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O conceito

Mais um dia tranqüilo nas terras altas de Gulian, com suas expressões de “paz” e harmonia. Tudo agindo de uma forma naturalmente bela, a qual ninguém poderia questionar. Os céus estavam azuis e a grama verde, quem sabe houvessem outras formas e outras cores espalhadas pelo lugar, porem não são perceptíveis ou importantes. Haviam alguns animais no lugar e estes estavam em harmonia. Na determinada ocasião uma raposa tentava matar um coelho, porem este conseguia se desvencilhar e correr sempre que ela o alcançava. Aquela terra era muito mais parte do coelho do que da raposa, entretanto era necessária que em tal luta houvesse um perdedor e um ganhador.
Longe dali um homem estava em uma cabana e tranquilamente dividia um corpo em pequenos pedaços e os empilhava com uma estranha lógica. Após empilhar alguns pedaços ele foi até uma pequena pia branca tirar o líquido vermelho das mãos. Pegou um pedaço de pano, enxugou as mãos e foi até um pequeno fogão à lenha para ferver água. Nesse momento ouviu algumas batidas em sua porta, foi até a pia novamente e pegou o pano. Foi até a porta e a abriu.


O vento soprava brando sob os telhados das casas e fazia com que algumas folhas entrassem pelas janelas destas. Mumoc fechou sua janela, colocou o revólver em sua cintura e saiu. Caminhava sob paralelepípedos de barro que haviam adquirido um certo tom de azul com o decorrer do tempo. O sol estava próximo de pôr-se, mas o céu permanecia limpo. Ele continuou caminhando até chegar aos limites da cidade, porém isso não mudou seu passo. Passou por algumas árvores retorcidas e então começou uma marcha mais rápida.


Cruo olhava para aquele homem de porte estranho, alguém que em sua opinião era bastante sombrio. Talvez o fato deste estar com aquela arma reluzente apontada para sua direção desse este efeito. Ele olhava atentamente para o homem sem entender por que ele estava fazendo aquilo. Mumoc continuava a apontar o revólver sem dizer palavra alguma e então Cruo tomou a palavra:
— O que quer em minha casa?
— Acabar com esta morbidez — Respondeu Mumoc.
— O que quer dizer com isso? — Disse Cruo indignado.
— Com esta coisa repugnante que você faz!
— Repugnante é isto que você está fazendo! É repugnante dentro dos costumes e dentro do próprio mundo. — Declarou rispidamente Cruo — Você e esses Organistas!
Nesse momento Mumoc olha para a mesa e fica enojado, todas as células de seu sistema digestório se esforçam para vomitar, e ele de forma instintiva leva a mão à boca. O que ele observara eram cubos de carne, cubos de ossos e copos com sangue. Colocados sobre a mesa formando quase uma escala de cores algo bastante agradável de se olhar. Então Mumoc recuperando-se disse:
— Entregue-se a nova ordem ou será morto.
— Não me entregarei a homens que querem acabar com tudo que nossa cultura construiu. — Argumentou.
— Os vícios de nossa cultura? — Falou com ironia e apontando a arma.
— Não. Seus mistérios e conhecimentos. — Respondeu Cruo.
— E este ato seria um deles? — Disse apontando para a mesa com a mão esquerda.
— Sim, este seria talvez o mais importante dentre eles.
— No Organon nós sabemos que tais atos vão contra tudo que nossa sociedade já construiu. — Concluiu Mumoc.
— Os antigos já falavam da existência de pessoas como vocês. E muito do que você enaltece foi construído por estes.
— Não existe razão para este conceito perdurar até hoje!
— Você nem mesmo entende o motivo pelo qual ele foi conservado. Não entende nem mesmo o motivo pelo qual existem os mistérios. — Replicou Cruo.
— A velha resposta e esta velha história de mistérios. — Reclamou sarcasticamente.
— Nós fazemos isto para que todos saibam de que somos feitos — Relembrando os ensinamentos — "Ossos, carne e sangue...Você é feito disso".
— Hoje todos sabem muito bem disso. Sabem até mesmo porque somos assim.
— Vocês não sabem o ensinamento, pois se soubessem não questionariam. — Disse Cruo.
— Isto que disse foi uma bobagem. Afinal saber disso é o que faz estes ensinamentos não terem mais valor. — Respondeu Mumoc.
— Não é desta forma que funciona meu caro.
— É ignorância não saber que isto é apenas um resquício das nossas antigas eras primitivas. Hoje nossa sociedade deve evoluir e estas pequenas ignorâncias corroem nosso processo de melhora.
— Eu estava realmente certo. — Disse Cruo com alegria.
— Como? — Mumoc sem entender.
— Se soubesse realmente que é feito de ossos, carne e sangue não faria tal discurso imbecil. Nem você e nem ninguém do Organon conhece os mistérios ou entende alguma crença realmente.
Mumoc por um momento se sente perdido, porém não abdica de suas inclinações, mas chega a questioná-las. Nesse momento Cruo o desarma e fala rapidamente:
— Mas agora conhecerá!
Ele atira no ombro do outro e diz ironicamente:
— Ossos, carne e sangue...Você é feito disso, você é apenas isso.
Longe dali um pequeno coelho come enquanto uma raposa percebe que não havia sido uma boa idéia entrar num buraco onde seu corpo não passava. Tudo correndo na mais perfeita harmonia.
Rato da Montanha
Enviado por Rato da Montanha em 29/10/2006
Código do texto: T276356
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Sobre o autor
Rato da Montanha
São Paulo - São Paulo - Brasil
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