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"DO PORTAL AOS SONHOS"

DO PORTAL AOS  SONHOS
Autor: Ronaldo da Mota Vieira – Infanto-juvenil


PRÓLOGO


- Yuri! Parece que ta tudo congelado.
- Parece, mas não está! É só o tempo que está lento, muito lento...
- O que acontece se eu não voltar mais?
- Eles irão ficar esperando eternamente, Rafa.
O tempo passando e Rafa a olhar o seu mundo real ali, praticamente parado. Ia sentindo uma pontada de remorso, mas ainda estava muito indecisa a respeito de qual decisão deveria tomar.
Se ficasse, como prêmio receberia um tipo de imortalidade, onde o tempo nunca mais andaria.
- Seria muito bom viver para sempre!
Se ficasse, como conseqüência, nunca poderia saber o que era ser um adulto, nem o que sente um adulto. Jamais se casaria ou acabaria os seus estudos.
- Ser médica veterinária! Uf, nem pensar!
Se ficasse, ainda como conseqüência, condenaria as pessoas a quem mais amava a ficarem a lhe esperar eternamente.
- Isso ia ser muito ruim!


INÍCIO


Sentada na privada de um banheiro de auto-estrada, ela se esforçava para vencer seu ressecamento intestinal. As dores eram muito fortes, fazendo com que suasse muito. Sentia um misto de cólicas diversificadas por intensidade e quantidade.
Lá fora, sentados no banco do carro, sua família a esperava. Estavam um tanto quanto intranqüilos, mas compreensivos pela demora. Todos ali sabiam muito bem como aquela menina tinha dificuldades para fazer seu esvaziamento intestinal e por isso mesmo, conversavam a respeito fazendo muitas piadinhas.
Rafa se concentrava em histórias divertidas, tentando assim relaxar e cumprir a difícil tarefa.
Já começava a esquecer-se do tempo e viajar em seus pensamentos. Lembrava-se de histórias mágicas, meio contos de fadas, meio realidade sonhada por crianças e até mesmo por adultos.
Rapidamente entrou num mundo particular, poderia ser uma ilha onde não existiam fronteiras, tempo cronológico ou qualquer tipo de barreira que pudesse impedir as pessoas de serem felizes e de realizarem seus sonhos, por mais exóticos que fossem ou pudessem parecer.
Agora, de um instante para outro, ela já não sentia qualquer dificuldade e tudo era possível naquele lugar maravilhoso.
E foi num instante que ela também se livrou do banheiro!
Abriu a porta e pôde ver paredes cor-de-rosa, olhou para a saída e viu o céu limpo de um azul diferenciado e cheio de estrelas coloridas e brilhantes. Sorriu!
Extasiada, num misto de consciência do irreal!
Talvez fosse essa a definição que mais se aproximasse do que Rafa sentia. Sentia-se num mundo de sonhos, porém sua mente não se deixava enganar, insistindo todo o tempo em lhe alertar que aquilo não existia. Mas, estava tão bom, que resolveu ficar um pouco mais naquele sonho.
Que mundo seria este? Talvez um mundo paralelo onde todos que ainda sonham possam adentrar.
Mas como adentrar? Simples! Através do sonho.
Não o sonho das noites de sono, mas sim o sonho que se sonha acordado. O sonho particular e íntimo de cada um. Este era o passaporte!
Uma maravilhosa química instalou-se ali no mundo real.

O tempo fazia com que, no automóvel, as pessoas ficassem quase hibernando, não sentindo assim, as horas e os dias que se passavam. Um tipo de freio do tempo, enquanto que do outro lado, o lado do sonho, Rafa sentia a vida em seu sangue, sentia o tempo passar rapidamente e por isso, achou ela, teria que aproveitar e ir fundo naquela aventura, antes que tudo se acabasse.

Yuri, uma mistura de Russo com japonês, uma pessoa ou um sonho de pessoa que dificilmente se encontraria em outro lugar, devido a algumas particularidades.
O garoto era tipicamente um oriental em quase todos os traços, trazia sobre a cabeça, cabelos lisos, extremamente finos e de cor louro-claro. Seus olhos puxados eram de cores diferentes, sendo um azul-claro e outro cor-de-mel, assim como um Ruski Siberiano.
A cabeça muito grande em relação ao corpo, ostentava uma grande boca com lábios muito finos, fazendo com que seu sorriso aumentasse ainda mais de tamanho, aumentando com isso, também a boa impressão de franqueza com que vinha carregado o enorme sorriso.
Yuri era um tipo de recepcionista neste mundo de sonhos. Sua principal função era a de deixar os visitantes à vontade e foi exatamente essa a sua missão inicial com Rafa.
Todos os que viram Yuri pela primeira vez riram muito, o garoto realmente era muito engraçado, e não foi diferente com Rafa, que caiu na gargalhada.
- Oi Rafa! – Assustada ela se virou e deparou-se com ele, nada mais que ele, o simpático e engraçado Yuri. De susto, ela mudou sua atitude para a de quem assiste uma comédia.
Como Yuri estava costumado com aquela primeira impressão, que nada mais era que a imagem desejada de quem visitava seu mundo, nada disse e ficou esperando Rafa acabar sua sessão comédia, para surpreende-la com sua primeira capacidade anormal.
- Eu trouxe o baralho que você queria, para a gente brincar! – Disse Yuri com sua voz sempre calma.
Assustada, agora de verdade, pela adivinhação que Yuri fizera de seu pensamento; Rafa, com seus onze para doze anos, começava a trocar lentamente o medo pela curiosidade e com isso quis saber como Yuri sabia seu nome, e principalmente, como havia adivinhado sua vontade. Yuri apenas sorriu, dizendo que num sonho tudo é possível!
- Sou parte de seu sonho! Sou o que você queria ver! Tudo o que puder ou quiser enxergar é seu sonho! Entendeu?
Imediatamente, Rafa compreendeu em sua inocência, o que aquilo queria dizer, porém, não saberia explicar o que compreendera em palavras. Só sabia que no momento, palavras eram dispensáveis e o que importava realmente agora, era aproveitar tudo de bom que existia ou parecia existir ali.
Não havia a necessidade de se falar e Rafa foi rapidamente se adaptando a ouvir os sentimentos e as vontades de Yuri, assim como ele ouvia as dela.
Enquanto andava, Rafa tinha a impressão de que saberia tudo o que viria a seguir, sentiu-se como às vezes nos sentimos ao passar por um determinado lugar, ou ao conhecer alguém que temos a impressão de já ter visto antes, sem no entanto, jamais termos passado por aquele lugar ou visto a tal pessoa, coisas do sub-consciente.
Rafa notou que saberia descrever todos os detalhes de uma árvore que nunca viu, ou de algo, ou ainda de alguém que passasse. Enfim, tinha a impressão que já conhecia tudo o que Yuri lhe apresentava como sendo novo naquele lugar.
- Você tem a impressão que já conhece tudo isso, não é Rafa? Disse Yuri
como quem já sabia a resposta.
- É... é algo esquisito, como uma lembrança que demora a voltar à tona, mas
que você tem... você entende? Perguntou Rafa.
Em pensamento, Yuri disse que sim, que entendia, e que podia ajudar Rafa a compreender o mistério.
- Na verdade, - Disse Yuri, - Tudo o que você enxerga, é o que você quer
enxergar e tudo o que existe, é o que você quer que exista! O que você tem a impressão que já conhece e demora a se lembrar, com certeza é algo que está desejando que exista, mas não tem coragem de admitir!
Agora, Rafa queria conhecer suas vontades mais profundas, seus desejos íntimos de criança.
Existiam infinitas opções para o sonho, poderia conhecer seus heróis e o mundo que sonhava como sendo ideal, e o melhor! Poderia conhecer as mesmas pessoas de formas diferentes, mudadas. Transformaria um chato num cara legal, um triste num alegre, um bobo num muito esperto e ativo. Enfim, mudaria o mundo, acabaria com o dinheiro, com a ganância, com o poder e a injustiça.
Em seu novo mundo, por todo lugar que passasse, haveria o respeito mútuo e a harmonia entre os seres viventes, seriam estas as únicas leis a serem cumpridas, assim como aquela que sua mãe sempre lhe dizia e quase ninguém cumpria: “Amar ao próximo como a ti mesmo!” E amar ao próximo para Rafa agora, não era apenas amar o seu semelhante, mas sim, amar a árvore, à formiga, ao leão, à água, a terra e todo o ciclo de vida existente no mundo.
Enquanto pensava no lado bom, Rafa como todo ser humano chegou a conclusão de que; se no mundo, tudo o que olhasse já conhecesse, e soubesse como eram todos os seres no mais fundo de sua alma, tudo se tornaria muito perfeito, e no final; tudo muito sem graça e previsível.
- Todos serão como robôs, previsíveis e corretos? – Perguntou a Yuri, não se
contendo de curiosidade.
- Sim! – Respondeu Yuri.
- Mas quem te garante que no mundo de sonhos tudo é perfeito? – E
emendou – E como você pode ser tão prepotente ao passo de se achar cem por cento boa e sem defeitos ou maldade? Saiba que todos os seres humanos são bons, mas que têm um lado ruim, que normalmente só vem à tona quando é preciso testar seu lado bom, ou quando é contrariado, quando algo não sai como ele deseja, e até mesmo por causa de sentimentos baixos, que se desenvolvem com o passar dos tempos.
- Para vencer o lado ruim das pessoas é que existe o pensamento, o sonho, e este mundo! – Disse Yuri. Mas isso não garante a ninguém a perfeição!
- Yuri, você quer me dizer que posso pensar estar criando um mundo
Perfeito e ao contrário disso, criar um Frankstein? – Perguntou Rafa já com certo medo.
- Não! O que quero dizer é que você pode pegar o seu Frankstein e torna-lo
belo!
- Toda essa conversa me deu sono. Acho que vou dormir! Disse Rafa
bocejando.
Em pensamento, Yuri disse a Rafa que ali o sono não existia como uma coisa concreta e sim como um desejo de sua vontade a ser cumprido.
Enquanto pensava a respeito, Rafa acreditou realmente em Yuri. Deixou o sono de lado, como quem deixa um pacote sobre um banco de praça, e foi conhecer o resto de seu sonho.

