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Momentos inesquecíveis




Ele caminhava pela praia. Só ouvia o ruído  que produziam as fortes ondas do mar. Foi deixando o amontoado de casas, a olhar  o mar de um azul profundo, matizado do branco da espuma, enquanto sentia  o vento frio pelo corpo.  Então,  ouviu uma música que nem podia imaginar de onde vinha. Naquela parte da praia só havia um bangalô numa elevação, um pouco a sua frente........ a música........ a música parecia vir de todos os lados, do céu, do mar. Caminhou em direção a moradia, mas achou melhor se esconder atrás da vegetação para observar se estava habitada. Viu sair lá de dentro,  dançando,  um casal que mais parecia estar se despedindo.  Após um último beijo, o homem saiu rumo à estrada que passa a alguma distância da  praia. O homem entrou num carro e saiu acenando para a mulher. Esta continuou balançando, com suavidade, a mão direita, até que o carro sumiu no horizonte.
Gabriel  seguiu pela praia  e pode ver de perto a mulher. O corpo pareceu-lhe perfeito, mesmo vestida com um casaco de lã. O rosto moreno e os cabelos negros realçavam o azul-mar de seus olhos marejados de lágrimas. Ele passou pela frente da casa e ela nem deu sinal de que o havia visto, olhar perdido no mar, ao som daquela música parecida vinda do céu.  Nessa época, o garoto tinha 15 anos. Costumava passar férias junto com os pais naquele lugar desde quando era bebê. Caminhar ao longo da praia, sozinho ou com os amigos, era o que mais gostava. Se antes catava conchas para disputar raridades ou quantidades com os amigos, se antes fazia castelos de areia, se antes se enterrava na areia até a cabeça, dessa vez, com os amigos, disputava as garotas que por ali passeavam. Porém........aquela mulher........ Quando retornava,  percebeu que ela usava  uma aliança no anular esquerdo........ aquela mulher........ seria   uma visão........
Na manhã seguinte, como de costume, foi ao centro do povoado para comprar o pão para o café da manhã da família. Quando chegou na mercearia, a mulher saía de lá, deixando despencar as compras de suas  sacolas.  Não resistiu e ofereceu-lhe ajuda. Dividiram o peso com a maior naturalidade e seguiram calados. Ele não tinha coragem de lhe dizer palavra alguma.  De lado, olhava-a, deslumbrado. Parecia ter a idade de sua mãe, poderia ter menos. Porém, tinha uma precisão no olhar........ Uma elegância, no seu vestido simples. De adorno, apenas as pérolas do sorriso. Quando entraram na casa dela  para guardar as compras, ela ligou o som e a música parecida do céu  invadiu a casa. Ela ofereceu-lhe um café, que tomaram em silêncio. Se passou muito tempo, ele só soube quando chegou em casa sem  o pão para o café e viu que todos já haviam saído para a praia.
Preferiu não contar aos amigos sobre a mulher, mas não foi possível esconder, quando, à noite, ela o cumprimentou na sorveteria. Cada um estava com uma garota e ele estava sozinho. Quando a mulher lhe sorriu e acenou quando saía com um sorvete, os amigos ficaram abobados. Estaria ele se encontrando com aquela maravilhava, quando se distanciava deles na praia e passava horas desaparecido? Mas........ Era uma mulher mais velha, se não poderia ser mãe dele, poderia ser uma  tia. No entanto........
Após anos,  ele está de volta ao povoado.  O bangalô ainda existe, mas está cercado de casas e de gente por todos os lados. Embora tenha conversado pouco com Lúcia_ sempre se lembrou do nome dela_ sabia que era casada e que o marido estava trabalhando numa plataforma de petróleo e em breve estaria de volta. Não soubera  de onde ela vinha, para onde teria ido. Guardara a imagem........ e a música, que lhe vinha aos ouvidos  em todos os momentos mais agradáveis da  vida. Neste dia,  está por conta de lembranças........ O mar azul chega à praia coberto de branco,  provocando um forte ruído. O  vento frio sopra como da outra vez.  A música....... Ele trouxe o aparelho de som e a música de Legrand. Sentado na areia, ao lado do bangalô, desvanecido, ele olha o mar  e ouve a música que  se espalha por todos os lados e aquieta as pessoas que se acotovelam na areia. Como dizem os narradores, cada um tem guardado dentro de si suas  lembranças de  momentos inesquecíveis........



Terezinha Pereira
Enviado por Terezinha Pereira em 19/08/2006
Código do texto: T220179
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Sobre a autora
Terezinha Pereira
Pará de Minas - Minas Gerais - Brasil, 68 anos
124 textos (52852 leituras)
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