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Estórias de Vidas Passadas... (III Parte e Fim)

A senhora estava me chamando, e quando abro meus olhos ela sorri, enquanto me alcança um chá. Eu o tomo e me sinto melhor, e então ela me leva novamente com ela por aqueles caminhos remotos...

E desta vez eu estou em uma casa, enquanto uma moça que era diferente da outra abraçava um homem que ela amava muito, e eu sinto um grande amor por ele. De repente um monstro de fogo a encobre, e a leva com ele, num beijo aterrorizante. Novamente a história se repete, pois a moça não tinha forças para lutar contra aquele anjo, e em todas às vezes ela morria... E em todas às vezes ela perdera o homem que ela amava, a fonte de inspiração que em outros tempos criara tal criatura.
 
Após todas essas visões, eu acordo sem precisar de ajuda, e entendo tudo perfeitamente. Agora era a hora de agir...

Eu saí de lá com a decisão em minha mente... Eu já havia lido coisas assim em livros, mas nunca pensei que isso pudesse acontecer comigo... Nunca passara pela minha cabeça a mais vaga noção das minhas vidas passadas, nem a ligação que aquele monstro tinha com elas. Fui direto ao hospital visitar meu marido, e quando cheguei lá o encontrei adormecido. Sentei-me ao lado dele, e mesmo que ele não pudesse me ouvir, eu disse que daria um jeito em tudo aquilo. Segurei sua mão e beijei sua testa, e quando saí, uma gargalhada debochadora eu ouvi, mas não dei importância para aquele ser, pois ele não conseguiria atingir-me novamente.
Dirigi-me a minha nova casa, e em meu caminho encontrei as pilhas de caixas ainda por ser abertas, mas passei reto por elas, em direção ao pátio. Peguei meus antigos livros, na verdade livros de bruxaria que meu pai tinha, e abri um deles. Lá estava escrito:
“Magia espiritual, elemental e proteção contra espíritos das trevas”.
Abri o livro, procurando por uma página que eu tinha certeza que estava nele. E estava mesmo. Era uma página que tratava da invocação de seres inferiores. Eu não sabia muito bem o que era, mas li por cima, e lá também estava detalhado um ritual para conseguir invocá-los.
Eu não precisei do livro, mas servia como uma fonte de inspiração para o que eu iria fazer. Já no pátio de casa, na parte de trás dela, tinha um chafariz pequeno de pedra que jorrava água enquanto o sol batia nas gotas, fazendo-as brilhar. Lá também tinha muitas árvores, terra, e uma brisa leve passava, fazendo um som tranqüilizador. Peguei alguns incensos de arruda, jasmim e ópio, uma caixa de fósforos, e também um pote com sal grosso.
Fui até uma das árvores e juntei um galho que estava no chão, algumas folhas e outros galhos. Sob a sombra das árvores desenhei um circulo com o primeiro galho. Sobre esse círculo desenhado no chão de terra, joguei o sal grosso contornando-o todo, e ao Norte coloquei um vazo com violetas roxas. Ao Leste eu deixei o incenso queimando. Ao Sul estava uma fogueirinha pequena que havia feito com as folhas secas e os galhos que havia pegado. E ao Oeste estava um copo de cristal que peguei na cozinha com água do chafariz.
Os elementos estavam presentes agora, e eu pude começar meu ritual.

