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O DIA DAS CINZAS E DO ESQUECIMENTO



Eram seis horas quando o anjo da morte entrou flutuando no quarto de paredes ar-ruinadas. Olhou rapidamente para o velho que dormia na rede e logo abandonou o casarão, deixando atrás de si seu eterno rastro de penas douradas.
Os restos mortais de uma borboleta caíram do teto e foram repousar no rosto do velho, mas ele despertou tranqüilo. Era quarta-feira.
— Está bem, Valéria — disse à falecida esposa. — Eu me rendo.
O professor Daniel Mendes desceu da rede para viver o último dia do resto de sua longa vida. Em seguida, sentindo um pouco de dor de cabeça, arrastou o corpo devastado pela solidão para fora do quarto.
— Não se preocupe, meu amor — disse. — Vai passar. É que sonhei de novo com os cavalos negros da noite.
Com metódica e regulada serenidade, Daniel levou quase meia hora para encher a caixa-d’água. Depois, começou a tomar banho. Terminou, enxugou-se sem pressa e foi para o quarto se vestir. Entre as roupas que ele mesmo reformou inúmeras vezes nos vinte anos depois da morte de Valéria, escolheu a calça e a camisa que menos ressaltavam sua condi-ção de maltrapilho. Sorriu e olhou para o teto condenado.
— Não fique chateada, querida — disse. — Há de ser por pouco tempo.
A manhã principiara com uma nesga de sol, mas logo uma nuvem negra desceu da cordilheira, e Daniel imaginou que, não demoraria muito, estaria no coração da tempestade. Não tinha guarda-chuva. Duas semanas antes, confiara a bengala a um recôndito secreto do passado e não voltou a pensar nela.
Estacionado na calçada, ele percebeu que a chuva estava pronta para arrancar outro pedaço da cidade enterrada pelos próprios escombros.
— Preciso visitar Luciana — disse, pensando na filha. A menina nasceu prematura e acabou morrendo cinco dias depois. — Faz tempo que não levo flores para ela.
Os sapatos esburacados aqui e ali tropeçavam nas ruas atapetadas de pedras. Daniel rumou para o cemitério contemplando com total indiferença outras residências exatamente iguais à sua, que partilhavam o mesmo pesadelo.
O dilúvio despencou precisamente às 10 horas. Durou uns quinze minutos, sem que Daniel procurasse abrigo. Na realidade, não deu importância alguma ao aguaceiro, ainda que o tivesse feito virar à esquerda quando deveria ter ido pela direita, ardil elaborado pelo destino, a fim de conduzi-lo a uma rua tão miserável quanto todas as outras, mas que tinha a triste diferença de estar ocupada pelos fantasmas dos poucos ousados que tentaram defen-der os muitos covardes na guerra que acabou com todas as guerras.
 Eram meia dúzia de soldados que apareceram na cidade num meio-dia tedioso, su-focados pelo calor, esperando encontrarem algum mapa que lhes apontasse o sonhado re-gresso a um passado livre da catástrofe, para o qual na realidade nunca mais retornariam. Entre aqueles heróis exaustos e desiludidos não havia mais comandantes e comandados. Apenas partilhavam a valente certeza de que faziam o que era certo.
A guerra passou como um rolo compressor pela resistência. Os soldados foram de-positados numa sepultura comum, sem honras militares, e mais tarde esquecidos. Seus fan-tasmas passaram a assombrar a cidade, a cuja lenta decadência assistiram com silenciosa compaixão. Faltando poucos instantes para que tudo ao pó retornasse, imaginaram que to-dos os moradores tinham ido embora. Quando viram Daniel, a princípio alegraram-se por-que estavam mesmo a fim de conversar com alguém que soubesse todas as novidades do mundo dos vivos. Não demorou muito até perceberem que ele muito em breve seria o séti-mo. Antes disso acontecer, porém, um telefone começou a tilintar em uma das casas que ficavam no fim da rua.
Nesse meio tempo, o casarão do professor finalmente implodiu, as paredes caindo umas sobre as outras como peças de dominó, apagando Valéria para todo o sempre do cora-ção de Daniel
O telefone parou de tocar. A nuvem voltou a se concentrar, prometendo a tempesta-de prevista pelo velho.
O aparelho tocou novamente. Embora tivesse conseguido descobrir de que casa saía o barulho, o velho mostrou que não conseguiria caminhar até ela. Respirou fundo. Em se-guida, venceu a distância delimitada pelo impossível, acompanhado de perto pelos fantas-mas, e entrou na casa.
Era uma residência humilde, as paredes da sala enfeitadas com os rostos emoldura-dos de antepassados inexpressivos. No centro exato da sala, sobre uma pequena mesa, esta-va o telefone, tocando. Daniel atendeu.
— Alô — disse, observado pelos fantasmas. — Sim, é verdade: a guerra acabou com tudo. Os mortos foram desprezados. Os que sobreviveram foram embora. Sim? Ah, você não ouviu... Eu disse que a guerra acabou com tudo. Exatamente: não devíamos ter rido de Nostradamus.
Enquanto falava, não percebeu que estava no coração da tempestade.
Era quarta-feira.


DANIEL MENDES
Enviado por DANIEL MENDES em 28/09/2005
Código do texto: T54695
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Sobre o autor
DANIEL MENDES
São Luís - Maranhão - Brasil, 39 anos
12 textos (1470 leituras)
3 e-livros (1972 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 06/12/16 18:22)