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Havia Um Lugar, Terceira Parte

     Havia a programação de participarem de um coquetel num clube local que iria acontecer após uma conferência que teria como tema “Pseudos Parâmetros de Quantidade de Absorção”. Núpcia ficou sem entender o que queriam dizer com aquele tema. Mas percebeu a maneira extremamente delicada como foram recebidos pelas recepcionistas. Aliás, no caminho até ao clube, os dois não puderam deixar de notar a amabilidade com que as pessoas se tratavam. Mesmo Constantino, que dirigia o carro, ficava sem saber porque todos se abraçavam quase que à toda hora. Frequentemente mesmo se beijavam. Ainda que fosse apenas no rosto, parece que o prazer que sentiam era outro. Como era possível aquilo? Não havia o que comemorar. Não estamos no Natal. Não tínhamos ganhado a Copa do Mundo. E, no entanto, as pessoas viviam se abraçando e se beijando. E, na menor circunstância que fosse, demonstrando uma satisfação plena em querer ajudar, em querer ser gentil. Seria aquela a terra do poeta Gentileza? Que dizia que gentileza gera gentileza?
     Constantino observou que as ruas não tinham semáforos. E muito menos guardas de trânsito. Ou guardas ou soldados de quaisquer tipo. Nem mesmo as senhoras do Exército da Salvação. Aliás, aquelas pessoas não precisariam de religião. Todo mundo parecia feliz o tempo todo!
     Não era possível que estivessem numa cidade serrana do país em que nasceram. A única placa de que Constantino tinha lembrança era a da rodovia, pouco depois de ter visto o caminhão com a frase, que não conseguiu ler toda, no pára-choque traseiro. A placa dizia “curva perigosa”.
     Depois disso, nem placas, nem sinais, nem avisos. Nem mesmo nas lojas viam-se muitos letreiros, embora àquela hora da noite estivessem todas muito bem iluminadas. A própria luz artificial nada ficava a dever à luz do dia, embora fosse possível saber que era noite porque estava escuro. E essa luz parecia também contribuir com a quantidade de alegria que todos sentiam. Uma alegria sempre contagiante, e que por isso mesmo não cansava as pessoas.
     - Cadê as caixas registradoras?
     - O que?
     - Nas lojas! Você tá vendo alguém pagar alguma coisa?, perguntou Constantino entre os dentes, tentando evitar que Benjamim e Xaviera percebessem o que ele a mulher falavam no banco da frente do carro.
     - Não tô entendendo nada do que tô vendo, arrematou Núpcia, preocupada em não ser deselegante ao conversar baixinho com o marido para que o casal não ouvisse.

     Quando retornaram à casa, a mesa já estava preparada para o jantar. Os inebriantes vapores provenientes de uma travessa escura de barro denunciavam a suculenta sopa de cor amarela que era mantida ali dentro. Uma garrafa de vinho tinto, cuja marca não se podia identificar pela pouca nitidez da etiqueta, já estava aberta. Uma rapaz alto e louro passeava com um bebê de uns nove meses no colo pela sala. O bebê também lourinho e de olhos azuis.  Eram Oséas, o pai, e Horós, seu filho com Sofia.
     - Constantino, esse é Oséas, o marido de Sofia. E essa gracinha loura no colo dele é Horós, o filhinho.
     Constantino percebeu o carinho com que Oséas lhe foi apresentado. Imaginou que Benjamim deveria falar da mesma maneira se fosse com o seu filho.
     - Olá, Oséas. Que bela criança.
     - Bela apenas, não, interveio Núpcia. É uma gracinha divina, como disse Benjamim.
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 24/09/2007
Código do texto: T665773

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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