Sorriso

Sempre saíam da escola desesperadamente, como se o mundo pudesse acabar, se não saíssem logo dali. Juntavam-se em pequenos grupos e iam caminhando para casa. Faziam isso todos dias e talvez aquela caminhada fosse a parte mais divertida de ir a escola. No caminho, conversavam sobre tudo o que podiam, os menores com os menores e os mais velhos com os mais velhos.

Moravam quase todos na mesma rua e mesmo os que moravam em outro lugar, seguiam juntos por boa parte do caminho. Frederico deveria ser o primeiro a se separar. Havia um atalho que poderia fazê-lo economizar vinte minutos de caminhada. No entanto, o atalho não era muito amistoso. Além de ser sombrio e deserto, os garotos mais velhos faziam questão de contar sobre o lobo que vivia entre as árvores. Diziam que era gigantesco e faminto, com dentes e garras afiadas. Frederico morria de medo. Nunca teve coragem de pegar o atalho, ficava tão assustado com as histórias que preferia dar a volta e não se arriscar passando pela trilha do lobo.

Em um dia chuvoso da primeira semana de Dezembro, os garotos ficaram até mais tarde na escola, terminando os preparativos para o festival de fim de ano. Quando deram o trabalho por terminado, foram para casa e a noite já começava a cair. Havia uma nuvem enferrujada sobre a cidade, ela ameaçava a todos com relâmpagos barulhentos. Então, os garotos apertaram o passo. Depois de algum tempo de caminhada, chegaram ao atalho para a casa de Frederico. "Vai dar a volta, cagão?", zombou um dos mais velhos. Frederico não respondeu. "Venha cá, você não vai ter medo de um lobinho, vai?", um dos garotos correu até a trilha. "Venha, eu vou até a metade do caminho com você. Vou proteger o frutinha." Frederico olhava fixamente para a trilha atrás do garoto, tentando encontrar coragem para segui-lo. "Eu vou", Frederico ajeitou a mochila nas costas e foi. "Quer que eu segure sua mão também?" Ele não respondeu, não ousava tirar os olhos da trilha. Quando estavam se aproximando da metade do caminho, a chuva despencou. Gotas grossas e frias eram arremessadas da nuvem avermelhada. "Pronto, Fred, daqui você segue sozinho, aliás, sozinho não, o lobo vai com você", o garoto riu e deu meia volta. Frederico ignorou aquilo, reuniu sua coragem e seguiu tentando se esconder da chuva embaixo das árvores. Ele até se distraiu um pouco com a chuva até que um vento poeirento trouxe o garoto mais velho de volta. Ele estava desesperado, ofegante e com os joelhos ralados. "O lobo está atrás de mim". O garoto quase atropelou Frederico e juntos dispararam a correr. Não pensavam em mais nada, apenas em correr o mais rápido que podiam. No último instante, antes de darem o último passo para fora do atalho do lobo, Frederico olhou para trás. Mesmo com medo, precisava olhar. Sobre quatro patas poderosas estava o lobo, com seus dentes a mostra e seu par de olhos de lua cheia. O lobo olhou para ele, como se tivesse algo a dizer, e por um instante, Frederico pensou ter visto um sorriso e sem medo algum, ele sorriu de volta.