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Fernanda

Fernanda era uma garotinha diferente das outras.
Não era simplesmente uma questão de gênero, tampouco, uma questão de idade. Bem que algumas  pessoas da família amenizavam  dizendo “quando crescer isso muda”, outras ainda arriscavam sem muito compromisso “é coisa de criança dessa idade”. De fato, ninguém a conhecia... Havia, no lugar, quem afirmasse que ela não cresceria nunca e que já tivesse 35 anos, embora os pais juravam de “pé junto” que a menina ainda não havia completado 5.
Passava o tempo a se distrair com novidades, que aos olhos dos desavisados só poderia ser “coisa ruim”. Os pais não se preocupavam tanto com ela, pois afinal, a vila era pacata e sem riscos. Ela não se misturava com os outros, e quando puxava companhia com alguém, podia se saber que este, era parte de uma de suas descobertas. Ela começava, geralmente pelos cabelos das meninas: quando não cortava com uma tesoura enferrujada, botava fogo com um isqueiro verde que tinha achado no cemitério. Passou três meses a chamar  crianças para destras da casa e morder-lhes o nariz a ponto de tirar sangue. Só parou porque um menino do lugar deu de fazer o mesmo com as orelhas dos coelhos. E Fernanda adorava coelhos...
As mães da vila passaram a cuidar melhor de suas crianças, temendo as atitudes da pequena Fernanda. Era comum ver pela vila meninos de coleiras, atados por uma corrente a cintura de seus pais, nas calçadas dos botecos. Ou então, meninas em gaiolas de rodinhas, puxadas pelas suas pajens ou pelas irmãs mais velhas. As madames carregavam seus animais domésticos dentro das suas bolsas ou embaixo de suas blusas, não tanto para protege-los, mas para que não urinassem ao perceber que  passavam na frente da casa da menina.
Houve um tempo que o delegado da cidade queria prender a garota, mas não havia lei que o amparasse, por se tratar de uma menor. Era que Fernanda tinha entrado na prefeitura e misturado à água do bebedor público um pouquinho de veneno de rato e algumas gotas de purgante para cavalos. A primeira a ficar com sede foi a esposa do prefeito que trabalhava como assistente social do município. Da pracinha Fernanda viu a mulher se debater inteira, a espalhar pelo chão uma espuma rosada. E como se não fosse pouco, trouxeram mais água para aliviar o sofrimento daquela senhora, que desfaleceu completamente ao segundo gole. Naquela tarde foram 23 pessoas a tomar água e correr para o banheiro, até que uma enfermeira intuiu o incidente ao ver um gato morrer no instante em que lambia a baba densa deixada no piso da frente, pelo presidente da câmara.  “Foi a menina” gritou um moleque com um baita curativo no nariz, Fernanda nem pode fugir, pois ria copiosamente. Por uma semana, contra a vontade dos pais e sem nenhum amparo legal, amarraram a menina ao cruzeiro que ficava no jardim, bem em frente da Igreja Matriz. Por 7 noites e 6 dias, Fernanda foi vigiada por soldados armados, do exército, que se revezavam em turnos, houve entre os soldados alguns que choravam durante a noite por medo que ela escapasse. Só libertaram a menina por interferência do padre, que já não conseguia celebrar seus cultos e ver os frágeis braços da garota sangrar pelo resvalar da áspera corda de aço que os prendia.
 Por um decreto municipal, a família ficou sem sair de casa por um ano e dois dias. Quando Fernanda ganhou novamente as ruas, foi a vez da cidade que se guardou num “toque de recolher” que durou um semestre inteiro: nem os pássaros ousavam voar neste período, até mesmo os galos deixavam de anunciar a aurora temendo que Fernanda os encontrasse. Até que aos poucos as coisas foram se normalizando... embora a menina pouco ligasse para o que acontecia ou para o que deixasse de acontecer. Naqueles tempos, Fernanda dorava prender, ao corpo das borboletas, finíssimas linhas, de modo que as pequenas criaturas aladas ainda pudessem voar num esforço inútil de liberdade. Havia dias em que Fernanda passeava pelas ruas com verdadeiros ramalhetes de borboletas, presos por um punhado de linhas quase transparentes. Num desses passeios, ela simplesmente não voltou para casa. Alarmada, a cidade  procurou Fernanda por três meses. Mas nenhum sinal dela... a não ser o isqueiro verde, que foi encontrado junto a um pé de jatobá.
Ainda hoje se pode ouvir falar de Fernanda nas rodas de conversa, diz-se que a família morreu procurando a menina. Acontece, que a vila, nunca mais foi a mesma depois de Fernanda. Nada mais aconteceu naquele lugar, nada mais....
Mauro José Ramos
Enviado por Mauro José Ramos em 06/09/2007
Código do texto: T641120
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Sobre o autor
Mauro José Ramos
Caraguatatuba - São Paulo - Brasil, 42 anos
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Mauro José Ramos