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O PLANTADOR DE SONHOS

 
E lá vai ele novamente com um terço das sementes no saco e a velha matraca no ombro, com seu andar meio-amazaropado e o fedorento cigarro de palha na boca.
Por onde passava arrancava rizinhos entre a meninada, e cochichos entre as beatas da porta da igreja. Mas ele era assim mesmo. Era o Zé da matraca. Franzino, mas gente boa.
Sempre que eu perguntava a ele:
_ Como vai Zé ?
_ Vou inu. Respondia com aquela paciência.
_ Vai indo ou vem vindo ? Eu dizia.
E ele dava aquela rizadona arreganhada, mostrando aqueles dentes pretos para todo mundo.
Era um plantador de sementes, tudo que plantava, dava, tinha as mãos verdes. Já teve gente que disse que tudo que ele plantava nascia com forma de ouro.
Já de muitas décadas fizera da velha matraca um ofício, apesar de naquela época ela não era tão velha assim, vivia de matraquear as terras alheias. Sempre que alguém chamava, lá ia o Zé. E assim tem sido até hoje.
Ninguém planta melhor que ele. Me lembro até hoje quando o Coronel Lupercídio brincou com ele na beira da cerca do Nhô Venceslaw, dizendo que a roça dele daria mais que aquela que o Zé plantou, ficou furioso, e disse:
_ Que nada, lá na sua terra só nasce mato e bosta-de-baiano.
E dito e feito, a capoeira cobriu a roça. O coronel ficou tão furioso que mandou dar uma coça no Zé. O coitado teve de ficar de molho na salmoura por umas boas horas, até o cabo da matraca lhe quebraram na cabeça, o galo cantou três dias e três noites sem parar.
_ Isso num vai ficar assim não. Dizia o Zé.
_ Vai ficar assado. Retrucava o coronel.
A mão do homem era tão certa na planta, que o pessoal fazia planos mesmo antes da colheita, contavam realmente com o ovo no fiofó da galinha. Era só o Zé plantar, e lá ia o pessoal comprar fiado.
Até a roça do seu Pituca que só dava cobra e bosta-de-baiano, já estava dando milho.
_ Não sei o que vai ser quando o Zé morrer. Diziam alguns.
_ Que nada, o homem é forte. Diziam outros.
Forte é canivete de fumeiro. Eu dizia.
Sabe, todo mundo aqui confia no Zé. Esse seu jeito de lidar com as sementes, sempre com carinho, faz dele uma pessoa especial, bem vista por todos daqui dessas bandas. A certeza de que tudo que ele planta nasce, alimento os sonhos de todos.
Mas cá entre nós, para mim ele não é um plantador de sementes, mas um plantador de sonhos.
Justino
Enviado por Justino em 21/11/2007
Código do texto: T746510

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Sobre o autor
Justino
Pinhais - Paraná - Brasil, 47 anos
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Justino