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AS JÓIAS DE GWAHLUR - parte 2

por Robert E. Howard

Originalmente publicado em março/ 1935


4. Os Dentes de Gwahlur


Uma fúria de impotência dominava Conan. Não tinha a menor idéia de onde procurar Muriela, e o mesmo lhe ocorria a respeito do tesouro dos Dentes de Gwahlur. Só lhe ocorreu uma coisa: seguir os sacerdotes. Talvez, chegando ao esconderijo do tesouro, ele encontrasse algum indício. Era uma possibilidade bem remota, mas seria melhor do que vagar por ali, sem rumo fixo.

Enquanto avançava rapidamente pela enorme sala em direção ao pórtico, quase esperava que as sombras imóveis criassem vida e o atacassem com suas espantosas presas e garras. Mas quando chegou ao exterior e pisou no mármore iluminado pela lua, só notou as batidas aceleradas de seu coração.

Ao pé das escadas, deu uma olhadela para orientar-se sobre qual direção devia seguir. Imediatamente, encontrou um rastro. Sobre o capim, que estava pisado em determinados lugares onde também se via pequenos galhos quebrados, havia numerosas pétalas. Conan, que havia seguido o rastro de lobos em suas montanhas natais, não teve dificuldade nenhuma em seguir o dos sacerdotes.

As pegadas se afastavam do palácio entre os exóticos matagais, onde cresciam grandes flores esbranquiçadas. Finalmente, chegou diante de uma enorme massa rochosa que destacava-se dos paredões como um gigantesco castelo. Sem dúvida, o sacerdote charlatão havia se equivocado ao dizer que as jóias estavam ocultas no palácio, posto que o rastro o havia levado pra fora deste. Entretanto, Conan tinha a impressão de que todos os pontos do vale estavam conectados ao palácio, através de corredores secretos.

Agachado entre as sombras dos matagais, o cimério examinou o enorme penhasco que brilhava ao luar. Estava coberto por entalhes grotescos que representavam homens, animais e uns seres bestiais que podiam ser homens ou demônios. O estilo dos entalhes se diferenciava tão notavelmente do que se via no resto do vale, que Conan se perguntou se não seria uma relíquia primitiva de épocas anteriores à fundação de Alkmeenon.

Na rocha, havia uma enorme porta. Em redor desta, haviam sido talhadas as presas de um dragão. A porta era de bronze e parecia bem pesada. Não havia fechaduras visíveis, mas nas duas portas, abertas de par em par, se via um estranho mecanismo, certamente usado como tranca, cujo funcionamento só os sacerdotes de Keshan deviam conhecer.

O rastro indicava que Gorulga e seus acólitos haviam entrado por aquelas portas. Mas Conan hesitou. Se esperasse até eles saírem, talvez encontrasse-os fechando a porta, cujo mecanismo parecia bem seguro. Se os seguisse no interior da gruta, eles poderiam deixá-lo trancado ao saírem.

Finalmente se decidiu e adentrou a gruta. Em algum lugar daquele recinto, encontravam-se os sacerdotes, os Dentes de Gwahlur e talvez a chave do que havia ocorrido a Muriela. Os perigos nunca haviam intimidado Conan em suas tarefas.

A lua iluminava uma parte do túnel pelo qual entrara o cimério. À distância, percebeu um brilho tênue e, dali, parecia chegar um estranho cântico. Os sacerdotes não estavam tão longe como pensara. O túnel desembocava numa caverna de pequenas dimensões, com um alto teto abobadado.

Umas incrustações na rocha produziam uma luminosidade fosforescente. Sob a tênue luz, o bárbaro pôde ver uma imagem de aspecto monstruoso que se encontrava num altar. Na gruta, desembocavam meia dúzia de túneis e, pelo maior, percebia-se o luminoso cintilar das tochas. O cântico aumentava.

