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A Metáfora da Metamorfose

Era feia. Era desengonçada e muito feia. Se arrastava meio sem jeito; e tentava passar sem chamar a atenção. Olhava para o chão, tinha vergonha de ser quem era. Odiava sua existência medíocre: queria ser melhor, maior e mais bonita. Queria que todos a seu redor suspirassem sua beleza, e ansiassem para vê-la passar.
Se ao menos tivesse uma única razão para estar lá... Mas não tinha. Nasceu para sofrer e reclamar, é assim que devia ser. É a ordem natural das coisas, e por quê? Por que uma existência de busca pelo canto mais escuro?
Valeria a pena? Tinha medo de respostas.
Ela era boa... Tinha certeza que era! Mas toda sua bondade vinha coberta por uma casca feia e apodrecida. Asquerosa. Tudo que havia de bom nela estava escondido também. Estava endurecido, ou talvez até necrosado.
Vivia aquela vida que não era vida. Não, ela não vivia. Ela existia apenas. Tentava sobreviver, às vezes. Comia porque seu estômago não lhe dava outra alternativa. E ela também não pensava em morrer... Ainda.
Aos poucos, foi ficando cada vez mais lenta. Mover-se transformou-se em tortura. Sentia vergonha... Não queria mais se expôr. O Sol era-lhe profano de tão colorido e brilhante. Iluminá-la era um insulto!
Queria a escuridão, o silêncio, o estático. Mas ainda sentia fome.
Até o dia que a comida pareceu apenas acumular-se no estômago, pesando cada vez mais, e mover-se ficou ainda mais penoso. Que bênção! Enfim, conseguiu motivos para se alegrar. Não queria mover-se e, agora, nem precisava. Podia simplesmente ficar ali esperando a morte. Sua hora estava chegando!
Fechou os olhos, fechou todos os sentidos. Não viu mais nada. Esperou o tempo passar como se não existisse mais tempo. Perdeu a noção dos próprios limites, como se não existisse mais corpo. Tudo que ela conhecia até então transformou-se em conceitos abstratos e distantes. Fechou-se em uma placenta que, enfim, lhe traria à verdadeira vida. A morte, quem sabe.
E a escuridão... E a escuridão...
Mergulhou no infinito.
Não sabia bem onde estava, e nem sabia quem era. De repente, ela já não tinha mais uma forma, tinha todas.
Ela era... algo assim... que não podia explicar.
Entretando, ela sabia, alguma coisa crescia dentro dela. Algum fogo. Uma convulsão tomou conta do seu ser, aos poucos... num sopro. Um sopro, que tranformou-se em vento, que metamorfoseou-se para tufão.
Viu uma luz. Não a luz profana, mas uma luz quente, que atraía-lhe. Irresistível, enigmática.
Buscou a luz!
E a placenta do infinito rompeu-se.
Luzes! Cores!
Ela ganhava o céus, abrigava o mundo.
Olhou para os lados, e viu que tinha asas.
Voava.
Alessandra Martins
Enviado por Alessandra Martins em 20/10/2006
Código do texto: T269501

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Sobre a autora
Alessandra Martins
São Paulo - São Paulo - Brasil, 28 anos
64 textos (3724 leituras)
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Alessandra Martins