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Quando Todas As Luzes Se Apagam

   AMARELO

   {Andy... Andy... Andy...}
   {Você acredita ?}
   {Andy...Andy...Andy...}
   {Qual o seu maior medo?}

   VERMELHO

   {Algumas pessoas se perguntam se existe realmente um paraíso. Eu me pergunto se realmente existe um inferno. Qualquer lugar longe daqui pra mim pode ser considerado um paraíso. Inertes num paradoxo entre as idéias do bem e do mal, meus pensamentos se perdem entrelaçados em um outro universo. O meu universo. O meu mundo. Aqui dentro tudo pode acontecer. Mas será que lá fora esses pensamentos se tornam reais? }

   VERDE

   {Andy... Andy... Andy...}
   {Você acredita ?}
   {Andy...Andy...Andy...}
   {Qual o seu maior medo?}

   Buzinas soavam irritantemente na fila que se seguia atrás do Peugeot 206 de Andy, confundindo-se com as milhares de obscenidades que chegavam até seus ouvidos. Como se desperto de um sonho, ele percebeu que o semáforo já abrira e ele segurava uma fila de no mínimo 7 carros atrás dele. Engatou a primeira marcha e saiu com o 206 pela movimentada avenida. Esse tipo de coisa começara a acontecer com frequencia há exatamente uma semana. Uma música do Alice In Chains tocava no rádio do carro e fez com que Andy se aproximasse um pouco mais da realidade do mundo exterior.
   Os dez minutos que se seguiram foram suficientes pra que Andy se recuperasse do momento bela adormecida e chegasse são e salvo no trabalho. Estacionou em uma vaga livre, no meio de duas árvores. Trancou o carro e deu uma olhada à sua volta pra certificar-se de que ninguém estaria alí escondido, ou até mesmo, quem sabe, em cima de uma das árvores esperando pra roubar o seu carro, sequestrá-lo ou simplesmente assaltá-lo. Não havia ninguém.
   Caminhou na direção da porta de vidro que era a entrada da redação. Entrou. Umas 50 pessoas trabalhavam, cada uma em seu computador. Anthony acenou pra Andy e veio até ele comentando as ultimas novidades. Anthony era um daqueles caras que se pode chamar de “pé-no-saco” sem nenhum ressentimento. Ele era, com certeza, um daqueles faladores de merda em tempo integral. Livrar-se de Anthony não era tarefa fácil, mas aquele dia, como que por sorte, Andy conseguiu realizar essa proeza com presteza.
   Frente ao seu computador, Andy respirou fundo e começou a trabalhar. Procurou na internet por notícias novas, fez telefonemas pra pessoas importantes (outras nem tanto...) e inventou algumas mentirinhas... Esse era seu trabalho. Um ficcionalizador da realidade. Transformava às vezes, pequenos acidentes em grandes tragédias, só pra que o desgraçado do editor chefe ficasse feliz com o aumento nas vendas e garantisse por mais um ano o seu emprego. Mas Andy estava cheio daquilo. Mais uma vez lhe doeu a cabeça.


   {Andy...Andy...Andy...}
   {Qual o seu maior medo?}

   Tentou fechar os olhos, respirou fundo, mas a voz continuava na sua cabeça...
   
   {Andy...Andy...Andy}
   {Você acredita?}

   Mais uma vez, foi desperto de seu transe. Isso era novidade. Nunca tinha dois sonhos, nem escutava as mesmas vozes, duas vezes repetidamente iguais. Dessa vez, o que lhe despertara fora o telefone barulhento tocando em sua mesa.

- Andy Dickinson.
Do outro lado ninguém respondia.
- Alô! Alô! Alguém na linha?
- ... {o silencio}

   Com raiva, Andy bateu o telefone no gancho. As mãos tremulas e a testa molhada do frio suor. Começou a maquinar milhões de hipóteses. Seria algum sequestrador tentando ter certeza de que ele estava no trabalho e que quando saísse, seria uma presa fácil? Seria uma comunicação de algum ser extraplanetário imaginando se ele era a pessoa certa para alguma experiência cientifica? Ou seria apenas um engano? Por trás de sua mesa, Andy percebeu que toda a redação estava em silêncio. Imaginou se todos eles haviam sido abduzidos e ficou se perguntando que se isso tivesse mesmo acontecido, se seria uma coisa boa ou ruim. Um sorriso apareceu no canto dos seus lábios, mas o medo ainda corria pelas suas veias. De repente o silencio foi quebrado por um coral de gargalhadas que não cessaram pelo menos nos cinco minutos que se passaram. Bob Burton, um dos caras que Andy mais odiava no mundo todo, soltava lágrimas pelos olhos de tanto rir da cara dele, segurando o telefone celular em suas mãos. Ele e toda a redação riam juntos. Pareciam apertar Andy contra ele mesmo. Esmagando-o como uma barata num canto do banheiro, sendo pisoteada por um velho em seu roupão de banho, com a edição do jornal do dia, sentado no vaso sanitário e sorrindo “-Desgraçada... Sinta o poder do meu chinelo.”
   O dia passou normalmente como todos os outros. Andy guardou todas suas coisas, desligou o computador, pegou o casaco em cima da cadeira e foi em direção à porta de vidro. Nesse instante, ouviu-se uma voz:

- Lá vai o senhor desconfiança... O Ernest P.Worrel da vida real... Só um pouco mais parvo do que de costume...

Risadinhas abafadas ecoavam novamente em todos os cantos da redação.
   Andy começou a ficar nervoso novamente e acabou tropeçando em um tapete, que parecia ter sido colocado alí por obra do destino. Caiu com o peito e a cara no chão. A pasta permanecia fechada ao seu lado esquerdo. As risadinhas se tornavam gargalhadas. Andy levantou os olhos e viu uma garotinha com um vestido azul parada bem alí na sua frente.

- Você acredita Andy?

   Ele fechou os olhos, imaginando que tudo aquilo era somente um sonho. Mas felizmente não era. Abriu os olhos novamente e a garotinha não estava mais lá. Pelo menos isso era bom pra ele. Levantou-se e desengonçadamente e sem olhar pra trás, saiu pela porta de vidro pra nunca mais voltar alí por todos os dias que restavam na sua insignificante vida.
   O Peugeot continuava estacionado no mesmo lugar. Andy então percebeu que tinha se esquecido de ligar o alarme do carro quando chegara ao trabalho, mas agora, aquilo não lhe importava mais. O carro estava são e salvo. Sentou em frente ao volante e respirou fundo, como de costume. Cada vez que respirava dessa maneira, era como se tentasse absorver um pouco mais de força pra que seu corpo e espírito aguentasse o tranco do que poderia acontecer a dalí um segundo. Uma música tocava no rádio:

“Eu acordo todo suado
Você tem vindo pra roubar minha vida para sempre
Algo estranho e elétrico brilha
Como um dia artificial
Os amortecedores poderosos se fecharam
As grades da escuridão caíram
Brilhando tão obscuramente quanto a noite
Queimando todas as luzes...

O que você quer de mim?
Eu sinto sua dominação
Há algo que você nunca vai encontrar
Então faça o que você tem que fazer comigo
Esse prisioneiro nunca foi livre
Dilacere-me, deixe-me pra trás”*

   Foi então que Andy percebeu que ele não havia ligado o rádio, e tinha certeza de que não o havia deixado ligado antes. O corpo estremeceu, mas ele fingiu que nada havia acontecido. Podia ter sido apenas loucuras da sua mente já cansada. Dirigiu até sua casa, ou melhor, seu apartamento. Um bom lugar pra se viver. Rua tranquila. Vizinhança tranquila. O prédio era todo branco e chegava até a se parecer com um hospital. Andy morava no 206. Subiu pelo elevador. Lá dentro, sozinho, mais uma vez Andy sentiu a dor de cabeça. Mais fraca que das outras vezes. Mas sentiu. Girou a chave na porta e entrou no território que considerava seguro. Lar doce lar.
   A primeira coisa que sempre fazia ao chegar em casa era tirar os sapatos. Foi o que fez também naquele dia. Andando pela casa, despiu-se até chegar ao banheiro. Entrou no chuveiro. Ligou a água e sentiu como se todas as coisas ruins que lhe aconteceram estivessem indo esgoto abaixo. A água que purifica. O apartamento era o único lugar onde Andy sentia-se protegido do mundo marginal que o cercava dia e noite em toda sua conturbada vida.
   Desde que havia sido supostamente abduzido, Andy havia perdido o respeito das pessoas que o conheciam. Achavam ele somente mais um louco. Lembrava-se de tudo. Ele, perdido em algum lugar estranho. Uma nave talvez. Toda prateada. Tripulada por humanóides que lhe fizeram lembrar das descrições de Ezequiel. Mas nada fizeram com ele, nem lhe mostraram nada. Só ficaram alí parados, observando. Era tudo o que ele se lembrava. E então começou a ter as dores de cabeça. Sempre quando algo estava pra acontecer. Pressentimento? Andy não acreditava nessas coisas.
   A vida de Andy sempre foi um pouco movimentada. Ele não era louco, mas coisas loucas pareciam lhe perseguir. Aos 7 anos de idade, ainda na época em que ele e os pais moravam numa cidadezinha do interior, Andy desconfiara que seu vizinho, o Sr. Brett, nas noites de lua cheia, saia como um lobisomem pelos campos escuros, atacando os animais. Coisas de criança. Coisas de criança que se confirmaram quando os porcos da fazenda começaram a sumir. O pai de Andy se dispos a montar guarda até que o maldito ladrão fosse capturado. Sentado num canto escondido, o pai de Andy, com a espingarda calibre 12 em punho, esperava o meliante. Andy lembra-se ainda hoje com perfeição do que o pai contara para a polícia no dia seguinte, antes de ser levado algemado para a cadeia.
   