Conan adentrou temerariamente a passagem e, rapidamente, se viu contemplando uma caverna de dimensões maiores que a anterior. Ali não havia fosforescência, mas a luz das tochas iluminava um altar com a imagem de um deus ainda mais repugnante que o anterior. Parecia um sapo e, diante dele, estavam ajoelhados Gorulga e seus acólitos, que entoavam cânticos monótonos. O cimério achou que haviam avançado muito pouco. Evidentemente, penetrar na cripta secreta do tesouro constituía um ritual bem complicado.

O bárbaro começava a se impacientar, quando os sacerdotes ergueram-se e entraram por um túnel que havia atrás do ídolo. Ele os seguiu a uma certa distância. Não havia muito perigo de ser descoberto, já que deslizava entre as sombras como uma criatura da noite, enquanto os sacerdotes estavam completamente absortos em seu grotesco protocolo. Ao que parecia, não haviam sequer notado a ausência de Gwarunga.

Chegaram a uma caverna de grandes dimensões, por cujas altas paredes se viam galerias que formavam diversos andares. Voltaram a iniciar o ritual, agora diante de um altar cujo deus tinha um aspecto ainda mais espantoso que os anteriores.

Conan se apoiou na parede, perto da entrada da gruta, em cujo interior brilhavam as tochas. Viu uma escada que subia em espiral de galeria em galeria. O teto se perdia nas sombras.

Mas o cântico parou subitamente. Os sacerdotes ajoelhados levantaram a cabeça e o cimério não conseguiu evitar um tremor.

Uma voz inumana, impossível de identificar, ressoou ruidosamente acima deles. Os sacerdotes ficaram imóveis, com o olhar fixo numa luz fantasmagórica que iluminava uma figura. A luz se intensificou e os acólitos gritaram. Haviam reconhecido aquela silhueta vestida de seda e ouro.

- Yelaya! – exclamou Gorulga, com o rosto pálido – Por que nos seguiu? O que queres de nós?

Voltou-se a ouvir a voz, ampliada pelos inumeráveis ecos da abóbada:

- Malditos sejam os sacrílegos! Que caia a perdição sobre quem nega ao verdadeiro deus!

Dos lábios dos sacerdotes surgiu um grito de assombro. Gorulga parecia um abutre desconcertado à luz das tochas.

- Não... não compreendo. – disse, gaguejando – Nós somos fiéis a ti. Na sala do oráculo, tu nos disseste...

- Esqueça o que foi dito na sala do oráculo! – trovejou a voz – Cuidado com os falsos profetas e os falsos deuses! Um demônio ocupou meu lugar e lhes deu uma falsa profecia. Agora escutem e obedeçam, pois eu sou a única deusa verdadeira. Oferecerei-lhes uma oportunidade de salvarem-se!

“Tirai o tesouro dos Dentes de Gwahlur da cripta na qual se encontra há tanto tempo. – continuou – Alkmeenon já não é um lugar sagrado, porque foi profanado por gente de pouca fé. Ponham o tesouro nas mãos de Thutmekri, o stígio, para que ele o leve ao santuário de Dagon e Derketo. Apenas isto pode salvar Keshan da ruína que os demônios das trevas planejam para nosso país. Pegai, pois, o tesouro e voltai imediatamente à capital de Keshan. Entregai, lá, as jóias a Thutmekri e mandai esfolar vivo àquele maldito estrangeiro chamado Conan, na grande praça da cidade”.

Não houve a menor indecisão. Tremendo de horror, os sacerdotes correram atropeladamente em direção à porta que havia atrás do repugnante ídolo. Gorulga encabeçava a fuga. Amontoaram-se na porta, lançando exclamações, e, pouco depois, seus passos se perderam nos túneis.

Conan não os seguiu. Estava furioso e consumido pelo desejo de descobrir a verdade sobre aquele fantástico assunto. Seria aquela a verdadeira Yelaya, ou a jovem Muriela, que afinal o traíra? Nesse caso...

