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Overdose ( a última viagem )


De tempos em tempos aquele moço costumava passar horas naquele lugar para saborear o contato com a solidão absoluta que ali conseguia. Sempre que lhe era possível encontrava uma brecha em seus compromissos para conseguir esses momentos tão necessários para a sua paz interior. Aquele era um local de difícil aceso, por ser bastante trabalhosa e demorada a caminhada para ele alcançar, só que quando ali chegava o seu espirito e sua alma encontravam total liberdade. Todas as vezes, que ali estivera, só em uma delas encontrara alguém. Eram alguns jovens que estavam acampados, em suas barracas, na beira do lago. Sempre que retornou nunca mais encontrou ninguém e ele tinha aquele recanto do paraíso sobre a terra como um local de refúgio para a sua alma.
Nesse dia ele chegou bem cedinho. Desceu do primeiro trem, que acordou a cidade mais proxima do lugar onde ia, com o ranger estridente de suas rodas enormes em atrito com os trilhos de aço, e se pôs a caminhar pela linha fêrrea saboreando o cantar divino dos passarinhos que soava para ele como um hino de louvor ao dia lindo, claro e cheio de vida que estava nascendo. Além desse longo trajeto, por essa linha de trem, teve de vencer um outro caminho cheio de obstáculos, que avançava pela mata adentro, para chegar até o local. Quando chegou ele tirou o cansaço adquirido, na estafante caminhada que fizera, entrando embaixo das águas geladas e cristalinas que despencavam arrojadas e furiosas,tomando um delicioso banho na cachoeira que lá havia. Depois do banho subiu em uma pedra enorme, que havia na beira do lago,  e sentou-se sobre uma toalha que estendeu nela. Pegou a sua sacola e tirou dela os cogumelos que encontrou, em um pasto que cruzou no caminho dali, e começou a mastigá-los, saboreando o sabor divino daquele alimento da alma. Aquele mastigar lento, que amargava a sua boca, era um doce ritual que precedia a abertura da porta de um plano astral pela qual o seu espírito entraria. Sua viagem começava ali.
 
     
Algum tempo depois a sua alma, afastada alguns metros dele, observava encantada o seu corpo sentado sobre a pedra. Tinha consciência de que aqueles olhos brilhantes e meditativos era a porta de entrada e saida do seu habitat. Nesse momento um anjo, na forma da mulher mais linda concebida por Deus, olhava aquela cena. Ele estava semi-oculto pela forte torrente de água da cachoeira que atingia e acariciava o seu corpo nu. Duas lágrimas grossas desceram dos seus olhos, e se confundiram com a água que escorria pelo seu rosto, quando ele estendeu os braços em direção daquela alma e falou:
 
- Vem comigo, não tenha medo. Sinto separá-los, mas só você pode me acompanhar ao lugar aonde vamos.
                                                       
De mãos dadas, a alma do moço e o anjo que na forma de uma mulher bela viera busca-la, se elevaram lentamente e pouco a pouco se confundiram com a imensidão que envolvia aquele lugar. Dias depois um corpo sem vida foi encontrado sobre aquela grande pedra que havia ao lado do lago em que caiam as águas da cachoeira. A pessoa encontrada havia tido uma overdose. Foi constatado que o que motivou a sua morte foi à quantidade excessiva de ácido psilocibina, que tinha nos cogumelos alucinóginos que ela havia comido.
 
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 27/08/2007
Código do texto: T625901

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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