Com um lindo macacão de cor verde-limão fluorescente, Rafa estudava o local.
Sinceramente, Rafa acreditou que ali era o local perfeito para se construir uma casa perfeita, e uma casa para ela, uma menina, teria que ser totalmente automática, mas que para uma dona de casa, seria no mínimo mágica.

Num grande gramado verde que começava onde os olhos normais, não poderiam alcançar, seria construída a casa.
Tudo começava a surgir do solo, belas árvores frutíferas, belas flores de diversificadas formas e cores, um lindo lago azul e também um sol lindo, cor-de-rosa e permanente. Logo à sua frente, surgia um monte de palha, da qual seria feita toda a casa.
Com a imaginação e a palha que se moldava de acordo com a vontade de Rafa, aos poucos, ia se fazendo a casa perfeita.
Rafa tinha como ajudante Yuri, não contente com a pouca mão de obra, agora tinha outro ajudante, seu irmão Gu, o qual havia buscado em pensamento no carro de sua família.
Os três colocavam a palha monte sobre monte, moldando-a de forma impossível de ser moldada por qualquer pessoa, a não ser em sonho, formando assim as paredes, que iam se tornando lisas, mas com um finíssimo acabamento de palha, como se fosse colocada a palha sobre uma parede maciça e depois envernizada, algo que, se realmente fosse feito, demoraria muito tempo, devido ao aparente cuidado e esmero com que parecia ser feito, quando estavam acabando de formar as paredes.
- E as janelas e as portas? – Perguntou Gu.
- Serão de palha também, porém; Amarradas com barbante. – Disseram
Rafa e Yuri simultaneamente.
Tudo combinado e acertado.
Sem problemas técnicos, de engenharia ou falta de material, a obra ia de vento em polpa. Os construtores iam amarrando os maços de palhas, e com isso, ia surgindo o belo acabamento, como uma mágica! No início, as palhas estavam extremamente tortas, parecendo que iam desabar a qualquer momento, mas, à medida que iam sendo ajeitadas e moldadas pelas mãos dos “hábeis construtores”, iam se aprumando, se ajustando e se dando o auto-acabamento.
As portas e janelas, assim como o acabamento fino, iam surgindo das mãos de nossos hábeis artesãos. Era como se fizessem isso a vida inteira. Os montes de palhas eram amarrados ou simplesmente colocados em seus lugares, fixando-se ali como coisa natural?

Imediatamente após terem feito a casa, começaram a fabricar os móveis. Utilizavam flores como girassóis, rosas, cravos e ainda pequenas pedras, cascas de árvore, caules, pedaços de madeira e tudo o que lhes vinha às mãos e o que se puder imaginar. Assim fizeram todos os móveis de sua casa perfeita.

- Um belo lugar Rafa! Parece mesmo uma casa de contos de fadas. – Disseram Yuri e Gu. – Mas está tudo tão quieto, o que está faltando?
Enquanto pensava, Rafa notou o óbvio. Faltavam os seres vivos! Imediatamente corrigiu a falha, imaginando pássaros, animais, e muitas plantas e flores de cores e formas variadas. Alguns animais voavam tranqüilamente, enquanto outros andavam com muita naturalidade entre a exuberante flora. Por fim, alguns seres humanos que pareciam estar vivendo ali por uma eternidade.
Enquanto conversavam alegremente, os pássaros não paravam de cantar e os animais brincavam entre si, ignorando espécies, parecendo um quadro vivo do paraíso. Algo realmente perfeito!

