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Havia Um Lugar, Quinta Parte

     Constantino teve que disfarçar a avidez ao saborear mais uma salada fresquinha preparada por Sofia. O prato do almoço de domingo era um tipo de bolo salgado que mais parecia uma batata rostie. Constantino e Núpcia acharam-no delicioso. Já tinham percebido que seus anfitriões não comiam qualquer tipo de carne. Benjamim havia dito que não comiam nunca seres que tivessem vida. Mas pra quê comer carne se a comida que eles fazem é extremamente saudável, nutritiva e deliciosa? Enquanto Constantino pensava nisso, começou a admitir a possibilidade de ficar triste pelo fato de ter que voltar para casa.

     Malas no carro. Hora da despedida. Como era natural, todos estavam no terreiro. Banzé andando de um lado para o outro com um pedaço de um tronco qualquer na boca. Clara esparramada no chão,  como quase sempre se encontrava, coçando-se com as costas e deliciando-se com o nada ter que fazer. Feia a um lado, com se estivesse fazendo conta de se mostrar atenta ao que quer que fosse. Oséas mantendo Horós no colo com certa dificuldade, já que o menino parecia muito interessado em juntar-se à Clara no chão do terreiro.
     Antes de despedir-se com um abraço em Benjamim, Constantino viu, ao contrário do que previra, que não estava triste por ter que ir embora. Continuava experimentando a mesma alegria que tinha sido a característica maior daquele fim-de-semana. Porque era sentida em toda a parte da cidade. Parecia mesmo que ele já fazia parte do local, da família. Sabia que tinha que ir embora, que não haveria sempre um quarto para eles ali, que tinha compromissos de trabalho onde morava, que Sofia tinha seus afazeres domésticos e o escritório da empresa de eventos em que trabalhava. Mas tudo isso perdia o sentido diante do ar que respirava, diante das pessoas com quem estava, dos animais que lhes cercavam, daquela paisagem exuberante, daquela topografia inigualável e da alegria reinante em qualquer parte do sítio e até nas ruas da cidade lá embaixo.
     - Bem, amanhã nos vemos, certo?, disse Sofia depois do abraço forte em Xaviera, esquecendo provavelmente de que estaria a quilômetros de distância no dia seguinte.
     - Façam boa viagem. Estaremos sempre aqui à espera de vocês, respondeu Xaviera, certamente não dando importância ao fato de Sofia ter-se confundido.

     - Puxa, foi tudo muito legal, Constante, disse Núpcia quando o carro iniciou a descida pela estradinha de terra. A impressão que dá é a de que nossas malas ficaram lá. Como se nós morássemos aí.
     - E o pior é que em nenhum momento me senti como um hóspede. E acho que você também não. Parecia que eu conhecia todos os cômodos da casa, assim como as três outras do sítio.
     De novo Constantino dirigia olhando para frente, e parecia que seu olhar encontrava-se com o de Núpcia, que o fitava, ela sabia, como jamais o tinha feito.
     À proporção que desciam, o verde brilhante da vegetação assumia uma coloração acinzentada. Os telhados das casas que apareciam ficavam mais claros. O dia vinha escurecendo. Tinham saído, Constantino imaginou, por volta de cinco e meia, sem qualquer preocupação com o tempo que levariam para chegar em casa. Normalmente, após consultarem seus relógios, estimavam o tempo a ser despendido com a viagem em função da distância, para saber a que horas aproximadamente chegariam em casa. Sobretudo quando o retorno se dava num final de tarde. Mas dessa vez consideraram tola essa preocupação.
     Ao deixarem o trecho em terra e passarem pela pracinha onde se iniciava o trecho em paralelepípedos, depararam-se de novo com a gruta incrustada no muro de pedras. Fora a principal referência apontada por Benjamim no croquis. Constantino lembrou-se de que tinha recebido o croquis por e-mail. No entanto, em nenhum momento, durante a estadia no sítio, recordara-se de ter procurado por um computador. Aliás, não havia nada no local que pudesse estar incluído na parafernália tecnológica que tanto assombra e encanta as pessoas.
     Na gruta do muro de pedras tornava-se agora inteiramente invisível a imagem que sabiam que havia ali dentro. A partir daquele trecho da estradinha o dia tornara-se completamente escuro. Constantino acendeu o farol alto.
Aluizio Rezende
Enviado por Aluizio Rezende em 26/09/2007
Código do texto: T668747

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Sobre o autor
Aluizio Rezende
Rio de Janeiro - Rio de Janeiro - Brasil
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