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Casa da Dinda

O que é um jardim na memória das pessoas? Depende do jardim, das pessoas, do que acontece com elas nesse jardim. E, principalmente, das lembranças que ele possa trazer-lhes...

Fernandinho era uma dessas pessoas que tinha um jardim como esse na sua vida. Mas, êta jardinzinho sem graça... Não acontecia nada ali que justificasse a sua permanência diária nele. No entanto, todas as noites ele vinha ali, via o pessoal telefonando no orelhão, às vezes telefonava também, via as crianças brincando na gangorra e nos balanços, às vezes sentia vontade de balançar também – mas nunca tinha coragem, dava uma voltinha ao redor da praça – de uma ponta à outra, onde havia um rapaz que vendia churrasco num carrinho estacionado.

Numa dessas ele pára, encosta-se num poste próximo ao carrinho e fica observando o movimento. Não demora muito vem uma garota apressadamente, compra um refrigerante e volta rápido para a casa de onde viera. Fernandinho que está ali apenas para observar mesmo (o que mais teria para fazer além disso – naquela noite e nas demais?), nota quando ela retorna, tão apressada como da primeira vez, para devolver o casco da bebida.

Entretanto, desta vez, quando ela pára no meio fio, devido ao trânsito da rua, olha para o seu lado e, por alguns segundos, ele tem a impressão de que ela lhe dirigiu um olhar com interesse ou pelo menos de curiosidade. Pronto, foi o suficiente para ele ficar pensando com seus botões, imaginando coisas e tirando conclusões. O que ela teria visto nele... Ou será que sequer o notara quando olhou para o seu lado?

Mas a verdade é que ele a vira – e muito bem! Que gata!... a casa onde ela entrara era próxima ao jardim. Deu um tempo e, quando viu que ela não voltava, resolveu dar uma passadinha em frente à casa dela. Fez isso e conseguiu vê-la novamente. Ela estava sentada no sofá da sala, lendo. Aí, ele pensou: - “Interessante, ela gosta de ler! Afinal, todo mundo nesse horário só pensa em assistir televisão...”

Ele também gostava, e quando não estava no jardim ou assistindo televisão, era com isso que se distraia também. Mas naquele instante se distraia pensando que, com certeza, nem de longe ela pensava nele. Como não conseguia ver o número da casa, mentalizou como referência uma palmeira plantada em frente à casa, imaginando que um dia talvez tivesse chance de conhecê-la melhor. Mas esse dia nunca chegava, porque ele achava que as coisas tinham que acontecer naturalmente; nunca gostou de forçar a barra.

O tempo passou – meses talvez, até que um dia ele se aproximou de algumas meninas que estavam num banco próximo ao orelhão, para se informar de um lugar onde pudesse comprar um sabonete naquele horário. Uma delas lhe diz que havia um empório em frente à casa dela que vendia.
- Ali em frente., aponta ela. – Sabe onde é?, pergunta.
- Sim, responde ele. Eu já sei onde fica!
E sabia mesmo, porque sabia, também, e principalmente, onde ficava a casa dela. Pois sabia, antes de tudo, quem era ela...

E saiu dali abobado, pensando novamente com os seus botões:
- “Mas, caramba! O que tenho eu que não aproveito uma chance como essa para prolongar o papo, conhecê-la melhor?”
Quando percebeu já estava em casa, tomando banho e se censurando por ser tão tímido e desperdiçar chances como aquela. Talvez por isso vivesse tão solitário. Quando voltou para o jardim não havia mais nem sombra dela. Ainda passou em frente à casa dela, mas não a viu. Voltou resignado para a sua casa, imaginando que talvez fosse melhor esquecê-la...

O tempo passou novamente – um mês talvez, e um dia quando resolveu usar o orelhão viu que ela estava lá, telefonando para alguém. Ficou aguardando a sua vez e pensando com a sua camiseta (sem botões). Quem sabe agora teria chance de falar novamente com ela e conhecê-la melhor. Não pode deixar de ouvi-la, principalmente quando disse seu próprio nome: DINDA! Descobriu, também, que ela se considerava uma pessoa solitária. Quem diria! Ele ali sofrendo desse mesmo mal há tanto tempo e sempre tão próximo fisicamente dela e ela... Pois é, o que é a vida! De repente ela termina e sai rápido. Não houve a oportunidade que ele tanto aguardara...

Fica furioso consigo mesmo e pensa: “Não adianta, ela está tentando marcar encontro com outra pessoa porque se sente só e precisa de companhia. Estou na mesma situação dela, querendo a companhia dela, mas ela, nesse instante, está com os olhos voltados exclusivamente para outro rapaz. Não adianta mesmo, é melhor esquecê-la e tirá-la dos meus planos...”

No dia seguinte, no entanto, lá está ele novamente no mesmo horário, no mesmo orelhão, no exato momento em que ela chega, porque sabia o horário que ela havia combinado de ligar. Tão logo ela termina a sua ligação, ele pega no fone e, enquanto disca o número desejado, pergunta a ela – assim, de repente, com a maior cara de pau do mundo: - E aí, Dinda, conseguiu o que você queria?

Ele sabia que não, porque não pode deixar de ouvir a conversa e tinha conhecimento do assunto entre os dois, mas o que ela não sabia era como ele sabia o nome dela, pois nesse dia ela não citou o seu nome durante o telefonema. Isso, provavelmente, mexeu com a sua curiosidade feminina. Mesmo assim, ela poderia dizer “sim” ou “não” e ir embora; ou satisfazer a sua curiosidade e se mandar do mesmo jeito.

Mas, felizmente para ele, ela esperou Fernandinho terminar a sua ligação e começaram um papo legal de meia hora onde se conheceram um pouco melhor. Depois ela pediu licença e foi telefonar novamente, conforme havia combinado na ligação anterior. É, pelo jeito ela estava interessada mesmo era no outro sujeito...

Fernandinho havia chegado ali direto do serviço e estava, portanto, louco para tomar um banho. Ela pediu que ele aguardasse, pois queria continuar o papo. Mas ele considerou que seria melhor deixá-la à vontade e sugeriu continuar o papo quando se encontrassem novamente. Mas uma coisa atrapalhou seus planos - algo simples e elementar que ele esqueceu de mencionar: dia, local e horário para esse novo encontro.

Por isso, todas as noites ele vai ao orelhão naquele horário e não a encontra, passa em frente à sua casa e não a vê. Pensa em chamá-la, mas não quer ser inconveniente. Por essas e outras é que ele vai acabar perdendo-a definitivamente, mesmo sem nunca tê-la conquistado realmente...

Mas o jardinzinho está lá, sempre naquele mesmo lugar, sempre do mesmo tamanho, sempre com as mesmas pessoas. Mas nunca mais vai ser o mesmo para o Fernandinho. Principalmente agora, que só tem olhos para a Casa da Dinda...

Cosmópolis/SP - 09/07/1992

NOTA: Fernandinho, para quem não sabe, é o Fernando Collor de Melo. Casa da Dinda é casa da cascata... o pivô para o movimento Cara Pintada (estudantil) e a conseqüente retirada do poder do Presidente. Quanto ao personagem é apenas uma ficção baseada no fator psicológico das pessoas tímidas, ingênuas e inexperientes – há quem pense que elas não existam...
Lourenço Oliveira
Enviado por Lourenço Oliveira em 09/08/2006
Reeditado em 24/12/2007
Código do texto: T212817
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Sobre o autor
Lourenço Oliveira
Salesópolis - São Paulo - Brasil
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Lourenço Oliveira