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O PROFETA

Quando a vizinha adolescente apareceu grávida, Dionísio, de dez anos recém-completados, colocou a mão em sua barriga imensa e tão-somente pronunciou:

- Se for menino será meu amigo; se menina, minha mulher!

A garota, que era apenas quatro anos mais velha que ele, olhou desconfiada para o guri e respondeu com um balançar de ombros, demonstrando seu desdém. Dionísio não se importou. Olhou fixamente para ela e tentou mostrar com autoridade, mesmo nos seus dez anos, que o que estava dizendo era verdadeiro. Um colar que a garota usava lhe chamou a atenção. Tinha como pingente uma espécie de medalhão de ouro que reluzia misteriosamente, rebatendo os reflexos da luz do dia. O menino olhou para o medalhão, que tinha o formato de duas moedas sobrepostas, e aquela imagem mítica ficou gravada em sua memória.

Os anos se passaram. Dionísio mudou-se com o que restou da família para São Luís, MA, deixando para trás a pequena e pacata Açailândia, cidade do interior do estado. Esqueceu o passado, envolveu-se com o presente. Não que seu passado de criança em seu torrão natal tenha sido abandonado. Mas os muitos envolvimentos com os novos familiares, e as novas circunstâncias de vida na metrópole do Norte, imiscuíram-se  de tal maneira em sua vida que ele passou a viver um ritmo alucinado de descoberta e desenvolvimento.

O menino cresceu; transformou-se. O adolescente virou jovem. Foi crianção na infância; atleta na adolescência; estudioso na juventude. Interessou-se pela leitura, fez faculdade. Formou-se arquiteto, montou imobiliária. O atleta virou empresário. Com a venda e locação de imóveis fez fortuna. O dinheiro lhe permitiu seguir sua vocação. Deixou a marca do seu estilo e de sua graça em inúmeros prédios e construções não só de São Luís, mas de várias cidades do interior. E o jovem, agora com seus vinte e cinco anos, lembrou-se da infância.

As impressões da infância estavam marcadas na sua mente. Ele lembrou das tantas vezes que esperou o trem passar para subir escondido nos vagões e brincar de correr pelo teto, driblando o guarda da estação. Lembrou da fuligem cinza do minério pesado que abarrotava os vagões vindo de Carajás. Lembrou do açaí fresquinho que vendia para os turistas e, depois, dos picolés e dos sorvetes que vendeu aos milhares naquele verão que ficou marcado pela separação dos seus pais e a subseqüente morte de sua mãe.

E o jovem milionário empresário lembrou que tudo aquilo custara sua mudança para a capital, provocando em sua vida novos horizontes e novas conquistas. E de tanto lembrar, o jovem Dionísio chorou. A emoção foi forte na vida do rapaz que valorizava a terra de sua infância.

Dionísio tomou uma decisão naqueles dias que seria fundamental para uma nova guinada em sua vida: investiria parte considerável dos seus recursos na aquisição de terras e fazendas em Açailândia. E aos poucos ele foi se tornando o maior investidor da região. Adquiriu propriedades. Seus imóveis totalizavam milhares e milhares de hectares de terras, com casarões antigos e algumas sedes de fazenda. Revigorou as fazendas. Reintroduziu o gado leiteiro e o gado de corte. Implantou a criação de búfalos na região. Incentivou o plantio comercial do açaí e montou uma Cooperativa para absorção de toda a produção caseira da fruta.

Além disso, contratou uma banca conceituada de advogados para entrar com uma ação internacional contra o escritório japonês que se apropriara abusivamente da marca “açaí” registrando-a em seu nome.  Dionísio se irritava toda vez que lembrava disso e não suportava ver as toneladas de açaí migrando para o Japão para de lá ser exportada para o mundo. O governo brasileiro que deveria estar cuidando do assunto, não dava a mínima importância para este patrimônio cultural do país. Dionísio tomara esta bandeira como sua. Já que se tornara um bem sucedido empreendedor nesta pátria mãe gentil, queria dar de volta este presente para o Brasil.

O jovem sabia que sua luta seria ingente e suspeitava de que, em algum sentido, inglória. Mas, tudo faria para conquistar esta vitória para o país, mesmo que demorasse bastante. Realizado profissionalmente, ainda jovem, Dionísio só faltava definir-se no amor. Tinha uma namorada, Beatriz, de quem gostava, mas com quem não mantinha um relacionamento muito bom. Ela era muito ciumenta e vivia atazanando sua vida com fortes cenas de ciúme, principalmente quando o interceptava diante de sua clientela feminina.

Ele queria casar. Faria uma festa bonita, com requinte e bom gosto, reunindo a nata da sociedade de São Luís. Mas, estava inseguro. Não tinha o coração tranqüilo sobre se Beatriz o faria feliz.

Era setembro. As flores multicores tomaram conta das árvores e a cidade estava vestida de primavera. Uma chuva fraca salpicou a terra e escureceu de nuvens sombrias o céu da cidade. Dionísio convidou a noiva para almoçar no “Cabana do Sol”, um restaurante exótico, com pratos típicos maranhenses, carne de sol do norte completa, arroz de cabrito e capote, galinha da terra, peixe frito com arroz de cuxá, dentre outras iguarias, e que se localizava na Rua João Damasceno, no Farol de São Marcos.

