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Ó DEUS

Subo flutuando, lentamente e aproveito para prestar atenção a tudo que me vai em volta.  À minha esquerda, o Pão-de-açúcar, sem qualquer vestígio de bondinho ou estação.  Tudo ao natural, somente árvores em volta.  Que sensação estranha.  À direita, o Corcovado, mas, onde está o Cristo?  Nem sinal dele e muito menos dos bares, escadarias e escadas rolantes que cada vez mais isolam a estátua.  Continuo a subir e dou por falta dos barracos da Rocinha e do Vidigal.  Tudo coberto de densa vegetação.  Do alto vejo a curvatura de Copacabana, sem qualquer edifício construído, tudo rigorosamente selvagem.

Uma olhada para os lados da Tijuca e revejo a magnífica casa de fazenda, estilo colonial, plantada no alto do morro do Turano, sem favela alguma e muito menos faculdade por perto..

Céus, alguma coisa de grave ocorreu com o meu Rio de Janeiro!  O silêncio é total.  Nenhum carro pelas ruas, se é que vielas de barro podem ser chamadas de ruas, pois é o que vejo por todo lado.   Poças de lama enormes cobrem o espaço que antes era margeado por avenidas litorâneas e só reconheço que aquele lugar é a praia de Ipanema porque ao fundo aparece o morro Dois Irmãos.  Uma rajada de vento me empurra para os lados da zona norte e eu percebo que o Maracanã desapareceu do mapa.  O maior estádio do mundo não existe.  A seu lado está uma linda colina que eu acabo por identificar como sendo a Mangueira, sem qualquer barracão de zinco. Onde estão as linhas de trens da Central do Brasil (eu acho que o nome já mudou!)?  Cadê a Presidente Vargas?  Onde foi parar a igreja da Candelária?  Uma vasta planície me faz desconfiar que estou passando pela outrora Avenida Brasil e nem vejo sinal das Linhas Amarela e Vermelha.  O fundo da baía de Guanabara é límpido e quanto à favela da Maré ― nem pensar.  Em seu lugar um imenso espelho d’água com peixes saltando a toda hora.  E a Universidade Federal do Rio de Janeiro ou Fundão, como é mais conhecida?  Nada.  Tudo água transparente.  Contam que D. João, ao chegar ao Brasil, costumava tomar banhos de mar por essas bandas.
Já estou começando a gostar do que vejo quando me sinto puxado por mão forte, rumo às alturas.  O deslocamento é tão rápido que quase perco o fôlego.

No momento seguinte estou em um lugar todo branco, em frente a uma cadeira alta, onde uma figura sem rosto aguarda minha aproximação.  Dirijo-me a ela e pergunto:
 ― Onde estou?
Não há resposta.
― E quem é o senhor? ― insisto.
― Você não devia perguntar tanto.  Seria melhor esperar que eu lhe explicasse o que acontece, pois pouparia seu fôlego.
― Obrigado.  Estou aguardando as perguntas, então.
― Ótimo.  Vamos lá.  Onde acha que está?
― Não faço a menor idéia.  Só sei que, pelo caminho, encontrei a cidade onde nasci completamente modificada.

Tenho vontade de perguntar o que havia acontecido, mas me lembro-me das palavras iniciais do homem e me contenho.
― Vamos direto ao assunto.  Você acaba de morrer e está realizando aquele  velho sonho de ver sua cidade no tempo em que a violência e os maus costumes ainda não haviam invadido tudo.

Engulo em seco e me apalpo, discretamente, para ter certeza de que não estou morto.  Sinto até um certo incômodo com o beliscão que me dou na barriga, aproveitando que estou com os braços cruzados.
― Se doeu é porque estou vivo ― penso comigo mesmo.
― Olhe, meu caro, é melhor que eu lhe diga que qualquer pensamento que você tenha eu capto imediatamente.  Você ainda tem uma certa sensibilidade corpórea porque acaba de morrer, razão pela qual sentiu o beliscão, mas logo tudo isso vai cessar.
― Escute aqui, seu adivinho.  Cansei dessa história de que estou morto e não posso fazer perguntas.  É melhor me dizer onde estou e quem você é, senão vou me mandar, certo?
O homem nada responde e continua me fitando.

