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Seda Branca

Exausto, larguei armas e chapéu e meti a cara no rio. Caminhava há dias, após haver sido destacado para as fronteiras do Norte. O Imperador Qinzong temia os revoltosos que se proliferavam na região e conclamara guerreiros de todos os rincões do mundo.
Ouvi som de flauta e me pus em alerta, espalhava-se o rumor de que bandos de ladrões e assassinos se escondiam na floresta, mas avistei um senhor, cabelos agrisalhados, descendo em direção ao rio.
Saudei-o e recebi a resposta de que vinha em paz. O viajante se sentou ao meu lado e acendeu uma fogueira. Anoitecia e compartilhamos um jantar improvisado.
Decorridas horas de silêncio, o senhor falou:
Estou cansado, vivi muitas dificuldades nestes últimos meses e não encontro pouso em lugar algum. Já ouviu algo a respeito do “Homem de Branco”?
Neguei.
O nome de nascimento dele era Bai Hong-nu, filho duma família humilde, educado para ser soldado, assim como vejo que você é. Lutou em muitas guerras e caiu nas graças do Imperador. Foi promovido a general, senhor de muitos guerreiros, e venceu todas as batalhas na quais pelejou. Porém, numa noite, quando o Imperador adentrou o alojamento da concubina favorita, encontrou Hong-nu adormecido nos braços dela.
Enfurecido, o Imperador conclamou a guarda, com ordens para executar Hong-nu, porém, este, com experiência de anos a serviço do Imperador, conhecia bem o castelo e suas incontáveis passagens secretas; neste labirinto, Hong-nu se embrenhou e escapou da sanha inclemente do Imperador. Fugiu para o Norte e apagou seu passado. Vestia-se apenas de branco, na ausência dum nome, nos povoados onde passava, alcunharam-no Wán, o homem da seda branca.
Wán olvidou seu passado de guerra e, de vila em vila, evitando as grandes cidades, pregava uma inusitada mensagem de paz e perdão. Arrebanhou discípulos, que ouviam fervorosamente seus ensinamentos. E eram tantos, que fundaram um povoado.
Pessoas vinham de todas as partes para escutarem as lições de Wán e sua reputação alcançou o grande Céu. Guerreiros baixavam armas e se uniam aos acólitos de Wán, esposas abandonavam seus lares para acompanharem o sábio.
Porém, sutil e imperceptivelmente, o conteúdo da doutrina de Wán começou a mudar. Da paz, abnegação e perdão incondicionais, Wán instruía que para tudo neste mundo há exceção, de que não há claridade sem sombras, e que o mal e a guerra eram contrapartes do bem e da paz. Aos seus discípulos, propagava que o tempo de paz estava por terminar e que, em breve, quem o amava teria de brandir armas contra um poderoso oponente.
Assim, no início da primavera, Wán e um exército de cem mil combatentes se dirigiram ao Sul, com a missão de matar e destronar o Imperador Qinzong. Wán era um dissimulado, durante todo este período, ele apenas buscava uma oportunidade para se vingar do Imperador que o degradou e lhe retirou a mulher amada, à qual, diziam, Qinzong havia mandado decapitar.
Inevitavelmente, o Imperador designou tropas para deter o exército de Wán. Durante três meses, Wán desbaratou o contingente imperial, porém, a escassez de suprimentos, o cansaço e as chuvas incessantes do verão foram responsáveis pelos primeiros revezes. Recuaram para as montanhas.
Vendo a grande oportunidade para derrotar o oponente, o Imperador enviou um grande exército, que cercou Wán e seus guerreiros. Emboscados nas montanhas, o fim era evidente.
O exército de Wán tinha duas escolhas, lutar até a morte e os que fossem capturados sofreriam torturas e ultrajes inimagináveis, ou desistirem e privarem-se de suas próprias vidas.
Wán deliberou com seus capitães e concluíram que, por ser a morte inadiável, todos se matariam ao nascer do sol.
Quando os tambores do Imperador soaram e as tropas iniciaram a marcha rumo ao bastião de Wán, trinta mil sobreviventes, punhais mirados para o coração, sangraram até a morte.
As tropas imperiais não encontraram sobrevivente algum.
E você estava entre os soldados do imperador, para saber tudo isto? perguntei.
O senhor acendeu um cigarro e, com um sorriso iluminado pela claridade da fogueira, respondeu.
Não. Estive com o punhal afiado no peito, mas, no último instante, refleti: Somos muitos, não conseguiremos escapar, mas um só homem facilmente se envereda nas montanhas e some.
Sou Bai Hong-nu, conhecido como Wán, o homem da seda branca. O punhal não entrou no meu coração. Vivo e congrego um novo exército. E você será meu primeiro guerreiro.
Com que forças eu poderia resistir àquele homem, que trazia no olhar a energia do Céu, da Terra, do Fogo e dos Ventos?
A minha espada é sua, Wán. Respondi. Até a morte.
Henry Alfred Bugalho
Enviado por Henry Alfred Bugalho em 20/09/2007
Código do texto: T661312
Classificação de conteúdo: seguro

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Sobre o autor
Henry Alfred Bugalho
Estados Unidos, 36 anos
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