parte seguinte era incompreensível, embora algumas frases e caracteres lhe fossem familiares. O texto parecia referir-se a fatos ocorridos num extenso período de tempo. O nome de Yelaya também se repetia com freqüência e, no final do documento, notava-se que Bit-Yakin sabia que o momento de sua morte estava próximo. Sem poder evitar um calafrio, Conan entendeu que a múmia da pequena cova devia ser a do autor daquele relato, o misterioso pelishtio Bit-Yakin. Morto o homem, seus criados certamente haviam colocado-o na pequena cova situada no alto dos paredões, de acordo com as instruções que ele deixara antes de morrer.

Era estranho que o nome de Bit-Yakin não fosse mencionado em nenhuma das lendas de Alkmeenon. Evidentemente, ele chegara ao vale depois que este fora abandonado por seus habitantes originais. O manuscrito parecia indicá-lo, mas era estranho que os sacerdotes não tivessem encontrado Bit-Yakin nem seus seguidores. Conan estava certo de que a múmia e o pergaminho tinham mais de um século de antiguidade. Bit-Yakin vivera no vale quando os sacerdotes vinham prostrar-se diante do cadáver de Yelaya. No entanto, as lendas falavam sempre de uma cidade.

Por que aquele homem viveria naquele lugar desabitado, e pra onde foram seus criados, depois de colocarem o cadáver de seu amo no nicho?

Conan deu de ombros e recolocou o pergaminho em seu cinto. Quase no mesmo instante, estremeceu violentamente e sentiu o cabelo arrepiar-se. Em meio ao absoluto silêncio que reinava no palácio, acabava de ouvir um som estridente!
Virou-se, agachando-se como um felino, com a espada desembainhada. Olhou o estreito corredor, do qual parecia vir o som. Teriam chegado os sacerdotes de Keshan? Achou isto improvável, dado o pouco tempo transcorrido. Mas o forte som metálico era a prova indiscutível de uma presença humana naquele palácio desabitado.

Conan era um homem de ação direta. Por esse motivo, ao invés de fugir na direção oposta, como a maioria dos homens teria feito, disparou pelo corredor em direção ao lugar de onde veio o som. Suas sandálias não faziam mais ruído que as patas de um leopardo. Tinha os olhos semicerrados e a boca entreaberta num estranho sorriso. Se sentia furioso ante aquela ameaça que pressentia no estranho fenômeno.

O cimério saiu finalmente do corredor e chegou a um pequeno pátio. Seu olhar sentiu-se atraído por algo que brilhava sob o sol. Tratava-se de um enorme disco de ouro, que pendia de um braço introduzido na parede. Ao lado do gongo, encontrava-se uma marreta de latão. Naquele lugar, não se via rastro algum de seres humanos. Os arcos ao redor estavam vazios. Conan permaneceu um longo tempo em expectativa, tentando escutar algo. No enorme palácio não se ouvia nem o mais leve rumor. Esgotada sua paciência, deu uma volta em torno do pátio, olhando em direção às escadas e disposto a atacar como uma cobra.

Ao chegar junto ao gongo, observou o arco ao lado. Só viu uma habitação escura, cheia de escombros. Sob o disco metálico não se via marcas de pés. No entanto, o cimério percebeu um odor peculiar, fétido, que não conseguiu identificar. As fossas nasais de Conan se dilataram como as de um animal à espreita.

Virou-se em direção ao arco... e com um estrondo repentino, as lajes do chão, aparentemente sólidas, cederam sob seus pés. Ao cair, o bárbaro estendeu os braços e tentou agarrar-se à borda do buraco que acabara de abrir-se no piso. Mas as bordas eram inconsistentes, e o cimério caiu numa corrente de água gelada que o arrastou numa velocidade estremecedora.


2. O despertar de uma deusa

A princípio, Conan não tentou lutar contra a corrente que o arrastava na escuridão. Logo conseguiu boiar e pôr a espada entre os dentes. De repente, viu um raio de luz mais adiante. Viu a superfície da água convulsionada, como se algum monstro das profundidades tivesse emergido, e avistou também as paredes laterais, que se prolongavam para cima num abobadado. A cada lado estendia-se uma estreita saliência debaixo da abóbada, mas era alta demais para poder agarrá-la. O teto estava quebrado num ponto; provavelmente havia caído, e a luz se filtrava pela abertura. Além daquele orifício, o túnel estava às escuras. Conan sentiu verdadeiro pânico, ao pensar que não podia deixar para trás aquele local iluminado para afundar novamente nas trevas do desconhecido.

Então, ele avistou algo mais: umas escadas de bronze, que se estendiam das cornijas até a superfície da água, a intervalos regulares. Havia uma diante dele, o que fê-lo nadar em direção à escada, lutando contra a correnteza que o arrastava para o centro. Mas o cimério lutou desesperadamente, palmo a palmo, e foi ganhando terreno. Por fim, encontrou-se debaixo da escada e agarrou-se, com impulso feroz, à última barra desta, e ficou pendurado, sem fôlego.

