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Diário de uma Assassina > As nossas Cinzas >Cicatrizes

                                                               
                                                               Cicatrizes 22/08
                                                          Porém, passado é passado.

 Acho que Eduard percebeu que tinha algo errado depois que eu passei as últimas horas da madrugada sentada na janela do último andar olhando a rua. Não sei o que me deu depois que a garota foi embora. Acho que a noticia que a minha "pupila" podia me matar me pegou um pouco desprevenida. Mas o que eu posso fazer se pactos são pactos? Não sabia se ria ou chorava com aquela situação. Ainda não sei bem o que aconteceu depois de tudo...Nunca vou entender o que foi tudo aquilo.

 Já era quase hora do almoço quando tomei um banho e me despedi do Ed tomando o caminho de casa. Não muito a fim de voltar, não muito a fim de ficar. Parece que quando alguma má noticia me afeta, resolve me deixar realmente mal. Sai andando pela rua movimentada, não me importando muito com os passos que ia dar. Se não fosse o gentil braço que me segurou enquanto estava passando, teria entrado em algum bar e me esqueceria da vida até a hora que alguém me acharia numa sarjeta largada.
 - Sempre me segurando...
 - Não tenho culpa se está sempre perdida.

 Tecnicamente o que ele dizia fazia sentido. Era a segunda vez que ele me achava e eu estava meio que sem rumo. Dá primeira vez estava bêbada em um bar e depois tentei mata lo. E agora a segunda, me sentindo estranha. Ao olhar para ele me lembrei de outros tempos... Tempos que não sei se devo citar, mas tempos em que eu era, ou tentava ser uma mulher normal. Apaixonada...
 - Arafis, me leva daqui, por favor.

 Não sei o que ele pensou no momento, só sei que ele passou o braço em volta da minha cintura delicadamente e me guiou pela rua movimentada até a sua casa, lugar que eu já conhecia. É, eu me sentia atraída por ele. Um belo sorriso, um jeito meigo... Chegou até a me lembrar o...
 - O que você tem?
 - Ahm...Nada não. - eu sorri falsamente - Deve ser cansaço, só isso.
 - Mentira.

 Um estado bom de melancolia, talvez fosse isso o que eu sentia realmente. Não queria pensar, não queria falar. Ele me guiou até uma sala no fundo de um corredor e enquanto andava, avistei um calendário preso em uma das paredes do lugar: Vinte dois de agosto. Senti uma faca cortar as minhas costas, uma dor e uma queimação dentro de mim. Desequilibrei por alguns segundos sentindo falta de ar.
 - O que você tem Dah?

 Pensamentos. Eu penso demais, sempre pensei. Não sabia se chorava, se corria, se me perdia nos braços dele. No fundo, não sei se sempre fui forte... Fazia cinco anos. E com o coração apertado, eu o abracei, segurando no seu pescoço e tentando me manter em pé por mais tempo. Não queria mais pensar no tempo...
 - Estou bem...

 Nossos olhares se encontraram por alguns instantes, daquele jeito quando duas pessoas sabem que o obvio vai acontecer. Ele segurou com delicadeza meu rosto, fazendo carinho, me olhando. Eu apenas sorri, me mantendo firme, esperando. Se eu contar com palvras não vai descrever o que eu senti naquela hora. Não era apenas um beijo, era como tudo se completasse fizesse sentindo. Acho que foi naquele momento que perdi a razão, me perdi em seus braços, perdi o que eu tinha.

 Foram beijos, abraços, carinhos...Ele me levou no colo até o seu quarto, cuidou de mim. Acalmou-me, fez eu me esquecer por eu estava triste, o por que eu não querer mais tanta coisa na vida. Senti-me mulher, me senti normal. Todo aquele sangue em minhas mãos sumiu, toda aquela dor passou e eu me senti como a alguns anos atrás, livre. Não precisei de mascaras, não precisei de outros nomes. Só precisava estar lá... Só precisava dele.

 Por algumas horas, eu apenas fui eu e quando eu despertei ele ainda dormia, com um ar calmo, doce. Não quis fugir, quis apenas observa lo como quem olha um belo quadro e não se cansa. Era bom senti lo perto de mim, mesmo que ia acabar, mas cedo ou mais tarde. E quando eu achei que não ia pensar em mais nada, a figura da pequena criança me veio à cabeça, com os cabelos negros, um rostinho angelical.
 - No que está pensando? - Ele abriu os olhos e me observando e fazendo carinho no meu rosto - Algo errado?
 
 Cicatrizes. Quando você é uma assassina, tudo o que você pode ter são cicatrizes. Algumas tão profundas quando o tempo, outras apenas para mostrar que você teve algo para chorar um dia. As minhas não eram visíveis na pele, eram dentro. Cada pedaço de mim tinha uma história para contar, e a do dia vinte e dois tinha um nome.
 - Nada... Estou bem.
 - Verdade?

 Eu queria poder mudar certas coisas do meu passado. É doloroso lembrar o que você teve e perdeu por que escolheu mal. Não lembro por que acabou, mas lembro que no momento, nada podia mais mudar isso... Não trariam de volta a minha pequena.
 - São cicatrizes que doem. Uma antiga me doeu agora.
 - Aonde? Posso fazer algo?
 
 Eu sorri, dando um beijo nele. Ninguém pode fazer algo quando estávamos falando do meu passado. Uma vez o Justin me disse que eu parecia ter 50 anos e eu apenas ri dele. Mas ele tinha razão ao falar que eu era velha... Carregava muito mais do que as pessoas podiam imaginar. Quando disse que vida de assassina não era fácil, não estava brincando, não se pode enterrar tudo.
 - Não... É algo que não tem cura mais.
 - Qual é o problema?

 Não era um problema. Foi o meu milagre, há muito tempo...Tempos que eu era até pior, mas fui amansada. Tempos que eu não sei se voltam mais.
 - Meu problema... Isso não é um problema, foi o meu maior bem.
 - Do que está falando?
 - Elen Nénar...
Nenar
Enviado por Nenar em 20/11/2007
Reeditado em 20/11/2007
Código do texto: T744117

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Sobre a autora
Nenar
São Paulo - São Paulo - Brasil
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