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CAMINHOS DE UM SER

E meus olhos se abriram como se fossem portas que se abrissem para o caos. Ao tomar noção da vida, a razão me veio e eis que vejo meu corpo deitado sobre um manto vermelho, cuja forma assemelhava-se a uma chave.
Não!... Era inteiramente uma chave...
Levantei-me rapidamente, surpreso com o que me acontecera, ou assustado, por não saber o motivo ao qual me trouxe até aqui. No momento, eu não sabia nem onde me encontrava. Tudo era estranho ao meu redor, não havia nada além da escuridão, apenas uma fresta de luz sobressaia através da sombra, luz que irradiava sobre o manto de cor vermelha que passava sobre meus olhos. Delírio? Não sei. Então me aproximei dela com intuito de descobrir a razão de tudo aquilo que eu estava passando.
Com cuidado, cheguei até a fenda. Logo acima, percebi que havia algo escrito, suas palavras diziam: Eu posso te ver, não há como se esconder. Na sombra não existe vida, somente a morte.
Ao ler aquilo todo o meu corpo tremeu: osso, carne, alma e sei lá mais o quê. Meu sangue gelou nas veias e senti um frio sepulcral, temendo o que poderia sobre mim se abater.
Eu precisava sair dali e sabia que a única forma era através daquela nesga de luz à minha frente, então me arremessei contra ela. E como num piscar de olhos, numa velocidade inimaginável que nem mesmo eu entendia como acontecia, atravessei até o outro lado, como tivesse sido tele transportado.
- Luzes... Clarões...
- Sim! Agora sim! Eu estava de volta ao mundo real. Agora via o sol irradiando toda sua luz sobre a minha testa. Neste instante eu estava escorado sobre um tronco de árvore como se estivesse despertando de um sonho... Que muito mais parecia um pesadelo. E balancei a cabeça, resmungando como se tudo aquilo fosse apenas um delírio momentâneo.
Repensando nestes momentos levantei-me do chão e me vi numa floresta, cercado por muitas árvores e distante dali, haviam montes e serrados, mas tudo parecia ser muito normal, e muito nítido para a minha vista. O lugar onde eu me encontrava, contudo, não dava para reconhecer, pois havia mais coisas para eu me preocupar, visto que as sombras tinham se ido, e não havia nada além de mim dentro daquela selva. Assim, desliguei-me daquele momento e passei a observar tudo à minha volta. Imaginado como eu fui parar ali, longe de todos e principalmente das pessoas da minha família.
O ambiente era incomum e eu comecei a me maravilhar...
E ver que o sol estava forte, brilhando no céu, seu calor me aquecendo, o vento soprando como se soprasse brisas agradáveis num leve abanar, deixavam-me extasiado. Via ali pequenas nuvens que começavam a traçar no céu imagens. Fiquei ali me deliciando, esquecido do tempo, até que comecei a sentir o suave gotejar de uma chuva leve e refrescante, aliviando-me do calor do sol. Foi como se voltasse à realidade. Assim decidi explorar aquele lugar. E para minha surpresa consegui sair dali, encontrando logo à frente um jardim enorme, com vários tipos de flores. Daquelas que fazem qualquer donzela suspirar de amores, e olhando mais para frente vi um riacho com águas cristalinas. Era um lugar exótico, tipo estes que se vê só em cinema, tamanha a beleza. Havia, também, ali além das plantas, muitos animais, lindos pássaros que cantavam suaves melodias que eu não pude deixar de pensar que visitava o paraíso. Parecia estranho ter na terra local tão lindo. Confuso por tudo à minha volta, deixei-me ficar ali calado refletindo sobre o que estava acontecendo comigo.
Sem que eu pudesse perceber, a floresta tomou-se de uma neblina vinda do chão dominando o ar que agora era rarefeito. Passei a enxergar com dificuldade, no entanto, notei à minha frente uma nascente de água e ao lado dela uma árvore caída, mas não sabia se a árvore era morta, ou se era de sua origem tal aparência, contudo, me aproximei...  A fina chuva que caia tornou-se grosa e forte com isso as flores que eram tão belas se modificaram. Os pássaros que cantavam calaram-se e o bosque encantado alagou-se com a forte chuva caída do céu. Meus instintos se aguçaram.
- É o fim! pensei.
Agonizando na incerteza, com a esperança já se indo embora comecei a sentir um vento quente perpassando por meu corpo.  Ajoelhei-me fraco diante de tantas e tamanhas experiências bruscas e transitórias...
- Será o sopro da morte? Pensei...
- É o fim! Dizia a mim mesmo...
