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Escravo nunca mais!

Escravo nunca mais

Era noite. Lá fora um silêncio cortado apenas pelo bater das asas de uma ou outra coruja e pelo seu pio agourento fazendo crescer ainda mais o medo e o desejo do Juca, um rapazinho nos seus quinze anos, de que o dia chegasse logo. Após pelejar toda a noite com o seu irmão para conquistar um pequeno espaço debaixo de um cobertor para se resguardar do frio e descansar depois de um dia do cão. Ele se assentou na beirada da cama. Olhou para os seus pés inchados de tanto frio e do trabalho duro no roçado e suas mãos calejadas do cabo da enxada. Levantou-se, foi até o banheiro já sentindo a dor na bexiga cheia pedindo para ser esvaziada. A porta encostada do miquitório e o pigarro do pai revelavam-lhe que já estava ocupado. Correu de um lado para o outro trocando as pernas e procurando um lugar adequado para fazer suas necessidades. Todas as portas fechadas à chave, costume antigo para que as crianças não fugissem durante a noite e para evitar qualquer invasão noturna indesejável. Tentou pular pela janela. Não deu tempo. Ali mesmo tudo aconteceu. Ficou sentindo descer pelas suas pernas aquele jato de água quente que se esgueirava pela parede e se espalhava pelo chão da casa. Um alívio o esvaziando por inteiro brotava-lhe de dentro, lhe causando um prazer, uma sensação de liberdade e gozo.

Tudo, porém, se passou com muita rapidez. Ouviu a voz raivosa do pai bem junto dele e um sopapo no pé do seu ouvido o acordou para a realidade, acordou-o do devaneio, do calor produzido pelas suas entranhas que se transformaram numa revolta crescente, uma raiva muito maior que o prazer do calor, que o dominava por inteiro.

Acordou de um modo definitivo e eterno. De dentro dele, no lugar do choro saiu um grito pesado, arrastado, guardado desde o seu nascimento que, como uma pedrada, explodiu numa voz abafada e rouca que saiu em forma de um juramento decisivo arrancado da dor deste segundo parto e da angústia acumulada pelo silêncio gerado na infância e que agora não se continha calada no seu peito:

- Escravo nunca mais!

Sua língua se soltou neste momento e ele mesmo se deu conta da sua história:

- Não sei bem o que aconteceu nos minutos seguintes. Lembro-me de vozes, choro de crianças, minha mãe na cozinha passando o café e limpando com o dorso das mãos as lágrimas que teimavam em lhe escorrer pelo rosto. Peguei um embornal, coloquei dentro alguns pertences, abracei muito apressadamente a minha mãe pelas costas sem dar-lhe tempo de virar e me olhar nos olhos. Recebi por detrás um pedaço de broa que ela passou para as minhas mãos furtivamente como que querendo me abençoar e proteger. Junto, um pacotinho enrolado num papel de jornal.

Abri a porta num relâmpago e saí num pulo, correndo o mais que pude, sem olhar para traz. Ganhar o mundo, buscar a liberdade e esquecer-me dessa vida de cão, gritar pelos meus direitos, criar asas, correr, correr muito...

Para sair do sítio era necessário passar pela porteira. Senti um medo terrível, uma angústia misturada com o desejo de voltar. Ao mesmo tempo cresceu uma certeza de que precisava consumar esta passagem com um gesto definitivo. Não deu outra. Senti um empurrão para cima e me vi do outro lado da porteira. Agora podia pegar o mundo, colocar os pés na estrada!

No caminho passei por perto da casa do Orlando, meu inseparável amigo com quem troquei muitos segredos de infância e de adolescência. Seus pais quantas vezes me tiraram das mãos pesadas do meu para que eu não morresse de tanto apanhar. Sua irmã, a Ritinha, chorou comigo horas e horas quando passei um dia escondido do meu pai na sua casa. Fizemos um juramento de fugirmos juntos. Sua mãe nos convenceu com a sua ternura que tudo passaria, muita água iria rolar por debaixo da ponte e nós não entendíamos ainda o significado de um compromisso para sempre.

