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Conto de Natal

                        Conto de Natal

O mês de dezembro mal começava e as atividades na Lapônia já iam intensas: duendes ajudavam a colocar presentes, sob a supervisão de Papai Noel que lhes ia dizendo o que pôr primeiro no saco, a fim de facilitar sua tarefa, na hora da entrega; costureiras ajeitavam as calças vermelhas do bom velhinho que, a cada ano aumentavam de tamanho graças, principalmente, à grande quantidade de doces que consumia, quando da chegada às casas de família, na noite de Natal.  Era uma rabanada aqui, uma fatia generosa de panetone ali e, para encerrar, torta de maçã acompanhada de creme de chantili.  Papai Noel chegava a revirar os olhos, tamanha a satisfação, mas...o peso ia aumentando.
        Nos estábulos a agitação não era menor: as renas eram escovadas e os metais do trenó, polidos.  As partes que se haviam desgastado ao peso do usuário iam sendo substituídas.
Na sapataria as botas recebiam atenção especial, tratadas com esmero para, por mais um ano, resistirem ao intenso frio, ao contato com a neve e com as paredes ásperas das chaminés por onde Papai Noel gostava de entrar, sempre que possível.
Na noite de Natal tudo estava visto, revisto e conferido.  Noel acertou os óculos, repassou as listas, subiu no trenó, sacudiu as rédeas e levantou vôo, despedindo-se, com vigorosos aceno, de seus ajudantes e, em especial, de Mamãe Noel que, como de hábito, ainda lhe fazia as derradeiras recomendações.
As renas deslizaram rapidamente pelos céus e Papai Noel foi cumprindo, uma a uma, suas entregas pelo mundo, com a eficácia de sempre.  Olhando a longa lista viu que as próximas deveriam ser feitas no Brasil e, sacudindo mais uma vez as rédeas, ordenou docemente às renas que para lá se dirigissem.
“Este mundo mudou muito ― pensou Noel.  Tudo ficou estranho.  Quase não consigo mais encontrar chaminés nas grandes cidades.  Tenho de descer sobre edifícios altíssimos, retirar telhas, ficar procurando em corredores nem sempre bem iluminados, os números dos apartamentos e até já me acostumei a dar um “jeitinho” de abrir portas ou janelas.  Depois, dá um trabalhão fazer o caminho de volta, repondo tudo nos devidos lugares.  Além disso, os pedidos estão ficando cada vez mais complicados: bicicletas com uma infinidade de marchas, jogos eletrônicos, videocassetes, DVDs, microcomputadores, patins com quatro rodas em linha. Os modelos antigos, com duas rodas na frente e duas atrás ficaram todos encalhados Os pobres duendes têm, a cada ano, cada vez mais trabalho para produzir tudo isso.”
Seus pensamentos foram interrompidos por uma suave freada das renas, indicando o local da primeira entrega: a Mansão do Lago, no condomínio Rosa Chá, em plena Barra da Tijuca.  Papai Noel ainda teve tempo de olhar em volta e comentar, abrindo largo sorriso:
“Sempre linda esta cidade.  Quando terminar as entregas pretendo dar uma passadinha lá pelos lados do Corcovado e render justas homenagens ao Cristo Redentor.”
Estacionou o trenó em pleno ar e reparou que aquela casa possuía chaminé.  Preparou o saco, amarrou uma corda no trenó e começou a descer rumo a ela.
De repente, uma luz intensa quase o cegou e ele ouviu vozes ao lado da casa.  Uma delas, mais poderosa que as outras lhe gritava:
        ― Desce daí, velho safado, senão vamos te mandar chumbo.  Que ladrãozinho mais cheio de idéias.  Até helicóptero disfarçado de trenó o bandidão bolou.  Vamos te dar um couro, marginal.
Papai Noel ainda tentou convencê-los com sua famosa risada, que o homem nem fez questão de ouvir.
― Tem um minuto para descer ou leva bala!
Noel pensou consigo mesmo:
― É a primeira vez que tenho tão singular recepção.  Vou descer e me identificar.  Assim acaba essa brincadeira e posso continuar com as entregas.
Fez sinal para as renas e elas o pousaram, suavemente, ao lado do grupo.
― Ho, ho, ho, meus amigos.  Estou trazendo os presente da garotada desta casa.
― Aí, mermão.  Inventa outra.  O papai da garotada daqui já comprou tudo e deixou junto da árvore.  Nós mesmos fomos encarregados de fazer a decoração da sala.  Agora vai explicando direitinho toda a tua jogada pra gente aprender e evitar futuros assaltos como este.  Vai, desembucha logo.