A casa construída por Rafa, Yuri e Gu era toda automatizada, toda auto-limpante, auto-arrumante, auto-reformante e todos os outros autos que se pode imaginar ou querer. Tanto que o maior problema nas casas de verdade, ali não existia, pois tudo estava sempre arrumadinho, tudo sempre em seus lugares. As flores jamais murchavam ou perdiam a beleza e cor, a vida e o frescor era constante. Por mais que brincassem ou retirassem um móvel, ou um objeto de seu lugar, ao darem as costas, lá estava ele de volta a seu lugar original, como se tivesse nascido e depois Ficado ali desde então.
Como previra Yuri, no começo tudo foi maravilhoso, mas com poucos dias, Rafa já estava enjoada daquela perfeição e da eterna falta do que fazer.
- Yuri e Gu... Eu tive uma idéia! – Com isso, com um simples pensamento,
 Rafa deu vida própria a seus companheiros, pois agora os consultava! – Agora davam opiniões em tudo e não somente concordavam ou agiam de acordo com a vontade de Rafa.
- Que boom!?!? Disse Gu, mais pelo hábito que por lógica.
- O que é bom? Perguntou Yuri, como se não soubesse.
Em pensamento, Rafa relatou o que tinha em mente.
Imaginava um jogo de futebol entre pássaros e macacos. O time dos pássaros foi batizado de “Vira-piupiu” e o dos macacos de “Yupuloucos”, mas logo surgiu uma ala dissidente dos pássaros e macacos, uma ala que não aceitava as idéias de Rafa, eles se autodenominaram “Superpatos” devido à superioridade intelectual dos pássaros sobre os macacos, que serviam somente para fazer baderna e azucrinar a vida de todos, ainda mais aquela ala, que na verdade, era uma dissidência não só no futebol, mas também nos pensamentos de Rafa, talvez seus conflitos internos. Isso queria dizer que seu mundo particular começava tomar forma própria, já começando a fugir do controle da sonhadora e dona daquele mundo, ou seja, de Rafa que perdia o controle sobre alguns detalhes e estes iam se desenvolvendo por conta própria.
Rafa e Yuri controlavam suas vontades, mas as personagens por eles criados começavam a seguir um rumo próprio, um ciclo normal do que poderia ser chamado de vida ali dentro do sonho.
Gu não abria mão de alguns hábitos, como o de dormir e por isso mesmo, dormia um sono bom, sono de pureza na vida das crianças.
Mais uma vez, Yuri explicava algumas regras de existência daquele mundo, falava sobre Gu, que apesar de ser fruto de sua imaginação, tinha ligação com o Gu já existente, o Gu seu irmão. Então diferentemente das outras personagens, quando Gu, o verdadeiro sentia sono, o Gu criado por ela também sentia, como se fosse um reflexo da vida real e assim as coisas iam acontecendo, algumas delas sem que Rafa pudesse controlar.
A única diferença entre o Gu criado por Rafa e o real, é que o criado por ela poderia viajar em seus sonhos, como se fosse realidade, como num filme criado, como num cinema virtual, onde se poderia participar dos acontecimentos ou sentir que se participava deles. Gu participava das vontades de Rafa, mas em certos momentos era a vontade do verdadeiro Gu quem imperava, mesmo ali no mundo dos sonhos de Rafa.
Após o sono de mais ou menos quinze segundos, Gu disse que queria brincar de escalador e que escalaria o Pico do Everest, mas, escalaria o pico sem toda aquela neve...
No início, parecia ser apenas um grande morro, mas na medida em que ia subindo o morro, mais íngreme ia se tornando a escalada.
Como todo alpinista experiente, no início Gu foi rapidamente, mas logo estava mais lento; parte pelo falso cansaço, parte pelas dificuldades que iam surgindo, como enormes paredões que pareciam intransponíveis e que surgiam a todo o momento bem a sua frente.
Com suas mãos “fortes”, Gu se agarrava a menor saliência que surgia entre as pedras e assim ia vencendo a subida, porém quanto mais subia, mais longe ia ficando o topo do pico e por mais que se esforçasse, por maior e mais alto que fosse a parede de pedras a sua frete, após vence-la, olhava para baixo, como seria normal se fazer e olhando, o que via o frustrava.
Após uma subida praticamente impossível, que lhe foi muito custosa, novamente Gu olhou para baixo e ficou olhando para a suave descida a menos de meio metro de seus pés e isso já havia acontecido várias vezes, até que Gu protestou!
- Assim não vale Rafa! Parece que nunca saio do lugar.
Na verdade, mesmo em sonhos, Rafa estava protegendo o irmão e com isso, enquanto cuidava de Gu, frustrava sua sede de aventura.
Yuri pediu a Rafa que imaginasse uma aventura maior, mas sem riscos, onde Gu pudesse escalar seu sonho, sem no entanto, correr perigo! Disse isso com certo espanto, pois pela primeira vez havia se envolvido num sonho de uma visitante do mundo dos sonhos. Agora ele ria de sua ingenuidade e se perguntava como acontecera aquilo? Ele sabia que nada aconteceria com Gu, nem mesmo se Rafa permitisse; pois era uma lei do Mundo dos Sonhos.
Lá vai Gu novamente, primeiro rapidamente e mais rápido ainda, em sua frente aparecia um muro de pedras quase sem inclinação e com minúsculas fendas onde pudesse segurar.
Sentindo-se um grande herói, Gu aceitou o desafio. Respirou bem fundo e começou a escalada.
Nosso herói tateava muito as pedras acima de sua visão, sempre tendo que confiar em suas mãos e tato, que eram seus olhos agora. Primeiro tateava as fendas na pedra, para logo em seguida, mais parecendo uma lagartixa, grudar-se na parede e subir lenta e confiantemente.
No peito de Gu, a emoção crescia. Agora sim! Sentia-se um verdadeiro herói de filmes de ação.
Para piorar a situação de Gu, começava a chover; primeiramente do céu descia uma garoa muito fina, que umedecia as pedras, tornando-as muito lisas, aumentando o perigo de forma considerável para o herói fictício Gu.
De alguma forma, toda aventura sonhada por Gu em sua vida real, havia se transferido para o sonho de Rafa, que automaticamente a repassava para o Gu de seu sonho, tanto que em todo o sonho, se pudesse ser medida a emoção no peito do Gu real, poderia ser notado quanta emoção real o sonho lhe proporcionara.
Um grande calafrio lhe percorreu o corpo no momento em que olhou e pôde ver que a moleza realmente havia acabado. Sob os pés de Gu, pelo menos quarenta metros de queda livre e ele sem cordas ou roupas, ou qualquer tipo de equipamento especial para alpinismo. Contava com sua “força” e “habilidade” de herói e nada mais.
Na medida em que o tempo passava, suas mãos doíam, ardiam e queimavam como se segurasse em brasa viva, mas ele agüentava firme o martírio. Começava a suar muito e a se sentir cansado demais, mas não podia desistir! “Um herói nunca desiste!”
Gu continuava sempre e cada vez com maior esforço físico. Seus músculos infantis tremiam. O suor entrava em seus olhos, que ficavam ardendo muito, queimavam sob as pálpebras e se tornavam muito vermelhos e irritadiços, tanto que nosso herói já enxergava com muita dificuldade.
Estava quase vencendo um paredão, tateou novamente e encontrou uma brecha que serviria mais uma vez como o apoio de sua mão direita. Segurou firme com as pontas dos dedos dentro da fenda, esforçou-se muito, um esforço sobre humano, tentando distribuir o peso de seu corpo de forma uniforme por seus dedos e quando se sentiu seguro o suficiente para subir mais um pedaço da parede, a pedra lascou acompanhando sua mão solta, fazendo com que seu braço fosse jogado por sua própria força imposta à pedra; para traz, causando-lhe um tremor no corpo, devido ao tranco dado, que foi muito forte.
Gu sentiu seu corpo se balançando muito, então tentou retornar a pedra, mas a já total falta de equilíbrio o fez balançar ainda mais, o fez dançar e rebolar no alto da montanha. Ainda em frações de segundo tentou restaurar o equilíbrio do corpo, sem conseguir! Relaxou até que sentisse que nada mais adiantaria, então caiu! Caiu numa tremenda velocidade, mas de uma forma muito romântica, pelo menos para ele?
Seu corpo agora descia numa velocidade incontrolável.
Primeiro um medo enorme tomou conta de nosso herói, para em seguida ir se abrandando. E foi de tal forma, que Gu se sentia como um pássaro, era todo liberdade de existir! A sensação de estar solto no ar, no mundo o dominou e por uma fração de segundos, desejou sinceramente que o tempo congelasse para perpetuar seu sentimento.
Infelizmente para Gu o sonho que era vivido por ele, pertencia a Rafa e por isso o tempo não parou, reduziu sua marcha, mas não parou. Com isso ele continuou sua descida, agora em câmera lenta, muito lenta onde podia olhar os detalhes da rocha, se perder em cada fenda, examinar cada desenho feito pela ação da natureza com o passar do tempo. Olhava para o céu: Lindo!
O corpo de Gu ia se tornando pesado e a cada momento, como numa nova foto ele via o chão crescer de tamanho sob seus pés. Achou tudo realmente lindo, Sentiu-se o herói que caia, mas que nunca poderia morrer, assim como nos filmes! Então após aproveitar muito a bela visão, colocou a mão na rocha, colocou os dedos numa fenda que surgiu e esperou seu corpo, que caia em câmera lenta, ser esticado a ponto de ter que ser sustentado por suas mãos e dedos.
Quando finalmente as mãos seguraram o corpo e este se esticou, Gu sentiu um forte tranco, um estalo e a dor invadiram seu corpo e alma, estourando sua resistência na área dos pulsos, que ainda o segurou por alguns instantes, mas a dor foi maior, sentiu uma forte tontura, foi ficando zonzo até que os olhos se fecharam e já estava fora de si.
Rafa e Yuri riam muito, davam gargalhadas com a aventura de Gu, achando-o um grande herói para sua idade, pois Gu tinha apenas seis anos.
- Vamos ajuda-lo Yuri! – Assim continuaram as aventuras de Gu.
Agora o corpo de Gu caia em queda livre, caiu e foi bater num grande monte de neve que ficava no topo do Pico do Everest.
Foi uma queda para cima, ou seja; Rafa e Yuri reverteram a queda de Gu que caia para cima e seu corpo ao chegar ao solo, estava na verdade no mais alto ponto do Pico, que agora era como Rafa e Yuri queriam.
Lentamente, Gu abriu os olhos. Estava todo molhado, pois havia feito xixi com o medo que sentira durante a queda, associado as dores que sentia nos pulsos, na hora em que seu corpo se esticou e tentava segurar o corpo.
Inicialmente Gu ficou nervoso com a intromissão de Rafa e Yuri, mas logo se pôs a sorrir vendo com surpresa a bandeira de cor vermelho-Ferrari e em seu centro o desenho de uma Ferrari, que ao ser balançada, parecia dar vida ao automóvel; parecendo estar em movimento. Na porta do automóvel a palavra Gugu e dentro, no volante ninguém mais que nosso herói.

