Capa
Cadastro
Textos
Áudios
Autores
Mural
Escrivaninha
Ajuda
Textos
Texto

O Fundo Ilusório dos Espelhos sem Fundo - Conto UM - Noite das Noites

Contextualidade com o conto de Jorge Luis Borges, “Tlön, Uqbar, Orbis Tertius”. Publicado em “Ficções”, 1944.

amilton

“…um planeta desconhecido, com suas arquiteturas e seus naipes, com o pavor de suas mitologias e o rumor de suas línguas,
 com seus imperadores e seus mares, com seus minerais e seus pássaros e seus peixes, com sua álgebra e seu fogo,
 com sua controvérsia teológica e metafísica. Tudo isso articulado, coerente, sem visível propósito doutrinal ou tom paródico.”
Jorge Luis Borges, Tlön, Uqbar, Orbis Tertius. (frag.).


Vencido pelo sono, pelo barro e pela tempestade; após dirigir quatro horas ininterruptas em carreteiras de chão batido, lá pros lados do Alegrete, paro sob copiosa chuva, em frente de providencial hotelzinho-de-fim-de-mundo e sua típica arquitetura alemã do século XIX. Abaixo a cabeça o máximo possível, e através do pára-brisa molhado, ajudado por relâmpagos e faróis, consigo ler o letreiro desbotado acima da entrada: “Albergue Noite das Noites”.


Giro a maçaneta. A pesada porta cede à pressão do corpo enquanto tênue luminosidade emana do interior. Meu gesto aciona rudimentar e eficiente mecanismo de alerta; dispara dentro uma sineta rouca e acende a luz vermelha onde estou. Logo recebo a ordem: “schlieβe die Tur!”. Fecho a porta em obediência e tanto a campainha como a claridade extinguem-se de pronto; mas foi tempo suficiente para reconhecer o ambiente mobiliado ao estilo europeu, trazido por imigrantes. ‘Con permiso!’ Em três passadas dirijo-me ao balcão mal iluminado onde uma enorme, sonolenta ampulheta persiste retardar o andejar dos tempos. Ali, emergido de algum conto de Poe, aguarda-me um ancião alto e magro; veste camisola listrada, touca desabada no ombro esquerdo e observa-me através dos óculos com aros de tartaruga. Dou-lhe as ‘buenas noches’ e ouço algo rouco, gutural e asmático. Arrisco. ‘Una habitación, por favor’. Sem nada dizer, abre solene um enorme livro e o gira com precisão, 180° no sentido horário, em minha direção; depois me alcança pena e tinteiro. Só vejo em telas de cinema tal tipo de registro ou aparato de escrita. Rabisco com cuidado; lembro do tempo de minha alfabetização e receio ser expulso caso borre. Poucas linhas preenchidas nesta página, mas percebo o último registro ter acontecido trinta anos antes, em sete de setembro de 1935; um certo Herbert Ashe, engenheiro de ferrovias, ficara apenas uma noite. O penúltimo fora de Gunnard Erfjord; dizia-se demiurgo e hospedara-se em 1913, também por uma noite. Declarava vir de Ouro Preto e iria para Buenos Aires. Impaciente, o velho toma-me a pena e com um arquejo gira o livro para si, desta vez no sentido anti-horário, e o fecha com grande deslocamento de ar e poeira. A capa em couro amarelo ostenta um óvalo azul e na inscrição dourada leio: “Orbis Tertius”.

“Los!”. Sigo-o até a sétima e última porta de um corredor escuro. “O toalete fica ao lado, mas o banho, caso tome, será cobrado à parte”. Com isso dá-me as costas arfando; o ronco da asma cadenciando as chinelas.