Antes que a última tocha desaparecesse pelo túnel escuro, o cimério já subia, com expressão vingativa, pela escada de pedra. O fulgor diminuía de forma apreciável, mas o bárbaro ainda conseguia distinguir a figura esbranquiçada que permanecia imóvel na galeria. Sentiu um suor frio na fronte, mas não vacilou. Aproximou-se com a espada erguida e pairou, como a própria morte, sobre a inexplorável figura.

- Yelaya! – gritou – Morta, como esteve durante mil anos!

Da boca de um túnel que se abria às costas do cimério, surgiu uma forma imprecisa. Mas o ruído, mal perceptível, que produziu, pôs Conan em alerta. Este virou-se como um tigre e acertou um golpe quase às cegas. Sua enorme espada atravessou o atacante e saiu-lhe entre os ombros.

Conan arrancou o sabre, enquanto a vítima caía ao chão com um último gemido de agonia. O homem se retorceu por um momento e logo ficou imóvel. Sob a tênue luz, Conan viu um corpo negro e robusto. Havia matado Gwarunga.

Então, o cimério virou-se em direção ao corpo da deusa. Algumas cordas mantinham-na amarrada, pelo peito e joelhos, a uma das colunas. A poucos passos de distância, as amarras não se viam, devido à pouca luz.

- Deve ter me seguido quando desci pelos degraus da porta falsa, na sala do oráculo. – murmurou Conan – Certamente imaginou que estava lá embaixo, e tirou a adaga que eu havia colocado para que a porta não se fechasse. Ah, aqui está!

O cimério tirou a adaga, com a qual Gwarunga pretendia apunhalá-lo, de entre seus dedos rígidos e examinou-a detidamente. Comprovou que de fato era a sua, e colocou-a novamente no cinto.

- Logo depois, levou Yelaya... – continuou raciocinando Conan – pra enganar esses néscios. Em seguida, gritou o que lhe convinha, e sua voz não foi reconhecida, já que os múltiplos ecos da caverna desfiguravam-na. E quanto a essa luminosidade azulada... me parece familiar. Sim, é uma substância usada pelos sacerdotes da Stygia. Provavelmente, Thutmekri entregou-a a Gwarunga, que dela precisava. Familiarizado com as cerimônias de seus companheiros, Gwarunga deve ter entrado na gruta depois dos demais sacerdotes. – continuou murmurando – Levava o corpo de Yelaya e o colocou num local, para representar a farsa, enquanto seus companheiros se dedicavam ao interminável ritual.

O cimério descobriu outra fonte de luz. Vinha de um dos túneis que levavam ao patamar e seguia a direção que os sacerdotes haviam tomado. Talvez desse acesso a outra gruta, na qual se encontrassem os sacerdotes nesse momento. Apressou o passo e voltou a ouvir, mais adiante, os cânticos dos sacerdotes de Keshan.

De repente, viu uma porta à esquerda, emoldurada na fosforescência azulada. Um soluço dilacerante chegou até seus ouvidos. Virou-se rapidamente e olhou através do vazio luminoso.

Estava olhando no interior de uma moradia, escavada no rochedo, no de uma caverna, como as anteriores. O teto abobadado brilhava devido ao efeito da substância fosforescente. As paredes estavam quase totalmente cobertas de arabescos dourados.

Próximo à parede da frente, sobre um trono de granito e olhando em direção à porta, encontrava-se o monstruoso e obsceno Pteor, deus dos pelishtios. Era feito de latão, e seus exagerados atributos masculinos refletiam a rusticidade do culto. Sobre seu colo, estava estendida uma figura imóvel.

- Maldição! – sussurrou o cimério, observando a estância com receio.

Ao ver que não havia outra entrada nem outras pessoas, avançou silenciosamente e olhou a moça, cujos ombros se moviam convulsivamente pelo pranto. A jovem tinha o rosto oculto entre as mãos, e seus pulsos estavam presos, por algemas de ouro e correntes do mesmo metal, a outras algemas, que o ídolo tinha nos braços. O cimério tocou com a mão direita o ombro nu da garota e esta se estremeceu.
Depois de dar um grito, ela levantou seu rosto banhado de lágrimas.

