Mariana

Mariana era uma menina graciosa, tinha dez anos, olhos castanhos, e chamava a atenção por causa de suas sardas. Acalentava um sonho, o de um dia ser livre e feliz. Para ela ser feliz era, antes de tudo, ser livre: só com a liberdade encontraria a felicidade. Sofria quando via os meninos brincando, livremente, na rua, coisa que as meninas não podiam fazer. Para elas tudo era proibido. Não podiam brincar como os meninos ou com eles. Não saíam de casa, sozinhas. Mesmo assim, ela sonhava que um dia seria livre e feliz.

Certa vez, apareceu na cidade um bando de ciganos que montaram um acampamento no fim da rua. Vendo-os em tendas e se divertindo muito, ela acreditou que a felicidade estava com eles, pois, sendo livres, os ciganos certamente seriam felizes. Então, quis ser uma cigana. Disseram-lhe que não podia ser. E para desestimulá-la, afirmaram que os ciganos não passavam de um bando de preguiçosos, uma cambada de malfeitores, e por isso, uma pessoa de bem não devia se aproximar deles. Depois de uma semana se escondendo pelos cantos a menina pensou: “Se eles acham que não posso ser feliz, pois vão ver. Fujo e vou com os ciganos”.

Era a primeira vez em que se sentia mais ousada. Fez uma trouxa de roupa e saiu de casa, escondida, ansiosa para morar com os ciganos, e enfim ser livre e feliz. Quando chegou ao local do acampamento dos ciganos, Mariana não os encontrou. Procurou-os em todos os lugares e nada. Eles tinham ido embora, escorraçados pelo povo da cidade.

Ela saiu correndo desesperada pela rua, quando andou duas quadras, viu uma multidão de gente acompanhando uns caminhões cheios de animais e pessoas dançando na rua. Era um circo que chegava a cidade. Aquelas pessoas pulando, cantando, cheias de alegrias e liberdade, despertaram nela a ideia de que eram livres e felizes.

Então, acreditou que devia procurar sua felicidade no circo. Para ela, aquela gente era feliz, porque tinha encontrado na liberdade, uma maneira de ser feliz. No entanto, os pais desconfiaram de suas intenções e proibiram-na de se aproximar das pessoas do circo. Assistia ao espetáculo sonhando que um dia seria como eles. O circo foi embora sem que ela pudesse se aproximar deles e descobrir o seu segredo de felicidade. Em casa, queria chorar, mas não podia. Seus pais iriam perceber. A noite sonhou que fugira com o circo e era feliz.

Por esse tempo apareceu na cidade uma mulher muito bonita e alegre. As pessoas chamavam-na de “mulher da vida livre”. Embora não entendesse bem o significado de ser “mulher da vida livre”, ela lhe pareceu uma pessoa feliz. Se, tinha uma vida livre, devia também ser feliz, pensou. Queria ser do jeito dela. Mas, uma menina de bem não podia falar com ela, não podia ser uma “mulher da vida livre”, diziam. Pouco tempo depois, a mulher desapareceu da cidade e Mariana nunca mais a viu.

Passaram-se os anos e, mesmo depois de adulta, Mariana continuou procurando a felicidade. Um dia encontrou um rapaz, que lhe ofereceu amor e prometeu fazê-la feliz. Não era cigano, nem era do circo. Ela acreditou que seria feliz com ele e, se sentindo amada, descobriu que a felicidade estava no coração. Casaram-se. E assim, Mariana que um dia prometera a si mesma que seria livre e feliz, encontrou o que procurava. Hoje, sente-se livre como os ciganos, feliz como as pessoas do circo e alegre como aquela “mulher de vida”. E com muitas histórias para contar.