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Mar de esmeralda

O Aquitania singrava as águas do Atlântico rumo a Halifax  , Canadá. Naqueles primeiros anos trinta, o mais belo navio jamais construído, como era conhecido “the ship beauty”, com suas obras de arte decorando o Palladian, o grande salão de festa, estava lotado.
A palavra perfeita seria: infestado,  por gente de todas as classes.

Foi-me difícil achar acomodação individual e tive de me conformar em dividir um camarote com alguém chamado Paardauh. Pelo nome, imaginei um não britânico.
Chateado, pedi aos taifeiros que levassem minha bagagem para o camarote e me dirigi ao belo salão. Ao menos, confortar-me-ia com a exuberância do lugar.
Pedi ao garçom um baralho e inicei uma paciência.
- Mr. Rafferty, eu presumo...
Levantei meu olhar das cartas e logo adivinhei que era Paardauh.

Embora fosse caucasiano e falasse um perfeito inglês de indecifrável sotaque, eu não podia imaginá-lo britânico.
Sem cerimônia, sentou-se à mesa e fez sinal ao garçom. Em seguida começou a falar. Diria melhor; tagarelava.
Disse que viu na lista de passageiros meu nome e que estava aliviado por dividir a cabine com outro britânico. Eu o fitava, respondendo-lhe monossilabicamente. Ele me desagradava.
Suas maneiras não eram as nossas. Parecia que ele era oriundo de algum lugar onde as estações do ano diferem das nossas.
- Inscrevi meu nome e o seu na mesma mesa, junto com um jovem casal londrino. Ele é secretário da embaixada em Quebec e veio buscar sua jovem esposa, que não a via há quase um ano. Ah! O três de paus...Coloque ali!
Definitivamente, esse Paardauh me desagradava. Via-me em Via Sacra pelos próximos nove dias.

Durante os dias seguintes, Paardauh se mostrou uma mão na roda para todas as atividades de entretenimento a bordo. Ele seria como um palhaço querido onde as pessoas queriam ficar em paz, mas devido a sua pertinácia, acabávamos contagiados, com certa relutância, por sua vitalidade.

Ele organizou rodadas de bridge para velhas senhoras, também arranjou escortes para algumas delas e nos bailes, era o primeiro a tirá-las para dançar.
Era também uma enciclopédia viva. Não havia nada, mas absolutamente nada neste mundo, que ele não tivesse um compreensivo conhecimento de causa. Se voce começasse a falar sobre certo assunto, ele te atropelaria e discursaria tudo o que voce gostaria de ter feito.
Ele realmente me desagradava. De maneira velada nos referíamos a ele como senhor sabetudo.

Como reação natural, competitiva dos jovens, ele irritava profundamente Geoffrey W. Bosch, o secretário de embaixada e casado com a graciosa e reservada Hillary. O salário dele devia ser baixo, pois suas roupas  eram adquiridas em alguma Woolworthy, porém Hillary Bosch dava certo encantamento de seu bom gosto com as bijuterias.

Certa noite, depois do jantar e antes de retirarmos-nos para o smoking room, veio a baila o assunto sobre o mercado de ações de pedras valiosas. Bosch se referiu sobre as esmeraldas brasileiras e então, como sempre, Paardauh nos bombardeou com seus conhecimentos.
- Como? Voce deve estar louco! Dizer que as esmeraldas brasileiras não têm grande valor de mercado! São esmeraldas, Paardauh, esmeraldas!
- É isso mesmo, dear Bosch. Elas não têm a mesma transparência e dureza das colombianas. Estas sim merecem qualquer investimento e... lhes digo mais, alguém pode até conhecer bastante de esmeraldas, mas não mais do que eu! Eu estou justamente indo para América do Sul em razão de uma grande jazida de esmeraldas que foi encontrada em Cartagena e que meus representados têm muito interesse. Portanto, tomem a minha palavra como final!

Bosch, tinha um enigmático sorriso nos lábios enquanto ouvia Paardauh, diferentemente das outras vezes, que ele mal disfarçava sua raiva quando era vencido nas discussões pelo desagradável Paardauh.
- Não acredito que a olho nu voce seria capaz de distinguir uma esmeralda de uma turmalina!
- Dear Bosch, neste momento por exemplo, posso afirmar que o belo colar que sua bela esposa tem no pescoço são de verdadeiras esmeraldas colombianas e que o preço de mercado deve valer por volta de trinta mil dólares. Estas mesmas gemas antes de lapidadas eu pagaria sem hesitar, a metade!

Eu, sempre me mantive impassível e distante das discussões provocadas por Paardauh, mas desta vez, acho que foi algo de apreensivo no olhar de Hillary que despertou minha curiosidade. E também, que afinal ficávamos sabendo o que Paardauh fazia pra viver.

- E se eu lhe afirmar, dear Paardauh (aqui, Bosch ironizava o afetado tratamento do senhor Sabe Tudo), que o colar que Mrs Bosch está usando, foi comprado por ela  numa liquidação da Harrod´s, na véspera de minha chegada em Londres? Voce apostaria cem dólares!?

- Meu querido, voce não pode apostar no que voce já tem certeza... não parece justo!
- Como não, Hilly? Esta vai ser a maneira mais fácil de ganhar dinheiro honestamente! Tire o colar e passe a Paardauh, querida. Por favor.

Demonstrando certo descontentamento, a bela esposa tenta, mas não consegue tirar o colar.
- Vamos deixar pra lá. Sr. Paardauh, o senhor terá que aceitar minha palavra de que este colar não custou mais do que dezoito xelins... e meu marido terá de desistir da aposta!
- Ah não, querida! Deixe que eu tiro o colar. Pronto! Aqui está! Pode examiná-lo, Paardauh!

Enquanto o sr. Sabe-tudo tirava a lente de joalheiro do bolso interno de seu black-tie e passava ao exame das esmeraldas, por alguma razão eu estava mais interessado na feição angustiada de Hillary.
Paardauh tirou sua lente do olho e um sorriso de triunfo começava a estampar-lhe o rosto. Estende a mão com o colar pra devolver a dona, quando notamos, só ele e eu, o olhar suplicante e inexplicável da esposa de Bosch.
- Bem... confesso que me enganei. É uma perfeita imitação! Tome aqui os cem dólares!
Ele tira de dentro da carteira uma das muitas notas de cem dólares  e estende para que Bosch a pegue.

- Que isto lhe sirva de lição, Paardauh! O quanto me for possível, esta nota de cem nunca sairá de minha posse!

A noticia logo se espalhou por toda a primeira classe e Paardauh já não parecia tão atrevido quanto antes até o final daquela noite.
Na manhã seguinte, enquanto eu fazia a barba e ele estava fumando deitado, escutamos um farfalhar vindo por baixo da porta e logo um envelope passou por baixo dela. Eu o apanhei e vi que estava escrito o nome de Paardauh em letra de forma.
- É para voce.
Ele pegou o envelope, o abriu e extraiu uma nota de cem dólares de dentro.
- Foi chato eu me passar por bobo ontem a noite...
- Eram as esmeraldas verdadeiras?
- Isso não vem ao caso, agora. Mas ele não deveria deixar sua bela esposa sozinha, por quase um ano, numa cidade como Londres.

A partir de então, Paardauh já me desagradava menos.


                                            Esta narrativa é baseada numa
                                            jóia escrita por Somerseth Maugham.
                                                                                                                               

Raferty
Enviado por Raferty em 03/09/2007
Reeditado em 21/12/2007
Código do texto: T637400
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Sobre o autor
Raferty
Santos - São Paulo - Brasil, 58 anos
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