Muito cansados, foram os três à estação do trem azul...
Toda feita de pedras, não era uma simples construção, mas sim uma escultura muito bonita. Cheia de detalhes, assim como as antigas construções, mas com um ar de recém-inaugurada, parecendo que tudo ali era novo, apesar de antigo.
Vazia! A estação estava vazia sem um passageiro que fosse, a não ser os três.
Havia muitos funcionários, que mais pareciam figuras decorativas, eram todos bonachões, sorridentes e muito atenciosos, tratando os três passageiros como se fossem reis e rainha. Ao chegar na plataforma de embarque, notaram o trem que vinha apitando ao longe, escondido por sob nuvens brancas com nuances azuis e rosas. Só não entenderam o nome “Estação do trem azul”, pois o danado do trem era todo cor-de-rosa! Tanto que as vezes ao longe era confundido com um pedaço do céu, formando uma visão surrealista aonde o trem cor-de-rosa aos poucos ia saindo das nuvens azuis.
Do serviço de autofalantes, uma música saía sem cessar, era muito gostosa de se ouvir. Agradável por sua moderação, uma obra de gênio! Nem muito lenta, nem tão agitada, nem eletrônica e nem acústica, na medida certa! Talvez aquela fosse a música perfeita? Talvez fosse realmente a música perfeita, balanceada com uma pitada de tudo o que envolve o mundo da música.
O que acontecia realmente, é que cada um ouvia o que queria ouvir, e ouvir o que se quer e gosta, pode ser a perfeição auditiva. Era como se cada um deles estivesse com um fone de ouvidos sintonizando uma radio particular, onde o programador fosse o gosto do ouvinte.
O trem azul, que era cor-de-rosa, com suas rodas de ferro brilhantes, finalmente chegou! De sua chaminé, um rolo de fumaça colorida e perfumada, um tipo de tutti-frutti.
Mal o trem parou, e já se ouvia anunciar...
Com voz de galã, alguém dizia: - “Senhores passageiros com destino a felicidade com escala em coisas belas; favor embarcar AGORA, pois esta pode ser sua última chance! Boa viagem! É o que lhes desejamos com sinceridade”
As portas dos vagões se abriram como num balé mágico, muito bem ensaiado e sincronizado. Podia-se escolher em qual vagão entrar. De tantos que tinha, o trem parecia não ter mais fim. Quando se olhava pra trás do trem, o fim parecia estar ali, a uns dez metros de distância, mas foi só tentar chegar ao final do trem, para se desistir logo em seguida.
Parecendo uma ilusão onde o fim parecia estar muito perto e quanto mais se andava, menos adiantava, assim como na contra-mão de uma esteira ou escada rolante. Notando isso, Rafa perguntou a Yuri:
- Porque não chegamos nunca ao fim do trem?
Yuri tentou explicar dizendo que o fim seria o fim, e que não chegavam ao fim porque isso não era a vontade deles.
- É simples assim! Disse Yuri.
Após as considerações finais, resolveram embarcar naquele vagão, ali mesmo.
Por dentro era um vagão normal, a não ser pela decoração, parecendo mais um quarto de menina, de tanto cor-de-rosa. Olharam para fora e puderam ver de um lado, o lado que entraram, a estação de pedras, com o mesmo formato, mas parecendo totalmente diferente, algo inexplicável. Do outro lado do vagão, o lado que não tinha portas, apenas nuvens coloridas através da janela e mais nada.
Resolveram sentar-se em bancos diferentes, mas todos enfileirados no mesmo lado do trem. Sentaram-se no lado em que se via a estação. Foi encostar o bumbum no assento, um banco de formato quadrado e duro que ao contato com o bumbum, automaticamente se tornava macio, extremamente confortável e foi só encostar o bumbum no banco para ouvir nova mensagem do serviço de autofalantes: “Bem vindos a bordo e parabéns por sua escolha!”.
O trem começou a andar, primeiro com o famoso; tchec, tchec, tchec, acompanhado pelo piuíííí, para logo em seguida já não se ouvir nada.
Olhavam para tudo e se comunicavam estranhando o silêncio do trem, sem perceber que as imagens externas já apareciam em suas janelas.
As imagens eram distintas entre si. Cada qual, agora se envolvia em seus sonhos, comentando sem querer saber se estava sendo ouvido ou não.
Era o início da viagem, considerada a viagem da beleza para os olhares, que podiam enxergar ali o seu melhor e mais perfeito padrão de beleza claramente definido a sua frente.
O trem não tinha uma rota fixa e por isso mesmo, para alguns ia rumo a belas estrelas coloridas, que nada mais eram que lindas meninas-anjos com brilho e cor próprios. Para outros ia direto ao oceano, subindo e descendo os morros no fundo do mar, que eram habitados por civilizações de peixes, sereias, netunos de todas as formas imagináveis.
De tanta cor existente ali, digo que seria impossível enumera-las sem passar a eternidade contando.
Enquanto alguém passeava pelo mar numa janela, na outra poderia perfeitamente estar se passando por uma bela floresta tropical, onde insetos variados e engraçados a toda hora apareciam e olhavam para dentro do vagão com a mesma curiosidade com que eram olhados. Pássaros em grande diversidade de cores com canto ora nobre, ora divertido, ora clássico, ora muito popular.
Num certo momento à frente, abriu-se uma enorme clareira e em seu centro acontecia um grandioso evento. Um show de pássaros cantores, tipo de tenores interpretando ópera, muito afinados e ensaiados.
O trem parou como se estivesse fazendo reverencia a um rei ou grande artista, porém as portas não se abriram, e pela primeira vez os três viajantes olharam para as mesmas imagens.
Os animais da floresta assistiam a tudo com grande interesse!
O som era único! Jamais seria escutada tal melodia em outro lugar, um tipo de hino da clareira. A música agora sem a interferência dos ouvintes ou assistentes, poderia se classificada como divina! O som divino! O som dos anjos e arcanjos do céu sob o manto de pássaros. Um coral que ao mesmo tempo cantava e tocava aquela canção, fazendo o som de instrumentos com suas gargantas.
O show poderia ter durado dez minutos, como uma hora ou duzentos anos, não se sabe ao certo. A única certeza realmente é que foi muito bonito e altamente contagioso, parecendo mesmo um vírus ultra-rápido que atingia a todos os presentes sem poucos instantes, não deixando que se desligassem do show nem por uma fração de milésimo de segundo. Era como se todos estivessem hipnotizados pelo som; dos macacos aos leões, dos urubus aos beija-flores, das lagartixas as cascavéis. Todos sem exceção estavam como que perdidos na beleza daquele som.
Um final muito original teve o show, quando os pássaros cantores saíram em revoada, deixando o palco vazio e os que assistiam meio abobalhados.