Noel não estava entendendo aquele tipo de linguagem.  Ficou parado, sem ação e recebeu uma bofetada que lhe amassou um dos aros dos óculos.  Caiu e foi algemado pelos seguranças do condomínio.
― Por que me bateu, senhor?  Só estou querendo cumprir minha missão de todo ano.
― Cala a boca, marginal.  Levanta que já chamamos a patrulhinha pra te levar pra delegacia.
O velhinho foi sendo empurrado e ficou de pé, encostado a uma árvore do jardim da mansão.
“Que estranho ― pensou consigo mesmo.  Deve ser alguma brincadeira moderna para me recepcionar.  Só que aquele tapa quase me quebra os óculos e eu não tenho outros.  Mamãe Noel sempre diz para eu trazer um par de reserva e eu acabo esquecendo.”
A patrulhinha chegou e, após troca de cumprimentos com o grupo, os soldados empurraram Papai Noel, que caiu no banco de trás, diretamente contra a porta do outro lado do carro.  Um “galo” surgiu imediatamente em sua cabeça que, de tão confusa, já não articulava os pensamentos com clareza, mas ainda conseguiu ouvir a gritaria dos homens:
― Pega, pega essas hienas.  Não deixa fugir.
Vários tiros foram dados e o chefe do grupo esbravejou:
― Cambada de incompetentes.  Aquilo não são hienas.  São imitações de renas para camuflar o helicóptero, que deve ter um mecanismo de vôo automático sincronizado com o relógio desse, desse...Papai Noel.  Vocês não são capazes de acertar num elefante a dois metros de distância.  Tinha de mirar nas hélices.  Nas hélices, suas bestas.
Os seguranças ouviram em silêncio e apenas se entreolharam.  Nada disseram, mas cada um tinha a certeza de não ter visto nada que se parecesse com hélices e muito menos barulho e ventania de helicóptero decolando.
A sirene da patrulhinha anunciou a partida e, em breve, Noel era retirado do veículo debaixo de empurrões e cascudos.  Ele mantinha os olhos fechados para imaginar que tudo aquilo não passava de um momentâneo pesadelo.  Quando os abriu estava diante de uma grande mesa onde um homem, em mangas de camisa, o olhava com ar de superioridade.
― Bom dia, Papai Noel.  Que lindos brinquedos o senhor deve ter aí na sua sacola.  Certamente os que trouxe para entregar ao meu filho devem estar entre eles.  Vamos fazer um trato: se o senhor me disser o que ele lhe pediu, está livre e merecedor de todas as desculpas pela ação meio vigorosa dos patrulheiros ― falou o delegado com voz sarcástica e sorriso de desdém.
― Se o senhor delegado me disser o nome de seu filho, me der o seu endereço e me deixar consultar a minha lista eu logo lhe direi ― respondeu Noel.
― Detetive Pega Leve!  Solte uma das mãos do querido Papai Noel.
― O senhor tem certeza, doutor Fagundes?  Olha que ele pode ser perigoso.
― Pode deixar.  Eu me garanto.
O delegado abriu a gaveta de sua mesa e de lá tirou uma escopeta, deixando-a em cima da mesa, bem a seu alcance.
Assim que teve solta uma das mãos, Papai Noel ficou aguardando as informações que pedira ao delegado.
― Aí, Pega Leve! O otário tá mesmo a fim de debochar da minha cara.  Confere aí, marginal.  Nome do menino: Nepomuceno de Assis Cortamundo.  Endereço: rua da Páprica Madura, 87 ― Bairro Iglu ― Vila Kennedy ― Rio de Janeiro.
Noel desamassou os óculos, limpou-os, tirou do bolso, com todo cuidado a lista de endereços e, após consultá-la disse ao delegado:
― Doutor Fagundes, os dados que acaba de me fornecer não conferem com os que estão na minha relação.  O menino Nepomuceno, que se assina Nenê, segundo as informações que escreveu na cartinha para mim, mora na travessa Bento Siqueira, 37 ― casa 2 ― Vila Rosenda ― Rio de Janeiro.
O rosto do delegado empalideceu e o Pega Leve derrubou a xícara de café que segurava.  Eles ficaram fitando Noel, mudos de espanto.  O endereço era exatamente o do delegado e, ainda por cima, o velho havia acertado com o apelido familiar do Nepomuceno.