O rapaz queria comemorar a marca de dez milhões de reais investidos na compra de terras, e cinco milhões aplicados em ações. Ele fazia parte do seleto grupo de empresários que nos últimos anos vinha movimentando a economia maranhense em oposição à estagnação nacional provocada pela falta de visão e de investimento, decorrentes dos desacertos do governo petista. Entrara no badalado restaurante ladeado pela noiva. Ele já era figurinha carimbada por ali, mas a noiva não.

Mas, nem tudo funcionou como Dionísio sonhou. O almoço que tinha tudo para ser um acontecimento, acabou sendo um desastre. Por conta de uma linda loira, cliente que Dionísio encontrara de relance no restaurante, Beatriz subiu nos tamancos e aprontou uma cena cujo constrangimento, desta vez, não foi possível de o rapaz suportar. Quando o fim daquele dia chegou, já não havia mais noivado, nem esperança de casamento. O coração de Dionísio estava pesado, seu semblante triste, mas ele preferiu romper de vez com o relacionamento, a ter que amargurar a incerteza de um casamento inconstante e sem credibilidade.

Fim de semana. Dionísio faz uma viagem de negócios para Miami, USA. Segue na comitiva, uma leva de empresários que pretende investir pesado em negócios para brasileiros na Flórida, com a perspectiva de alcançar o amplo mercado americano. O rapaz conhece Lívia, bela filha de um industrial da Zona Franca de Manaus, do ramo de eletrônicos. Ficara sabendo que a moça estava caída por ele. Ele estava carente. Longe de Beatriz, seu coração ainda pulsava por aquela morena ciumenta que precisa amadurecer.

Por conta de suas carências afetivas, Dionísio dá início a um namoro com Lívia, sem saber ao certo em que aquilo vai dar. A jovem é linda, elegante e de família tradicional, mas o coração do rapaz ainda não havia sido fisgado por ela. Deixou bem claro para a moça o seu estado emocional, que mesmo assim se permitiu dar uma chance a si mesma de conquistá-lo. Foi um presente para Dionísio. Lívia era carinhosa e sua companhia naquela viagem, e na semana seguinte, o ajudou a curar-se da perda de Beatriz.

Semana seguinte. Dionísio já estava de volta a São Luís. Suas atividades estavam à pleno vapor, na aprazível Avenida Avicencia, na Praia do Calhau, onde instalara a sede de suas empresas, em um edifício de sete andares com vista panorâmica para o mar.  Desde que Daniel La Touche, o Senhor de La Ravardière, instalara a França Equinocial no Maranhão e realizara o sonho francês de ocupar uma região nos trópicos, ninguém mais empreendeu algo tão robusto para o Maranhão como o jovem Dionísio, empresário visionário.

O rapaz voltara dos Estados Unidos animado. Iniciara a elaboração e desenvolvimento de um novo projeto, voltado para a construção de uma mega indústria de sucos tropicais, com frutas típicas da região e consideradas exóticas pelos estrangeiros. Ele pretendia iniciar a exportação para o mercado americano via Miami. Dionísio era um empreendedor. Tinha visão de longo alcance e pretendia fazer uma revolução industrial no setor, valorizando as frutas típicas. Açaí, araçá, bacuri e cupuaçu seriam os primeiros sabores a compor seu catálogo de ofertas de sucos. Depois viriam: graviola, serigüela, tamarindo, pinha e jaca. Ele estava feliz com o novo projeto e, de cara, o balcão de empregos de sua empresa estava contratando 350 novos funcionários: 200 moças e 150 rapazes.

Era sexta-feira, pela manhã, quando Dionísio resolveu dar uma passadinha pela Gerência de Recursos Humanos, que estava cuidando das inscrições e da recepção dos currículos. Chegou exatamente na hora em que uma situação inusitada estava por acontecer. O gerente, percebendo a sua aproximação, antecipou-se e encaminhou-o para a sala de reuniões anexa, impedindo-o de entrar no campo visual das pessoas que se acotovelavam na recepção.

- Temos aqui uma jovem que insiste em falar com o senhor. Diz que é importante e que precisa muito vê-lo pessoalmente.

Dionísio franziu o cenho e fez um ar de inquietação como a indagar quem seria aquela jovem e o que ela queria. Perguntou ao gerente:

- Você sabe o motivo que a trouxe aqui?

- Bem, ela preencheu a ficha e deixou currículo com pretensão de trabalhar na nova fábrica. Foi depois deste expediente que ela pediu insistentemente para falar com o Dr. Dionísio e não aceitou as nossas ponderações. Disse que não sairia do balcão enquanto não pudesse lhe falar.

