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O valor

A leve brisa e orvalho da manhã, alguns dos poucos que vêm me visitar. Solitária neste vasto descampado, vigiada pelo céu, mas distante do imenso e feroz mar. Parada aqui por dias fico, semanas, meses, anos a fio, esperando borboletas que em minhas flores vêm se deleitar. E à luz da Lua durmo, sem medo do vasto escuro que em meus galhos vem dançar.

Em bela hora da aurora, um beija-flor chamado Beijo, veio matar seu desejo e batendo suas asas deu-me boas-vindas:
-Bom dia, bela e linda!
-Como vai, Beijo! Veio as minhas flores namorar?
-Se me permitires, formosa e frondosa razão do meu voar!

Batendo incessantemente suas asas, afagando minhas jóias, Beijo satisfaz-se aos pouquinhos, mas sem demora vai-se embora:
-Adeus, doce senhora!
-Voa e volta, mas não me deixe, pois aqui sozinha, logo chega a minha hora!

Como é bela a primavera! Agora aprendo a fazer amigos! Desabrocha a flor e com ela meu coração, aberto aos doces seres que vêm me visitar. Beijo, o meigo beija-flor, está de volta, trazendo à minha porta, Violeta, a borboleta, que, sem rodeios, conta-me sobre seus anseios:
-Que prazer é te conhecer!
-Digo o mesmo por te ver!
-Dá-me um pouco do teu néctar, que assim me faz feliz!
-Sacia sua fome, que assim fico contente!

Compartilhando o dom da vida, sendo amiga e aprendendo a amar, abrigando até mesmo a menor das formigas, já não me sinto tão só neste lugar.

Esquenta o clima e mesmo sem rima o verão avança, deixando em seu encalço as manhãs primaveris. E nesse ritmo frenético, de luz, sol e calor, cansam-se minhas flores, já não são tão coloridas; meu tronco e meus galhos vão ficando sem vida e meus amigos já não se sentem felizes em me procurar:
-Já não é mais jovem, nem tão pouco formosa! O doce ficou amargo, quero voltar às belas rosas!
-Assim me magoa, Violeta! Onde está a amabilidade das borboletas?

O Beijo não tem mais amor, a Violeta perdeu sua cor e de mim restou apenas o tronco insosso e o amargor. O outono vem febril e o vasto céu de azul anil é o único a me fazer companhia.
-Foram-se meus amigos, já não tenho alegria! Como podem ser as aparências mais importantes do que a presença confortante dos amigos e os sentimentos nobres expressos no dia-a-dia?

Despida e sem amigos, sinto o frio infernal do inverno, que derrama sobre mim a neve, que é triste, mas me envolve com seu falar materno:
-Não fique triste, não se aborreça! Como podem ser seus amigos aqueles que te deixam e ferem seu coração?

Reconfortada e aquecida pelas quentes palavras do frio floco de neve, fico e me sinto mais leve, sentindo a vida voltar a brotar:
-É novamente primavera! O sol está saindo, os pássaros cantando e rejuvenescendo estão minhas quimeras!

Desabrocham novas flores e com elas novos sonhos. Sinto-me forte e decidida a não mais me preocupar com o que a vida de difícil me traz. Descobri quem realmente me ama: a Lua; o sol; a brisa; a grama, que de perto de mim nunca saem.
-Quanto tempo minha bela! Posso do seu divino néctar provar?
-Vá em frente, caro beijo! Mas não pense que por deixar que sacie seu desejo, sinto-me mais feliz por vê-lo retornar!
-O que te fiz, princesa florida? Sabes que é a razão da minha vida e o motivo pelo qual vôo sem parar!
-Belas palavras você tem! Falsidade eu vejo, também! Deixo que se alimente, mas não me sinto contente em vê-lo voar!

O beija-flor não entende, voa para longe, mas se arrepende de como tratou sua amiga:
-Já não preciso da minha vida, se não posso ver a linda árvore que sempre me acolheu!

Acompanhado de Violeta, Beijo engole seu orgulho e, com um belo mergulho, faz uma surpresa:
-Volto e peço desculpas! Sinto-me envergonhado por tê-la deixado e o seu perdão imploro que me dê!
-Fico deveras emocionada e um tanto quanto brava, mas vendo em seus olhos sinceridade e nas asas frenéticas a verdade, concedo-lhe meu perdão, mas peço que não mais me deixe enquanto viver!

Com um fim feliz eu me despeço, mas para que reflita eu peço e que não se esqueça de quem se importa com você!
Rafael Fontana
Enviado por Rafael Fontana em 24/09/2006
Reeditado em 13/07/2008
Código do texto: T247777

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Sobre o autor
Rafael Fontana
Caeté - Minas Gerais - Brasil, 28 anos
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