Pouco depois, subia pelos degraus corroídos, que se curvaram e rangeram, mas agüentaram. Chegou assim até a estreita cornija, que havia ao longo da parede por debaixo da abóbada do teto. O alto cimério se viu obrigado a agachar-se, pois não havia espaço suficiente para permanecer ereto. Próxima à escada, havia uma pesada porta de bronze, que não se abriu apesar dos esforços de Conan. Pegou a espada que segurava entre os dentes e voltou a embainhá-la. Cuspiu sangue, já que o fio do sabre havia cortado seus lábios durante a luta contra a correnteza. Em seguida, voltou sua atenção para o orifício do teto.

Estendeu um braço pelo buraco e, ao tatear a borda, pôde confirmar que era resistente o bastante para agüentar seu peso. Em seguida, agarrou-se à beirada com ambas as mãos, lançou-se para o alto e conseguiu finalmente sair do túnel de águas subterrâneas. Se viu numa ampla moradia que se encontrava num estado lamentável. A maior parte do teto havia desmoronado, assim como grande parte do chão, o qual formava a abóbada de onde Conan acabava de sair. Arcadas ruídas davam passagem a corredores e salas, o que fez o cimério dizer a si mesmo que ainda devia encontrar-se no enorme palácio. Se perguntou, inquieto, se havia muitas correntes subterrâneas como aquela, pois temia voltar a cair num buraco semelhante ao anterior.

Também pensou se a queda tinha sido apenas um acidente. Em todo caso, havia uma coisa certa: ele não era o único ser vivo no palácio. O gongo não soara por si só, mesmo que com isso não pretendessem matá-lo. De repente, o silêncio do palácio ficou sinistro e carregado de ameaças.

Seria alguém empenhado no mesmo trabalho que ele? Então, lembrou de algo em relação ao misterioso Bit-Yakin. E se este havia achado o tesouro dos Dentes de Gwahlur durante seu longo período de residência em Alkmeenon, e seus servos levaram-no após a morte de seu amo? A possibilidade de estar procurando algo inexistente enfurecia o cimério.

Entrou num corredor que, na sua opinião, devia levá-lo de volta à área do palácio na qual havia estado antes. Apressou-se, embora pisando com cuidado ao lembrar do negro rio que fluía sob seus pés.

Voltou a pensar na sala do oráculo e em sua misteriosa ocupante. Em algum lugar daquele setor devia estar a chave que levava ao tesouro, se é que este ainda se encontrava no palácio.

Naquela parte, o enorme edifício encontrava-se quase em ruínas, mas à medida que avançava, o estado das salas e corredores parecia melhorar.

Não conseguiu lembrar exatamente onde estava a sala do oráculo, nem que direção tomar. Pouco depois, descobriu outro corredor que lembrava ter visto antes, e que o levou de volta à sala do trono. Havia tomado uma decisão. Achava inútil continuar vagando pelo palácio em busca do tesouro. Resolveu esconder-se por ali e esperar que chegassem os sacerdotes de Keshan. Logo, quando tivessem representado a farsa do oráculo, seguiria-os até o lugar onde estavam ocultas as pedras preciosas, pois tinha certeza de que iriam para lá. Provavelmente, levariam apenas uma parte do tesouro. Ele se contentaria com o resto.

Como que atraído por uma estranha fascinação, o cimério ficou olhando a figura imóvel da princesa e maravilhou-se diante de sua gélida beleza. Que segredo se escondia naquele esplêndido corpo inerte?

Então, ele estremeceu violentamente. Aspirou ruidosamente o ar e sentiu o cabelo arrepiar-se. Já tinha visto aquele corpo, e havia observado sua frieza e quietude. Mas agora havia uma diferença. Os membros não estavam rígidos; uma cor rosada animava suas faces e tinha os lábios vermelhos...
Conan desembainhou a espada, ao mesmo tempo em que proferia uma maldição.

- Por Crom, está viva! – exclamou.

Diante destas palavras, os longos cílios se mexeram; seus olhos se abriram e miraram-no, insondáveis, escuros, brilhantes e místicos. Conan parecia ter perdido a fala.
A mulher se levantou com facilidade, mas conservando seu olhar sedutor.

O cimério passou a língua pelos lábios, e finalmente pareceu encontrar palavras.

- Você... você é Yelaya? – perguntou.

- Sim, sou Yelaya. – ela respondeu com voz harmoniosa – Não tema, não te farei mal, se me obedecer.

- Como pode voltar à vida uma mulher que morreu há séculos? – perguntou, com tom cético, o cimério, que já começava a raciocinar.

Ela levantou os braços com gesto misterioso e disse em seguida:

- Sou uma deusa. Há mil anos, caiu sobre mim a maldição dos deuses das trevas. O ser mortal que havia em mim deixou de existir. Mas a deusa nunca morreu. Permaneceu aqui, durante todos estes séculos, acordando todos os dias, ao pôr-do-sol e reinando sobre minha corte, composta por espectros do passado. Homem, se não queres contemplar cenas que irão perturbar sua razão para sempre, vá embora daqui! Ordeno-lhe, vai-te!