Dionísio coçou levemente a barba rala que lhe emprestava um tom grave e responsável, e ordenou ao gerente que deixasse a moça entrar. Pegou um café expresso na máquina, e assentou-se no sofá de couro preto que compunha a decoração da entrada da sala de reuniões. Enquanto aguardava a chegada da moça, pôs-se a folhear umas revistas, distraindo-se nesta atividade.

Foi quando o gerente Robson entrou na sala com a moça, entregando-lhe uma ficha. Dionísio examinou a ficha e se encantou de imediato com o nome da moça e sua idade: Cristina Esperança. Quinze anos.

Levantou os olhos, e ficou mais encantado ainda, quando viu descortinar à sua frente a bela visão de um exemplar do gênero feminino: a beleza estava elevada à sua potência máxima em seu escritório naquele momento. As mulheres estavam representadas pelo que de mais belo a raça poderia oferecer.

Cristina era uma mulher simples. Os seus escassos quinze anos apresentavam um corpo de mulher feita, que seduzia pelo encanto virginal. Estava vestida de forma simples, com roupas de tecido barato, que lhe cobriam quase o corpo todo, mas nem por isso sua feminilidade deixava de ser latente. Cristina possuía um sorriso franco, aberto, que esbanjava simpatia quando acionado amigavelmente. Seus dentes eram bem alvos, pequenos, porém espacejados, emprestando-lhe um infantil ar sedutor. De pele branca, amorenada pelo sol do Maranhão, Cristina possuía cabelos fartos que emolduravam um lindo rosto onde lábios sensuais perfeitos, nariz pequeno e olhos pretos, indefinidamente inquietantes, indagavam do sonho, da vida, de uma certa paz interior que ela tanto queria, tanto buscava, mas que ainda não tinha alcançado. Por entre os panos de suas longas vestes, podia-se entrever um corpo esbelto, juvenil, cuja contemplação e desfrute proporcionariam deleite a qualquer macho minimamente inquieto pela libido.

Depois dessa prolongada e minuciosa observação, Dionísio finalmente estendeu a mão para a moça, convidando-a a assentar-se. O toque suave de mãos de seda e o sorriso que recebera em troca deixaram o jovem levemente desnorteado, embora, no momento, não percebesse o motivo.

- Você gostaria de falar comigo?

Indagou Dionísio enquanto a jovem respondia com um monossilábico, porém, entusiasmado “sim”.

- Pois esteja à vontade para me dizer o que quiseres.

- Vim para tentar uma vaga na fábrica. Preciso desse emprego. Mas, enquanto esperava minha oportunidade de ser atendida, soube que o Doutor era de Açailândia e me interessei em conhecê-lo de perto, pois também sou de lá.

- Você é de Açailândia? Quem são seus pais? Você morou em que rua, que bairro? Conte-me um pouco de você...

Sem se dar conta, Dionísio que era um apaixonado pela sua cidade, pegou-se disparando perguntas várias para a moça, sem sequer dar tempo para ela raciocinar. Entusiasmou-se pelo encontro com a conterrânea e, quando deu por si, estava de olhar atento, queixo caído, ouvindo a bela desconhecida relatando um pouco de sua infância, do fato de não ter conhecido o pai, da mãe que a entregara para ser criada pelos avós no Jardim Brasil.

Sem saber qual a razão, a história de Cristina enterneceu o coração de Dionísio, que começava a sentir uma ponta de atração pela moça. O rapaz interrompeu os românticos devaneios a que a conversa o conduzia e lhe perguntou:

- Conte-me agora o motivo pelo qual desejava insistentemente falar comigo.

Cristina foi rápida e objetiva:

- Vim parar aqui em busca de emprego, mas mudei de opinião. Quero ser sua amante!

Dionísio levou um baque com a proposta da moça. Em nenhum momento suspeitou de algo parecido, mas a proposta mexeu com ele, sacudindo seu interior de homem latino. Olhou de novo para a jovem, analisou seu perfil e concluiu estar, realmente, diante de uma bela garota. Todavia, mais do que interessado sexualmente na jovem, seu coração ficou chocado. Não estava preparado para ouvir o que ouvira e por isso ficara abalado com a situação. Olhou de novo para a jovem. Ela não tinha cacoete de prostituta. Foi fria e objetiva: “quero ser sua amante!” Nada mais. Uma mente puramente racional. Nem sequer esboçara qualquer leve traço de sedução sutil ou rasgado. Nenhuma brincadeira de lábios, nenhuma aproximação buscando contato físico, nenhum gesto de mãos ou de corpo para insinuar sensualidade ou para prendê-lo pela visão. Tal como dissera friamente o seu objetivo, assim permanecera. Apenas aquele sorriso sensual maroto que lhe marcava o rosto, mas isso era próprio dela.

Dionísio ameaçou levantar-se para uma retirada estratégica, porque estava desconcertado. Só neste instante que Cristina alterou-se, reagindo com tenacidade, pois temia perder a grande chance de sua vida.

- Não saia sem me dar uma resposta!

Ela falou numa voz doce e pulsante, que naquele breve diálogo inaugural, Dionísio já aprendera a gostar.

- Pode deixar! Vou sair um pouco, mas já volto com a resposta. Espere-me aí.