 Meu coração bateu mais forte. Senti um grande desejo de ter a Ritinha nos meus braços, mas fui vencido por uma força maior que me empurrava para frente. Um dia, quem sabe, eu voltaria para buscá-la. Enfiei a mão no embornal e tirei de lá um pedaço de lápis, peguei um pedaço de caco de telha e escrevi nele:

“ Ritinha, eu vou mais volto. Me espera. Ta, meu amor! Juca.” Deixei o caco de telha na janela do seu quarto e saí.

Fui caminhando e pensando nos meus irmãos: A Maria, mais ou menos da minha idade. Pobre Maria, continuar lá debaixo de tanto sofrimento e com tantos sonhos e desejos não realizados! Estudar é o que mais ela sonhava fazer. Fazíamos projetos: Ela, professora e eu, médico. O que será dela?

Ao avistar as primeiras casas da vila, fui deixando de vez os meus receios e abandonando para traz o meu passado.

Dois roceiros, a cavalo, cruzaram bem à minha frente e se cumprimentaram:

- Bom-dia, compadre! Hoje é dia de Santo Antônio. Tô indo para a igreja. Aprendi que faz bem pra gente distribuir pão com os mais pobres no dia deste santo. Isso não deixa faltar comida na nossa mesa durante todo o ano. Aqui estou levando o saco de pão que a minha mulher assou.

- Eh, compadre, não sei disso não. Me conte direito esta história.

- Da história inteira eu não sei muito bem. Só o que guardei é que este santo é milagreiro, gostava de repartir do seu pão e que quem se faz seu amigo tem muito a ganhar.

 Não ouvi mais nada. Porém, algo ficou soando nos meus ouvidos. Parece que eu vinha acordando de uma longa travessia enquanto meus passos me levavam rumo ao outro lado da vila. Aquele nome não me era estranho: Antônio!... Antônio!... Enquanto eu estava assim, absorto nos meus pensamentos, eu me assentei no banco da pracinha. O mesmo sertanejo passou e me atirou um saquinho de pão gritando:

- Pão de Santo Antônio!

Minha cabeça foi clareando e me lembrei de uma única vez que a minha mãe me chamou por este nome:

- JOSÉ ANTÔNIO. Este é o seu nome, meu filho.

Ela me chamou assim, enquanto acariciava a minha cabeça recostada no seu colo. Meu nome. Este é o meu nome. Eu não sou Juca. Eu sou José Antônio.
 
Tomei posse, neste momento, de mim mesmo, do meu nome. Senti que crescia por dentro e por fora. Já não estava perdido! Ter um nome é tudo! Senti um desejo de gritar para todos o meu novo nome. Não ouvi mais nada. Saí correndo. Quando dei por mim estava lá na porta da igreja procurando o meu santo Antônio para conhecê-lo. A todo o momento passava alguém me oferecendo um pãozinho dizendo:

- Coma. É pão de Santo Antônio.

Embora não estivesse entendendo nada, me misturei no meio da multidão e a minha sacola ia enchendo de pão, o pão de Santo Antônio. Cheguei, enfim, bem no meio da igreja e vi de perto, um santo, de pé em cima de um caixote com duas ripas pregadas ao lado, todo enfeitado, cheio de fitas e flores. Ele olhava para mim. Não entendi o que ele queria me falar, porém percebi que parecia alegre por eu ter o mesmo nome dele.

As pessoas me empurravam. Todos queriam chegar mais perto do Santo. Quatro homens se aproximaram, pegaram nas pontas das ripas e começaram a caminhar carregando o santo rumo à saída da igreja. Fiquei olhando enquanto era pisoteado por todos os lados. Os sinos começaram a tocar, a cantoria entoou um hino e, de repente, já não havia mais ninguém dentro da igreja. Todos estavam cantando, soltando fogos e caminhando pelas ruas carregando o santo. A minha sacola já não cabia de tanto pão. Comecei também a distribuir para as crianças.