Caído no chão ouvi um estrondo misturado a um clarão e uma voz gutural que me dizia:
- A dor humana, o sangue sujo e o pecado da vida amaldiçoado. Aqui os tenho, aqui concentrado em uma só coisa: o vazio, força capaz de fazer tremer as bases da terra e romper os lastros da razão.
Assustado, perguntei: - quem é você e o que quer de mim?
Ao que a voz respondeu:
- Tu deverás me amar e te render à mim...
E acrescentou:
- Você quer devorar ou ser devorado?
Sem que eu desse a resposta, caiu do ar de repente, uma figura que assemelhava a uma figura feminina, corpo esbelto, de curvas belas e discretas, inteiramente nua, coberta somente por cabelos muito longos que contornavam seu corpo. Seus olhos brilhavam como estrelas e pus-me a ir até ela...  Ao me aproximar perguntei, ainda assustando:
- Foi você que falou comigo?
Ao que ela com uma voz diferente, mas não tão amistosa me falou:
- Sim, fui eu que falou.
- Sou eu quem controla tudo, a certeza e a incerteza, o início e o fim, e meu nome é Equilíbrio.
Ao ouvir essas palavras recuei, tomado por um susto. Ao que a figura estendeu-me o braço, como se quisera me arrastar, e eu sei lá para onde.
- Equilíbrio, disse eu com um tom de ironia. Equilíbrio não!
- Por que me queres fazer o mal?  E ela, em tom de ira me respondeu:
- Não sou tua mãe e tampouco inimiga.
- Você veio até a mim, não eu a você.
E eu retruquei:
- E por que deverei amá-la? Devorar ou ser devorado, quais serão as conseqüências de cada uma dessas escolhas?
E mais uma questão intrigante me preocupava, então perguntei:
- Estou morto? E ela me respondeu:
- Os mortos servem-se dos caminhos dos vivos. Quando estamos mortos sabe-se tudo, esta é uma das vantagens em estar morto, meu jovem.
- Eu morri? Perguntei novamente. E novamente ela me fala:
- Nenhum ser é verdadeiramente vivo e nem verdadeiramente morto. O que o força a existir é o apego, os laços sentimentais, o que os leva a seguir caminhos distintos (o da luz e das trevas) força que obriga a devorar ou ser devorado. E disse ainda mais:
- Atrás de mim há duas forças eminentes como você pode perceber. Mas nenhuma delas é o que parece ser, e o que parece é o que é. Como foi dito antes, deverás escolher, ser devorado ou devorar. Mas não precisas perder tempo com esta tolice, amarás a mim e tudo não passará de um sonho. O que me dizes?
Haviam dois caminhos para mim naquele momento e eu estava inteiramente confuso com tudo o que ela me dissera e, queria acabar com tudo que estava acontecendo rapidamente, mas eu tinha certeza de uma coisa, naquele instante, para cada escolha, inclusive a que Equilíbrio me oferecera, tinham suas conseqüências, só que eu não sabia quais.  Então eu disse: serei devorado. Ao ouvir minha escolha a criatura se transformou em um tufão como se tivesse correndo do chicote de seu mestre e subiu aos céus desesperadamente repetindo: escolha errada, escolha errada, escolha errada... E tudo se perdeu no ar...
Uma poderosa força vinda da nascente e da árvore caída começou a me arrastar. Tentei não ir naquela direção, mas era quase impossível, pois aquilo era o resultado da minha escolha, e como conseqüência eu estava sendo sugado, sem saber ao certo o que iria me acontecer.  E ao primeiro contato com a energia fui puxado para o desconhecido, mergulhando para dentro da nascente, como se tivesse sendo engolido. Desci até sua origem em uma corrente cada vez mais forte puxando para baixo. Logo me pareceu enxergar o fim da minha trajetória, era como se um clarão houvesse no centro... E a cada sucção mais me aproximava... E me aproximava... Nisto de que tudo se revirava por dentro e por fora de meu corpo.
De repente submergi daquela corrente sendo arremessado para cima como se tivesse sido rompido de uma bolsa de água e fui jogado para a superfície novamente.
Uma mão me puxa inteiramente para fora, como que quisera que eu saísse,
E de uma voz bem baixa, pude escutar muito bem quando alguém falou:
         - É um menino...
Do choro então veio às lagrimas e das lagrimas para os braços da mãe.
Que dali dera a luz a uma criança. Um ser que começaria uma nova vida.

sergio carvalho
Enviado por sergio carvalho em 11/11/2007
Código do texto: T732298

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Sobre o autor
sergio carvalho
Salvador - Bahia - Brasil, 31 anos
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sergio carvalho