Disse e saiu ligeiro, chamando junto a si o gerente Robson e dando-lhe algumas instruções expressas. Dionísio dirigiu-se ao seu gabinete e, inquieto, deixou-se cair em sua cadeira junto à mesa de trabalho. Nunca vivenciara situação semelhante. Em outra circunstância, com certeza, não se sentiria embaraçado nem teria qualquer sentimento de dúvida no coração. Mas aquela experiência daquele dia possuía qualquer coisa de anormal e, até mesmo, sobrenatural, que ele ainda não conseguia definir muito bem. Colocou por um momento a cabeça entre as mãos e manteve-se absorto em pensamentos vagos até que o toque dos sinos cantantes da porta anunciou a chegada do gerente Robson.

- Fiz como o senhor mandou. A secretária da repartição está servindo um lanche para a moça no Restaurante da empresa e cá estou eu como solicitado.

Só naquele momento que Dionísio se deu conta de que solicitara o comparecimento em sua sala do gerente Robson. Para quê mesmo? Uma certa indefinição tomou conta de Dionísio que ainda estava atordoado com a circunstância. Até que se lembrou do seu propósito: queria enviar um envelope para Cristina. Nele colocaria dinheiro, cartão de visita íntimo e um bilhete pessoal. Reuniu apressadamente quinhentos reais no envelope, colocou seu cartão de visita íntimo dentro e escreveu o seguinte bilhete que colocou junto: “Confesso que fiquei confuso com a nossa conversa. Estarei refletindo sobre tudo o que falamos. Compre alguma coisa que desejar com este dinheiro e me ligue daqui a sete dias. Use o número do celular...”

- Robson, entregue este envelope à moça e pode despedi-la. Se ela disser qualquer coisa, informe que dentro do envelope tem as respostas que ela procura.

Dionísio voltou às suas atividades rotineiras, procurando pelo menos não deixar que os acontecimentos daquela manhã prejudicassem sua concentração no trabalho. Tinha um encontro marcado com Lívia para aquela noite e isto o animava. Pretendia ter uma noite agradável que o aliviasse da tensão dos trabalhos e da surpresa daquela manhã. Mas, não foi o que aconteceu. Quando a noite chegou, por mais que a moça se esforçasse para ser agradável, carinhosa e atenciosa, o coração de Dionísio estava inquieto. Que estranha magia havia alterado o emocional do rapaz? Esta foi a pergunta que Lívia se fez a todo o instante, durante as breves duas horas que passou com o namorado naquela noite.

Como não entrava no clima da balada, Dionísio optou por levar Lívia de volta para casa, e encerrar sua noite viajando para Açailândia. Ligou para o piloto de seu helicóptero particular e rumou ao encontro de seu tio, Horcades, que administrava algumas fazendas que ele adquirira. Enquanto isso, em sua casa, Lívia não conseguia conciliar o sono e se revolvia na cama. Resolveu levantar-se e, dirigindo à Biblioteca da família, tomou um volume de “Mitologia Grega e Romana” da estante, publicação da famosa Livraria Garnier do Rio de Janeiro, e procurou pelo nome “Dionísio”. Achou um verbete: “Baccho, em grego Dionyso.” Pôs-se a ler com avidez o texto de seis páginas que ali encontrou. Achava que com este artifício entenderia melhor o funcionamento da conturbada alma do namorado. Não viu uma relação muito próxima do deus grego com o seu Dionísio. O deus grego-romano estava cercado de ninfas e bacantes, e era celebrado em orgias e bacanais. Seu namorado era o oposto disto. Não gostava de algazarras. Era um jovem pacato, sem muitas afoitezas, e comedido nos relacionamentos amorosos. Percebeu apenas uma ligação entre o empreendedorismo de ambos. Diz o mito que Baco ou Dionísio conquistou as Índias com um bando de homens e mulheres, conduzindo tambores em vez de armas. Seu Dionísio estava conquistando Açailândia e o Maranhão, com operários e parceiros, conduzindo idéias e recursos financeiros.

O grito de Júpiter, pai de Dionísio, para animá-lo, sintetiza bem a personalidade do protagonista de nossa história: “Evohé, coragem, meu filho!” O Dionísio maranhense gritava para si mesmo num brado retumbante que o encorajava a persistir em sua caminhada pelo progresso de seu povo: “Hei de vencer, mesmo que me custe a juventude!”

Toda aquela busca de Lívia visava a entender o complexo mundo interior de seu namorado. Na verdade, Dionísio era uma pessoa normal. Só não funcionava como a maioria dos jovens que deixavam a libido aflorar sem freios, numa visão hedonista da vida. Mas Lívia já começava a perceber que seu namorado estava a escapar-lhe. Não tinha o que reclamar, racionalizava, desde o princípio do relacionamento, ele lhe avisara acerca do seu instável estado emocional.