 Achava tudo muito bonito, um momento de encanto! Voltei. Caminhei um pouco pelo interior da igreja e me assentei na ponta de um banco vazio. De cabeça baixa e abraçado à sacola cheia de pães fui retomando silenciosamente todos os últimos acontecimentos. As lágrimas escorreram pelo meu rosto e, junto com elas fui deixando cair toda a minha dor, uma dor quente como aquele xixi escorrendo pelas minhas pernas. Apoderou-se de mim uma sensação de medo e  de angústia. Olhei depressa para cima. O meu pai não estava ali. Somente aquelas imagens de homens e mulheres, todos muito tranqüilos e serenos, limpinhos. Uns olhavam para cima, outros para baixo e, um deles, não tirava os olhos de cima de mim.

Saí rapidamente e peguei o rumo da estrada para deixar a vila o quanto antes. Ouvi alguém me chamando pelo meu antigo nome:

- Juca! Ô Juca! Você não é o Juca?

Tive vontade de lhe responder alguma coisa, mas fiquei somente olhando para o homem. Ele me convidou para entrar na sua casa e me chamou para eu me sentar à mesa. Colocou nas minhas mãos algum dinheiro e me pediu que o entregasse ao meu pai como pagamento de um saco de feijão. Mudo entrei, mudo saí daquela casa. Peguei o primeiro pau-de-arara que passava e me deixei levar para longe.
De novo a minha mãe me veio à memória. Lembrei-me do pacotinho colocado junto com um pedaço de broa na minha mão. Remexi dentro da sacola e encontrei-o lá no fundo. Enquanto o pau-de-arara ia me conduzindo para o meu novo destino e o vento ia batendo no meu corpo limpando-me dos últimos vestígios da vida passada, abri o pacotinho e, envolvido num papel de seda amarelecido pelo tempo, tomei nas mãos um par de sapatinhos de lã azul desbotado, que a minha mãe tricotara, à mão, quando me esperava.

À medida que eu me deixava envolver pelo calor daqueles sapatinhos nas minhas mãos, fui sentindo uma sensação de que o lado direito e esquerdo de mim mesmo se ajuntavam e eu era um só. Deixei os sapatinhos sobre o meu colo e comecei a apalpar todo o meu corpo. Já não me sentia retalhado por dentro e os meus ossos pareciam se mexerem e se acomodarem dentro de mim, cada um ocupando o seu próprio espaço. Entendi, então, que eu não era mais um mutilado. Percorreu um choque por todo o corpo e uma sensação de inteiro. Não foi possível conter o grito saído das profundezas de mim:

- Vou vencer! Vou vencer!

O ar que meu pulmão respirava neste momento era outro e, quando uma respiração terminava, conseguia perceber a outra se iniciando. Senti-me virado de cabeça para baixo como no útero da minha mãe, na hora do meu nascimento. A cambalhota era necessária e eu consegui dar esta cambalhota. Estava nascendo de novo! Retomei, neste dia, a sensação e o direito de ter sapatos, de não mais andar descalço como os escravos.

 Fiquei de pé na carroceria do caminhão, abri os braços e gritei forte, o mais alto que pude, deixando que o vento levasse para bem longe toda a minha alegria misturada ainda com um vestígio da raiva acumulada durante toda a minha vida.

- Não sou mais escravooooooooooo!

Este grito até então atravessado na minha garganta, foi a melhor terapia. Que alívio! O mundo é grande, muito grande e haverá algum espaço dentro dele onde poderei armar minha barraca e ser feliz! Esta foi a certeza que brotou no fundo do meu coração na qual agarrei com toda a minha força e fui em frente... Em algum lugar vou me encontrar com você, tenho certeza!




Zoraia
Enviado por Zoraia em 31/10/2007
Código do texto: T718066

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Sobre a autora
Zoraia
Belo Horizonte - Minas Gerais - Brasil
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