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Suspeitas

Suspeitei haver escutado um rumor lá fora, no portão da fazenda. Fugaz, passei a observar o terreno com mais tento, pela fenda. Da porta via o local irrestritamente. A mente simulava as cores e os sons agrestes. As vestes das nuvens revestiam o tom verdeal da ventana. A varanda de per si era esplêndida, enquanto durava a luz da vela natural. Sobrenatural, no jardim havia jasmim, e cores, das cores mais diversificadas, apartadas do capim. Limão, em toda a extensão. Os pássaros assomavam ao alvorecer, chilreando, como se ditosos estivessem (talvez cantassem por ofício). Num interstício, o pomar manifesta-se frutuoso, com matiz caramelo. Fulguroso, no centro do caminho, um ipê-amarelo, como se disposto a segregar quem partisse de quem chegasse. Crepusculejava.

Suspeitei ter percebido um fragor, dessa vez um pouco mais assombroso. A flor ao recanto da porta apontava para o externo. O que quer que fosse, deveria estar a poucos metros da casa, ou talvez, já na porta. Torta, a entrada da vivenda pela manhã era branca, com leves pingos de areia. As faces eram radiantes. Coruscantes, as rosas eram clarinhas. Os pássaros, em sua maioria, infantes, chilreavam uma cantiga que eu não compreendia. Havia duas janelas: uma notável, a outra estreita. Duas poltronas ficavam dispostas nos cantos opostos: a da esquerda era rude e sem cor (ali costumava assombrar primeiro), a da direita da porta era alva, brilhante, sempre nova (como a lua). Nova.

Suspeitei sentir chamar à porta, com batidas, leves batidas, não tão leves que não me apressassem os batimentos. Os sentimentos à flor da pele. Inerme, eu mal havia saído do banho, estava só de toalha, o cabelo por pentear. Fiquei imóvel em frente à porta, olhando-a e presumindo: “O que quer que seja está do lado de lá.”

Suspeitei ter ouvido passos, laços imaginariamente se desatavam, um maço de folhas vívidas tremulavam ao pé da janela. Descerrei a porta, lívida, bem devagar, como se quisesse prolongar o suspense: o medo fazia-me contorcer a alma. Calma, a mão tateia a maçaneta e a revolve. A porta aberta, uma luminosidade deslumbrante, fazendo me cegar. Inebriante, olho para as poltronas: a velha balança as pernas, a nova apenas divaga. Agora me lembro bem, fazia anos que não as utilizava.

Suspeitei ter escutado um sorriso frio, cínico, vindo da cadeira antiga. Uma cantiga estranha ao fundo ressona. Uma sombra se move. Sem repiscar os olhos, um vento gélido passa por mim, a invadir a casa. Tomada, a morada não era lá essas coisas, todavia era confortável. A clausura do lar é necessária hoje em dia. Ademais, toda ela era rústica, exceto a sala onde eu estava, que tinha dois ambientes: um mais aconchegante, com cores mais suaves, e o outro, diria, um pouco mais tenso, com cores vermelhas e sofás infensos. Graves.

Suspeitei ver a parede vermelha inundar a outra, branca (talvez areia). E como se brotasse em mim algum horror, lancei-me à parede alva, da parte menor da sala, para impedir seu desmanche. Inicialmente lancei minhas mãos sobre ela, enquanto a parede toda envermelhando ia, e junto, minhas mãos, meus braços, minhas pernas, e, ao cabo, meu corpo talvez fosse a própria parede metamorfoseada.

Então, naquele momento suspeitei ter dado um grito de espasmo e terror (horror!), ao ver que meu corpo agora parecia se desmanchar todo ele, desintegrando-se em vermelho, na parede antes branca. Eu tornei-me vermelho, similar a ela, tinta escarlate. Lembro-me de cada detalhe, cada cerda do pincel a tirar a nossa cor, natural. Por algum tempo, acreditava estar preso à parede, na verdade, eu pensava que tínhamos nos tornado um só objeto. Decerto essa foi uma expectativa logo rechaçada quando, observando se o autor daquela obra insossa e absurda estava próximo, e não o vendo, desgrudei-me, sem grandes esforços, da parede rubra. A nova cor me envergonhava.

Suspeitei ter visto e escutado passos em direção à porta, como se retornando, como se tivesse concluído o que se destinara. Na hora cheguei a pensar na idéia do círculo, do movimento contínuo, futuras repetições. Medrei. As marcas de pés no chão, mas não consegui identificar se eram de homem ou se de mulher, aliás, não consegui identificar se eram mesmo pés. As marcas ficaram e seguiram. Eu corri com raiva nunca sentida e bradei: “Seja o que você for, isso não vai ficar assim!”. Fiquei com receio dessas palavras. Foi a primeira vez, que me lembro, que estive fora da casa, durante a noite.

Suspeitei que as pegadas me seguiam (mas como?, se elas haviam saído antes de mim!?). Naquele momento eu me encontrava a alguns passos da frente da casa. Pela primeira vez vi que o ipê-amarelo não tinha cor nenhuma, as flores do jardim sequer cores tinham, nem perfumes exalavam, nada exalavam, mesmo assim, não desconfiei dos pássaros –  à noite eles descansam das suas viagens transcendentais. Os pés que me seguiam, me alcançaram. Meu corpo, parecia arder em brasa, uma brasa vermelhadamente flamejante. (Desculpe-me pela redundância, mas até meus olhos estariam vermelhos, se eu os pudesse ver, até a parte branca.) Foi quando pude compreender que estava sem óculos, deixara-os no quarto, ainda brancos.

Suspeitei grande palpitar no coração quando meu corpo se virou de costas para a casa e viu a casa tomada. De vermelho. A cor, numa seqüência tresloucada, como se a possuir tudo ao seu entorno, fez-me correr, disparar, para fora da fazenda, saindo pelo portão da esquerda. Nessa hora,  embora enfastiado, suspeitei ter adentrado num matagal que me cortava, me entrecortava, quase que me mutilando. Mas ainda havia em mim um certo ímpeto por descobrir o fim daquilo. Sangrava e sangrava e adentrava. Após algum tempo, meu corpo vermelho, em brasa e em sangue, parecia fraquejar, as feridas não doíam tanto, mas incomodava.

Suspeitei, por fim, que, após esse matagal, havia um lago escuro e enigmático. Eu só precisava descansar. Meu corpo –  eu não fazia idéia de onde havia ficado a toalha – mergulhou naquele lago obscuro, tão profundo, que, suspeitei, ter entrado num mundo outro, que não o agora já antigo, antiqüíssimo.

Suspeitei ter descoberto o meu lugar num mundo novo. Só não entendo a ausência da magia.
Permart
Enviado por Permart em 29/11/2007
Código do texto: T757817

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Sobre o autor
Permart
São João de Meriti - Rio de Janeiro - Brasil, 36 anos
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