Por seu turno, Cristina, desde que saíra da empresa de Dionísio, ficara com o coração pulsando esperanças, na expectativa de que algo bom aconteceria em sua vida. Quando chegou à pensão onde se hospedava e lá, protegida dos olhares indiscretos dos curiosos, abriu pressurosa o gordo envelope que recebera das mãos do gerente Robson, deu de cara com o dinheiro, o cartão e o bilhete. Não esperava tanto. Aliás, não esperava nada. Embora fosse uma linda garota - bela como a rosa a desabrochar – Cristina possuía uma baixa auto-estima. Achava-se gorda, desajeitada, preterida pelos homens. Mesmo recebendo cantadas várias, de garotos de sua idade e de homens feitos, pelas ruas e festas; e, também, ouvindo tantos dizerem em alto e bom som da sua beleza, tinha dúvidas. Interessante que os homens mais velhos eram os que mais se agradavam do belo visual de Cristina. Ela estava cansada de ouvir propostas indecentes e receber convites ousados de homens mais velhos. Mas, embora se sentisse balançada em alguns casos, entendia que tinha um último passo a dar antes de aventurar-se por amores boêmios.

Os dias se passaram. A semana caminhara célere para todos. Beatriz era apenas uma sombra do passado na vida de Dionísio. Lívia era uma presença inquietante do presente. Cristina, uma promessa de algo que surpreendentemente já estava a acontecer, mas que Dionísio ainda não conseguia aquilatar. A semana estava sendo muito produtiva. Além do avanço nas obras da instalação do Parque Industrial da “Esperança Brasileira Sucos e Exportação”, o jovem empresário acabara de firmar contrato com uma rede internacional de hotéis para instalação de um empreendimento em cada capital brasileira. Todo o projeto arquitetônico ficaria a cargo do escritório de Dionísio, que também fizera a opção de investir no projeto, fazendo parte do capital societário da nova empresa.

Novamente sexta-feira. Dionísio está feliz. Seus negócios se expandem de vento em popa. Sua equipe de trabalho, formada por jovens executivos, é de altíssima qualidade e a competência com que gerencia os seus negócios lhe garante a tranqüilidade necessária para desfrutar do seu grande sonho que é revitalizar a economia de sua terra natal. Dionísio investe boa parte do seu tempo, da sua criatividade e do seu dinheiro em Açailândia.

Estava para preparar-se para deixar a empresa e arrumar seus apetrechos no apart-hotel onde morava e ir para a Fazenda Gurupi, quando seu celular pessoal toca insistente. Uma suave e pulsante voz feminina diz do outro lado:

- Alô! Dr. Dionísio? É a Cristina! Estou ligando conforme combinado...

Dionísio é pego de surpresa com a ligação, pois seu envolvimento no frenesi diário, o fizera esquecer momentaneamente a jovem que o procurara na empresa. Houve um hiato silente, até que ele recobrou-se e disse:

- Sim, sim! Prazer em falar novamente com você, minha jovem!

E Dionísio se esforçava por ser jovial com a moça, embora este não fosse o seu forte. Continuou:

- Quase que você não me pega por aqui. Estava de saída para ajeitar os meus pertences e ir para a Fazenda em Açailândia...

- Não tem problema! (Interrompeu Cristina docemente...) Eu posso ir com você!

Dionísio mais uma vez surpreendeu-se com a ousadia da moça e a sua capacidade de ser objetiva e direta em seus planos. Mas, dessa vez, não pestanejou:

- Você quer ir mesmo? Tem certeza?

- Claro que quero! É pra já! Onde e a que hora nos encontramos?

Dionísio pensou rápido e definiu logo a questão:

- Venha aqui para a empresa. Procure o portão de acesso do Setor “D”. Lá, o vigia Reginaldo a encaminhará para onde deve ir. Espero você às dezenove horas em ponto. Não se atrase. Tudo bem?

- Combinado. Estarei neste horário aí.

Cristina desligou o telefone e sorriu. Seus planos estavam avançando. Teria finalmente a oportunidade que queria para conquistar definitivamente o jovem empresário. Dionísio, por sua vez, apressou-se em tomar as providências necessárias para receber a convidada em sua Fazenda. Ligou para o tio, e deu ordens expressas de preparar a suíte presidencial. Deixou as instruções necessárias com o vigia Reginaldo e partiu para casa.

Passavam poucos minutos das dezenove horas quando Cristina e Dionísio, instalados no helicóptero, sobrevoavam São Luís ganhando os céus da cidade rumo a Açailândia. A moça comparecera no horário, trajando-se de forma simples. Vestia, porém, um modelo novo, e portava uma pequena mala de viagem, além de uma bolsa de mão. A noite estava bonita, e o manto negro do céu ainda não tinha se apresentado. Estava para acontecer o Açaí-Folia na cidade. O prefeito, Sr. Idelmar Gonçalves dos Santos, preparara-se para jogar pesado no evento, apostando todas as suas fichas políticas para aumentar o número de participantes, consciente de que a vocação festeira da população poderia lhe render muitos votos e garantir sua reeleição no próximo pleito.