Conan embainhou a espada com os olhos semicerrados, mas não obedeceu à mulher. Chegou mais perto dela, como que atraído por uma poderosa fascinação e, repentinamente, agarrou-a pelo braço com a rudeza de um urso. Ela lançou um grito, que em nada parecia com o de uma deusa, e logo ouviu-se o ruído de um tecido rasgado, quando o cimério arrancou-lhe o vestido.

- Uma deusa... bah! – exclamou desdenhosamente o bárbaro – Já me estranhava que uma princesa de Alkmeenon falasse com sotaque coríntio! Enquanto me refiz da surpresa, lembrei já tê-la visto em outro lugar. Você é Muriela, uma dançarina coríntia de Zargheba. Essa pinta em forma de meia-lua é a prova. A vi uma vez em que Zargheba lhe chicoteava. Uma deusa!

Conan golpeou-lhe o quadril com a mão e a moça gritou de dor.

A jovem já não tinha o ar imperioso de antes. Já não era a mística divindade, mas uma bailarina humilhada e aterrorizada, como as que eram compradas nos mercados de escravos shemitas. A garota pôs-se a chorar. O cimério olhou-a, irritado.

- Deusa! Hah! Você era uma das mulheres veladas que Zargheba trouxe a Keshan. Acredita que ia me enganar, jovem idiota? Faz um ano que lhe vi em Akbitana com aquele porco do Zargheba, e nunca me esqueço do rosto nem do corpo de uma mulher. Vou lhe...

Retorcendo-se sob sua mão férrea, a moça abraçou o pescoço do cimério, enquanto seu rosto expressava um profundo terror. As lágrimas lhe escorriam pelo rosto e os soluços estremeciam seu corpo.

- Por favor, não me faça mal! – ela implorou – Eu tinha que fazê-lo! Zargheba me trouxe aqui pra me fazer de oráculo!

- Você não teme os deuses? – perguntou o cimério – Crom! Já não resta honestidade no mundo?

- Eu não podia desobedecer Zargheba, lhe juro! O que eu ia fazer?

- O que acha que os sacerdotes fariam se lhe encontrassem encenando esta farsa?

Ao imaginá-lo, as pernas da garota se negaram a sustentá-la e ela caiu ao chão, abraçando os joelhos de Conan e murmurando súplicas incoerentes.

- Onde está Zargheba? – ele perguntou – Pára de chorar, maldição, e responda!

- Está fora do palácio, esperando os sacerdotes. – respondeu Muriela, sem parar de lamentar-se.

- Quantos homens vêm com ele?

- Nenhum. Viemos só nós dois.

- Ah! – ele grunhiu, com a satisfação de um leão caçando – Devem ter abandonado Keshia poucas horas depois de mim. Subiram pelos penhascos?

A garota negou com a cabeça, pois os soluços não lhe permitiam falar. Impaciente, Conan sacudiu-a pelos ombros até ela ofegar.

- Vai me responder de uma vez? Como vocês entraram neste vale?

- Zargheba conhecia o caminho secreto. – disse Muriela, ofegando – O sacerdote Gwarunga revelou a ele, e também a Thutmekri. Ao pé do paredão há um enorme lago. Sob a superfície da água, existe uma caverna que pode ser vista do lado de fora. Nos metemos na água e entramos. A cova sai da água, em seguida, e sobe finalmente pelo interior dos muros rochosos. A saída no vale interno está oculta por densos matagais.

- Eu subi pelo lado leste. – murmurou Conan – E, bem, o que fizeram depois?

- Entramos no palácio, e Zargheba me escondeu entre as árvores, enquanto ia dar uma olhada na sala do oráculo. Creio que confiava demais em Gwarunga. Enquanto estava no palácio, pareci escutar o som de um gongo, mas não tenho certeza. Finalmente Zargheba chegou, me trouxe ao palácio e me fez entrar nessa moradia, onde estava a deusa Yelaya estendida sobre o altar. Tirou-lhe as roupas e me vestiu com elas. Logo, foi esconder o corpo e esperar os sacerdotes. Senti muito medo. Quando você entrou, tive vontade de me levantar e lhe pedir que me levasse pra longe daqui, mas tinha medo de Zargheba. Quando você acreditou que eu era a deusa viva, pensei que conseguiria assustá-lo e fazê-lo ir embora.

- O que deveria dizer como oráculo?

- Devia dizer aos sacerdotes que tomassem o tesouro dos Dentes de Gwahlur e entregassem uma parte a Thutmekri como garantia. O restante devia ser levado ao palácio de Keshia. Ah, e devia dizer também que lhe esfolassem vivo imediatamente.