Quase que imediatamente após, apareceu um velho e sábio tatu que informava ao público: “vocês não podem perder o próximo espetáculo!” Um panda poliglota contaria a nova história do mundo em versão atualizada...
- É incrível a maneira como as imagens saem da boca dele! – Disse Rafa.
- Eu acho muito legal, Rafa! – Disse Gu.
- É tudo o que gostaríamos que fosse! – Disse Yuri.
Um mundo utópico, assim como o que John Lenon queria, agora começava a existir e tudo ia saindo da boca de um panda, como um poema, talvez como a própria letra de “Imagine”, só que muito mais abrangente, cheia de detalhes, esquecendo-se de algumas partes da história e modificando outras, o panda reinventava o mundo com suas palavras.
No meio de tanta história para contar, algumas partes eram contadas como passagens reais, mas nem Rafa, nem Yuri, e nem ninguém dos que ouviam os relatos, acreditavam realmente. Sabiam que ouviam o que queriam ouvir, o que desejavam que tivesse acontecido em lugar dos fatos históricos. Tudo era um lindo sonho. Mas o que é o real, se não um sonho que se transforma ou se transformou em realidade um dia?
Agora o panda dava lugar ao velho tatu, que também narrava a história, mas narrava à sua maneira, destacando os fatos que achava serem realmente importantes e passando por cima de outros que julgava desnecessários. Tudo era contado de acordo com suas preferências.
Narrava a história de um jogo de futebol, que provavelmente aconteceu na época em que o mundo era apenas um. Época em que a língua falada era universal, e todos se comunicavam da mesma maneira. Época em que o futebol ainda nem havia sido inventado!
- Mas o jogo aconteceu! – Afirmava o velho tatu com a cara mais lavada
desse mundo, aliada a um excesso de confiança em suas palavras, que só por serem ditas por ele, já tornava o fato meia verdade, talvez devido a fé que tinha no que falava.
Eram dois times rivais. De um lado os macacos, que trapaceavam, chutavam as canelas e arrancavam penas dos rabos dos pássaros, seus rivais no jogo. Pintavam o sete com as pobres aves.
O time dos primatas levava um nome que os definia bem diante da torcida, eram chamados de “YUPULOUCOS”.
Do outro lado, os pássaros muito bem comportados, porém desengonçados e belos com sua plumagens coloridas e tamanhos diversos. Eram chamados de “VIRAPIUPIU”.
O juiz, para sorte dos pássaros, era um enorme elefante, muito sério e magro, que tentava ao máximo levar o jogo como mandava a regra.
O campo que ficava numa enorme clareira, bem próximo a um lago muito cristalino, logo este, que era utilizado para a farra após o jogo e às vezes durante, quando por imperícia ou safadeza mesmo, alguém caia dentro da água, ou ainda quando jogavam a “bola-coco” no lago, parando assim o jogo e invariavelmente, começava-se ali uma grande brincadeira dentro da água.
O juiz elefante ficava louco, balançava a tromba para os lados enquanto chamava a atenção dos participantes, dizendo sempre que encerraria o evento, e ameaçando nunca mais ser juiz!
Como se não ouvissem o que o juiz dizia, os animais continuavam com a farra dentro do lago até o máximo da paciência do juiz e também das velhas corujas, que olhavam tudo revirando a cabeça com raiva e criticando a todos, dizendo que não havia mais respeito nesse mundo louco de hoje.
O que mais intrigava os ouvintes no entanto, era saber do seu tatu onde é que existia o tal coco macio, que servia de bola para os jogadores?
O velho tatu não se sentia pressionado pelas perguntas que colocavam a veracidade de sua história em jogo. Ele continuava a narração dizendo que isso era coisa que só existia nos bons tempos, tempo antigo que não volta mais! E não como nos dias de hoje!
Rafa, Yuri e Gu se entreolhavam e começaram a não só ouvir o que o velho tatu falava, mas também a enxergar através de sua imaginação aquele grande jogo.
Um papagaio enorme com um vozeirão narrava tudo o que acontecia ali no estádio “Clareia Entre as Árvores”, ou Clareirão, como era conhecido.
- Bem senhores e senhoras! Fanáticos pelo esporte! O show vai começar...
Apita o juiz elefante e os pássaros já levam pequena vantagem, onde o mico perdeu a “bolacoco” na dividida com a ema, que imediatamente tocou a pelota para o pardal e vocês não vão acreditar! O pardal rolou junto com a “bolacoco”, sujando-se todo de barro vermelho... “Hora da propaganda”
- Quer viver feliz? Venha morar na floresta! O ar é puro, baixo nível de
violência, produtos naturais e sem agrotóxicos, isso sem falar na linda paisagem...
- Voltamos ao jogo amigos do esporte! Mas o que é isso minha gente?
- O que é que aconteceu aí seu periquito?
- O orangotango chutou a “bolacoco” e junto com ela foi o pobre pardal; foi isso!
O pobre pardal que já estava cheio de barro voou, voou e foi cair bem longe com o impacto do chute.
- O juiz apita e ééééééééé falta! Falta que favorece o time dos “Virapiupiu”.
- Quem será que vai bater essa falta? Espere, é o avestruz! Sim! É o avestruz
que vai chutar.
Ele toma distancia, e muita. Vai recuando, recuando; parece que está a uns cem metros da “bolacoco”.
O goleiro chipanzé está dependurado na trave fazendo macaquices, ele olha fixo para a bola e seu batedor.
- Silêncio total no estádio! E lá vem o batedor, correndo, já desenvolve uma
enorme velocidade, a poeira sobe e o avestruz se perde no meio de tanto pó. A galera se concentra na “bolacoco” e no gol do goleiro chipanzé. O avestruz vai se aproximando, vem chegando, chegando e finalmente bate na “bolacoco” que imediatamente levanta vôo, ela vem, vem como um foguete. Parece até que solta fogo pela traseira!
O chipanzé se posiciona, mede a distância, marca o rumo da “bolacoco”, fixa-se nela como a cascavel em sua presa, tsiiiiiiii!
O chipanzé se prepara, dá um grande pulo, e desce num mortal duplo já com a “bolacoco” encaixada, mas tamanha é a velocidade que vem a “bolacoco” que quando bate no peito do chipanzé, vai levando-o junto, vai indo, indo, indo, até que os dois, “bolacoco”e chipanzé vão parar dentro do lago, e é GOOOOOOOOOOOOOOOOLLLLLL!!!!!!!!!!!!
A galera pula, vira o pescoço, se arrasta, voa, e como já era esperado; todos, mas todos mesmo (claro, com exceção do juiz elefante e as corujas!), vão parar dentro do lago, para se divertir em suas águas cristalina.
O juiz protesta, mas dessa vez não tem xabú!
- bem amigos do esporte, o jogo se dá por encerrado, já que a água está
melhor que a partida de futebol...
- E assim o time dos “Ÿupuloucos” perde para o time dos “Virapiupiu”.
Dentro da água a macacada já apronta com toda a galera. É demais! Esperem por mim...

