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Estória de vidas passadas... (I Parte)

Não lembro como tudo aconteceu, apenas lembro que eu ainda fugia dele... Também não sei bem, mas acho que isso havia acontecido em outras vidas conosco... Mas nas outras eu deixei que ele me levasse...
Ele tinha entrado em meu quarto de repente. Havia algo em volta dele, não sei se era a aura dele ou suas roupas, que era vermelho, que me inflamava, que lembrava fogo. E eu me lembrei das minhas outras vidas no exato momento que olhei em seus olhos... Isso já tinha acontecido antes, eu não podia perder minha vida novamente.
Enfim, ele se aproximava devagar, às vezes dando a impressão de estar flutuando. Seus lábios sorriam para mim e sua voz me chamava sem que ele dissesse uma só palavra. E cada vez ele chegava mais e mais perto... A princípio senti medo, mas todo aquele calor ao redor dele amolecia meu corpo. Tenho quase certeza de que era sua aura... E como se eu estivesse hipnotizada, perdi a noção do que fazia, e nesse momento ele me toma em seus braços. Sua expressão muda, o sorriso se torna malicioso, e o olhar, que antes eu não quis entender, agora estava mais atenuado. Ele beija lentamente meus lábios enquanto escuto uma música que não sei de onde vem, e que eu nunca havia escutado. E então uma voz me fala o que ia acontecer num futuro próximo se eu ficasse ali com ele. Mas essa voz estava tão baixa, enquanto aquela musica era tão alta e envolvente... E naquele beijo que parecia não acabar mais, enquanto ele estava consciente de sua vitória, abro meus olhos e me aterrorizo com o que vejo: suas mãos, embora normais por fora, por dentro eram como garras que me arranhavam; aquele sorriso era mau, e minha vida corria perigo. Enquanto o beijo acontecia, pensei em como me libertar dele. O empurrei para trás, e ele me olhou com espanto. Gritei com ele, o empurrei com mais força, e dessa vez ele quase caiu. Essa é minha chance, pensei, e em seguida corri até a porta do quarto, abrindo-a e pegando as chaves de casa. Saí em disparada para um lugar com algum movimento.
Não lembro o trajeto que fiz, mas cheguei a uma loja. A mesa do balcão era de vidro, eu pedi para a recepcionista me esconder lá embaixo. Era uma loja de livros, e me senti desconfortável, pois embaixo da mesa também haviam alguns livros empilhados. Deixei alguns papéis que levei comigo em cima daquela mesinha, junto com um caderno. E de repente ele chega à loja. Vai até onde eu estava, com alguns livros na mão. Os põem em cima da mesa, e me encobre um pouco. Até fico aliviada por estar mais escondida, mas entre duas pilhas de livros na mesa de vidro havia uma fresta, e ele me olha através dela. O pânico volta a mim novamente, e ele aumenta quando me dou conta de que minha mão havia ficado em cima da mesa, segurando meus papéis que quase caíam, num ângulo que ele poderia ver. “Como pude esquecer-me disso?”, indago desesperada, e nesse exato momento ele pergunta algo para a moça da loja, sobre os arquivos que eu segurava, se estavam à venda, ao passo que ela nega. Ele me olha novamente entre os livros, e antes que eu pudesse agir ele segura minha mão, enviando uma energia que me deixava em um estado de sonolência. Não sei como, mas devolvi a energia a ele, com mais intensidade. Quando entendo o que fiz, saio de baixo da mesa e olho fixamente em seus olhos. Ele mal acreditava no que acabara de acontecer. E eu estava retribuindo seu sorriso com outro...
E como se todo o tempo parasse, como se as pessoas caíssem em um sono profundo, tudo some, ninguém nota nossa presença, nem nossas energias que estavam sendo lançadas um contra o outro. Eu ergo minhas mãos em direção aos céus, evocando os elementais, e depois dirijo minha força contra Ele. Uma brisa leve toca-me, passando por minhas mãos, e ali aumentando cada vez mais... Desta vez um vento forte o empurra para trás, enquanto eu fecho os olhos imaginando-o em um furacão. Seus olhos estavam apavorados com essa minha nova força a pouco descoberta, enquanto perguntava (e pela primeira vez ouvi sua voz realmente) como eu pude adquirir isso. Minha raiva por tudo que ele havia me feito crescia junto com o que se tornara uma ventania, e ele, irado, lança toda a chama de sua aura contra mim. Mas o feitiço volta contra o feiticeiro, o vento aumenta suas chamas, e seu próprio poder o consome, enquanto ele grita furioso palavras de maldição contra mim, enquanto promete vingança, desaparecendo entre suas chamas.
- Ele prometeu, ele vai voltar. – Reflito com absoluta certeza, enquanto me recomponho e saio daquele supermercado.
Chego em casa, que estava vazia, pois minha mãe ainda não chegara. Estava exausta, larguei as sacolas num canto e fui direto dormir.