- Conan! – exclamou Muriela, estendendo os braços em direção a ele, mas as correntes impediram-na.

O cimério colocou as delgadas correntes sobre o joelho do ídolo, e quebrou-as com a espada.

- Terá que levar estas pulseiras, até que encontremos um cinzel ou uma lima. – ele grunhiu, referindo-se às algemas – Vocês, atrizes, são muito emotivas. O que aconteceu com você?

- Quando voltei à sala do oráculo – começou a explicar Muriela –, vi a deusa estendida, tal como eu vira na primeira vez. Gritei e comecei a correr em busca de você, mas alguém me segurou por trás, tapou minha boca com a mão, me arrastou por uma escada e, logo, através de uma moradia escura. Eu não sabia quem havia me capturado, até cruzarmos uma grande porta de metal e chegarmos a um túnel, cujo teto brilhava como o desta sala.

“Quase desmaiei quando os vi! – prosseguiu a jovem – Eles não eram seres humanos! São uns demônios de pêlo grisalho, que andam desajeitadamente e falam uma língua que não parece humana. Permaneceram ali, e pareciam estar esperando algo. Ouvi alguém tentar abrir a porta do lado de fora. Então, um desses seres empurrou uma alavanca que havia na parede, e ouvi um estrondo, como se houvesse caído uma enorme pedra do outro lado da porta de bronze. Logo depois, me levaram por corredores sinuosos e subimos uma escada até chegar aqui, onde me acorrentaram a esse ídolo assustador. – continuou – Depois, se foram e me deixaram só. Conan, quem eram aquelas criaturas?”

- São os servos de Bit-Yakin. – respondeu ele, com um grunhido – Encontrei um manuscrito que revelava algumas coisas a respeito deles e, depois, vi uma pintura na parede, que me mostrou o resto. Bit-Yakin era um pelishtio que chegou ao vale interno com seus criados, uma vez que o povo de Alkmeenon havia abandonado o lugar. Encontrou o corpo da princesa Yelaya, e descobriu que os sacerdotes voltavam de vez em quando para fazerem-lhe oferendas, pois, naquela época, Yelaya ainda era venerada como deusa.

“Preparou um nicho na parede, atrás do estrado, e falou através de uns orifícios, fazendo os sacerdotes acreditarem que era a voz da deusa. – continuou dizendo – Assim nasceu o oráculo. Os sacerdotes nunca suspeitaram de nada. Não viam os servos de Bit-Yakin, pois estes se escondiam quando realizava-se alguma cerimônia. Assim viveu e morreu Bit-Yakin neste palácio, sem que os sacerdotes tivessem conhecimento. Só o céu sabe quanto tempo ele permaneceu aqui, mas devem ter sido séculos. Os sábios pelishtios são capazes de prolongar suas vidas durante centenas de anos. Eu vi alguns deles.

“Ninguém é capaz de dizer por que viveu aqui sozinho e desempenhou o papel de oráculo – prosseguiu –, mas imagino que o fez para manter o palácio inviolado e pra ninguém vir perturbar a paz reinante. Bit-Yakin comia os manjares que lhe traziam como oferenda a Yelaya. Seus criados comiam outras coisas. Eu sempre soube que existia um rio subterrâneo, que partia do lago onde o povo dos planaltos de Punt lançava seus mortos. Esse rio passa por baixo do palácio e, através de umas escadas que chegam até a água, eles se apoderam dos cadáveres. Tudo isto foi registrado por Bit-Yakin no pergaminho e em alguns afrescos pintados nas paredes.