Após alguns minutos o doutor Fagundes, com voz rouca e quase sumida
disse, entre dentes:
― ...e quais foram os presentes que o meu filho lhe pediu?
Passando a mão suavemente sobre o “galo” que lhe crescera na cabeça, Noel enumerou:
― Primeiro uma prancha de surfe, depois uma bola de futebol americano e, finalmente, uma lambreta.
Fagundes arrepiou-se todo.  Era exatamente o que o seu querido Nenê tinha escrito na carta a Papai Noel, aberta por ele antes de fazer de conta que a poria no correio, como todo ano.
― Está certo.  Estou quase acreditando, mas onde está a carta? ― disse o delegado, a essa altura totalmente confuso.
― A correspondência fica arquivada em meu escritório, na Lapônia, sob administração de Mamãe Noel.  Só trago comigo a relação dos endereços, os nomes da crianças e seus pedidos.
― Vá lá, mas quero saber uma coisinha mais antes de deixá-lo ir.  Como consegue carregar uma lambreta aí dentro? ― e o delegado apontou diretamente para o saco de presentes que estava ao lado de Noel.
― Simples, doutor Fagundes.  Consultada a lista, basta que eu coloque minha mão dentro do saco e pronuncie, em silêncio, o nome do brinquedo para que ele apareça, imediatamente, diante de mim, não importa peso ou tamanho.
― O doutor me desculpe, mas é a maior furada do cara aí.  Duvido ele fazer uma demonstração agora, diante de nós ― interveio o Pega Leve.
― Gostei da idéia, Pega.  O velhote deve é ler pensamento.  Maior impostor.  Enquadro ele nas penas da lei, já, já.  Vamos lá Papai Noel.  Tire a lambreta do Nepomuceno de dentro desse saco.  Agora!
Papai Noel olhou os dois e respondeu tranqüilamente:
― Eu não devia fazer isso, doutor.  O presente deve sempre ser deixado na casa de quem o pede por carta, mas como os senhores estão duvidando da minha identidade e eu preciso acabar de fazer as entregas dos presentes, vou pedir ao doutor Fagundes o favor de encaminhar ao Nenê a lambreta, com um abraço e um beijo carinhoso.
Doutor Fagundes e Pega Leve recuaram discretamente e Papai Noel, com a maior naturalidade, meteu a mão no saco de brinquedos, balbuciou umas palavras e, ao retirá-la, fez surgir no meio da sala o seu trenó com as seis renas a ele atreladas.  Foi papel para todo lado.  As renas, assustadas por se verem dentro de cômodo tão pequeno, começaram a dar coices e acabaram por quebrar a mesa do delegado.  Ele e o detetive saíram porta  fora, apavorados, aos berros de socorro, enquanto Papai Noel, tomando assento em seu trenó, atravessava a janela balançando a cabeça em sinal de desaprovação:
― Este mundo está mesmo louco.  Como é que alguém ainda duvida que eu exista?  Ho, ho, ho.
O inquérito administrativo aberto para apurar os fatos e os prejuízos causados aos cofres públicos, tais como: mesa de jacarandá da Bahia, totalmente destruída e janela do gabinete do delegado desaparecida está parado porque os peritos não conseguiram descobrir a causa de tudo e mais confusos ainda ficaram porque nem têm idéia de como fezes de animal para eles desconhecido foram parar em todas as paredes, impulsionadas, certamente, pelos possantes ventiladores existentes no local.
O Pega Leve entrou com atestado médico alegando estresse profundo e pediu férias no dia seguinte ao acontecido.
Quanto ao doutor Fagundes, conta-se que nunca mais foi o mesmo.  Pouco fala com os funcionários da delegacia e deu entrada em seu pedido de aposentadoria, embora ainda não tenha completado vinte anos de serviço.  Vive pelos cantos da repartição, fuma furiosamente, rói as unhas e toma café o dia inteiro.  Às vezes ri alto e nervosamente, repetindo sempre a mesma ladainha, que todos já sabem de cor:
- Não é que o f.d.p. do Papai Noel existe mesmo?  Eu vi, eu vi.  O PegaLeve estava comigo. Ele viu também. Podem
perguntar.  Papai Noel existe mesmo.  Ele e suas malditas renas.
                                                                                                                                           



Ruy Soares da Silva
Enviado por Ruy Soares da Silva em 20/11/2006
Código do texto: T296708
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Sobre o autor
Ruy Soares da Silva
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil, 77 anos
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