- Estou com sono Rafa! – Disse Gu.
- Sono? Como alguém podia ter sono num lugar como este? Rafa se
perguntava não acreditando no que ouvia.
Na verdade não era sono que Gu sentia, mas sim a força de um hábito que se manifestava e era incontrolável, assim como um vício!
Gu estava sentindo falta de sua casa, sua cama e seu mundo, apesar de não ter consciência da existência deles. Para ele não existia mundo bom ou mundo ruim. Todos a seus olhos eram iguais, com a única diferença de poder brincar com uns num mundo e com outros não! O resto era tudo igual, ninguém morria e cansaço era coisa de gente grande e por falar em gente grande, a saudade dos pais bateu forte no menino, tanto que inventou um monte de histórias para retornar ao mundo do pais.
Para explicar o que acontecia com Gu, Yuri teve que gastar muitos neurônios ao tentar explicar à Rafa, que o Gu dali, cada vez mais incorporava as vontades do Gu real; isso pelo simples fato de o ser Gu já existir e não ser apenas obra de um capricho dos sonhos de Rafa.
- Calma Gu! Vamos brincar mais um pouco? Disse Rafa tentando conte-lo.
- Eu quero brincar com o Kaique, quero brincar de ninja e com o vídeo
-game!
- Por que você não imagina que é um ninja e que vence a todos os outros
numa disputa para saber que é o maior ninja do mundo? Aí você vence e...
- interrompeu Gu.
- Eu posso mesmo?
- Claro que sim! – Disse Rafa.
- Eu posso trazer o Kaique?
- Não gu!
- AHHHHH! Então não quero! Quero mesmo é ir para casa, ir dormir! Nesse
momento, mesmo sem querer, Yuri se meteu na história.
- Rafa, você não pode segurar o Gu aqui! Você sabe que a vontade de sonhar
é o grande imperador nesse mundo; e sabe muito bem que ele só está com sono, porque quer estar com sono, e você sabe muito bem disso!
O pior é que o sono que Gu sentia, estava relacionado com a vontade de voltar ao antigo mundo, e por isso, ali ele se tornaria um chato que não se divertiria, e por conseqüência, também não deixaria ninguém se divertir. Sabendo disso, Rafa prometeu que ela e Yuri o levariam embora para dormir em casa, mas que antes de ir para casa ele teria que voltar ao automóvel de seus pais, lá no posto de gasolina.
Ao pensar nisso, bateu um sentimento novo também em Rafa. Lembrou-se de seu pai, sua mãe e agora de Gu, que estariam condenados a esperá-la eternamente, ou se Gu mudasse de idéia, esperar por ambos pela eternidade.
- Ta bom Gu! Vou te levar para junto do pai e da mãe.
Rafa mal acabou de proferir a frase e Gu já estava renovado, sem sono e sorridente outra vez.
- Então vamos agora? – Perguntou Gu.
- Ta bem! – Em coro responderam Rafa e Yuri.
Concentrando-se, Rafa e Yuri fecharam os olhos e, em instantes, puderam olhar o Gugu já sentado no banco traseiro do carro, como se nunca tivesse saído dali, como se o mundo agora estivesse andando em câmera lenta, muito lenta. Tão lenta que seria impossível acompanhar qualquer movimento que fizessem, pois demoraria séculos.
Yuri confessou a Rafa que agora para se dizer um simples olá, na terra, seus pais e irmão, demorariam mais de cem anos, o que seria impossível de se acompanhar, devido ao ritmo de vida em que eles estavam, totalmente diferentes ao deles.
O mundo no qual se encontravam agora, era um mundo em que num segundo se fazia milhões de coisas. Um tipo diferente de marcador de tempo! Um relógio que dividia um segundo em milionésimos e os transformava em dias, talvez hora, dependendo do calculo, até anos...
Yuri explicou a Rafa que tudo o que vivera até agora, não havia consumido nem um segundo da vida de seus pais e irmão, e que infelizmente ou felizmente, ele não sabia! Nunca ninguém ficou eternamente desse lado do portal, pois seria como prolongar a vida em muitas vezes, tornando assim uma criança num velho ancião, que já aprendera tudo, já vira de tudo e tudo experimentara, conseguindo assim, retirar o verdadeiro sentido desse mundo.
- E qual é o verdadeiro sentido desse mundo? Perguntou Rafa impressionada
com a explanação de Yuri sobre o que viveram até agora, tentando entender e aceitar que sua vida ia a passos de tartaruga e seus movimentos, enquanto isso, iam mais rápidos que os de uma lebre.
Foi essa a explicação que Yuri deu a Rafa tentando faze-la entender que vivia na velocidade de um foguete, porém seu tempo..., seu tempo não passava!
Imaginava-se como um foguete a um bilhão de quilômetros por segundo, enquanto que sua vida ia percorrendo a distancia sem que se alterasse o tempo real da vida? Vivia num mundo onde o marcador do tempo era extremamente preguiçoso, nem no entanto prejudicar as ações e o que era vivido.
Por outro lado, tudo o que foi vivido seria imediatamente esquecido, se por qualquer motivo, ela resolvesse retornar ao mundo real, o mundo de seus pais e irmão.
- Tudo isso é fascinante e muito difícil de se aceitar, mas... você não me respondeu! Qual é o verdadeiro sentido desse mundo?
- Está bem Rafa! Vou tentar explicar.
- Qual o sentido da vida Rafa? Yuri perguntava e respondia.
- O sentido da vida de todo ser humano é simplesmente viver como ser
humano; como o sentido da vida de um pássaro é viver como um pássaro! O sentido da vida de todo ser humano é estar em constante melhora, assim como a gente quando está aprendendo a escrever. Você sabe como é! Primeiro alguns exercícios, alguns riscos e traços, depois círculos, quadrados, triângulos e finalmente: começamos a desenhar letras e aprendemos a chamá-las por seus nomes, até que após muito treino, aprendemos o nome e a forma do alfabeto. Então começamos a juntar as letras e formar sílabas. Aprendemos a soletra-las e depois a formar palavras, para finalmente com as palavras formar frases. Frases estas que nos induzem a pensar, e com o pensamento viajamos a todos os lugares a quer uma palavra possa nos sugerir. A palavra sugere e o pensamento obedece automaticamente. É um código de comunicação muito bom, mas só funciona se deixarmos ou permitirmos que se abram as portas da imaginação! A imaginação..., é o veículo criado pelo nosso cérebro para que possamos desafogar nossos sonhos. Muitos deles, e você sabe muito bem disso! Impossíveis de ser realizar, mas totalmente possíveis de serem imaginados, o que, muitas vezes, já nos realiza cinqüenta por cento da vontade do que sonhamos..., não é assim, Rafa?
Apesar de tudo, Rafa era ainda muito nova e para acompanhar as palavras de Yuri; tudo o que disse, ela fez grande esforço. Teve que se esforçar muito, mas de uma coisa tinha certeza: - Não existia nada melhor que um sonho bom! E continuou: - É Yuri, às vezes, a gente sente vontades, e só de imaginar, já ficamos felizes. Mas, se o que queremos muito é realizado... Aí sim! Aí é que ficamos realmente felizes.
- É claro que ter o que se quer é melhor que sonhar o que se quer; mas
quando não se pode ter, e muitas vezes não se pode ter o que se quer – Faz parte da vida! Aí sim! É que te digo Rafa. Se você tem a capacidade de imaginar; com certeza, será muito mais feliz que aqueles que infelizmente vivem somente da realidade crua, não querendo ou não dando espaço para que seu espírito de criança os leve ao mundo dos sonhos; ao mundo do impossível, que se torna possível daquele momento em diante, tornando assim sua vida, pelo menos cinqüenta por cento, mais agradável que a dos duros de coração!
- Rafa é preciso ter fé na vida! É preciso acreditar que Deus nos fez para
sermos felizes e não para sofrermos. Você crê nisso?
- Claro que sim, Yuri! Além do mais, eu nunca poderia ser feliz se acreditasse
que o futuro é sofrimento. Ao contrário, acredito piamente que o futuro é a melhor parte, que nos virá!
- Como você sonha seu futuro? – Perguntou Yuri.
- Com muita paz, com quem amo ao meu lado! Sendo feliz, vendo todos
felizes num mundo mais justo, com seres humanos mais justos. Vejo um mundo “no futuro”, em que viver bem seja coisa normal, banal e não privilegio de poucos afortunados! Claro que tudo o que digo é almejando estar bem no plano material, porque acredito, e meu pai e mãe sempre me lembraram isso, que a felicidade é uma força que deve vir de dentro para fora e nunca de fora para dentro. Se acontecer de sermos felizes de fora para dentro, tenho certeza que em pouco tempo teremos um abismo entre nós e a verdadeira felicidade; e isso acontecerá quando já tivermos tudo o que o dinheiro pode comprar! Notaremos que nosso bem estar não pode ser comprado como mercadoria, mas sim trabalhado dia-a-dia; como quem constrói uma fortaleza, tornando-nos tão bem estruturados em nossos sentimentos, que teremos tempo de sobra para sermos bons! A beleza está nos olhos de quem vê, e saber enxergar a beleza é um dom. Acho também que muita gente transmite a paz e a felicidade com um simples olhar, “são mais puros que os outros”, talvez pessoas que não estejam totalmente contaminadas com as bactérias do homem. E assim com sua beleza, que vem de dentro, irradiam a vida dos que os rodeiam...
- Yuri! Qual o verdadeiro...
- Está bem Rafa, você já respondeu e não sabe ou não se deu conta disso!
- Esse portal pelo qual você passou, é um portal imaginário. Um lugar onde
não há vigias, nem porteiros. Lugar em que o único preço cobrado como ingresso, é a força, o poder de imaginar e nada mais. Mas se você acha que muitos já ultrapassaram esse portal, você se engana! A cada dia que passa, o homem fica menos sonhador e por conseqüência, mais realista. Até mesmo as idades que eram mais longas para alguém ser considerado criança, estão diminuindo. É comum vermos meninos e meninas de quatro, cinco anos, até a sua maioridade, trabalhando arduamente dia-a-dia, é comum ver esses meninos serem pais, serem ladrões, serem mortos, se prostituírem, enfim... é comum essas crianças serem arrastadas para a vida adulta, muito antes de seu tempo, e acredite Rafa; Você é privilegiada em muitos aspectos, vou lhe dar um exemplo: Você tem família! Não um monte de gente junta, com a mesma origem, mas sim pessoas que se amam mutuamente e te amam... Isso está se tornando raro! Você pode ser criança o tempo que for necessário! Ninguém te obrigará a crescer precocemente, te obrigando a responsabilidades que não te cabem. Te darão o tempo certo para crescer e sonhar, até que um dia já será uma adulta sem os traumas da precocidade. Sim! Resumindo, o verdadeiro e único sentido desse mundo existir é a preservação dos sonhos! O portal que você atravessou é o portal imaginário em que normalmente passamos quando estamos dormindo ou pensando, e de vez em quando, alguém como você, pessoas especiais, ultrapassam o portal! Não sabemos como nem o porque, nem o que leva um ou outro ser a ultrapassa-lo, mas sabemos que o dom que Deus nos deu é o que prevalece, ou seja; você pode escolher o que deseja fazer hoje e todo o resto de sua vida!
- Acho que entendi... Quer dizer que algumas pessoas, talvez sonhadoras
como eu, por acaso, ou seja, lá por que motivo for, ultrapassam essa porta criada por nossa imaginação, que deve ser mais..., mais forte que as outras! Por esse motivo, cria esse lugar, que na verdade não existe, quer dizer, existe, mas só em nossa mente. Existe como um sonho bom?
- Isso mesmo! A diferença de estar aqui para estar sonhando, é que aqui você
decide o tempo que quer sonhar, enquanto que no sonho normal é seu subconsciente quem manda.
- Confesso que é muito complicado para eu entender! – Disse Rafa.
- Calma Rafa! Você não precisa entender. Só precisa aproveitar ou não teu
sonho! – encerrou Yuri, enquanto ficaram a divagar sobre o que haviam dito.

