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Histórias, Sonhos e Arrependimentos

Distante apenas algumas horas de caminhada da cidade, o Bosque das Histórias sempre foi um lugar calmo, ainda que muito sombrio a noite. Seu nome não era nenhuma alusão a grandes lendas que passaram por ali ou qualquer outra coisa fantástica. Era apenas um bosque comum, onde os jovens da cidade iam para ouvir as histórias de um velho eremita que ali vivia, e era isto que acontecia esta noite.

Dentre as árvores vinha Kratos, com uma grande quantidade de lenha que apenas seus braços fortes, herança de seu pai Kraken, o capitão da milícia, poderiam carregar. Sigman, o filho de Dart, dono da taverna, praguejava tentando acender uma fogueira com a lenha que já estava empilhada, foi quando Hela, filha de Jandira, a costureira, pousou uma das mãos sobre ele, afastando-o, e usou a outra mão para conjurar fogo contra a pilha de madeira, acendendo a fogueira.

- Acho que nunca vou me acostumar com isso. - Disse Sigman, surpreso.

- Com isso o quê? - Perguntou Hela, mostrando um sorriso que fez Sigman tremer.

- Bom, antes a minha única utilidade aqui era engabelar nossos pais com alguma conversa e depois acender a fogueira. Agora sinto que fiquei só, sei lá, meio-útil.- respondeu, devolvendo o sorriso.

- Ei, pelo menos você tinha alguma utilidade pra perder, antes eu era só um rostinho bonito aqui. - disse Hela, ajudando o filho do taverneiro a levantar.

- Ah, mas rostinhos bonitos são muuuuito importantes nessas coisas, não sabia não? Eu queria ter metade desse rostinho bonito pra mim – disse Sigman, fazendo Hela corar.

- Talvez, quem sabe, você pode ter ele todo – disse a bela jovem, ajeitando o cabelo comprido e vermelho com uma das mãos enquanto corava ainda mais. Sigman ficou sem reação um instante, e então sorriu. Antes que pudesse dizer alguma coisa, porém, Kratos os chamou.

- Ei, vocês dois, acho que é Kitiara vindo com o velho, olhem lá. - comentou, apontando para uma luz vindo na escuridão.

E realmente era. Vinham ela, uma bela morena, e o velho eremita, com seus farrapos e longas barbas e cabelos brancos. Kitiara era órfã, havia sido encontrada na floresta, distante alguns quilômetros do bosque, quando ainda era um bebê. Artos, o caçador que a encontrou chorando na floresta, a adotou e cuidou dela durante alguns anos, até ser morto por uma amazona vinda do continente sul, ela havia descoberto que Artos molestava a pequena Kitiara. Mesmo assim, a amazona foi presa e condenada a morte na cidade, e Kitiara foi deixada aos cuidados das clérigas no templo de Lena. As clérigas, contudo, não conseguiram domar o espírito livre da menina, que sempre fugia de volta para a floresta. Aparecia na cidade raras vezes, geralmente apenas quando não conseguia caçar nada e estava enjoada de raízes, mas passou a aparecer mais depois que fez amizade com os outros três.

Do velho, por outro lado, ninguém sabia muito. Apenas que já estava ali na época da fundação da cidade, há pouco mais de trinta anos, e que contava boas histórias desde que dessem alguma comida em troca. De resto, apenas a imundície e os dentes caídos eram dignos de nota.

Chegaram a clareira alguns minutos depois, encontrando Kratos, Hela e Sigman já em seus lugares, nos troncos que circunvizinhavam a fogueira. Kitiara também pegou um lugar nos troncos, ao lado de Kratos. O velho foi para o outro lado da fogueira e, de frente para os quatro adolescentes, abriu um sorriso de dentes podres ou ausentes.

- E então, sobre o quê querem ouvir hoje? - perguntou

- Kratos, hoje é a sua vez de escolher, certo? - questionou Sigman.

- É sim. Velho, me conte uma história de guerreiros, a melhor que tiver! - exclamou o jovem alto e musculoso.

- E o que me trouxeram dessa vez, meus jovens? - perguntou o velho.

De imediato, os jovens puxaram suas mochilas. Kitiara tirou algumas aves silvestres, Hela, pães caseiros e Sigman, uma garrafa de vinho. Todos eles jogaram os mantimentos sobre um pano estendido. Kratos, por outro lado, levantou e foi até uma grande sacola, trazendo-a para junto dos outros mantimentos. Quando a abriu, revelou um carneiro morto recentemente, deixando todos surpresos, até mesmo o velho.

- Então era isso que você estava trazendo na sacola? Eita diacho! - disse Sigman.

- Como eu disse, velho, a melhor história que tiver – disse, sorrindo, o filho do capitão.

- Não vai se complicar por isso? - perguntou Kitiara, acostumada a pensar nos problemas.

- Se deixam seus animais soltos por aí, não é minha culpa que sejam devorados pelos lobos. – desdenhou Kratos – Velho, e quanto a minha história?

- Sim, a melhor história de guerreiros... Você a fez por merecer, garoto, então seria bom se sentasse e começasse a ouvir. - disse o velho. Kratos aceitou a sugestão.