- Thutmekri queria ter o tesouro num lugar onde ele ou os homens de Zimbabo pudessem encontrá-lo com facilidade. – disse Conan, sem fazer caso do que a garota dissera a respeito dele – Bem, me encarregarei de arrancar o fígado dele no devido tempo. Gorulga também participa da farsa?

- Não. Ele crê nos deuses e é incorruptível. Não sabe nada sobre esta confabulação, e obedeceria ao oráculo. Tudo era um plano de Thutmekri. Sabendo que os keshani consultariam o oráculo, ele e Zargheba me trouxeram de Zimbabo. Vim coberta de véus e vi pouco durante a viagem.

- Hah! – murmurou Conan – Um sacerdote que crê honestamente em seu oráculo e não se deixa subornar! Me pergunto, então, se terá sido Zargheba quem fez soar o gongo. Ele sabia que eu estava aqui? Diga-me onde ele se encontra agora, garota.

- Está escondido entre uns arbustos de lótus, perto da antiga avenida, que vai da parede sul dos penhascos internos até o palácio.

A moça se calou por um instante e, em seguida, reatou suas súplicas.

- Por favor, Conan, tenha piedade de mim! Tenho medo deste velho palácio! Creio ter ouvido uns passos fantasmagóricos a meu redor. Leve-me com você, Conan! Zargheba me matará quando eu fizer o que ele espera que eu faça, eu sei. E os sacerdotes também me matariam se descobrissem o engano. Zargheba é um demônio. Ele me comprou de uma caravana na fronteira sul de Koth, e, desde então, me fez instrumento de suas intrigas. Você não pode ser tão cruel quanto ele. Não deixe que me matem aqui, por favor! Por favor!

A garota se ajoelhara e chorava com atitude suplicante. Seu belo rosto estava coberto de lágrimas e a escura cabeleira sedosa lhe caía, desarrumada, sobre os ombros brancos. O cimério ergueu-a e sentou-a sobre os joelhos.

- Escute-me. Vou lhe proteger de Zargheba, e os sacerdotes não saberão nada de sua farsa, mas você deve fazer o que vou dizer.

Ela prometeu obedecer, e agarrou-se a ele como que buscando proteção.

- Está bem. Então, escute. Quando os sacerdotes chegarem, você fará o papel de Yelaya, tal como Zargheba havia planejado. Será noite e, à luz das tochas, eles não perceberão a diferença. Mas você lhes dirá o seguinte: “É a vontade dos deuses que o cão stígio e o cão shemita sejam expulsos de Keshan. São ladrões e traidores, que pretendem roubar os deuses. Ponham os Dentes de Gwahlur sob a custódia do general Conan e concedam-lhe o comando dos exércitos de Keshan. Ele é abençoado pelos deuses”.

A jovem estremeceu desesperadamente, mas concordou. Em seguida, falou:

- Mas, e Zargheba? Vai me matar!

- Não se preocupe com Zargheba. – respondeu Conan – Eu me encarregarei daquele cão. Diga aquilo que lhe ordenei. Vamos, agora arrume o cabelo e ponha de novo esta gema que caiu.

Conan pôs-lhe o rubi no cabelo e fez um gesto de aprovação.

- Esta jóia vale um carregamento de escravos. – disse – Agora, vista a saia de modo que não se veja o rasgo que fiz. Isso!... agora seque o rosto. Deusas não choram. Por Crom, agora você voltou a parecer enormemente com Yelaya. Se fingir de deusa tão bem quanto fez comigo, enganará a todos eles!

- Tentarei fazê-lo. – disse Muriela, sem conseguir dominar um calafrio.

- Bem, eu vou procurar Zargheba. – disse Conan.

A jovem se sentiu dominada pelo pânico, e exclamou, com a voz perturbada:

- Não, não me deixe só! Este lugar está enfeitiçado, Conan!

- Não há nada aqui que possa lhe fazer mal. – assegurou o cimério, impaciente – O único é Zargheba, e me encarregarei dele. Logo voltarei e estarei olhando, pra ver se algo sairá errado durante a cerimônia. Mas se fizer como deve, lhe asseguro que tudo andará bem.

O bárbaro deu meia-volta e saiu apressadamente da sala do oráculo, deixando atrás de si Muriela, que lamentava debilmente.

Caiu o crepúsculo. As grandes moradias estavam cheias de sombras. Os frisos de cobre brilhavam suavemente. Conan avançou como um espectro silencioso pelas enormes salas, sem conseguir evitar a sensação de que fantasmas invisíveis do passado olhavam-no da penumbra. Não era de se estranhar que a garota sentisse medo naquele lugar.

Desceu as escadas de mármore do palácio com a espada na mão. No vale, reinava o silêncio. Sobre a beirada dos taludes, as estrelas começavam a cintilar. Se os sacerdotes de Keshan haviam entrado no vale, ainda estavam longe, e nenhum ruído os delatava. Se afastou na direção sul, pela antiga avenida de pedras rachadas, que se perdia entre os densos matagais. Logo, viu um pequeno bosque de árvores de lótus, planta característica das terras de Kush. Ali, segundo a moça, Zargheba estava à espreita. Conan aumentou sua cautela, e desapareceu entre a espessura, como uma sombra com pés de veludo.

