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O boneco de neve


Foi logo nos primeiros dias de dezembro, ainda no começo do inverno. Aquela semana tinha sido puxada para mim. Eu fizera três ou quatro horas de zangio (hora extra) todos os dias.
Na sexta feira cheguei do trabalho quebrado, tomei um banho, jantei e fui para a cama descansar. Não tinha forças para nada. Tudo o que eu queria era estender-me em minha cama e dormir um sono pesado para me recuperar do cansaço que me atingia.
No outro dia pela manhã eu fui o primeiro a acordar. Lavei o rosto, tomei o meu café e resolvi dar um passeio.
Quando fui abrir a porta eu senti que alguma coisa, do lado de fora, á obstruía. Forcei e, quando consegui abri-la, fiquei maravilhado com o que vi.
Os telhados, as copas das árvores, os arrozais, tudo estava branco. A rua estava coberta por um tapete de quase vinte centímetros de neve.
Havia nevado durante a noite toda e a manhã estava linda. Todo aquele branco dava a sensação de pureza e paz sobre a terra.
Ouvi nesse momento um ruído atrás de mim. Era a minha filha caçula que acabava de levantar. Com os olhos ainda cheios de remela, os cabelos espalhados e a carinha cheia de sono, ela me falou:

- Bom dia papai, hóóó...

Ela ficou encantada com o que viu através da porta aberta. Todo aquele branco a deixou imediatamente desperta, e cheia de euforia começou a gritar:

- Olha quanta neve. Que lindo. Vamos brincar lá fora. Vamos papai, vamos?

Eu olhei encantado para ela. Era emocionante ver tanta alegria nos olhos de minha filha. Fui até ela, peguei-a no colo e lhe falei:

- Vamos sim. Só que primeiro você vai escovar os dentes e tomar um café bem gostoso. Assim que teu irmão acordar nós vamos lá brincar.

- Então eu vou chamar ele, ela disse e saiu correndo até o quarto para chamá-lo.

- Crianças... Eu falei para mim mesmo, deslumbrado pelo comportamento dela.

Ela logo voltou acompanhada de seu irmão. Preparei uma refeição matinal e servi para os dois. Tive até de ralhar com eles pela pressa com que comeram.
Assim que acabaram de engolir o lanche, que eu havia preparado para eles, saíram correndo para a porta.
Antes de lá chegarem foram interrompidos pela mãe que tinha acabado de se levantar:

- Hei, aonde é que vocês vão desse jeito?

- Lá fora mãe. Esta cheio de neve e nos vamos brincar nela.

- Vão sair na neve assim, sem se agasalhar? Vistam mais uma blusa, calce botas e coloquem as luvas. Vamos, assim ninguém vai lá fora. Não quero criança nenhuma resfriada nesta casa.

- Ta bom mamãe, ta bom... E foram, contra a vontade, fazer o que a mãe tinha mandado.

Quando voltaram saímos todos. As crianças da rua estavam todas fora de casa brincando na neve. Meus filhos logo ficaram entre elas que tentava acertar, uma nas outras, bolas de neve que se espatifavam contra os corpinhos cheios de roupa, quando uma delas era acertada.
Seus pais conversavam animadamente ou tiravam, com uma pá, a neve que obstruía a frente das casas.
Seus corpos estavam gelados, mas os seus corações não. Ardiam com o calor humano que era distribuído por todos em meio a toda aquela neve.
Eu olhava encantado a felicidade das pessoas, naquela manhã tão bonita, quando a minha mulher me falou:

- Bem, por que você não faz um boneco de neve pras crianças? Elas vão adorar.

Achei que era uma ótima idéia.
Peguei emprestado, com o vizinho do lado, uma pá e comecei a amontoar a neve para fazer o boneco. Depois de feito o corpo eu coloquei, sobre ele, mais uma porção de neve e dei a ela o formato de uma cabeça.
As crianças tinham parado de brincar e estavam todas, em volta de mim, olhando curiosas e admiradas o que eu fazia.
Todas falavam ao mesmo tempo e faziam comentários que me deixavam alegres e aos meus filhos muito orgulhosos de seu pai:

- Puxa, que boneco legal ta ficando, dizia um!

- É mesmo, o pai do Carlinhos sabe mesmo faze boneco!

- É, meu pai sabe faze um montão de coisas, o Carlinhos dizia todo cheio.

Fui de novo até em casa. Peguei, na cozinha, uma cenoura e algumas uvas que usei para fazer o nariz e os olhos do boneco.
Com um galho seco, que eu quebrei ao meio, eu fiz os seus braços. Pus nele o gorro de lã, que eu tinha na cabeça, e estava pronto o boneco de neve
Olhei para ele e tive a impressão de que me sorria e que em seu sorriso me dizia:

- “Viu só paizão. Valeu ou não valeu à pena ter trabalhado tanto esta semana? Ai esta a sua recompensa, a sua família está em festa. Pra eles não tem tempo ruim. Veja a felicidade deles nesta manhã de inverno rigoroso”!

CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 03/09/2007
Código do texto: T636002

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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