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Rirone - Ato 2

Soldado de Fe-ho Parte 2


- Ícaro, o café está servido. Berrava uma voz estridente vinda da cozinha.

Mas o quarto de Ícaro já estava vazio algumas horas antes do sol nascer, lá estava ele sem conseguir dormir, na porta de casa. O jovem jardineiro estava prestes a realizar dois dos seus maiores desejos: entrar para o exército e se encontrar com Lili.

- Acordou mais cedo moleque? – Rosnava o pai de Ícaro enquanto saía de casa rumo às minas de tripodium aonde trabalhava.

- Estou esperando a Lili pai. Ela vai para a cerimônia de iniciação militar comigo! – Respondeu o garoto com um sorriso de orgulho.

- Há, sei. Aquela vizinha que nem sabe que você existe? Não seja inocente de cair nessa brincadeira de mau gosto seu panaca.

- Obrigado pelo apoio pai. Bom trabalho.

Cambaleando por causa da bebedeira na noite anterior, o pai de Ícaro seguiu seu rumo. No mesmo instante, Lili se aproximava carregando uma adaga na cintura, uma mochila de tecido barato nas costas e trajando um conjunto masculino o bastante para chamar a atenção. Com o olhar de um garoto de quatro anos de idade, Ícaro não conseguia usar a razão para entender o quanto uma roupa pode mudar seus sentimentos em relação a uma pessoa.

Lili caminhava em sua direção com a firmeza de um veterano e com voz imponente disse:

- Soldado! A diante!

-Sim senhor! – Com continência, Ícaro respondeu por reflexo a ordem, mas logo percebeu que estava fazendo papel de idiota. Esperto como ele só, lançou uma risada como a de quem quer fugir de uma situação constrangedora e completou:

-Lili, você tem certeza que quer passar o resto da sua vida vestida assim?

-Claro que quero! Quem sabe assim você não desiste de me espionar durante a noite?

Engolindo seco, Ícaro seguiu ruma as escadarias que conduziam ao palácio de Fe-ho. Ele olhava para traz a cada dois segundos, para ter certeza de que Lili estava realmente indo junto a ele.

A estrutura de Fe-ho era muito inconveniente aos olhos estrangeiros: uma espécie de cratera gigantesca na beira das Montanhas Monstruosas marcava o limite da cidade. Nas suas bordas rumo ao centro, um aglomerado de pequenas casas padronizadas aonde vivia a maior parte da população operária. Essas casas eram interligadas por uma rede complexa de ruas e vielas feitas de pedra e aço. Entre sessões de doze em doze casas, uma escada descia diretamente ao fundo da cratera, aonde se encontrava o comércio e as indústrias. Nessa região plana, os cidadãos tinham acesso aos recursos que precisavam para sobreviver e somente desse ponto, se conseguia acesso ao palácio do governo.

Uma semana em Fe-ho era o suficiente para um estrangeiro querer partir para nunca mais voltar. O ar era pesado e sujo devido ao trabalho sem parar das máquinas de produção de cereais. As escadarias que interligavam os setores da cidade eram difíceis de agüentar e as muralhas gigantescas que cercavam a cidade impediam a agradável entrada do sol.

Mas como de costume, isso não era problema para o governo de Fe-ho. As muralhas impediam ataques militares vindos por terra, quando que maquinas capazes de sobrevoar muralhas era exclusividade militar do reino. A não entrada do sol impedia o aquecimento do solo, o que acabaria fazendo com que a terra se tornasse imprópria para a extração de tripodium e também impedia que os moradores necessitassem mais ainda da pouca água. Das Montanhas Monstruosas, as escadarias traziam a água através de um sistema simples de encanamento que a conduzia desde as represas até o palácio, passando por todas as casas e distribuindo uma cota razoável entre elas.

-Chegamos Lili! – Um tanto ofegante, Ícaro olhava enquanto a garota descia os últimos degraus para o centro da cidade. Diante dos portões do palácio, eles olhavam a quantidade de iniciantes já reunidos para a cerimônia.

-Ícaro, eu estou achando estranho o número de iniciantes esse ano.

-Também estou impressionado. Não imaginava mais de vinte iniciantes.

Havia cerca de cento e cinqüenta garotos e garotas diante do palácio aguardando a abertura dos portões. Nunca se havia iniciado tantos jovens de uma vez só desde a ultima grande guerra de Rirone.
Rodrigo McTusk
Enviado por Rodrigo McTusk em 07/09/2007
Reeditado em 07/09/2007
Código do texto: T642045

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Sobre o autor
Rodrigo McTusk
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil, 31 anos
8 textos (109 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 21/08/17 06:04)
Rodrigo McTusk