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Meu Cigano

Eu estava tao perdida... imersa em minha tristeza, fitava o mar na sua vastidao negra banhada por um luar intenso, ouvindo seu marulhar quase hipnotico que me embalava em paz.
Quando ele chegou, silenciosamente, como se surgisse de um sonho, assustei - me ao ver aquele par de botas altas e reluzentes a minha frente. Levantei lentamente os olhos, o medo me deixando o corpo tremulo, e observei, a luz do luar, as roupas que cobriam o corpo vigoroso e bem feito: calça de veludo escuro, colada as pernas muito longas, camisa de mangas compridas e fofas, cuja seda branca brilhava ao luar e um belo jaleco colorido, que completava o conjunto.
 Apareceu, simplesmente... belo, garboso, viril, alto e de ombros largos, queixo quadrado e forte, boca voluntariosa, seu rosto refletia a expressao arrogante dos homens livres e decididos que sabem o que querem e como conseguir. Ao fitar seus olhos, pude sentir uma chama interior que se refletia por todo seu rosto, expressando uma intensidade ardente. Eu sabia que estava rubra, pois meu rosto queimava e tentei afastar-me, mas uma mao poderosa prendeu - me pelo pulso, delicada mas firmemente; um pequeno grito escapou dos meus labios, mas eu estava por demais fascinada por aquele homem que parecia ter saido de um sonho. Sem nada dizer, levou - me ateh um acampamento a pouca distancia, onde uma enorme fogueira cujo clarao eu jah havia visto, de longe, crepitava, alegremente e a sua volta, ciganos, belos, coloridos e livres ciganos, cujo lar eh o mundo, o lugar onde estiverem, no momento. Mostrou - me a eles que, com curiosidade me olhavam, tocavam meus longos cabelos, minhas roupas e falavam um dialeto do qual eu nada entendia. Alguem jogou - me sobre os ombros um xale ricamente bordado e colorido e ele colocou - me uma flor nos cabelos... e nesse instante, uma deslumbrante mulher com uma mantilha vermelha sobre os ombros cor de cobre, aproximou - se da fogueira, fazendo um gracioso volteio; todos começaram a bater palmas e, por meio de gestos, ele deu - me a entender que devia faze - lo, tambem.
A musica que ateh entao era suave, foi ficando mais e mais forte, conforme a bela cigana dançava, e num frenesi que penetrava dentro de mim, despertando desejos intensos de agitar meu corpo ao ritmo alucinante, observava a belissima mulher dançando com perfeiçao e graça, seu corpo de cobre brilhando as chamas do fogo que lhe colocava reflexos coloridos nos cabelos longos e encaracolados e nas joias que tilintavam ao compasso das castanholas. Quando, num crescendo, a musica atingiu seu climax, aquele corpo dourado pareceu percorrido por uma forte intensidade, contraindo - se em espasmos que iam diminuindo, conforme o ritmo da musica; ao final, deixou - se deslizar sobre si, mesma, ate o chao, e ali ficou, como uma flor exausta, o corpo agitado pela respiraçao ofegante e, no rosto, uma mascara de cansaço, uma expressao de plena satisfaçao, como quem acaba de atingir o extase, a gloria mais pura! Um longo suspiro revelou - me que eu estivera, sem perceber, retendo a respiraçao, enquanto assistia a dança frenetica da bela cigana, contagiada pela musica. Senti uma levre pressao em meus ombros e uma grande emoçao, agora diferente, envolveu - me, ao perceber que o belo cigano me estivera abraçando todo o tempo. Virei - me e me deparei com o mais negro par de olhos que jamais vira em toda minha vida! Olhava - me com uma intensidade que chegava a doer! Seus labios entreabertos num sorriso sensualmente natural, inebriou meus sentidos... e entao, dei a entender que precisava ir embora, mas antes queria saber seu nome e daqueles labios brotou um nome como poesia: Wladymir. Acenei um adeus para todos aqueles rostos que sorriam para mim, retirei o xale e comecei a caminhar pela praia... em poucos minutos, maos fortes seguraram meus ombros, virando - me delicadamente e vi - me, novamente, diante daquele deus cigano que tanto me impressionara com seus olhos negros como a noite e brilhante como as centelhas que se desprendiam da fogueira. Sem uma palavra, tomou meu rosto entre as maos e beijou - me, ansiosamente, ardentemente, inflamando - me o corpo, exigindo uma resposta aquele beijo. Algum tempo depois, carregava - me no colo, caminhando pela praia, meus braços envolvendo seu pescoço num carinhoso abraço...e hoje, sou a orgulhosa senhora Wladymir, tao cigana como ele, tendo o mundo como meu lar, a liberdade como deusa... e ele como o amor da minha vida!
Arianne Evans
Enviado por Arianne Evans em 23/05/2005
Código do texto: T19095
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Sobre a autora
Arianne Evans
Curitiba - Paraná - Brasil, 66 anos
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(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 03/12/16 09:48)
Arianne Evans