O mundo de sonhos, de realizações das vontades, deixava de ser apenas um mar de algodão doce.
Começava a reviver na sonhadora os conflitos internos.
Rafa amadureceu muito! Começou a sentir o peso das responsabilidades sobre as decisões que devia tomar e as que havia tomado em sua vida.
E era exatamente sobre isso que pensava enquanto estava sentada numa cadeira de nuvens macias e aconchegantes.
Seus pensamentos iam muito longe, se adiantavam em muitos anos a sua vida, mas também regrediam até os remotos tempos em que ainda era uma pequena criança de colo. Idade em que seus pensamentos permitiam sua ida e vinda a muitas outras terras como esta. Começava a analisar seus atos e suas conseqüências. Entendia agora o princípio da ação e reação, claro que da maneira mais simples, mas também da mais verdadeira. Entendia que tudo o que fazia em sua vida, gerava reações boas ou ruins. Entendia agora o que seu pai lhe dizia..., “Quem semeia bondade colhe amor!”. Fez muitos planos para o futuro! Sonhou com um mundo maravilhoso que criara para si e para as pessoas que a cercava. Em momentos de inspiração pode ver o mundo perfeito para todos. Viu a boa vontade com que todos viviam e quanto poder de se doar às pessoas haviam adquirido!
Nos jornais de seus sonhos, as manchetes em letras garrafais davam conta do fim dos conflitos no oriente médio, na África, etc. Noutra manchete lia-se: PAÍSES DESENVOLVIDOS ANUNCIAM PLANOS DE AJUDA REAL A PAÍSES POBRES!”
Sonhar é preciso! Onde Rafa teria ouvido isso? Não sabia! Mas sentiu grande vontade de conversar e pensou em Yuri, nem precisou chamar! Yuri apareceu em sua frente já começando a falar...
- Rafa, seus sonhos são belos e refletem seu coração. Eles demonstram que
você é por dentro; um ser limpo, desprovido de preconceitos e muito sentimental, só que infelizmente da mesma maneira que o mundo é perfeito, seus habitantes, os que pensam! Jamais serão cem por cento bons. Faz parte da natureza do ser humano. E você precisa começar a se preparar para desilusões com as pessoas e seus atos materialistas e egoístas. São pessoas que infelizmente, são pouco desenvolvidas ou instruídas na escola da vida. Você aprenderá com o tempo, se voltar ao mundo real, que lá, no mundo real, muita gente se deixa levar pelo que conseguem com o dinheiro e se esquecem do que conseguiriam com seus sentimentos, com sua doação, com seu amor ao próximo! Sinto te dizer; nem poderia te dizer! Mas, tenho que te dizer. – Disse Yuri corando.
- Se você optar por ir embora, sentirei saudades e tristeza em saber que não
Existirei mais em teu sonho ou em teu esquecimento? Serei como um pouco de ar respirado; ninguém vê, ninguém percebe, nem sente, mas já passou por nossa vida!
Uma, apenas uma lágrima rolava do olho de Yuri, que poderia muito bem ser um sonho, já que Rafa já havia tomado uma decisão.
Yuri o guardião do mundo dos sonhos, pela primeira vez, tentava seduzir ou induzir alguém a ficar ali. Sabia que era errado e se justificava dizendo, que gostava muito daquela pessoa. De tanto gostar, esqueceu-se que o pensamento ali não era privacidade, deixando assim Rafa livre para ouvir tudo o que pensava.
Ainda sentada em sua poltrona de nuvens, Rafa olhou diretamente para Yuri e era como se ver em frente ao espelho, pois a mesma lágrima que rolava de forma solitária no olho de Yuri, também escorria do olho de Rafa, solitariamente face a baixo, selando assim um gostar imortalizado. Quando as duas lágrimas caíram, foram atraídas uma pela outra, até que finalmente se juntaram tornando-se uma.
Foi como mágica, uma linda tela se abria sob o olhar de ambos, com um lindo gramado e poucas, porém, belas árvores espalhadas de maneira perfeita, mágica. Num canto um lindo riacho de águas cristalinas, mornas e cor-de-rosa; riacho que tinha como pano de fundo uma bela cachoeira com uns dez metros de altura em queda livre; cachoeira de água silenciosa e borbulhante...
As lágrimas que se tornaram uma, caíram rumo àquele lugar e quando entrou na atmosfera ou esfera desse sonho, transformou-se se dividindo em milhares de gotículas, formando imediatamente uma refrescante garoa, como se fosse uma chuva de verão e com o sol a pino, para completar, do meio do riacho rumo ao infinito do olhar, formou-se um lindo arco-íris que partia de um fraco amarelo até um forte vermelho, passando pelo verde, o azul e o violeta.
- Rafa se você for embora, nunca mais se lembrará desse mundo, do que
criou aqui e nem de mim, por isso, lhe dou de presente essa imagem! – Disse Yuri. – Você a terá em sua mente durante toda sua vida, saberá que é bela e não saberá porque insiste em ficar em sua mente; se lembrará constantemente dela e nunca de mim, mas sempre existirá uma dúvida, e a dúvida serei eu te pedindo para se lembrar de mim!
- Aceite essa imagem como presente! Disse Yuri.
Emocionada, Rafa levantou-se e deu um longo e forte abraço no seu amigo dos sonhos, que corou, talvez devido ao pouco contato físico que teve com ela e com outros sonhadores, contato esse que jamais havia passado de um aperto de mão.
- Você tem razão, Yuri! Não posso simplesmente fugir de minha vida, sei que
é isso o que desejamos, mas lá no fundo, bem lá no fundo mesmo, sabemos que só estou aqui porque jamais me acovardaria de minha vida, de cumprir meu destino de viver, como já conversamos. Sei também que um dia, talvez no fim de minha vida, quem sabe não incluo você na paisagem que me deu de presente? Talvez num acaso ou como dizem: Temos um último instante para repensarmos o que vivemos! Sei que apesar do seu tempo cronológico ser diferente do meu, se estou aqui, se estou vivendo esse tempo de sonhos, e não importa quanto tempo viva aqui, um segundo, ou um dia, ou cem anos, serão sempre tempo de um sonho que vivi a seu lado e esse tempo talvez um dia, ou no último segundo de minha vida, torne-se uma boa recordação para finalmente confortar-me? Talvez você seja o responsável pó me fazer sorrir meu último sorriso de felicidade, e se for, será maravilhoso!
- Obrigado Rafa! Você quer ir agora? – Disse Yuri tentando cortar as
despedidas.
- Faremos o que tem que ser feito! – Disse Rafa, sem querer parar de falar.
Enquanto se olhavam, mentalizavam o carro, a família de Rafa, o Gugu, o portal e por fim o banheiro; num último olhar, os olhos se fixaram ainda por algum tempo...