Aproximou-se dos arbustos de lótus, dando uma volta, e nem um só movimento de folhas revelou sua presença. Chegando ao limite das árvores, parou rapidamente, encolhido na vegetação como um felino à espreita. Diante dele, destacado sobre um fundo de folhas, viu um pálido oval. Podia tratar-se de uma das enormes flores de lótus, mas Conan sabia que era o rosto de um homem. E estava voltado para ele. Será que Zargheba tinha lhe visto? O homem o olhava diretamente. Passaram-se alguns momentos. O escuro rosto não se moveu. O bárbaro podia ver claramente sua curta barba negra.

De repente, o bárbaro se deu conta de algo estranho. Zargheba não era um homem alto. De pé, sua cabeça mal ultrapassava os ombros de Conan. No entanto, o rosto do outro estava na mesma altura que o bárbaro. Estaria de pé, em cima de algo? Conan procurou olhar o chão, no lugar em que se via o rosto, mas uma moita cobria-lhe a visão. Logo, olhou para cima e se sobressaltou. Através de um espaço que havia entre as folhas, deveria ter visto o corpo de Zargheba. Mas não viu corpo algum.

Então, tenso como um tigre que avança em direção à sua presa, o cimério enfiou-se nos matagais e afastou umas folhas para ver direito o rosto, que não havia se movido. E não voltaria mais a mover-se, não por vontade própria. Ele estava contemplando a cabeça de Zargheba, pendurada pelos longos cabelos ao galho de uma árvore.


3. A volta do oráculo

Conan virou-se com a agilidade de um felino e olhou ao redor. Não se via, em lugar nenhum, o corpo do homem assassinado. Um pouco mais além, o capim estava pisoteado e parecia úmido. O cimério prendia a respiração e aguçava os ouvidos para captar qualquer rumor. As árvores e matagais se destacavam contra o céu, como negras sombras, imóveis e sinistras.

Um temor primitivo invadiu o bárbaro. Seria aquilo obra dos sacerdotes de Keshan? Nesse caso, onde eles estavam? Seria Zargheba quem havia soado o gongo? Vieram-lhe novamente à lembrança Bit-Yakin e seus misteriosos servos. Bit-Yakin havia morrido e estava transformado numa múmia enrugada, em sua pequena cripta, saudando o sol do alvorecer todas as manhãs. Mas dos criados nada se sabia. Não havia provas de que houvessem sequer abandonado o vale!

Conan pensou na jovem Muriela, que estava sozinha no enorme palácio sombrio. Virou-se rapidamente e correu pela avenida de lousas de pedra, de volta ao edifício de cúpulas altas.

Ao aproximar-se, viu no pórtico um fulgor avermelhado, que se refletia no mármore do chão. Adentrou os arbustos que haviam em frente ao palácio e ficou diante da escada de entrada. Uma vozes chegaram até Conan. Várias tochas lançavam seus brilhos sobre seus lustrosos ombros de ébano. Os sacerdotes de Keshan haviam chegado.

Mas não vinham pela pavimentada avenida que o cimério acabava de percorrer, que era por onde Zargheba esperava vê-los chegar. Pelo visto, havia mais de uma entrada secreta ao vale de Alkmeenon.

Os sacerdotes subiam pelos largos degraus de mármore, com as tochas erguidas. Conan viu Gorulga, que encabeçava o desfile, e cujo perfil se destacava como o de uma moeda contra a chama do archote. Os demais acólitos eram negros gigantescos de pele brilhante. Encerrava a marcha um enorme negro, de aspecto maligno, à vista do qual o cimério estremeceu. Era Gwarunga, o qual Muriela disse ter revelado a Zargheba o segredo da entrada ao vale interior pelo lago. Conan perguntou-se até que ponto participaria aquele homem na confabulação do stígio.

O cimério avançou em direção ao pórtico, mas foi circundando a beirada dos arbustos, para que não o vissem. Os sacerdotes não deixaram ninguém na entrada do palácio. As tochas já iluminavam as pedras da longa e escura sala. Antes que chegassem à porta de bronze que havia na outra extremidade, Conan já havia subido as escadas e estava atrás deles, deslizando-se rapidamente por trás das colunas que margeavam as paredes. Eles não olharam para trás; apenas atravessaram o salão em fila indiana, com as plumas de avestruz mexendo-se sobre suas cabeças e as peles de leopardo, com as quais se cobriam, contrastando estranhamente com os mármores e os metais do antigo palácio. Pararam por um momento diante da porta dourada, à esquerda do estrado onde ficava o trono.

