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A bala

 

 

 

- quero bala!

- não tem

- quero...

- cala a boca menino chato

O pai saiu da sala foi para a cozinha e mergulhou nos goles de sua amiga pinga

O Juca calou a boca e disse que nunca mais abriria a seu pai.

Saiu, foi para o final da rua onde tinha um pequeno córrego, lá chorou e ficou

A partir do então começou todos os dias a fazer esse trajeto.

Ajudava nos afazeres de casa, saia descia a rua e ia para o córrego, muitas vezes observava um menino na porta de uma casa, passava por ela e lá do córrego ficava a observar.

O nome do menino era Júnior, lá ele costumava receber balas do seu pai, pois o mesmo quando chegava do trabalho entrava em nossa rua o chamando pelo nome aos gritos.

- Júnior, Júnior, cheguei

Então criou se um novo habito eu sempre ia para o córrego e de lá ficava esperando a hora da bala ser dada, horas e horas se passavam até o momento que a porta da casa abria, Júnior saia sentava em um banco e lá esperava seu pai chegar, geralmente passavam uns vinte minutos e lá no inicio da rua aparecia o pai de Júnior, passava por sua casa e toda vez que fazia isso o pai de |Juca saia ao portão , havia apenas o cumprimento do pai de Junior o de juca ignorava totalmente, seguia em frente passava por Juca dando um oi e chegava a seu filho Júnior, cruzava os braços em sua direção com as mão fechadas e dizia

- escolha uma das mãos

Júnior pulava de alegria, rodopiava pelo pai , virava cambalhotas , parava e escolhia uma mão, se lá estivesse, a bala era dada caso contrario uma nova chance lhe era dada e é claro nesta não havia embaralho das mãos apenas se escolhia a outra mão e a bala tão esperada era encontrada.

Todos os dias do final da rua observara e se tornara um ritual e Juca sempre questionava Deus, porque com ele não acontecia o mesmo.

Em relação ao seu pai , nunca mais pediu bala e muito menos a atenção, apenas ia ao final da rua todos os dias esperar a entrega da bala, um ritual todos os dias a mesma coisa ,o Júnior saia sentava o pai chegava, brincava, a mão era escolhida tinha dia que acertava, tinha dia que errava e o menino lá de longe tudo isso saboreava, fixava bem os olhos para ver que cor era a bala e assim deduzia a ponto de até sentir o sabor.

Os anos foram passando e algumas coisas foram mudando, seu pai bebendo mais e mais, mudou as bebidas, Juca saia ia para o córrego e de lá via o pai de Júnior chegando , as balas ficaram no passado e agora livros lhe eram dado mas sempre uma brincadeira antes da entrega do presente, Juca olhava ,via a cor e o tamanho do livro ainda sentia o sabor de balas e deduzia em sua mente uma historia contada e assim continuava a saborear a distancia e seu pai, seu pai o mesmo, sempre nas bebidas.

O tempo passava e Juca crescia, seu pai nem mais em sua cara olhava pois seus olhos diariamente se cruzavam na perda da direção a olhar isso de tão bêbado que ficava , e agora Juca já não mais um menino e sim um moleque e com os mesmos hábitos se dirigia para perto da casa de Júnior e lá via seu pai trazendo novas surpresas, neste dia viu seu pai entregar lhe uma bola de futebol e de onde estava , não sentiu um sabor de bala , nem lhe veio uma estória de livros, em sua mente veio gols criado em seus pensamentos e ficou feliz com mais este presente, sentia se como fosse entregue a ele, que prazer ele sentia apenas vendo tudo aquilo.

Júnior não saia para a rua, brincava em seu quintal assim era a educação que recebia e vivia bem, já o menino nunca brinca e se divertia em só ficar olhando Júnior brincar.

Um dia ao acordar percebeu seu pai mais bêbado do que nunca a ponto de bater em sua mãe, correu e se pois a frente dele e acabou apanhando no lugar da mãe, saiu em direção do córrego e percebeu um caminhão em frente a casa de Júnior, parou e ficou olhando ,moveis estava sendo colocado dentro do caminhão, percebeu ali ser o pior dia de sua vida, alem de apanhar do seu pai via Júnior entrando no caminhão e partindo com as únicas brincadeiras que existia em sua vida, viu o caminhão fechando a porta e sumindo na rua levando seu suposto amigo, virou saiu correndo e se jogou no córrego como se lá fosse encontrar uma porta que levasse a uma outra vinda onde pudesse escolher outro pai, um que tivesse o mesmo nome e que lhe chamaria de Júnior, o córrego era raso e essa porta que procurou não se abriu.