“Mas o ancião acabou morrendo. – acrescentou Conan – Seus criados o mumificaram, segundo as instruções que ele havia lhes dado, e logo puseram-no em uma pequena cova, existente nos taludes rochosos. O resto é fácil de imaginar. Os servos, que gozaram de uma vida mais longa que seu amo, continuaram vivendo aqui. Quando chegava um sacerdote, esquartejavam-no. Por esse motivo, até a chegada de Gorulga, ninguém se atrevia a consultar o oráculo.
“É evidente que, de tempos em tempos, os criados renovavam as roupas da deusa, como viam seu amo fazer. – concluiu – Certamente, possuem uma estância onde as sedas não se vêem afetadas pela passagem do tempo. Eles devolveram a deusa a seu lugar, depois de Zargheba tê-la levado. E eles também cortaram a cabeça deste e penduraram-na numa árvore”.

Muriela se estremeceu, mas ao mesmo tempo suspirou aliviada.

- Não voltará mais a me chicotear. – disse.

- Não deste lado do inferno. – concordou o bárbaro – Mas, vamos. Gwarunga estragou meu plano, ao levar a deusa. Vou segui-los e procurarei roubar-lhes o tesouro quando o tiverem encontrado. Ande sempre ao meu lado. Não posso ficar lhe vigiando o tempo todo.

- Mas, e os criados de Bit-Yakin? – perguntou a jovem, com um sussurro temeroso.

- Teremos que arriscar. – ele respondeu – Não sei o que passa por suas cabeças, mas até agora não demonstraram nenhuma intenção de sair para lutarem em campo aberto. Vamos.

Conan pegou a moça pela mão e levou-a pelo corredor. Enquanto avançavam, ouviram o cântico dos sacerdotes misturado ao rumor de uma corrente d’água. A luz ficou mais intensa, e foram parar numa plataforma natural que levava a uma caverna gigantesca. Da galeria, contemplaram uma cena fantástica.

Acima deles, brilhava o teto fosforescente. A uns trinta metros abaixo, estendia-se o solo uniforme da caverna que, em sua extremidade mais afastada, era banhado por um rio de águas tempestuosas e espumantes. A correnteza surgia da escuridão, refletia em sua superfície miríades de fulgores do teto e, após percorrer a gruta, ia perder-se novamente nas trevas.

O cimério e sua companheira se encontravam numa plataforma, da qual se estendia uma ponte natural de pedra, que terminava em forma de arco, em outra plataforma situada na parede oposta da gruta, depois de passar sobre o riacho.

Abaixo da ponte uns três metros, havia outra ponte mais larga, que seguia a mesma direção.

Em ambas as extremidades, havia uma escada talhada na rocha, que unia aqueles enormes arcos.

Depois de seguir a curva do arco que afastava-se da plataforma na qual se encontrava, Conan distinguiu uma abertura na parede da gruta, através da qual se via as estrelas.

Mas a sua atenção se viu atraída pela cena que se desenrolava sob eles. Os sacerdotes haviam chegado a seu destino. Ali, numa esquina da gruta, erguia-se um altar de pedra sobre o qual não havia nenhum ídolo. Não dava pra ver se este estava atrás, porque aquela parte encontrava-se completamente às escuras.

Os sacerdotes haviam posto suas tochas nuns orifícios que haviam no chão de pedra, de modo que os fachos formavam um semicírculo de fogo diante do altar, a vários metros de distância deste. Eles também formaram um semicírculo no interior do outro, e Gorulga, depois de levantar os braços numa invocação, se inclinou sobre o altar e pôs as mãos sobre este. A laje superior se abriu para trás, quando o sumo-sacerdote ergueu-a e apareceu uma pequena cripta.

Gorulga estendeu seu longo braço em direção ao orifício e retirou um pequeno cofre de bronze. Deixou a laje do altar cair à sua posição anterior, e pôs o pequeno cofre em cima. Em seguida, começou a abrir a tampa deste. Aos interessados observadores que se encontravam na plataforma superior, parecia que haviam liberado uma chama de fulgor muito intenso, que brilhava e palpitava dentro do cofre. O coração do cimério sobressaltou-se. Conan pegou mecanicamente no cabo de sua espada. Os Dentes de Gwahlur, finalmente! O tesouro que transformaria seu possuidor no homem mais rico do mundo!