O quarto aquecido por um antigo radiador situado junto da parede, é revestido de papel com estampas. Algumas aludem ao tempo, outras ostentam estranhas formas geométricas. Escova de dente em punho, vou ao toalete. Na toalha de rosto limpíssima, estão bordadas as iniciais “O.T.”. Busco espelhos e não os encontro. Já no quarto, leio por cima da cama a inscrição emoldurada: “Enquanto aqui dormimos, despertos estamos noutro lado; assim, cada um é dois”. Deitado, olhos cerrados, reflito os últimos acontecimentos… ‘As coisas duplicam-se, propendem simultaneamente a apagar-se e a perder detalhes, quando as pessoas as esquecem. Certo umbral perdura enquanto o visita um mendigo, mas se perde de vista com sua morte. Alguns pássaros, um cavalo, salvam as ruínas do anfiteatro.’ Acordo e volto a adormecer… ‘vislumbro um deus subalterno; entende-se com um demônio. Valem todos os símbolos…, mas só são verdadeiros os acontecidos a cada trezentas noites…’.


Desperto revigorado, apenas a cabeça pesa. Na recepção, em lugar do velho estalecido, encontro uma simpática rapariga loira de olhos azuis e avental bordado com estranhos símbolos. Tento bisbilhotar o grande livro, mas a fräulein, apesar da insistência, impede-me de examiná-lo. A ampulheta permanece fugaz, entretanto a areia entorpecida mantém o nível da véspera e tampouco se altera enquanto fecho a conta. Questiono a duração de seu ciclo. A fräulein lacônica revira os olhos inquietados: “O adequado! Nem mais, nem menos”. A diária não inclui o desjejum; decido então tomá-lo no caminho. Devolvo-lhe a chave e só aí reparo gravado na elipse de metal da qual pendia: “Albergue Noite das Noites”, e abaixo em minúsculas letras: “O mundo será Tlön”. Só então percebo com absoluta clareza a tímida gravidez.


O minuano sopra forte a madrugada e constrói um céu azul cristalino. Desfruto da gélida paisagem pampiana curva após curva e paro no primeiro bolicho de campanha. A mulher baguala, peitos roliços e poderosos quadris, serve-me café-com-leite, ovos fritos e cozidos, pão escuro, lingüiça seca, creme, banha e mel de lecheguana. Quando lhe indago do lugar onde pernoitara, olha para o bombachudo escorado no balcão e responde em bom portunhol: “por esta cruz (beija os dedos indicadores, em cruz), no hay nada em la dirección dela cual usted vino. Por lo menos en una hora, considerando que su automóvil es muy ligero”. Ao pagar, o bolicheiro entre dentes, confirma no mesmo linguajar e por não ter troco, empurra-me uma rapadura na palha. Não convencido, dirijo atento de volta por uma hora. Devoro a rapadura melada até encontrar um posto de combustível. Devido à conjunção de um temporal e de uma fadiga descobri o “Noite das Noites”. ‘Já li algo nesse tom em algum lugar’. O local evaporara da mesma maneira como o encontrei: por encanto! Encho o tanque e retorno devagar. O guasca e a índia mateiam na porta da venda à sombra dum velho coqueiro entediado. Diminuo a marcha e lhes dou ‘adios’; acenam-me e o homem grita: “aqui es um agujero en la nada”.

Chego no Alegrete à tardinha sob um calor ruivo, mas embora exausto e faminto, corro primeiro à telefônica onde peço uma ligação internacional. ‘¿…Jorge? Soy yo, amigo. Mañana estaré ahí con una buena historia’.

Pelotas, julho de 2007
amilton
Enviado por amilton em 25/11/2007
Reeditado em 25/11/2007
Código do texto: T751996

Esta obra está licenciada sob uma Licença Creative Commons. Você pode copiar, distribuir, exibir, executar, desde que seja dado crédito ao autor original ("você deve citar a autoria de amilton e o e-mail amilton@dropsdvd.com.br). Você não pode fazer uso comercial desta obra. Você não pode criar obras derivadas.
Enviar por e-mail
Denunciar

Comentários

Sobre o autor
amilton
Pelotas - Rio Grande do Sul - Brasil, 69 anos
2 textos (70 leituras)
(estatísticas atualizadas diariamente - última atualização em 17/10/17 19:18)
amilton