O menino voltou para casa deitou em sua cama e ali ficou pelo resto daquele dia.

Vieram novos dias e o menino fazia sempre o mesmo e lá do córrego ficava olhando a casa de Júnior e de lá ninguém mais saia.

Todos os dias fazia sempre a mesma coisa e sempre ao voltar para casa dava uma parada em frente onde morava Júnior e seguia seu caminho de volta até que num dia ao olhar percebeu que havia algo em cima do muro onde Júnior morava, se aproximou e viu que lá havia uma bala, chegou mais perto e pulou o portão, sabendo que não estava fazendo nada de errado pois lá não morava mais ninguém olhou a bala e sentiu ela estar ali para ele, veio uma felicidade nunca antes sentida, não sabia o que fazer mais e em momento algum pensou em coloca-la na boca queria olhar não queria perde-la, ver sumir derreter em sua boca.

Voltou para casa e a guardou em uma gaveta no guarda roupa, foi para a sala e lá estava seu pai, neste dia havia bebido pouco e estava meio deprimente, quieto, quando do nada um vento friu soprou em seu rosto olhou o seu pai, sentiu um amor sem sabor, sentou no sofá e ficou a lhe olhar e sentiu um algo diferente, como se fosse uma voz falando.

- A bala , a bala a bala

Ele escutava perfeitamente o som não vinha de fora e penetrava em seu ouvido , o som parecia nascer dentro de sua mente com o vento que vinha e não parava

- a bala a bala a bala

Ele escutava e ao mesmo tempo olhava para seu pai e sentiu se aquilo um aviso ou pedido, imediatamente correu para o quarto e pegou a bala voltou olhou para seu pai e disse.

Pai tenho uma bala e ela é tão gostosa, o senhor quer ela

O Pai levantou a cabeça olhou a bala, olhou o filho e nesses olhares viu uma luz ao fundo, não entendeu o que estava acontecendo, sorriu levantou foi na direção do filho e lhe deu um abraço, o abraço que sempre o menino esperou, foi rápido, foi demorado, foi o abraço que sempre foi esperado, junto com ele veio choro e pedidos de desculpas do pai.

O pai pegou a bala foi para a cozinha pegou uma faca e cortou ela no meio, voltou para a sala devolveu metade para o filho e juntos a chuparam, até que ela viesse a derreter por inteiro em suas bocas algo ia acontecendo como se coisas que não foram feito no passado estivassem acontecendo e ali recuperando sentimentos perdidos.

Daquele dia em diante muitas coisas de diferente foram acontecendo, o pai passou a ser o melhor amigo do filho, parou de beber, arrumou um emprego, voltou a amar a sua mulher e o mais delicioso sempre que voltava para casa trazia uma surpresa para o filho ,mas antes sempre uma brincadeira acontecia.

O menino começou a pensar como Deus era grande como ele gostaria que acontecesse contigo o mesmo que acontecia com o Júnior e aconteceu.

O tempo foi passando, o menino foi crescendo, arrumou um emprego, uma namorada, veio planos e a vontade de casar, marcaram a data do matrimonio e o principal ,comprar uma casa para morar.

A única que veio em sua mente foi aquela que fica no final da rua perto do córrego , sim aquela que Júnior morava

Foi na imobiliária, fechou o contrato e a comprou.

Num dia foi para a frente da casa e ficou esperando o antigo proprietário da casa lhe trazer a chave

Chegou se cumprimentaram, conversaram sobre problemas da casa e antes de finalizarem a conversa

Juca perguntou pelo ultimo morador, por onde ele andaria pois tinha muita vontade de rever aquele menino o Júnior

O ex. proprietário sorriu olhou para ele e disse

-o Júnior?

- depois que ele morreu a cinqüenta anos ninguém mais morou nesta casa

- como assim?

- isso mesmo, coitado daquele menino, amava tanto seu pai, pai que antes de ir e morrer na guerra sempre que voltava para casa trazia balas para ele para mim e todos os que moravam nesta rua .

 

 

Paulo de Tarso Itacarambi
Enviado por Paulo de Tarso Itacarambi em 06/10/2007
Reeditado em 06/10/2007
Código do texto: T682964

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Sobre o autor
Paulo de Tarso Itacarambi
Poá - São Paulo - Brasil, 57 anos
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