De repente, Conan se deu conta de que, em torno do altar, só brilhava a chama maligna dos Dentes de Gwahlur, que continuava crescendo cada vez mais. Os sacerdotes negros estavam imóveis como estátuas de basalto, e olhavam com gesto de profundo espanto.

Em seguida, o misterioso espaço, situado atrás do altar, começou a iluminar-se e, ao fazê-lo, puderam-se ver umas figuras espantosas que pareciam surgir da noite e do silêncio sem fim.

A princípio, pareciam estátuas de granito cinza. Mas aqueles seres peludos de aspecto repulsivo estavam vivos. Só seus olhos pareciam ter vida, como se fossem brasas ardentes. Gorulga gritou horrorizado, ao mesmo tempo em que erguia os braços com atitude defensiva.

Um braço mais longo avançou em sua direção e uma mão agarrou-lhe a garganta. Gritando e debatendo-se, o sumo-sacerdote foi arrastado até ficar estendido sobre o altar. Então, um punho abateu-se sobre ele como uma maça, e os gritos de Gorulga cessaram.

Seu corpo ficou inerte sobre a laje, com o crânio esmagado. Em seguida, os antigos servos de Bit-Yakin lançaram-se como uma turba demoníaca sobre os sacerdotes, que continuavam imóveis de horror.

A matança que se seguiu foi repugnante e estremecedora. Conan viu corpos negros dilacerados pelas mãos pouco humanas dos atacantes, contra cuja terrível força e agilidade de nada adiantaram as adagas e espadas dos sacerdotes. Viu corpos erguidos no ar e arremessados contra o altar. Viu uma tocha sustentada por uma mão monstruosa, que se retorcia em vão. Apenas um sacerdote conseguiu escapar, dando alaridos, mas uma horda sangrenta de formas horrorosas perseguia-o de perto. O fugitivo e seus perseguidores desapareceram pelo negro túnel, enquanto os gritos do homem continuavam chegando, cada vez mais debilitados pela distância.

Muriela estava ajoelhada, com os olhos fechados e abraçada às pernas de Conan. Era a viva imagem do espanto.

Mas o cimério entrou em ação. Deu uma olhada no orifício pelo qual brilhavam as estrelas, logo depois observou o cofre, que ainda reluzia sobre o altar ensangüentado, e ali viu uma oportunidade desesperada.

- Vou até o cofre! – exclamou – Fique aqui!

- Não, por favor! – gritou a moça, agarrando-lhe os joelhos – Não! Não me deixe!

- Fique quieta e não abra a boca! – disse o cimério, livrando-se dos braços de Muriela.

Desprezando a escada, o cimério desceu de plataforma em plataforma, com vários saltos ágeis. Ao chegar ao solo, não viu rastro algum dos monstros. O fulgor que havia precedido à aparição dos antigos servos de Bit-Yakin desapareceu com eles. Somente as jóias, que estavam no cofre de bronze, continuavam projetando sua luz cintilante. Conan se apoderou do cofre, mas primeiro olhou avidamente seu conteúdo: umas gemas de forma estranha, que resplandeciam com brilho gelado, ultraterreno. Fechou a tampa de um golpe, colocou o pequeno cofre debaixo do braço e correu pelos degraus abaixo. Não tinha nenhum desejo de enfrentar os criados infernais de Bit-Yakin. “Por que esperaram tanto para atacar?”, ele se perguntou. Impossível sabê-lo. Nenhum ser humano podia explicar as reações daqueles monstros. Não havia dúvida de que possuíam uma inteligência similar à humana. Mas, no chão da caverna, jazia a prova de seu espírito bestial.