O velho eremita foi até um dos troncos e sentou-se, puxou uma pequena algibeira e de lá tirou um pó que os outros quatro não conseguiram identificar, quando o jogou sobre a fogueira, o fogo aumentou grandemente em um estalo, e o velho começou sua história.

Werra, lar de Keenn, o Deus da Guerra. Não há medo naquelas terras, não há paz ali. Há carnificina, há massacre, há fortes, há guerra. Milhões morrem todos os dias em batalhas de proporções épicas, rios de sangue escorrem das planícies de batalha. Mas nenhuma batalha iguala em grandeza, fascínio ou em qualquer outro quesito o grande Torneio do Deus Guerreiro.

De tempos em tempos, as vezes séculos, as vezes anos, os maiores guerreiros do multiverso reúnem-se no reino da guerra, sempre, como verdadeiros guerreiros, por conta própria, tomados pelo desejo maior de tornarem-se deuses. Um Deus da Guerra.

Claro que “torneio” é apenas uma palavra afeminada usada pelos clérigos de Tanna-Toh, na verdade, tudo não passa de uma grande batalha campal em frente aos portões da Fortaleza da Fúria, a morada de Keenn, iniciada quando o Deus surge no topo das gigantescas muralhas. Todos contra todos. Até a morte. O último a ficar de pé terá a honra de enfrentar o próprio Keenn pelo título de divindade da guerra.

A guerra nunca termina em Werra, nunca há tréguas. Mas, durante essa batalha, todos os combatentes do reino congelam, não de medo, mas de fascínio pelo combate que pode ser sentido em todos os cantos do plano, senão com os olhos e ouvidos, pelo menos pelos pés, que não se manterão firmes ante os tremores que o conflito de forças tão poderosas pode gerar.

Dito isto, o velho levantou e foi até a comida, antes que pudesse colocar suas mãos nela, porém, foi questionado por Kitiara.

- Mas é só isso? Você só falou por uns dez minutos!

- É isso mesmo, olhe só tudo o que nós trouxe-mos! - completou Sigman.

O velho olhou para os adolescentes, contrariado. Estava para dizer alguma coisa quando Kratos levantou e falou alto.

- Não! É o suficiente. Só faltou uma coisa que eu quero saber, velho. – disse, com o olhar firme no eremita – Quando é o próximo?

- Mas... - Começou Kitira, mas foi interrompida por Sigman.

- Deixe, hoje é o dia dele, e foi dele a maior parte da comida também, é direito dele. - disse o filho do taverneiro.

Enquanto isso, o eremita alisava sua barba em movimentos vagarosos e repetitivos.

- Três anos. - Disse finalmente. Então puxou o pano em volta da comida, formando uma grande sacola e, com uma força incomum para alguém tão velho, saiu dali tranquilamente, carregando tudo nas costas.

- Por quê fez isso, Kratos? - Perguntou Hela.

- Por que o que ele disse era tudo o que eu precisava saber. - respondeu ele, com um sorriso – Sig – chamou – Você não quer ir comigo para Valkaria, como sempre dissemos que íamos?

- Mas, meu pai... - disse o filho do taverneiro, surpreso com a pergunta repentina.

- Ele consegue se virar sozinho na taverna, e talvez seja a sua chance de se vingar daquele inútil do seu irmão que só fica vadiando, não é mesmo? - Argumentou Kratos. Sigman sorriu e fechou os olhos.

- Sig...? - Disse Hela, apreensiva.

- Hela – começou Sigman – Eu vou.

- Mas... - disse, hesitante, a bela filha da costureira.

- Por que não vem com a gente, sua mãe não disse que o seu pai era de Valkaria? Pois vamos todos! – disse Kratos, com entusiasmo – Você também Kitiara, não quer vir com a gente? - A morena selvagem aquiesceu. Hela, por outro lado, decidiu rápido.

- Eu também vou. - disse.

Todos olharam para Kitiara, que por fim deu um longo suspiro e falou, em tom jocoso:

- É, acho que vou ter que ir, senão quem é que vai cuidar de vocês?

Naquela noite ainda, todas partiram. Sigman levou consigo a velha espada curta de seu pai, além da besta que comprara de curiosidade na feira e aprendera a usar, já Kratos envergava a armadura e a espada de seu avó, um valente colono que fundou a cidade pouco antes de morrer. Hela e Kitiara não levavam muita coisa, apenas o que sempre carregavam e o necessário para a viagem. Kratos levava também um sonho. O Deus da Guerra que o aguardasse, ele chegaria lá.

Longe dali, o velho eremita alisava um velho disco de metal, melancólico. De sua caverna, no alto do morro, ele podia ver os jovens saindo em sua viagem. - Espero que consiga, garoto. Eu realmente espero que consiga. - disse, morrendo de velhice em seguida e deixando cair o disco no chão. Nele, se viam um machado, uma espada e um martelo de batalha.
Nume
Enviado por Nume em 17/09/2007
Código do texto: T656327
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Sobre o autor
Nume
Morro da Fumaça - Santa Catarina - Brasil, 29 anos
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