Com o olhar perdido em algum ponto da porta, Rafa se sentia como se acordasse. Espreguiçou-se como se acordasse, levantou-se da privada, se limpou e deu a descarga de água, parecendo que com ela, o mundo de sonhos havia ido, e agora estava totalmente esquecido por quem o viveu.
Abriu a porta e saiu. Olhou-se no espelho estragado enquanto lavava as mãos com certo cuidado e cerimônia. Enquanto a água caia sobre suas mãos, lembrava-se de uma bela paisagem, onde havia um riacho com cachoeira e as águas da torneira pareciam mesmo as águas da cachoeira, meio cor-de-rosa; que via claramente a sua frente, então esfregou os olhos.
- Devo ter dormido e sonhado nesse banheiro! Disse Rafa se lembrando ainda de um belo arco-íris.
Abriu a porta do banheiro e foi rumo ao carro. Olhava fixamente para a mãe, depois para seu pai e finalmente para o irmão, o seu olhar foi metralhado pelos olhares dos três, que a olhavam com grande sorriso estampado. Agradeceu a Deus por essa família maravilhosa, mas foi só entrar no carro para que o sorriso se transformasse em riso ao meio de brincadeiras.
- Que demora! Estava fazendo o que? Pensei que não sairia mais! – Disseram
sem esperar resposta.
- Papai, mamãe, ela estava no mundo dos sonhos! – Disse Gu em meio a
Gargalhadas e indiretas, sugerindo sonhos escatológicos.


FIM
Ronaldo Vieira
Enviado por Ronaldo Vieira em 02/10/2005
Código do texto: T55756
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Sobre o autor
Ronaldo Vieira
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