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Não faça favores ao coração...

Por que tardas meu amor? Não vê que sofro por ti? Esqueceu-se da promessa que me fez? Minhas lágrimas escorrem pela face e cortam o coração, são frias, desérticas...Naquela noite em que partiu, antes de bater a porta me prometeu que não me deixaria, mesmo que tivesse de lutar, que seu peito fosse atravessado por mil espadas, você, voltaria para dizer-me pela última vez: “Eu te amo”.
Mentiras e mais mentiras, não se cansou de mentir para mim, Senhor Imortal? Ou não era assim teu nome de batalhas? Eu te esperei durante dias e noites, fizesse sol ou chuva, estivesse quente ou frio...Inútil, uma vida perdida inutilmente.
Sim, houve noites chuvosas que por instantes achei ter ouvido teus passos na areia e corri para fora olhei nas águas, nas rochas próximas ao cais, porém fora tudo ilusão, um truque usado pelo meu coração na tentativa de continuar enganando-me com aquela promessa que fez. Mas agora basta de choro, de ilusões, você me mostrou que não é mais necessário esperar, pois aqui onde estou, trancada entre quatro paredes chamam-me de louca, louca por esperar alguém que já se foi, alguém que morreu nos campos de guerra.
Fazem-me afundir comprimidos e gritam sempre que toco em seu nome: “Cale-se, louca imprestável! Não vês que Alberto jamais regressará?” Tu não tens consciência da dor em meu peito, meu querido, não compreenderá nunca esta lamina infeliz rasgando minha alma...Diga se tens coragem de olhar-me nos olhos, és assim que cumpriste tua promessa?
Naquela noite, após ouvir gritos ensandecidos alguém passou por mim no corredor; não me disse nada e nem se quer olhou-me. Um arrepio percorreu toda minha coluna e como se fosse algo premeditado seu nome apareceu em minha mente e latejava me fazendo ainda mais louca. Por que as paredes não falam? Quantos segredos teriam para me contar?... Ó que ódio, me tirem daqui... socorro! Você não tem vergonha, desgraçado? É tudo tão gelado, tão solitário. Estes que estão aqui comigo não entendem minha dor; essa agonia que transpassa as entranhas. Seria preciso morrer para que você voltasse e nós continuássemos nossa história de amor? Sei que não estas morto como estes imprestáveis tentam fazer-me crer, porém ao mesmo instante tendo a confundir-me, pois jamais regressas... A todo o momento ouço fortes risos e tenho muito medo; neste lugar as noites são escuras como as asas do abutre, ninguém me conhece, não sabem quem és tu. Por que estou perecendo nesta imundice? Meus pensamentos fogem como se corressem do inimigo, e tu sabes bem como escapar dos mesmos... Onde está você? Será que se esqueceu de mim...ou apenas deixou de me amar?
Já não adianta que eu grite, pois a voz tornou-se rouca, às vezes mal posso ouvir-me... Estás vendo aquela mulher no corredor? É muito má, têm nas faces bigodes como os dos homens que andam contigo nas guerras, e para mim resta refugiar-me em minha dor e agonia, tenho por certo de que está vindo para cá, irá açoitar-me a alma, abrir feridas em meu coração partido e logo após já não poderei continuar falando a vós, porque despertarei apenas ao amanhecer: “Não, não, não, mil vezes não. Afaste-se de mim. Socorro. É melhor tirar-me a vida, assim se é verdade que Alberto se foi, terei uma chance de retornar a ter comigo o amor de minha vida.”
Há muitos anos guardei comigo a esperança de que sairia deste inferno polar, no entanto, olhando dentro de meu ser, vejo a pequenina chama se apagando como se fosse a agonia dos moribundos. Estou trancada em um calabouço de paredes úmidas e sombrias, onde posso ouvir o gotejar da água que escorre de uma fresta. Tenho medo e frio, e apenas uma manta rasgada que uso para tentar me aquecer. Não sei há quanto tempo estou neste lugar, não sei  ao menos se realmente estou presa ou se é minha alma que está aprisionada dentro da solidão que em mim se instalou.
Por quê? Por quê?...Não existem respostas para um coração ferido; não existe consolo para uma alma perdida. Você se foi...desejo que esteja feliz, pois quanto a mim, só restaram fúnebres lembranças... Você ouviu o que eu disse? Ouviu?... É claro que não ouviu, pois se tivesse ouvido sei que estaria aqui pronto para consolar-me. Tu me amas, não amas? Quero chorar, quero morrer, mas o que é a morte? Se o que chamam de morte for melhor do que esta desgraça com a qual convivo, exijo que venha agora; ordeno que venha e me tire daqui e me leve para um lugar onde não haja limo e escuridão; onde eu possa esquecer-me de ti e reencontrar o amor, o carinho...amor...amor  não preciso deste tal amor, desta farsa armada para ludibriar os tolos. Se um dia fui capaz de sentir meu coração bater mais forte, quero que saibas que você encarregou-se de exterminar minha compaixão. Agora, apenas desejo, que o tempo se esvaia depressa e faça com que eu finalmente possa te esquecer. Esquecer da desgraça que o “senhor” fez cair sobre minha vida. Naquele dia em partiu, não vou mentir, quis muito que voltasse para que pudesse me reencontrar com seus beijos, abraços, mas não, você não voltou e eu acabei neste inferno de amargura e sofrimento, onde apenas sou reconhecida como louca por ter esperado por alguém que jamais voltaria... Uns costumavam me dizer que não voltou, porque sua morte era dada por certa...Mas o que é a morte? Deixar de viver? Para mim, essa tal morte já me tem por tempos, fui morta, e sabe quem me matou? O responsável por minha fúnebre história foi você...
Tixa
Enviado por Tixa em 31/08/2007
Código do texto: T631929
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Sobre a autora
Tixa
Cachoeiro de Itapemirim - Espírito Santo - Brasil, 32 anos
2 textos (110 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/08/17 18:39)
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