A garota coríntia ainda estava ajoelhada quando o cimério chegou. Este pegou-a pelo pulso e ergueu-a, ao mesmo tempo que lhe dizia com um grunhido:

- É hora de irmos embora!

Aterrorizada demais para se dar conta do que acontecia, a jovem se deixou conduzir ao longo da estreita ponte de pedra. Só quando ficaram acima da corrente, a moça olhou pra baixo, deu um grito e cambaleou no ar. Conan proferiu uma maldição, envolveu-lhe a cintura com o braço e levou-a acima do chão até a outra extremidade da ponte natural.

Logo correram pelo curto túnel que havia do outro lado e, um momento depois, saíam numa estreita cornija rochosa, situada no lado externo dos paredões que cercavam o vale. Abaixo, a menos de trinta metros, as folhas das árvores se agitavam à luz das estrelas.

Ao olhar em direção à floresta, o cimério deixou escapar um suspiro de alívio. Se sentia capaz de descer por aquele talude, mesmo tendo de carregar a garota e o cofre.

Depositou na rocha o pequeno cofre, que ainda estava manchado pelo sangue de Gorulga, e já se dispunha a amarrá-lo nas costas com seu cinto, quando ficou imóvel ao ouvir, atrás de si, um ruído sinistro e inconfundível.

- Fique aqui! – disse à atemorizada coríntia – Não se mova!
O cimério desembainhou a espada e deslizou cautelosamente pelo túnel.

Na metade da ponte, havia um corpo grisalho. Um dos antigos criados de Bit-Yakin vinha seguindo o casal. Não havia dúvida alguma de que o monstro tinha visto a ambos. Conan não vacilou. Tinha que acabar com ele, antes que os outros servos voltassem.

Lançou-se diretamente contra o monstro, que não era simiesco nem humano. Era uma criatura pavorosa, surgida das misteriosas selvas do sul, às quais o homem não havia chegado e de onde se ouvia permanentemente o rufar de tambores.

Ambos se encontraram na parte mais alta do arco da ponte, sob a qual as águas corriam furiosas a uns trinta metros. Conan atacou, como um tigre, o monstro com rosto de troglodita e asqueroso corpo grisalho. Golpeou com sua espada, pondo todas as energias do corpo no golpe. Aquele golpe teria despedaçado o corpo de um homem. Mas os ossos do antigo servo de Bit-Yakin pareciam feitos de aço. Apesar disso, o golpe destroçou-lhe parte do peito e o sangue jorrou aos borbotões do enorme ferimento.

Antes que o cimério pudesse dar um segundo golpe, um braço gigantesco varreu-o da ponte, como se ele fosse uma mosca. Enquanto caía, o rumor da correnteza pareceu a Conan um fúnebre dobrar de sinos. Mas seu corpo deu uma volta no ar e foi cair parcialmente sobre a ponte que havia embaixo. Balançou-se precariamente por um instante e, finalmente, seus dedos se agarraram à beirada oposta da ponte, evitando a queda. Logo saltou sobre o arco de pedra. Ainda levava a espada na mão direita.

Naquele momento, viu a criatura que sangrava em abundância e corria em direção à extremidade da ponte com a intenção de descer pela escada onde Conan se encontrava. Uma vez chegando ao final da ponte, o monstro parou repentinamente. Na entrada do túnel, havia visto Muriela com o cofre baixo e um gesto de horror no rosto. Bramindo um rugido triunfal, o monstro agarrou a moça com um braço e pegou o pequeno cofre com a outra mão. Logo recuou para cruzar a ponte. O cimério gritou uma praga, pois percebeu que não chegaria a tempo. Tinha que subir a escada de pedra que separava-o da ponte superior e, naquele momento, o ser inumano já havia desaparecido pelo labirinto de túneis que havia do outro lado.

Mas o monstro perdia força. O sangue não havia parado de jorrar do tremendo ferimento que tinha no peito, e agora ele oscilava feito um bêbado sobre o arco. De repente, despencou sobre a rocha e logo se precipitou no abismo. A garota e o cofre caíram de suas mãos inertes. Muriela lançou um grito terrível.