Tento dar-lhe as costas e partir, mas não consigo sair do lugar.
― Tá bem, cara.  Você está me gozando e eu  sei que tudo não passa de um sonho.  Vou ter toda paciência com as suas adivinhações e “poderes”, pois, daqui a mais um pouco eu acordo e vou acabar rindo quando me lembrar de você dizendo que eu estava morto.
― Ah, é?  E quanto tempo você acha que vai durar o seu “sonho” ?
― O tempo, nos sonhos, não pode ser medido. Um segundo real pode equivaler a um  ano nos sonhos.  Agora te peguei.
― Já que é tão esperto, que tal esperar, digamos, um século para “acordar”?
― Viu? Já está admitindo um fim para o meu sonho.  Eu vou esperar que ele acabe.  Pode durar alguns séculos, mas sei  que não passará de alguns minutos no mundo real.
― Como você vai ficar aqui alguns “séculos”, que tal se conversássemos um pouco sobre a sua vida?
― Não vejo mal nenhum nisso.  Quando acordar posso até seguir alguns de seus conselhos, seu “sei-lá-quem”.
― Para você não ficar me tratando desrespeitosamente, pode me chamar de Deus.
― Que privilégio!  Deus aparecendo para mim em sonho”!  Posso tomar sua bênção?
― Nem vou responder.  Quando você se convencer de que está morto, quero ver se não vai me tratar com o devido respeito...
― Fica zangadinho não, Deus.  Vamos bater um papinho animado, enquanto meu corpo não começa a cheirar mal.
― Por aqui os corpos não têm cheiro.  Não são sequer corpos.  Você está na categoria de espírito puro, mas, com essa arrogância toda eu diria que tem muito ainda a evoluir.  É o que vocês lá na terra costumam chamar de “espírito- de porco”.
― Cada vez mais me convenço, Deus, que você não tem nada a ver com Deus.  É, no máximo, um gozador.  Vamos lá, faça um milagre dos grandes.  Torne os homens todos iguais.
― Você já ouviu falar em “livre arbítrio”, ó insolente mortal?
 ― Ó Deus, me poupe!  Toda vez que é preciso justificar as incoerências religiosas lá vem essa história de “livre arbítrio”.  O homem acaba sendo responsável por suas ações através de concessão divina.  O que pensar dos pobres africanos, explorados pelos homens brancos há séculos?  Como você permite uma coisa dessas, ó Deus ?
― Olhe, já estou me cansando da sua arrogância e ignorância bíblica.  Assim sendo, vamos encerrar essa nossa conversa.  Você tem razão.  É tudo um sonho ou pesadelo e a hora de mudar a paisagem chegou.

O homem recuou alguns passos e bateu palmas fortemente.  Na mesma hora senti uma corrente de ar me arrastar fortemente para baixo.  Minha cabeça rodava e eu acabei por perder a noção de espaço e tempo.

Desperto num lugar quente e inóspito.  Nada que se pareça com tudo que eu conheço  Caminho alguns passos até perceber que muitos vultos vêm na minha direção.  Ao chegarem bem próximo posso identificar vários de meus conhecidos e parentes que me lançam olhares suplicantes e horrorizados, desaparecendo em seguida.
― Droga.  Esse sonho não acaba mais.  Onde foi se meter o tal de Deus ?
― Ele não vai mais falar com você, insolente mortal.  Mandou-o para mim até que você se convença de que morreu e pague o preço de sua incredulidade e arrogância“ ― soou forte e  estridente uma voz atrás de mim.
― E quem é você? Onde estou?

Ouço uma risada medonha e, ao me virar, vejo uma ponta vermelha de  cauda, batendo de leve na minha perna.
― Adivinhe, meu novo pupilo, adivinhe onde você está e quem eu sou?

  Belisco-me novamente, por diversas vezes, mas desta vez nada sinto.

Ruy Soares da Silva
Enviado por Ruy Soares da Silva em 27/10/2006
Reeditado em 27/10/2006
Código do texto: T274593
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Sobre o autor
Ruy Soares da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 77 anos
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