A voz de Gorulga, o sumo-sacerdote, ressoou de forma sinistra no grande espaço vazio. O homem pronunciou várias frases sonoras, mas ininteligíveis para quem escutava. Logo, o sacerdote abriu de par em par a porta de ouro e entrou na sala, fazendo uma profunda reverência. Os demais avançaram e se inclinaram, assim como seu mestre. A porta de ouro fechou-se atrás deles. Conan correu ao redor do trono e entrou na pequena moradia que havia atrás, sem fazer o menor ruído.

Leves raios de sol atravessaram os orifícios quando o cimério abriu o painel secreto. Deslizou até o nicho e observou pelos orifícios. Muriela estava sentada no trono, com os braços cruzados e a cabeça apoiada na parede, a pouca distância dos olhos do bárbaro. O delicado perfume dos cabelos da moça chegava até Conan. Não podia ver seu rosto, pois ela estava de costas pra ele, mas sua atitude parecia tranqüila e certamente estava olhando por cima da cabeça dos sacerdotes, como num transe eterno. O cimério sorriu e pensou consigo mesmo que a moça era uma excelente atriz. Sabia que ela estava aterrorizada, mas não demonstrava. Sob a luz trêmula das tochas, parecia ter o mesmo aspecto da deusa que acabara de substituir.

Gorulga entoava um cântico numa língua desconhecida para o cimério, que provavelmente era o antigo dialeto que se falava em Alkmeenon no passado. Sem dúvida, fora transmitido através de gerações de sacerdotes.

O cântico parecia interminável, e Conan começou a ficar inquieto. Quanto mais durasse aquilo, maior seria o nervosismo da moça. Se a descobrissem... O bárbaro agarrou o cabo da espada, pois não suportava a idéia de ver a jovem coríntia torturada por aqueles negros.

Mas o cântico, que tinha um tom profundo e ameaçador, finalmente terminou, e uma espécie de saudação em coro dos acólitos rubricou o final.

Logo, Gorulga voltou a erguer a voz e exclamou:

- Oh, grande deusa que vive nas sombras, permita que teus lábios se abram para estes escravos que mal ousam erguer a cabeça do pó que vossos pés pisam! Fala, grande deusa do vale sagrado! Tu conheces os caminhos insondáveis e, o que para nós são trevas, para ti é radiante luz! Derrama tua imensa sabedoria sobre estes teus servos! Diga-nos, oráculo dos deuses! Qual é a vontade destes, a respeito de Thutmekri, o stígio?

A espessa cabeleira da mulher agitou-se levemente diante dos olhos do cimério. A voz de Muriela chegou com absoluta claridade até os ouvidos de Conan, em meio ao tenso silêncio. Parecia gelada, impessoal, como correspondia a uma deusa. Mas o cimério estremeceu ao notar o sotaque coríntio da garota.

- É a vontade dos deuses – disse a jovem, repetindo quase palavra por palavra o que ele havia dito –, que o cão stígio e o cão shemita sejam expulsos de Keshan! São ladrões e traidores, que tentam roubar os deuses. Ponham os Dentes de Gwahlur sob a custódia do general Conan e concedam-lhe o comando dos exércitos de Keshan. Ele é abençoado pelos deuses!

Houve um estremecimento na voz de Muriela, quando esta concluiu, e Conan começou a suar, achando que a moça estivesse a ponto de sofrer um colapso. Mas os negros não perceberam nada, nem sequer o sotaque coríntio, que para eles era desconhecido. Deram umas palmadas e entoaram uns salmos como sinal de obediência. Os olhos de Gorulga brilharam com fanatismo à luz das tochas.

- Yelaya falou! – exclamou – É a vontade dos deuses! Há muito tempo, na época de nossos antepassados, estes se ocultaram por mandato divino, e os deuses livraram-nos da ameaça das terríveis presas de Gwahlur, o rei das trevas. Por ordem dos deuses, também esconderam os Dentes de Gwahlur, e por ordem sua voltarão à luz. Oh, deusa nascida entre os astros, dá-nos permissão para irmos até o esconderijo do tesouro, a fim de entregá-lo ao abençoado pelos deuses!

- Tens a minha permissão! – respondeu a falsa deusa, com um gesto imperioso que fez o cimério sorrir.

Os sacerdotes se retiraram, em meio à luz cintilante das tochas e ao movimento de suas plumas de avestruz.

A porta de ouro fechou-se atrás deles; então Muriela, com um gemido, despencou sobre o estrado.

- Conan! – ela disse em voz baixa – Conan!

- Shhh... espere! – respondeu ele, através dos orifícios da parede, e, depois de sair da cavidade, fechou a placa.

Um olhar mostrou ao bárbaro que as tochas afastavam-se pela sala do trono. No entanto, uma luz intensa iluminava o recinto. A lua havia se erguido no horizonte e sua luz entrava pela cúpula, iluminando o trono e seus arredores.

Quando o cimério se dispunha a cruzar a sala do trono, ele parou com um ruído que parecia vir da passagem que levava até a sala do oráculo. Escondeu-se na entrada, vigiando, enquanto lembrava do som do gongo, com o qual presumivelmente haviam atraído-o para fazê-lo cair na fria corrente subterrânea. Pareceu ouvir uns passos furtivos pelo corredor.