Conan estava quase embaixo do local onde o monstro havia caído. Este bateu na segunda ponte, mas ricocheteou e se precipitou nas águas trovejantes. A moça, por sua vez, conseguiu manter-se na beirada do arco de pedra. O cofre caiu a um lado de Conan, e Muriela no outro, ambos ao alcance da mão do cimério. Por alguns instantes, o cofre girou sobre a pedra; a garota agarrou-se desesperadamente às rochas com um braço, fitando Conan com os olhos arregalados de espanto.

O bárbaro não hesitou. Nem sequer olhou para o cofre que continha as riquezas de toda uma era. Deu um salto, que envergonharia a mais ágil pantera, e pegou a garota pelo pulso, quando os dedos desta já escorregavam pela ponte. Logo, dando um tremendo puxão, ergueu-a sobre a rocha. O cofre ultrapassou a beirada e, depois de traçar um arco, foi cair nas águas, a trinta metros de distância. Uma branca mancha de espuma apontou o local em que os Dentes de Gwahlur desapareceram para sempre da vista dos homens.

O cimério mal se incomodou em olhar. Correu pela ponte e subiu pelos degraus de pedra, levando a moça, meio desmaiada, debaixo do braço. Um berro espantoso fê-lo virar a cabeça quando alcançava o arco superior, e ele viu os demais monstros que irrompiam na caverna, pela parte de baixo, com as mãos ensangüentadas. Correram para cima e começaram a subir as escadas que uniam entre si as saliências rochosas. Conan pôs a garota nas costas e iniciou a descida com temerária rapidez. Quando os rostos ferozes apareceram pela abertura, o cimério e a garota já desapareciam pela floresta que cercava os paredões externos do vale de Alkmeenon. Conan depositou Muriela no solo, no meio da densa vegetação.

- Bom, creio que podemos descansar. – disse – É quase impossível que esses monstros nos sigam fora do vale. Entretanto, buscarei um cavalo que deixei atado junto a um poço, não longe daqui. Ele estará lá, caso as feras não o tenham comido.

O cimério olhou-a, estranhado, e acrescentou:

- Por Crom! Pode me dizer por que está chorando justo agora?

Muriela cobriu o rosto com ambas as mãos, e seu corpo estremeceu-se por causa dos soluços.

- Você perdeu as jóias por minha culpa. – disse ela, com infinita aflição – Se eu tivesse ficado fora, na plataforma, o monstro não teria me visto. Você devia pegar o cofre e me deixar cair!

- Sim, creio que me seria mais conveniente. – ele respondeu com um sorriso – Mas esqueçamos o passado. Vamos, deixe de chorar. Isso. Agora, vamos.

- Então, vai me levar com você? – perguntou a jovem, esperançosa.

- Que outra coisa devo fazer? – disse o cimério, retomando a marcha.

Logo, olhou-a minuciosamente, fez um gesto de aprovação e voltou a sorrir ao ver a saia rasgada, que deixava à mostra uma parcela generosa de seu corpo ebúrneo.

- Creio que uma boa atriz como você me pode ser bem útil. Não temos mais o que fazer em Keshan. Vamos a Punt. Os nativos daquele país adoram uma deusa de marfim, e extraem ouro de seus rios em cestas de vime. Direi-lhes que Keshan está tramando com Thutmekri contra eles, o que é bem provável, e que os deuses me enviam para protegê-los. Procurarei colocá-la secretamente no templo onde encontra-se a sua deusa de marfim, para que você ocupe seu lugar. Então, iremos nos ressarcir da perda do cofre e lhes tiraremos até a última pepita de ouro!


Fernando Neeser de Aragão
Enviado por Fernando Neeser de Aragão em 13/06/2006
Código do texto: T174987
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Sobre o autor
Fernando Neeser de Aragão
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