- Mas eu tenho certeza do que eu estou dizendo... Fiquei alí naquele canto esperando – apontou para um canto atrás de uma árvore – até que o maldito aparecesse. Quando eu ví... Quando eu ví... Olhei bem pra ele e... bom, era um cachorro. Mas não um cachorro comum que nem o meu Kurt. Era uma mistura de homem com cachorro. Meu pai me dizia que existiam essas coisas quando ele ainda estava vivo, mas eu nunca acreditei. Bom... No fim, acabei metendo bala no bicho, não importa o que fosse. Acho que foram uns 5 tiros. Voltei pra casa assustado e só hoje cedo tive coragem de vir aqui ver a cara do desgraçado. E agora o Brett tá aí... Mortinho, mortinho... E eu to ferrado...

   O pai de Andy foi levado para a prisão. Passou uma semana lá, até que o advogado conseguiu livrá-lo da acusação de assassinato. O Sr. Brett foi enterrado, mas os cochicos não pararam de rolar pela cidadezinha. Até hoje se fala no assunto por lá.
   20 anos depois, Andy acabaria se vendo com outro fenômeno sobrenatural. Frequentara uma certa igreja durante um tempo. Exorcismos sempre aconteciam nos fiéis. Mas um dia Andy realmente sentiu medo. Uma moça, possuída, no momento de seu exorcismo virou o rosto pra Andy e lhe fez uma ultima pergunta, antes que fosse exorcizada.

- Andy...Andy...Andy... Qual o seu maior medo?

   Agora, aos 33 anos, Andy se deparara com extraterrestres. E não esqueçamos da garotinha na redação. E qual será o meior medo de Andy?
   Desligou o chuveiro, enxugou-se e foi até o quarto se trocar. Vestiu-se com uma calça jeans e uma camiseta preta com a foto de Che Guevara, já surrada pelo tempo. Foi a penúltima roupa que Andy vestiu em sua vida.
   Sentou-se no sofá e sentiu que a dor de cabeça começava novamente. Só que desta vez, muito mais forte do que antes. Muito mais forte que em todas as outras vezes. Como se atravessasse a parede, Andy viu a mesma garotinha da redação. Um pavor inexplicável começou a tomar conta do seu corpo. Andy chorava. Lembranças começaram a renascer na mente de Andy. Lobisomens. Extraterrestres. Demônios. E agora fantasmas. Foi então que ele olhou pra dentro da sua própria alma e pode sentir o quanto ela já havia sido machucada naqueles 33 anos. A garotinha lhe estendeu as mãos.

- Andy... Andy... Andy... Você acredita?

   E como se agora entendesse o real sentido de toda sua vida, Andy Dickinson respondeu para a pequena garotinha.

- Sim, eu acredito.

   E suas mãos tocaram as mãos etéreas da garotinha.

- Qual o seu maior medo Andy?

   Com os olhos fixos nos olhos da garotinha, Andy disse suas últimas palavras.

- A vida.

   E assim, no dia 20 de Junho, Andy Dickinson se foi. Três dias depois, Anthony a mando do editor chefe foi até a casa de Andy que não respondia aos telefonemas e aos recados da secretária eletrônica. Encontrou o corpo de Andy, com um cheiro nada agradável  sentado no sofá da sala com um sorriso no canto dos lábios.
   Naquele dia, Andy teve a maior repercussão de sua vida. Uma simples foto com o seu nome embaixo no obituário do jornal.
   Andy ainda voltaria a entrar pela porta de vidro da redação. Mas dessa vez não estava sozinho. Estava de mãos dadas com uma garotinha de vestido azul, e ambos estavam sorrindo. Mas ninguém os via. Eles não acreditavam. Pelo menos ainda não.


* A música citada é "Abduction" de "Bruce Dickinson". Encontra-se no CD "Tyranny Of Souls"
Alencar Moraes
Enviado por Alencar Moraes em 19/11/2005
Código do texto: T73584
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Sobre o autor
Alencar Moraes
Espírito Santo do Pinhal - São Paulo - Brasil, 29 anos
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Alencar Moraes