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DIÁRIO DE UM ELEVADOR

MINHA VIDA, COMO A DE QUASE TODO MUNDO, ESTÁ PINÇADA DOS
MAIS ESTRANHOS E INUSITADOS ACONTECIMENTOS, BEM ASSIM, DE
TODA ORDEM DE EMOÇÕES, TRISTEZAS, PRAZERES E DESCOBERTAS.

TUDO COMEÇOU NO DIA EM QUE ASSUMI A FUNÇÃO SOCIAL DE MOVIMENTAR-ME NO VAI-E-VEM E NO SOBE E DESCE DOS 25 ANDARES DO "MEU PAÍS". LOGO NA ESTRÉIA ME VI AGRACIADO COM
UMA MORNA E ABUNDANTE URINADA, VERTIDA PELA GRACINHA DA
POODLO DE DONA NINA, DO 21° E EXCLAMEI: CARAMBA! MAS A
COMPENSAÇÃO NÃO TARDOU CHEGAR, NA FIGURA BONECA, DA LINDA
E DESLUMBRANTE TÂNINHA, 16 ANOS, DO SÉTIMO. TRAJANDO BUSTIÊ
GRENÁ, MINI-SHORTINHO BRANCO E CALÇANDO SANDÁLIA PRATA, BAIXA, ME DEIXAVA TONTO, BAMBO, QUANDO EM MIM ENTRAVA. AHH!
MAS NA VIDA NEM TUDO É PRAZER, SENSUALIDADE, POIS LÁ VEM O
MAU-HUMORADO SR. VIANNA, IMPREGNADO DAQUELE ODOR CIGARREIRO. OH, MEU SENHOR DO BONFIM, 23 ANDARES! EU MEREÇO!

ENTRE UMA E OUTRA CORRIDA, COMEÇAVA A MATUTAR COM MEUS
BOTÕES, OU MELHOR, COM OS MEUS CONTROLES... NECESSITO ME
ADAPTAR A ESSAS CONTINGÊNCIAS SOCIAIS DA VIDA DE RELAÇÃO
DE UMA POPULAÇÃO CONCENTRADA EM 25 ANDARES E, COM A QUAL
CONVIVERIA DIÁRIAMENTE, 24 HORAS.

CERTA VEZ, MUITO COMOVIDO FIQUEI AO OUVIR O DRAMA DE DONA
SANTA PARA O SR. PEIXOTO, ENTRE O 22° E O TÉRREO. ELA
DESCOBRIRA A TRAIÇÃO DO MARIDO E SE SEPARARA HAVIA APENAS
QUATRO MESES. ELA, DO INTERIOR, TRÊS FILHOS. POBRE DONA
SANTA, LOGO ELA. QUE PARTIDAÇO!

NÃO QUE EU FOSSE BISBILHOTEIRO, MAS QUISESSE EU OU NÃO,
NESSA FUNÇÃO, COMPULSÓRIAMENTE, EU TOMAVA PARTE DE TODOS
OS ACONTECIMENTOS E DRAMAS DE "MEU PAÍS."

OS ANIVERSÁRIOS (FESTAS), EXCETO PELA OPORTUNIDADE DE CONHECER GADO NOVO, EXUBERANTES NOVILHAS, EU OS DETESTAVA,
POIS TRABALHAVA MUITO, MUITO! AGORA, A MINHA GRANDE FRUSTRAÇÃO EU JUSTAMENTE CONSTATARIA NOS DIAS DOS NATALÍCIOS. EU, O VEÍCULO DE TRANSPORTE NÃO ERA CONSIDERADO
O CENTRO DAS ATENÇÕES, PAPEL ESSE QUE CABIA A UM ESNOBE E
CONVENCIDO SUPLEMENTO, CHAMADO: -SE PUDESSE OMITIRIA O
NOME- E S P E L H O. ELAS O ADORAVAM! E, ELE SE FAZIA DE
"OJETO DO DESEJO". ELAS DISPUTAVAM O ESPAÇO P'RA DERRADEIRA OLHADA NOS CABELOS, AJEITAREM A BLUSA, O RETOQUE
DO BATOM E, ATÉ ENSAIAVAM UM BEIJO QUE TALVEZ NEM ACONTECESSE. MAS, QUE IMPORTA?

BOM, DURA MESMO ERA A VIDA DA DRª HORTÊNCIA, DESEMPREGADA,
COM DOIS FILHOS ENDIABRADOS, CONSTANTES ALVOS DE REPREENSÕES E ADVERTÊNCIAS DO SÍNDICO, PELO COMPORTAMENTO
DANOSO AO PATRIMÔNIO CONDOMINIAL. EU OS CLASSIFICAVA COMO:
PESTINHA I E PESTINHA II. ALGUMAS VEZES, ATÉ COLOCAVA DEFEITO NA PORTA SÓ PARA DEIXÁ-LOS EM PÂNICO.

OS MAUS PAGADORES, AO SE DEPARAREM COM O SÍNDICO, PRIORIZAVAM AS ESCADAS. QUE CORRIIIDA! A PIOR FASE, NO
ENTANTO, ERA QUANDO EU ME ENCONTRAVA FORA DE AÇÃO. ÀS VEZES
POR ATÉ DOIS DIAS. QUE FOSSA! MAS COMPREENDIA O VALOR DO
TRATAMENTO, DA ELIMINAÇÃO DE GORDURAS E DO REVIGORAMENTO
ANATOMICO, CONDIÇÕES ESSENCIAIS PARA VIDA LONGA E SAUDÁVEL.

A VOLTA AO BATENTE INEBRIAVA-ME DE PRAZER. TUDO E TODOS ALI, CONSTITUIAM NA VERDADE, A RAZÃO MAIOR DE MINHA EXISTÊNCIA. QUANTO ÀQUELA FRUSTRAÇÃO, ME RECOLHIA NA PACIÊNCIA DE ENCONTRAR O REMÉDIO QUE INIBISSE O PROCESSO
DE "ELEVAR DOR." "... OH! TRISTEZA ME DESCULPE, ESTOU
DE MALAS PRONTAS, HOJE A POESIA VEIO AO MEU ENCONTRO, JÁ
RAIOU O DIA, VAMOS VIAJAR..."
jray
Enviado por jray em 24/10/2006
Reeditado em 20/04/2008
Código do texto: T272853
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Sobre o autor
jray
Três Rios - Rio de Janeiro - Brasil, 75 anos
144 textos (5871 leituras)
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