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Sonhávamos com as férias. Os dias marcados um a um manchavam a parede do quarto até o verão chegar. Nossos pais, severos, riam do ritual quase religioso da infância dos seus gêmeos. Depois de recebermos o boletim escolar começávamos a preparar a viagem até as águas termais de Iraí. Aos dez anos a vida não era muito mais que ir deitado na parte de trás da camioneta Skoda, e brincar com a paisagem através dos vidros.
Enquanto o meu irmão contava casas de joão-de-barro, eu fixava os olhos nos túmulos à beira da estrada. Uma disputa desigual. Havia mais postes de luz que cemitérios, e mesmo com mais sepulturas a velocidade do automóvel não permitia que passassem de três ou quatro na minha conta.
Troquei para igrejas. Como elas estão em todos os lugares, propus: - Quero igrejas. - Ele não gostou, só aceitava se fossem sinos. Tocando. - Tocando? - protestei, afinal lutar contra a imaginação daquele guri parecido comigo era demais para mim. Quase quatrocentos quilômetros de joões-de-barro, igrejas e cemitérios depois ele veio com outra invenção. Dizia que os pássaros aproveitavam os postes de luz para iluminar seus ninhos e ainda puxavam o fio telefônico. - Assim, criam um sistema de comunicação - dizia com visível cara de deboche. - Os teus mortos não têm jeito de se comunicarem: ou ficam debaixo da terra ou encaixotados entre tijolos e cimento.
Não conseguia responder, não tinha respostas mesmo que tentasse de todas as maneiras dizer que os tijolos furados permitiam que as vozes pudessem ser escutadas. E que sinos chamam as pessoas. Para a missa, para confessar os pecados. Os meus argumentos caíam por terra. Ele ria às minhas custas. A pequena cidade surgia como uma metrópole e o silêncio no carro anunciava o cansaço da estrada vencida em doze horas.
Crianças crescem muito rápido. Quase não sentem a adolescência passar por suas peles. De repente, descobrem−se adultas. Muito cedo fomos separados. Cada um foi viver sua vida. Ele muito longe, talvez perto demais, não sei. Eu ficava apenas na vontade de poder lhe falar de novo, mas não sabia o número do telefone, quando estaria disponível, enfim, essas coisas que somente a distância sabe e impõe. Continuei marcando na parede os dias à espera de encontrá-lo.
Levei uma vida modesta, quase franciscana. Não por opção, mas por falta de, mesmo com o diploma de Direito dependurado na parede da sala da minha casa. Era um quadro de Monet em meus sonhos de funcionário público de nível médio. Daqueles que um dia seria leiloado, recheando de dólares a conta bancária. Mas quando fechava os olhos lá estávamos os dois subindo o teleférico nos Alpes. Desta vez, os esquiadores amadores eram as nossas vítimas. Ele escolhia sempre os de cor azul, os amarelos ficavam comigo. Ao final da tarde, segurando uma caneca de café, a vitória dos azuis o fazia vibrar, saboreando a minha derrota. Eu, vermelho de raiva por perder mais uma vez, não engolia o já frio cappuccino.
Acordava assustado. O suor no corpo, camiseta molhada, olhos inchados. Há muito não dormia bem. A cama era uma espécie de labirinto e eu nunca encontrava a saída. O travesseiro úmido e minha insônia se encontravam com freqüência. O acerto entre ambos me levou ao desespero. Contar para dormir: igrejas, sinos, túmulos, joões-de-barro. E ele não estava na disputa para ver quem dormiria primeiro. A noite perdida me levava à infância, às estradas de chão batido, aos carros de boi e ao verde do pampa se estendendo por todos os espaços que meus olhos podiam alcançar.
Casei com vinte anos. Colega de faculdade, desempregada, loura, olhos azuis. Minha mulher, apenas minha mulher. Deu-me dois filhos e pediu a separação. Acumular fracassos sempre fora o meu lado mais forte. Mas os meninos eram diferentes. Não brincavam como nos tempos em que eu e meu irmão éramos felizes. Agora disputam jogos eletrônicos. Passam as tardes às voltas com o videogame, vivem brigando e já pediram para cada um ter seu quarto. O mais velho tem dois anos de diferença do menor. Vale−se dela a todo o instante, não querem saber da mãe, não perguntam pelo tio, pelos avós, por ninguém. No natal pedi rendição: dei de presente um game de guerra. Foi mais uma das minhas mortes.
Viajamos para Capão da Canoa. Ainda era noite, lembro bem. Os dois bravos comigo, no Corsa não coubera a televisão. - Férias sem videogame, o que vamos fazer? -gritavam sem parar. Sugeri que até a praia contassem quantas casas de joão-de-barro encontrariam. Riram de mim. A única diversão deles.
Não vi a luz amarelada na curva, mas escutei o barulho. Senti dor, muita dor. Procurei os meninos. Não os achei. Uma sirene e algumas vozes me deixaram tranqüilo. Levei a mão à cabeça. O visco do sangue molhou os dedos, escorreu até os lábios e fechei os olhos. O sono pedia licença. Pensei que enfim poderia descansar um pouco.
Meu irmão tinha razão. Como sempre. Vinte e cinco anos depois tentei falar com ele. Não consegui. Então é mesmo verdade: não existe comunicação entre túmulos e cemitérios. Ele está no São Miguel e Almas desde os quinze anos. Eu cheguei hoje no João XXIII. Descobri que não existe um único fio telefônico entre as paredes e os tijolos, e que faz muito frio dentro deste caixão.
Lá fora, as badaladas dos sinos anunciam o início de mais uma missa. A fila do confessionário tem mais de dez pessoas. Para passar o tempo, pergunto-me qual delas deve ter mais pecados mortais.
 
fernandorozano
Enviado por fernandorozano em 26/05/2006
Código do texto: T163248
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Sobre o autor
fernandorozano
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil
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