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Ao menos mais uma vez

A festa tava animada, estávamos todos perdidos em gargalhadas, contando nossas experiências de vida mais loucas, tudo estava realmente bem, porém, levou algum tempo para que a festa se tornasse festa.

No início eu estava sozinho, deitado na cama ao lado da janela. A chuva já estava parando. Várias coisas passavam pela minha cabeça enquanto eu olhava para o céu através da janela semi-aberta. Pensava na solidão que sentia, pensava na possibilidade de mudar de realidade, trocar minha realidade pelos meus sonhos, mas a cada minuto que passava eu percebia que isso estava cada vez mais difícil. Por esse motivo também me vi ocilando entre a sanidade e a loucura, por esse motivo tive vontade de chorar, mas não mais chorar sozinho.

A chuva agora já parara, e eu, olhando ainda através da janela, me distraí com uma gotinha d'água daquelas que ficam no 'cai ou não cai' à beira do telhado. Ela já parecia estar alí há algum tempo, lutando para não cair e se desmanchar entre as outras gotas que já haviam caído.
Notando também uma certa tristeza e solidão em sua face, resolvi pergunta-la se podia me fazer companhia naquela noite solitária. No início me pareceu um pouco insegura, com um tipo daqueles que não falam com estranhos, mas depois de um olhar tímido aceitou minha companhia.

Contei-lhe tudo, desde minha indignação com o mundo, até os momentos bons da minha vida, e ela ouvia atentamente minhas palavras. Ela parecia estável naquele momento, parecia que não corria o risco de cair, o que me deixou aliviado. Continuamos conversando por horas, e nessa altura já estávamos nos divertindo. Agora eu já nem olhava diretamente para ela; olhava para o céu, procurando estrelas ou quaisquer outros seres para participar daquele momento. Encontrei algumas estrelas solitárias e solidárias que aceitaram entrar na conversa. A lua também estava presente, e até uma coruja foi até minha janela. Virou uma festa só!
Em plena noite de domingo, uma noite fria, após uma chuva forte daquelas, estávamos todos reunidos contando fatos tristes e felizes das nossas próprias vidas. Ajudando uns aos outros, colaborando para que a noite não fosse mais uma noite depressiva.

Em certo momento, a gotinha d'água se queixava do quanto ruim era sua vida antes da nossa 'reunião', por que não conhecia nada além das núvens em que morava, ou das calçadas onde caía. Elogiava em vão a lua, por que eu lhe havia dito que o homem já tinha ido até lá, que a lua já esteve na presença do homem antes, mas agora, conversando com a própria, fiquei sabendo que isso foi mais uma história que inventaram. Indignada, a lua choramingava. Tentei animá-la, falando de como era incrivelmente bonito vê-la cobrindo o sol durante os fenômenais eclipses, mas ela apenas sorriu. A coruja permanecera calada o tempo todo, mas parecia estar satisfeita apenas em estar alí. As três estrelas que estavam presentes animavam o papo contando algumas histórias de viagens de suas parentes, as estrelas cadentes, e fazendo piadinhas de mau gosto sobre o sol; aproveitando sua ausência.
A festa tava animada, estávamos todos perdidos em gargalhadas, contando nossas experiências de vida mais loucas, tudo estava realmente bem.
A Lua e as estrelas já estavam até marcando um novo encontro pra amanhã ou algum outro dia. Elas tinham a certeza que, acontecesse o acontecesse, estariam lá, nos mesmos lugares, nos mesmo horários, prontas para mais um dia. Fiquei com inveja, confesso, mesmo não sabendo se deveria.

Estava quase amanhecendo e, de repente todos me deixaram. A lua e as estrelas foram embora descansar, presumo, e agora o que reinava no céu eram as núvens cinzentas. A coruja saiu sem dizer nada, saiu de um pulo só, mas com uma expressão de quem voltaria amanhã. Quando olhei para o telhado minha tristeza aumentou: A gotinha não estava mais lá. Acho que caiu, ou evaporou, não sei.
Após alguns minutos entendi o que significava tudo aquilo, toda aquela cena...
Decidi fechar os olhos... tentar dormir...
Vi que era preciso fazer como fizeram todos os participantes daquele encontro, principalmente com fez a pequena gota, que não mais relutou em não cair, por que sabia que poderia recomeçar, que poderia estar ali mais uma vez, talvez não amanhã, mas sabia que voltaria.
Então adormeci, na certeza de amanhã poder fazer tudo que já fiz, ao menos mais uma vez.
William Telles
Enviado por William Telles em 28/11/2007
Código do texto: T756943

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Sobre o autor
William Telles
São José dos Pinhais - Paraná - Brasil, 28 anos
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