Meditando e me lembrando desde minhas vidas passadas com aquele “anjo”, até o momento presente, pensando em tudo o que acontecera comigo graças aquele espírito que se apossou de minha criação, enquanto peguei um pouco de terra, eu disse as palavras já ditas antes, mas em uma nova seqüência:
- Que desta terra ele apareça, com sua forma que tanto me intriga, seu corpo que foi criado pelo meu amor, e que faz parte de mim.
Logo depois uma brisa quente me envolve, uma gargalhada assustadora ecoa pelo pátio, e Ele aparece em meio as chamas, com seu olhar encantador e sua aura de fogo... Ele fala telepaticamente comigo, algo como: “finalmente entendeste que não podes fugir de mim”, enquanto se aproxima. Então eu tomo o incenso nas mãos, visualizo uma ventania, e digo:
-Que a inteligência nefasta que o habita, o abandone, agonizante em gritos de dor. Que a inteligência que eu lhe dei, retorne a ele, assim também retornando a mim.
Ele me olha com olhar espantado, enquanto uma voz, que não era a dele, agoniza, grita maldições, lança-me o fogo, e sobe acima da cabeça Dele. Toda aquela energia negra o abandona, quando em seguida eu torno a terra:
-Que a terra enterre-o, volte ao lugar de onde vieste, ser abominável! Que volte a sua escuridão interior, e que sua própria força seja sua condenação.
Neste instante a energia negra é puxada pela terra ao meu lado, enquanto é consumida pelo chão, agonizando mais ainda, gritando, e retornando ao seu devido lugar como eu havia dito que seria.
O rapaz a minha frente, sem entender nada, voltara a ser aquele rapaz de amor cujo meu sentimento havia criado. Mas ele já não tinha mais corpo, era apenas um espírito com forma humana. Ele me olhava com olhar curioso, enquanto algumas lágrimas caíam de meu rosto... O amor por ele havia retornado, e eu não sei se queria destruí-lo.
Tomei em minhas mãos um galho que flamejava, e recitei, enquanto olhava aqueles olhos encantadores:
- Que o fogo que criou sua energia, agora retorne a quem te criou. Sua energia é minha, assim como faço parte de você. Então retornes ao seu dono.
E toda a energia que o rondava é absorvida por mim, e eu me sinto completa novamente, como nunca havia me sentido em toda a minha existência. Ainda restava a ultima parte, a mais difícil, e nele ainda existia uma forma humana, mas agora quase apagada, e seus olhos me olhavam sem energia, mas seus lábios sorriam ternos, e por isso eu não senti dor em terminar aquilo.
As lágrimas começaram a cair de meus olhos, e ao mesmo tempo caíam dos dele também, como se ele fosse um ser humano, como se as lágrimas fossem de verdade. Ele me olhava ao mesmo tempo em que seus olhos perguntavam o que estava acontecendo, e eu respondi mentalmente que ele iria voltar para casa. Ele sorri, e tenta me abraçar, quando pego uma das lágrimas que caíam de meus olhos, e um pouco de água do copo de cristal, e recito o ultimo dos encantamentos, jogando a água sobre ele:
- Que a água dos meus sentimentos, que te criou, retorne ao seu lugar. Que toda sua sedução e seu amor volte para seu dono, e que você, que faz parte de mim, volte para sua casa. Volte para meu coração...
E ele foi sumindo lentamente, como fumaça, enquanto sorria para mim. Tudo estava terminado, eu havia completado meu ritual, estava exausta com tudo aquilo... Encerrei o ritual, recolhi as coisas do chão do pátio, joguei a água no chafariz após apagar o fogo... Deixei os incensos queimando, e quando olhei para o horizonte, o vento batia nas árvores, tudo parecia calmo, e eu estava bem de novo.
Todo aquele amor voltara a mim. Todo aquele pesadelo acabara. O meu antigo amado retornara para o lugar que nunca devia ter saído... E de onde nunca mais sairia...

Na manhã seguinte visitei meu marido. Ele estava melhor, e quando eu cheguei no quarto do hospital ele parecia saber o que eu havia feito, e sorriu para mim. Estávamos juntos nessa vida, e isso era o que importava... Se eu soubesse de tudo o que poderia ter acontecido antes de criar uma “copia” de Miguel, nem mesmo me aproximaria daquele lago...
Nos dias seguintes eu ainda sonhava com aquela criatura, mas ela era doce e me falava com voz de anjo... Toda a lembrança dela havia se tornado em algo bom, e estaria para sempre guardada em meu coração... O amor por ela permaneceria dentro de mim por vidas e vidas ainda, e sua imagem estaria para sempre em minha existência.
Às vezes ainda ouvia sua voz enquanto estava acordada, ou via seu rosto refletido à minha frente, no espelho... Às vezes aquele ser me protegia... Me sentia bem ao lembrar dele, e isso importava muito. Não precisava tê-lo, não precisava vê-lo, apenas precisava sentí-lo...

E isso eu sempre teria.
Alecrim Crim
Enviado por Alecrim Crim em 01/09/2006
Código do texto: T230544

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Sobre a autora
Alecrim Crim
Porto Alegre - Rio Grande do Sul - Brasil, 27 anos
374 textos (14622 leituras)
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Alecrim Crim