Cristina já estava enjoada e enojada daquele tipo de festa. Dionísio, idem. Quando conversaram no vôo sobre não aparecer na cidade por conta da confusão armada para os festejos, perceberam que estavam de acordo. O melhor era permanecerem reclusos na Fazenda Gurupi, pra onde se dirigiram, chegando rapidamente após uma viagem tranqüila.

A noite já se avizinhava plena, quando, por fim, estavam perfeitamente instalados em seus aposentos. Cristina ficara deslumbrada com o quarto que lhe fora reservado. Dionísio informa-lhe que à meia-noite será servido um jantar. Pediu licença para retirar-se, pois deveria ainda tratar de alguns assuntos administrativos, mas que a aguardava no horário aprazado na sala de jantar. Era tudo o que a moça queria. Entrando no quarto, desfez a mala, ajeitou seus pertences no guarda-roupa e trancafiando-se na suíte, pôs-se a ajeitar-se, se preparando para o grande momento de sua vida.

Onze horas e cinqüenta e cinco minutos. A porta da suíte presidencial da Fazenda Gurupi se abre e, de dentro dela, esgueirando-se pelo longo corredor de assoalho de jacarandá, uma linda princesa percorre resoluta o seu caminho em direção à Sala de Jantar. Cristina está transformada. À sua beleza nativa, acrescentara elegância. Parecia uma princesa russa ou eslava. Seu corpo mavioso desfila graça e leveza num longo preto que fazia lembrar os eventos prett-a-porter. Seu rosto brilhava felicidade, salpicado de sorrisos gratificantes, numa maquiagem Helena Rubistein estilosa. Sua beleza facial aproximava-se da escola dos maquiadores de Hollywood. O tomara-que-caia leve, próprio para o calor de Açailândia, deixava à mostra seu dorso nu, e ombros espadaúdos de fazer inveja a qualquer modelo internacional. Em seu pescoço, um exótico colar de ouro, que deixava cair sobre os seios um lindo medalhão.

Cristina chega à Sala de Jantar exatamente à meia-noite. Dionísio, também trajado de gala, a recebe à entrada, beijando cortesmente sua suave e delicada mão. Os lábios de Dionísio tremem ligeiramente ao encostarem-se na sedosa pele da mão de Cristina. A emoção é incontida. Ambos vivem - cada qual à sua maneira -, as alegrias da oportunidade daquele encontro. O clima do momento é romântico. As cozinheiras da Fazenda prepararam iguarias utilizando-se dos peixes da região: tambaqui na brasa, postas de tucunaré ao molho de camarão, pirão de pirarucu; tudo acompanhado de um gostoso arroz com piqui e purê de batatas. As iguarias fumegavam nas bandejas e terrinas de prata. Os pratos de porcelana fina destacavam-se sobre a toalha de renda originária de Livramento do Brumado, interior da Bahia, ornada de florões multicores.

Dionísio havia preparado tudo adredemente. Como administrador, não gostaria que este seu primeiro momento íntimo com Cristina pecasse pela falta de qualidade. As duas filhas da cozinheira funcionavam como garçonetes. Tudo estava devidamente preparado para acontecer às mil maravilhas. De um lado da mesa, Dionísio. Do outro, resguardada a distância respeitosa imposta pela imensa mesa de mogno, Cristina; a bela da noite.

Para completar o glamour do jantar, Dionísio providenciou que o Home Theather da Sala de Estar contígua, tocasse suavemente o DVD com a música “You Are Beautiful” de James Blunt. Além disso, tudo fora preparado para que o clima do momento fosse de romantismo total. Era um jantar à luz de velas. As duas fileiras de castiçais neo-barrocos que se perfilavam sobre a mesa, davam um ar retrô muito propício ao romantismo da noite. O casal não se cansava de olhar um para o outro e sorrir. Dionísio mordia nervosamente o lábio inferior, como que demonstrando à olhos vistos, sua inquietação pelo inusitado instante de vida. Cristina estava irresistivelmente bela. A elegância com que se preparara para aquele momento, deixara o atordoado Dionísio totalmente entregue aos encantos da moça.

O jantar foi servido pelas meninas, que estavam vestidas com lindas jardineiras e cumpriam com seriedade o seu papel. Os jovens desfrutaram dos quitutes, entre sorrisos e olhares cúmplices. A conversa foi ligth e transcorrera com base em amenidades e assuntos da imprensa da semana, que os dois comentaram entre risos e colheradas e garfadas do gostoso jantar.

Os olhos de Dionísio brilhavam intensos, envolvido que estava por um estranho magnetismo que Cristina exercia. Algo de incomum ocorria com ele, desde que conhecera a moça. Enquanto jantavam e conversavam amistosamente, Dionísio sentia-se atraído pelo belo pescoço de Cristina e a cavidade dos seios que adornavam seu jovem corpo. O medalhão que Cristina trazia ao pescoço exercia um encantamento específico na psique do rapaz. Dionísio olhava aquele objeto, sem entender o porquê de tanta atração.