De repente, ressoou o grito abafado de uma mulher às suas costas. Correu em direção à porta que havia além do trono e, ao entrar na sala, viu algo inesperado.

Ali estava um sacerdote; era Gwarunga, cujo rosto estava contraído de fúria. Agarrava Muriela pela garganta e sacudia-a brutalmente.

- Traidora! – murmurava Gwarunga, com a voz sibilando como a de uma cobra – Que brincadeira é esta? Zargheba não lhe disse o que você tinha que dizer? Thutmekri me falou. Está traindo a seu amo, ou é ele que está nos traindo? Vou lhe...!

Um gesto involuntário da moça, que olhava por cima do ombro do sacerdote, deixou este na defensiva. Soltou Muriela e girou em círculo, no momento em que a espada de Conan abatia-se sobre ele. O impacto fez Gwarunga cair ao chão, com o sangue escorrendo-lhe abundantemente da cabeça.

Conan se apressou em acabar com ele, pois o movimento repentino do sacerdote fez a lâmina golpeá-lo superficialmente, mas a garota abraçou o cimério e exclamou:

- Fiz o que você me mandou! Agora tire-me daqui! Por favor, tire-me daqui!

- Não podemos ir embora agora. – respondeu Conan – Tenho que seguir os sacerdotes para ver onde estão as jóias. Pode haver um enorme tesouro ali. Mas pode vir comigo. Me diga, cadê o rubi que estava em seu cabelo?

- Deve ter caído no estrado. Eu estava tão assustada que, quando os sacerdotes saíram, me pus a correr atrás de você, mas esse brutamontes estava escondido e quis me estrangular...

- Bom, procure o rubi enquanto eu acabo com esse assassino. Vamos, essa gema vale uma fortuna!

Ela titubeou, como se temesse voltar à sala. Então, enquanto o bárbaro arrastava Gwarunga, a moça entrou na sala do oráculo.

Conan virou de barriga pra cima o desmaiado negro, e ergueu a espada. O cimério vivera tempo demais entre pessoas implacáveis para sentir impulsos de compaixão. O único inimigo inofensivo era o inimigo morto. Mas antes que desse o último golpe, um grito abafado deixou-o imóvel. Vinha da sala do oráculo.

- Conan! Conan! Ela voltou!

O grito terminou num gorjeio e num ruído surdo de passos.
Ao mesmo tempo em que praguejava, o cimério rodeou o trono a toda velocidade e entrou na moradia do oráculo. Lá, ele parou ofegante. Aparentemente, Muriela descansava placidamente sobre o estrado, com os olhos fechados como se estivesse dormindo.

- Que diabos está fazendo? – perguntou Conan – Isto não é hora para...

Interrompeu-se, quando seu olhar se deteve em sua perna esquerda, coberta pelo vestido. Ele mesmo havia rasgado o tecido nesse lugar, mas agora não se via o rasgo. Conan avançou alguns passos e pôs a mão sobre seu corpo ebúrneo... mas retirou-a em seguida, como se houvesse queimado ao perceber a fria imobilidade da morte.

- Por Crom! – exclamou – Não é Muriela! É Yelaya!

Agora compreendia o significado do grito frenético que escutara dos lábios de Muriela, quando esta adentrou a moradia. A deusa havia voltado. O corpo havia sido despojado de sua roupa por Zargheba, para vestir Muriela. Entretanto, aparecia agora com a mesma seda e as mesmas jóias com as quais Conan a vira pela primeira vez. O cimério sentiu o cabelo arrepiar-se.

- Muriela! – exclamou repentinamente – Muriela! Onde diabos está você?

Os muros devolveram-lhe zombeteiramente os gritos. Não havia outro acesso que não o da porta de ouro, e por ali ninguém podia ter entrado ou saído sem ser visto por ele. Mas uma coisa era indiscutível: Muriela havia sido substituída por Yelaya em poucos minutos. Em seus ouvidos ainda ressoava o grito da garota e, apesar disso, a coríntia parecia ter se esfumaçado. Deixando de lado toda explicação sobrenatural, Conan pensou que a única possibilidade era que houvesse uma porta secreta, naquela sala. E, enquanto esta idéia passava por sua cabeça, ele viu a porta.

No que parecia uma parede lisa, percebeu uma fresta, da qual se sobressaía um pedaço de seda. O cimério se agachou e confirmou que o tecido pertencia ao vestido de Muriela. Sem dúvida, este ficara agarrado ao fechar-se a porta atrás dela, enquanto seus captores arrastavam-na.

Conan introduziu sua adaga na fissura e fez pressão. A lâmina se curvou, mas a porta de mármore terminou abrindo. O cimério levantou a espada enquanto examinava cuidadosamente a abertura, mas não viu nada extraordinário. A luz que se infiltrava na sala do oráculo, atrás dele, revelou-lhe uma curta escada de mármore. Afundou sua adaga numa fenda no chão que havia diante da porta, para evitar que esta se fechasse, e desceu pela escada sem hesitar. Uma dúzia de degraus abaixo, ele se encontrou diante de um corredor que se perdia na escuridão.