E o tempo passa, meses, um ano, e ele não aparecera mais. Eu estava sozinha em casa de novo, mas no pátio de uma outra casa, pois havíamos nos mudado logo após aquele incidente. Estava fazendo treinos com a água de um pequeno chafariz que nós tínhamos. Minhas habilidades haviam aprimorado-se muito, eu agora dominava também as águas. Com o vento eu as movia, as tornavam ondas enormes, e depois elas sozinhas faziam o resto, me encharcando com sua força.
Fui para meu quarto, pois sempre depois desses exercícios ficava cansada, quando vejo uma mesa nova na frente da cama de minha irmã, bem no meio do quarto, que já era pequeno. Eu pergunto para minha mãe se foi ela quem a colocou ali, e ela me responde que sim.
- A Natália vai me encher o saco com isso. – penso, e no mesmo momento ela entra pela porta do quarto, olhando sem entender para aquela mesa ali. E minha irmã reclama até entender que não havia sido eu quem tinha mudado de lugar os móveis.
Minha mãe manda ela se arrumar para sair, e avisa-me que elas irão ao supermercado. Eu já estava acostumada a ficar sozinha em casa, até fiquei contente com isso, pois assim eu poderia descansar melhor. Quando as duas saíram, fiquei olhando para aquela escrivaninha, pensando onde poderia colocá-la. Qual era o melhor lugar...
Olhava para o quarto, procurando alguma solução para aquele móvel deslocado, e quando me viro em direção a porta, Ele aparece novamente. Eu já não tinha mais medo, mas agora ele parecia estar mais forte. Sua aura de fogo, com ele a uns dois metros de distância, me tocava. Sua força de sedução sobre mim estava redondamente maior, seu olhar estava mais perturbador. As portas da casa estavam abertas, e após ele entrar, eu resolvo provocá-lo e fecho a porta do quarto assim que ele entra, com a força do meu pensamento. E sorrio. Abro novamente, e bato com mais força, abro novamente, e evoco as ondinas. Mas antes que a água o alcançasse, para apagar suas chamas, ele as lança contra mim, envolvendo-me num calor sufocante. Puxa-me com essa corrente incandescente até ele, e me beija a força. Eu já não tinha como suportar todo aquele calor, mas ainda consigo erguer meus braços, evocando o vento. Desta vez imaginei-o derretendo com as chamas cada vez maiores, enquanto me protejo com minhas ondas de água fria... Mas mesmo tendo conseguido que ele desaparecesse, as marcas daquelas chamas ficaram por muitos anos ainda, e quando sentia sua presença, elas queimavam, me queimavam, como se ele estivesse vivo dentro de mim.
Naquele ultimo dia que o vi, a mesma voz da anciã que me contara sobre meu destino de má sorte ao lado Dele, dessa vez me mostrara uma casa, um terreno e também um homem, que segundo ela eu teria que transformar. Não entendo o que ela diz, e caio no sono...


(continua...)
Alecrim Crim
Enviado por Alecrim Crim em 27/08/2006
Código do texto: T226637

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Sobre a autora
Alecrim Crim
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 27 anos
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Alecrim Crim