O pingente de ouro que compunha o colar que Cristina usava, era composto por duas moedas de ouro, fundidas uma na outra, sendo uma menor e outra maior. As esfinges que tinham sido cunhadas nas moedas foram fundidas “face a face” e não davam para identificar exatamente que soberano representavam. Apenas a moeda maior, de um monarca europeu, provavelmente dos povos godos e visigodos, podia ser entrevista.

Cristina conhecia bem a história do medalhão. Percebendo o interesse de Dionísio sobre o mesmo, retirou-o sensualmente do pescoço e o entregou ao rapaz:

- Tome. Olhe de perto como ele é bonito...

Dionísio tomou o colar em suas mãos. Sentiu o peso do ouro. Manuseou com certo interesse o objeto que, aproximando do rosto, procurou visualizar cada detalhe incrustado nas curvas das moedas fundidas. A moeda menor aparecia meio que amassada na base da maior. Elas estavam simbioticamente interligadas.

- A moeda menor traz a esfinge e brasão de uma rainha. Segundo um renomado joalheiro, as duas moedas separadas possuiriam alto valor para colecionadores. Numismatas europeus reconheceram na peça a junção de duas moedas raras datadas do Século IV.

- E por que elas foram assim juntadas?

- Este é o grande mistério. Se as moedas perderam o seu valor como objeto histórico, a jóia ganhou um novo valor como obra de arte e, acima de tudo, como depositária de uma simbologia mítica que ela apresenta.

- E qual é esta simbologia?

- Neste ponto reside a parte mais complexa, porém mais instigante do mistério. Se a moeda maior traz a figura de um rei e a menor a de uma rainha; e se as duas moedas cunhadas dessa maneira em épocas distintas foram juntadas numa só peça, que inutiliza o seu valor original e propõe, agrega, um novo valor, mesmo que simbólico, cultural e até mesmo afetivo; o medalhão deve simbolizar Eros, o amor, quem sabe, até mesmo cupido, ou qualquer outra significação romântica do amor puro, que se anula em prol do outro, o ser amado.

Dionísio estava boquiaberto com as explicações de Cristina. Nesta altura, as meninas já tinham retirado à mesa e trazido gostosas guloseimas de sobremesa, feitas com frutas da terra, cultivadas na própria Fazenda. Por seu turno, Cristina já havia se levantado de sua mesa e estava ao lado de Dionísio, indicando com seu dedo suave os locais do medalhão que ia explicando para o jovem. Dionísio indaga sobressaltado:

- E como você sabe de tudo isso?

- Minha mãe, antes de morrer, me deu esse presente - único bem que ela possuía, e que havia herdado de sua avó cigana, uma mulher de origem espanhola -, fazendo-me jurar por meio de antigo dialeto, uma prece ídiche, que não me separaria deste medalhão e que também não o mostraria para estranhos. Você é a primeira pessoa para quem mostro o medalhão. E não sei por que estou fazendo isso. Minha mãe me disse que de alguma forma ele iria modificar a minha vida.

Naquele momento, uma forte luz toma conta do ambiente, cegando as vistas de Dionísio. Ao que parece, a junção dos tênues fachos de luz provenientes dos sete castiçais dispostos linearmente sobre a mesa, criou um halo atemporal de luminosidade, como se a luz carregasse a passagem do túnel do tempo e convidasse o rapaz a visitar outras realidades.

Dionísio se deixa envolver pelo clima de mistério e paixão que o jogo de luz lhe propõe. Pequenos flashes de memória o conduzem ao passado. Visita as minas do Rei Salomão; visualiza o Egito de Ramssés III; entrevê a Babilônia dos caldeus; vislumbra o senado romano, a Arcádia grega, os templos cristãos; descortina, nas pradarias íngremes da Europa, os bárbaros bretãos e germânicos, os vikings, os francos e ibéricos; se encanta com as naus portuguesas singrando os mares; observa Marco Pólo e Napoleão, a época vitoriana; fascina-se com a conquista das Américas, os incas e maias, os tupiniquins e tupinambás; faz parada em Açailândia.

O mesmo túnel de luz que o leva ao passado remoto, o faz visualizar um passado mais próximo: sua infância. Ele vê um menino de apenas dez anos, olhando sorridente para a enorme barriga de uma adolescente grávida, e dizendo profeticamente ao colocar a mão sobre o bebê que se mexia no ventre da mãe: “Se menina, será minha mulher!” Lembra-se do medalhão no pescoço da adolescente, e agora recorda de onde conhecia aquele rosto, o lindo e angelical rosto de Cristina. Cristina tinha uma face igual a da mãe e perpetuaria para sempre o mito das deusas, das belas ninfas que visitavam a Terra dos Homens de geração em geração, apresentando-se em forma de belas fêmeas, cuja beleza a humanidade nunca foi capaz de decifrar e nem sempre digna de desfrutar. Cristina personificava a beleza da mulher.

Dionísio desperta de sua viagem luminosa e percebe-se ainda sentado à mesa, tendo a jovem silente, em respeitosa reverência, ao seu lado, aguardando a passagem do transe do amor. Levanta o olhar e percebe o grave ponto de interrogação que se esboça na face de Cristina:

- O que foi? Que aconteceu?

