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Flor Artificial (uma linda e emocionante história de um verdadeiro amor gay)



                      A história de amor do Jujú e do Nestor


Aquela flor a muito estava sobre aquele caixote ensebado, de madeira escura, que havia em um canto da cela e ninguém sabia quando ou quem a trouxe, nem o porquê ela fora ali colocada. Era uma flor artificial, feita de um material sintético avermelhado, que descoloriu com o passar do tempo ficando esbranquiçada e com manchas amarelas, causadas pela poeira que tinha assentado sobre ela.
Tanto a flor como o feio vaso de vidro transparente, de tonalidade azul opaco que ela estava, era salpicada de minúsculos pontos negros deixados pelas fezes das moscas que ali entravam pela alta e pequena janela que era protegida por grossas barras de ferro e dava para o pátio daquela prisão.
A flor, como tudo ali, não tinha vida. Era uma cela igual à alma do prisioneiro, que nela passava as horas mortas de sua existência, completamente vazia.
Além do caixote de madeira, nela só tinha um colchão de palha encapado com um pano axadrezado de cor azul e uma lamparina que ficava no chão, debaixo da janela, entre dois tijolos que tinham sobre eles uma grade de ferro enferrujado. A grade sustentava uma lata amassada que servia de panela, na qual ele esquentava o café ralo e com gosto de água suja, que recebia todas as manhãs.


Há quinze dias que o prisioneiro que morava naquela cela estava vivendo sozinho nela. O seu companheiro de cárcere, que dividiu com ele as amarguras do isolamento nos últimos três anos, cumpriu sua pena e foi posto em liberdade.
Ele ficou feliz com a sorte do amigo, mas estava sentindo muita falta dele. Pensava nele enquanto olhava para o baralho, todo amassado e cheio de orelhas com o qual eles sempre jogavam e que estava sobre o caixote ao lado da flor, quando a porta da cela foi aberta.
O carcereiro, que estava de plantão, entrou nela acompanhado de um rapaz e perguntou ao prisioneiro:

     - E ai Nestor, tudo bem?

     - Tudo, ele respondeu secamente.

     - Acabou a sua solidão. Este aqui é o Jurandir, o carcereiro falou novamente apontando para o rapaz. Ele matou outra "bicha" com uma garrafada numa briga, em um bar gay lá no Leblon, e vai passar um bom tempo aqui com você. Ta com sorte em malandro, o carcereiro disse em um tom de caçoada e soltou uma sonora gargalhada.

     - Vai se foder Carlão (assim se chamava o carcereiro). Pega esse merda e leva ele pra outro lugar que eu não quero nenhum viado aqui comigo. Prefiro bater uma punheta a encher meu pau de bosta, o prisioneiro falou cheio de raiva.

     - Não da não, Nestor. Foi o diretor que deu a ordem de trancar ele aqui com você e eu não posso fazer nada, o carcereiro falou e saiu trancando a porta e deixando os dois sozinhos.

     - Diretor filho da puta, vai colocar logo comigo um fresco pra morar, o Nestor resmungou, consigo mesmo, cheio de raiva. E você, é Jurandir o seu nome não é?

     - É sim, Jurandir Soares. Mas pode me chamar de Jujú que eu até gosto, foi à resposta dada pela voz melosa do pederasta.

     - Jujú o caralho, aqui dentro eu não quero saber de frescura. Se você entrar em onda pro meu lado eu te arrebento inteirinho. Ta vendo aquele colchão ali? Eu não quero saber de nenhum viado perto dele. Pede pro Carlão te arrumar uns trapos e faz um catre bem longe dele.

     - Sim senhor, não precisa ficar bravo comigo que eu não vou incomodar não. Sou "viado", mas sei respeitar as pessoas.

     - É bom mesmo, o Nestor falou secamente e não disse mais nada.

O Jurandir se agachou em um canto da cela e os dois ficaram calados, cada um pensando em sua vida cheia de amargura. Pouco depois o Nestor reparou em Jurandir e notou que ele chorava calado em seu canto. Sentiu piedade daquele rapaz e pensou:
"Pobre rapaz. Ta certo que ele é viado, mas eu também não sou flor que se cheire. Sou ladrão e traficante e estamos no mesmo barco".

     - Não chora não Jurandir, que agora não adianta. Você já esta aqui dentro e tem que se acostumar com isso, ele falou querendo ajudar o rapaz.

     - Eu sei. É que eu sou uma pessoa sensível e o senhor ficou bravo comigo sem motivo algum. Eu não fiz nada pro senhor não gostar de mim e é por isso que eu estou chorando, o Jurandir falou enquanto passava as costas da mão sobre os olhos para secá-los.