O cimério parou ao pé da escada para examinar uns afrescos que adornavam as paredes, e que eram visíveis graças à luz que chegava do alto. Aquilo certamente fora pintado por pelishtios. Ele havia tido a oportunidade de ver muitos afrescos semelhantes nas paredes de Asgalun. No entanto, as cenas pintadas não tinham relação alguma com o povo de Pelishtia, com exceção de uma só figura humana, repetida várias vezes. Tratava-se de um ancião esguio, de barba branca, cujas características raciais eram inconfundíveis. As pinturas pareciam representar diversos setores do palácio acima. Algumas cenas reproduziam a sala do oráculo, com a figura deitada de Yelaya e um gigantesco negro ajoelhado diante dela. O velho pelishtio também estava pintado no nicho que havia atrás da parede. Havia outras figuras, que pareciam obedecer às ordens do ancião e arrastavam algo do rio subterrâneo. Conan ficou imóvel. Em seguida, compreendeu o sentido de muitas frases do pergaminho, as quais não entendera antes. Todas as peças do quebra-cabeças se encaixavam perfeitamente agora. O mistério de Bit-Yakin e de seus servos havia se desfeito.

O bárbaro virou-se e olhou em direção ao escuro túnel, sentindo um calafrio nas costas. Em seguida, começou a avançar pelo corredor, entrando cada vez mais na escuridão, à medida que afastava-se da escada. O ar se fazia cada vez mais pesado, carregado com o odor fétido que ele já percebera próximo ao gongo de ouro.

Nas trevas, ouviu-se um som à sua frente. Parecia o roçar de pés descalços sobre as pedras, ou de um vestido sobre o chão. Não saberia dizê-lo com precisão. Um segundo depois, sua mão encontrou uma barreira, que identificou como uma porta maciça de metal talhado. Empurrou sem obter nenhum resultado, e logo sua espada buscou em vão uma brecha. Voltou a empurrar, mas foi inútil. Nem mesmo uma manada de elefantes derrubaria aquele gigantesco portal.

Enquanto estava inclinado sobre a porta, percebeu, do outro lado desta, um som que identificou em seguida: era um ruído de ferro embolorado, como o de uma alavanca ao girar sobre o eixo. O cimério pulou para trás instintivamente; naquele preciso instante, desabou um grande bloco de pedra, vindo de cima, com estrondo ensurdecedor. Se tivesse saltado um segundo depois, Conan seria esmagado pela pedra, feito uma formiga.

O bárbaro imaginou que Muriela estivesse aprisionada atrás daquela porta de bronze, caso ainda vivesse. Mas era impossível transpô-la, e se continuasse naquele corredor, podia lhe cair outro bloco, e ele não ter tanta sorte quanto com o anterior. Não podia continuar procurando por ali. Tinha que encontrar outra entrada pelo alto.

Correu em direção às escadas e suspirou involuntariamente quando chegou a esta, e chegou a um local tenuemente iluminado. Mas ao subir os primeiros degraus, ouviu a porta de mármore se fechando e ficou submerso mais uma vez nas trevas.

Algo semelhante ao pânico apoderou-se do cimério, ao se ver capturado naquele túnel. Virou-se de espada em punho, mas não ouviu nenhum ruído. Talvez as pessoas que se encontravam do outro lado da porta – se fossem pessoas – acreditassem ter se livrado dele com a queda da pedra, que, sem dúvida, havia sido solta por meio de algum mecanismo especial.

Nesse caso, por que haviam fechado a porta superior da escada? O cimério abandonou aquelas especulações e subiu passo a passo, temendo receber uma facada a cada degrau que galgava.

Ao chegar à porta, empurrou com todas as forças e praguejou ao comprovar que ela também não cedia. Tateou pela fria superfície e encontrou um ferrolho que certamente fora corrido ao fechar-se a porta. Então, abriu o ferrolho e a porta. Logo, saltou em direção à moradia com o rosto crispado, como a encarnação da fúria, disposto a lutar com qualquer inimigo que estivesse à espreita.

A sala estava vazia, assim como o estrado. Yelaya havia desaparecido.

- Por Crom! – murmurou o cimério – Estaria viva, depois de tudo?

Avançou em direção à sala do trono, absolutamente desconcertado e, em seguida, um pensamento repentino fê-lo adentrar a sala que se encontrava atrás do estrado. Havia sangue no lugar onde deixara o corpo desmaiado de Gwarunga. Mas isso era tudo. O negro havia desaparecido tão misteriosamente quanto Yelaya.

Fernando Neeser de Aragão
Enviado por Fernando Neeser de Aragão em 23/05/2006
Código do texto: T161210
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Sobre o autor
Fernando Neeser de Aragão
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