A moça percebe que algo misterioso e profundo ocorrera naqueles breves minutos que Dionísio deixara a materialidade e se revestira de transcendentalidade. O rapaz olha mais uma vez para o lindo rosto da jovem e levanta-se empolgado e, ao mesmo tempo, resoluto:

- Você quer casar comigo?

Quem agora toma um susto tremendo com o jovem é Cristina. Não esperava tão destemida resolução por parte do rapaz. Dionísio segura a mão da moça e fixando os olhos nos belos e amendoados olhos de jabuticaba da moça, aguarda uma resposta que o brilho do olhar e da expressão facial dela lhe transmite:

- Sim, vamos, seria um sonho. Mas, me diga, por que tudo isso?

Não havia o que dizer, não havia o que explicar. Para corações amantes só há vivências, experiências, sensações, emoções. Cristina e Dionísio estavam entrelaçados pelo amor. E o beijo que dão naquele instante reverbera nos céus do Maranhão levando todas as tribos conhecidas e desconhecidas - dos nativos brasileiros da Amazônia Tropical - a alçarem seus tambores, chocalhos, cuícas e maracatus numa canção primitiva de amor aos deuses e à Natureza.

Dionísio sente os lábios de mel da amada, adocicar sua vida e sua alma. O corpo da jovem, entrelaçado no seu, experimenta a maior emoção que um homem pode ter ao tocar a derme da amada. Desejo e paixão, amor e sedução se manifestam de forma intensa naquele momento de eternidade etérea.

O casal deixa a Sala de Estar, ao som de “You Are Beautiful” de James Blunt e se dirige para o imenso varandão que ladeia a sede da Fazenda. Olhando para as estrelas, e escutando ao longe a algazarra do Açaí-Folia, Cristina e Dionísio trocam juras de amor eterno. Ainda gastariam o restante da madrugada trocando confidências, e explicando detalhes do encontro de suas almas gêmeas. Era dois de junho. Resolveram de marcar o casamento para 23 de setembro, início da Primavera. Uma tia de Cristina seria acionada para assinar os papéis autorizando seu casamento.

A moça era virgem. De amante a esposa sua trajetória de sonho consumou-se na esfera dos desejos dos deuses. O medalhão de ouro tinha razão: duas metades que se encontram para formar uma nova realidade. Dionísio aguardaria o casamento para conhecer Cristina como mulher. E a festa seria ali na Fazenda mesmo. E a Lua de Mel também.

O casamento foi o acontecimento mais badalado do Brasil de início do Século XXI. E depois de tudo isso, Dionísio criou uma festa anual para concorrer com o Açaí-Folia. As Dionisíacas, como passaram a se chamar, se celebravam oficialmente em Açailândia, com mais pompa do que o foi na Grécia Antiga, seja em Atenas ou em qualquer outra cidade. Elas eram presididas pelo tio Horcades, enquanto este viveu e, depois, pelo secretário particular de Dionísio, Robson, que passou a ser-lhe um excelente amigo e conselheiro.

As principais cerimônias das Dionisíacas consistiam em procissões em que se conduziam vitórias-régias, vasos cheios de aguardente de açaí, ramalhetes de flores silvestres e se exaltava os atributos do homem que revitalizou a vida na região. Raparigas, chamadas “açaidetes”, levavam na cabeça cestas de vime doiradas, cheias de frutos típicos regionais. O primeiro bloco era composto por moças morenas de descendência indígena, cujos cestos estavam repletos de açaí. O segundo, por moças brancas, oriundas da Europa, cujos cestos estavam lotados de cupuaçu. O terceiro, por moças loiras, em cujos cestos o caju cheirava forte e impregnava as narinas dos foliões. O quarto grupo era composto por moças negras, em cujos cestos a graviola madura exalava o forte odor da fruta.

Do meio destas frutas saíam macaquinhos da fauna brasileira, que saltitando por entre os convivas, provocavam uma algazarra típica das bacanais. Micos-leões-dourados, macacos-pregos, muriquis, que é a maior e mais corpulenta forma de macaco tropical, e os sauís-pretos, que se constituem no mais raro dos símios brasileiros. Figuravam também no cortejo, homens disfarçados de palhaços, à moda das folias de reis, fazendo variegados gestos bizarros. Além disto, araras, papagaios, a mística ararinha-azul, espécie em extinção, voejam por sobre o cortejo trazendo dos céus não só as cores da mãe Natureza, mas a bênção para a eternidade do amor que se perpetuava nos corações de Dionísio e Cristina.

Cristina se fez mulher de Dionísio e encantou o Brasil e o mundo com sua beleza e doçura. Ela foi a Ariana do Dionísio brasileiro, de quem gerou muitos filhos, a saber: Açhaí, Brasilis, Marnhão, Diorne, Crisol, Kequara, Filos, Nativus e Tropicalis. Destes, porém, não se sabe nada mais, exceto seus nomes. Cristina, desde então, passou a ser conhecida como Rainha-mãe do Amor.
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 20/10/2006
Reeditado em 22/10/2006
Código do texto: T268997
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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