     - Ta bom, eu não quis te magoar e agora vê se não chora mais. Você fica na sua e eu na minha e vamos tentar viver bem aqui dentro, combinado?

     - Ta sim seu Nestor, o Jurandir respondeu já feliz e cheio de delicadeza.


Passou uma semana e os dois não tiveram mais problemas entre eles. Jurandir se mostrou um rapaz educado, apesar de sua delicadeza excessiva, e não incomodou o Nestor. Ao contrário, ele era uma pessoa até bastante prestativa e fácil de gostar dela.
Na segunda semana em que o Jurandir tinha sido encarcerado o Nestor, no meio da tarde, deu de repente um gemido forte e se deitou encolhido em seu colchão, com as mãos segurando a barriga, na qual sentia dores horríveis. O Jurandir ficou apavorado e começou a gritar, por ajuda, na porta da cela.
O carcereiro, que estava de plantão nesse dia, veio ver o que estava acontecendo e quando viu falou:

     - Para de frescura Jurandir. É só uma dor de barriga e daqui a pouco passa. Vê se para com esse berreiro se não eu te coloco na solitária.

     - Mas...

     - Não tem, mas nem menos. Cala essa boca e não enche mais o saco. Daqui a pouco ele está bom, o carcereiro falou e foi embora xingando o pobre Jurandir.

O Nestor passou o resto da tarde sentindo dores terríveis no estomago e quando anoiteceu foi atacado por uma febre muito forte e começou a delirar. Jurandir viu que ele estava todo molhado de suor e fez o que pode para ajudá-lo. Tirou as roupas molhadas dele, arrumou-o o mais confortavelmente possível sobre o colchão e ficou ali cuidando dele. Pegou os trapos, que o Carlão tinha trazido pra ele dormir em cima, e molhou-os em água fria para passá-los sobre o corpo de Nestor, tentando refrescá-lo e baixar a sua febre.
Quando o Nestor voltou a si, daquele delírio, ele viu o Jurandir ajoelhado ao seu lado passando um pano molhado em seu corpo e orando a Deus para que ele se recuperasse. Sentiu uma grande ternura por ele e foi atingido por um enorme sentimento de gratidão. Aquele rapaz afeminado tinha cuidado dele com zelo e dedicação enquanto esteve doente, largado ali por aqueles que tinham obrigação de olhar por ele.
Quando o prisioneiro se recuperou eles se tornaram bons amigos. O Nestor passou até a achar engraçado o jeito todo cheio de tremelique do rapaz, e a dar risadas gostosas das frescuras e da delicadeza excessiva dele, mesmo achando que era uma grande palhaçada. Ensinou ele a jogar com o velho baralho ensebado e passavam horas jogando cartas para passar o tempo.


Quatro meses depois o Nestor foi levado ao fórum, onde um juiz lhe comunicou que ele já tinha cumprido um terço da sua pena e, como tinha tido bom comportamento nesse tempo, seria posto em liberdade no próximo dia. Quando voltou para o presídio ele falou para o Jurandir:

     - Senta aqui Jurandir, eu tenho uma coisa pra te contar.

     - Eu, sentar no teu colchão! Eu posso?

     - Pode sim, além do mais ele agora é seu. Eu vou ser posto em liberdade amanhã e vou deixar ele pra você. Essa noite você já pode dormir nele, pois eu tenho a certeza que vou passá-la acordado. Estou muito ansioso para dormir.

Dos olhos do Jurandir escorreram duas lágrimas grossas e quando o Nestor as viu perguntou:

     - O que é isso Jurandir, você está triste porque eu vou ser posto em liberdade!?

     - Não é isso Nestor. Eu fiquei muito contente com a notícia. É que estou acostumado com você e vou sentir muito a sua falta. Você foi muito bom pra mim.

O Nestor sentiu muita pena e um imenso carinho por aquele rapaz. Encostou seus lábios no rosto dele e lhe deu um beijo carinhoso.


No outro dia, assim que o Nestor foi posto em liberdade e o Jurandir se viu sozinho na cela, um choro convulsivo o dominou. Entre os soluços, que explodiam em seu peito, ele falou sozinho em voz alta enquanto olhava para a flor artificial cheio de tristeza:

     - Você é uma pessoa boa Nestor e eu aprendi a te amar. Vou sentir a sua falta, mas quero que Deus te proteja e não deixe que você volte, nunca mais, para este lugar maldito.


CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Enviado por CARLOS CUNHA o Poeta sem limites em 15/11/2007
Reeditado em 15/11/2007
Código do texto: T737900

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Sobre o autor
CARLOS CUNHA o Poeta sem limites
Japão, 63 anos
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