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O bom ladrão


Era uma bela manhã, apesar do dia ter se iniciado com uma pequena nebulosidade. O marido ia para o trabalho cantarolando cheio de alegria. Ele era um funcionário publico feliz e cheio de esperanças. Sua esposa que trabalhava na mesma repartição, mas que entrava trinta minutos antes dele já estava lá. Ele ia chegar daqui a pouco junto a ela e do filho que ela carregava já a três meses dentro de si.
Sim, ele tinha plena razão de levar um sorriso nos lábios o tempo todo.



O relógio do departamento marcava, postado na branca parede da sala, oito horas e vinte minutos. A esposa, dispersa em sua mesa a trabalhar, olhava de minuto à minuto para ele e sentia um aumento constante em sua preocupação. Seu marido morava logo ali ao lado e não era para estar demorando tanto.
Quando ela saiu para o trabalho o deixara terminando o seu banho.
Seu café ela havia feito e deixado sobre a mesa. Mesmo que tivesse passado pela igreja, para a sua palestra matinal com Deus, ele a muito já devia ter chegado.

"O que será que aconteceu", pensava ela preocupada, pois para ele a pontualidade sempre foi uma lei. "É... Algo deve ter acontecido?!"

E assim ela passou boa parte daquela manhã sentindo uma angústia dorida. Dos seus olhos, à cada pessoa que adentrava na sala, flamejava uma chama de esperança que se apagava ao não reconhecer em quem chegava o seu homem.
Quando faltavam somente alguns minutos para que o atraso se fizesse em uma hora, chegou espavorida a menina que fazia diariamente o cheiroso café da repartição e falou para ela esbaforida:

- Regina, o seu marido foi preso ali na esquina. Estava uma bagunça danada e não deu para entender direito o que aconteceu. Tudo o que eu sei dizer é que eu vi ele sendo levado pelos policiais e as pessoas falando sobre um roubo que havia sido cometido.

- Hóóó!!!

A esposa soltou um gemido abafado e caiu, atordoada com a notícia apavorante, sobre o carpete da sala.

Os minutos que se seguiram foram de uma balburdia geral no local. As amigas de trabalho corriam à procura de sais, vinagre ou algo que aliviasse a pobre esposa que era amiga de todos. Os homens discutiam confusos o que havia ocorrido sem chegar a conclusão alguma:

- Mas como pode ser isso? Ele jamais cometeria um crime. Há anos que trabalha com a gente e todos sabemos que é incapaz de se apossar de algo alheio.

Um funcionário mais cético, que com o marido - o pseudo ladrão - não simpatizava muito, comentou com ironia agourenta:

- É... Tudo pode acontecer. Ganhamos tão mal aqui que o pobre coitado deve ter se desesperado com os apertos da sua nova situação e feito algo impenssado.

Um dos funcionários, que era na verdade amigo do amigo, respondeu indignado:

- Não, não ele. Se fosse uma outra pessoa até podia ser, mas não ele.

E assim a confusão dominou as pessoas e a conversa até que alguém perguntou com sensatez:

-Bom, algo tem de ser feito. A pobre Regina precisa de ajuda e ele é nosso amigo. O que faremos?

Após a apresentação de várias opiniões que a nada levavam, alguém disse cheio de probidade:

- Precisamos saber o que realmente foi que aconteceu. Seja o que for, o nosso lugar é ao lado do nosso amigo. Aqui, nesse diz-que-diz, de nada valemos para ele e só fazemos é deixar a nossa amiga Regina mais confusa e nervosa.

E assim resolveram subir, em grupo, à delegacia de polícia para se cientificarem da verdade no ocorrido. Passaram-se os minutos que, para os que ficaram, se fizeram um tempo infinito de ansiedade e angústia. Em um canto, com tremores e soluçante, a esposa era acalmada por palavras consoladoras e por copos de água com açucar que lhe eram trazidos a todo momento.
A preocupação imperou nebulosamente, até que uma algazarra foi trazida junta ao barulho da chuva fina que caia lá fora. Através da janela da repartição as pessoas que esperavam viram as que tinham ido em socorro do amigo chegando e fazendo folia debaixo da chuva fina, a carregarem o acusado nos braços em clima de festa.
Era tal a algazarra que ninguém entendia a cena que se passava. O marido havia sido preso por roubo e agora chegava carregado pelos amigos e sorridente trazia nas mãos uma rosa purpura. Era de fato... Inexplicável!



Foi tudo esclarecido algum tempo depois e a festa durou o dia todo na repartição. Todos apoiaram a atitude do amigo. Roubado ele tinha sim, mas a uma rosa para levar à sua amada.
Em sua euforia com a felicidade que sentia, pela vinda próxima de um filho, naquele dia ao passar em frente ao jardim de uma casa, que havia ao lado do prédio público em que trabalhava, ele pulou a cerca baixa que beirava a calçada e arrancou uma bela flôr que tinha ali para oferecer de sua querida esposa.
A empregada que havia na casa, ao ver aquele homem pulando a cêrca e invadindo o jardim, se apavorou e pôs-se a gritar desesperadamente, e foi assim que se formou a confusão e começaram os problemas do nosso amigo.
Já com algum tempo passado, ninguém mais se recorda do acontecido e só uma coisa ficou para lembrar do ocorrido. O nome que leva o nosso amigo até hoje é o de "o bom ladrão".
 
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 30/08/2007
Código do texto: T630209

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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