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Qual é o seu desejo?

Juliana e Angela

São as noites perdidas que fazem com que me sinta vivo.
Dançando embriagado com um rosto bonito. Desejando a primeira mulher que passar. Eu sempre tentei ser um garanhão, igual aos galãs de filmes antigos. Procuro bolar frases feitas para ocultar minha desgraça perfeita. Eu gosto das mulheres, mas elas não gostam de mim.
Felizmente nem todas.
Uma vez ou outra a noite acaba terrível. Sozinho. Sem dinheiro. Quase sóbrio. Sem nenhuma perspectiva de voltar para casa. São noites como estas que penso sobre minha vida. Eu não estaria escondendo minha incapacidade de amar? Meu medo de me tornar como meus pais, desconhecidos que um dia se amaram.
É nessa parte que eu grito um foda-se e fico louco para mais um gole. Ficar sóbrio é ter que encarar os meus dêmonios internos.
Geralmente nessas noites longe de casa é que eu penso em mudar de vida. Mas ficar em casa é completamente entediante. Eu não deveria ter histórias a contar?
Então me encontro neste banco gelado, em uma dessas noites que não deram certo. Amigos? Eu mesmo não sei o verdadeiro significado disso. Além do que, amigos não atrapalham amigos, o que quer que isso queira dizer. A lua bem que poderia estar no céu, assim me distraia até o amanhecer.
Eu sou apenas mais um bêbado de final de festa, longe de casa. Tem algo mais decadente do que isso?
- Ajudem um pobre rapaz a voltar para casa. Dez, vinte centavos, qualquer coisa – eu digo sempre que alguém passa. Eu me recuso a ser um perdedor, a falhar. Eu faço de conta que luto. O que importa é o que eles enxergam.
A maioria leva na esportiva, dá risada. O bom mesmo são as mulheres.
- Senhoritas, não querem levar um rapaz com vocês? Eu lhes prometo aventuras que nenhuma garota já viu.
Algumas dão risadas. Outras fecham a cara. Poucas entram na brincadeira. Isso torna Juliana e Angela especiais.
- Lindas garotas, não querem ajudar um pobre rapaz bêbado a chegar em casa? Eu prometo que me controlarei e não tentarei atacá-las.
Elas dão risada e vão até o carro.
- Ora moças, Jesus um dia disse que devemos amar o próximo.
Não sei se é a bebida ou se elas realmente são as duas garotas mais lindas que eu já vi na vida. Um sorriso lindo, daqueles que você olha e pensa ‘Isso é o que faz valer a pena viver’.
Com a porta aberta elas sorriem e me convidam. Vão me deixar em casa.
Eu agradeço e digo que se acreditasse em Deus diria que ele iria ajudar aquelas duas belas almas. Elas não param de rir.
Já ganhei as duas.
No carro elas dão risadas, falam sem parar. Eu mal sei o que acontece ao meu redor, mas não paro de falar besteira. Filosofias baratas sempre cativam o mais negro dos corações.
Giramos pela cidade quando eu jogo meu golpe final. Com um ar sério me sento no banco de trás.
- Peraí, vocês não estão me seduzindo para roubar meu rim, não é mesmo?
Está no papo. Entramos no estacionamento de um prédio, que por mais que eu me esforce não lembro aonde fica. Fumamos dentro do carro. Rimos, nos divertimos muito. Juliana permanece no banco da frente filosofando sobre alguma coisa qualquer. Angela está comigo, enfiando a língua na minha boca enquanto eu tento desesperadamente iniciar a penetração.
As coisas são assim comigo. Sexo, drogas e rock and roll. Bem, não realmente.
Quando finalmente consigo entrar naquele pequeno pedaço do paraíso, descubro que estou fascinado pela Juliana. Ela linda no banco da frente, curtindo uma música que toca no rádio, enquanto sua amiga geme no meu ouvido. Tem melhor jeito de se passar a noite?
Juliana se apoia com os pés no banco do carona, ela me encara enquanto eu fodo sua amiga. Está escuro mas eu posso ver o contorno dos seus pés, minha nossa, eu sempre adorei os pés das mulheres. Acho que estou apaixonado.
- Minha nossa – falo para Juliana – você tem o pezinho mais bonito que eu já vi. Acho que estou apaixonado.
Ela sorri. Posso ver nos seus olhos que ela não me leva a sério. Ninguém nunca me leva a sério. Angela me dá o maior prazer que uma mulher pode me dar e eu só tenho olhos para Juliana. Eu realmente estou apaixonado.
Por fim Angela goza, ou pelo menos finge gozar. Eu, bem, o que importa. Ela arruma a calcinha e volta para o banco da frente. Eu fico ali, torcendo para que Juliana diga que é a sua vez.
- Aqui, joga a camisinha aqui dentro – é tudo o que ela me fala. Aí eu percebo que a noite acabou.
Antes mesmo que eu chegue em casa eu sei o que vai acontecer. Aquela linda morena vai me assombrar por muito, muito tempo. Foi meu primeiro amor. A primeira mulher que me conquistou de verdade. Como eu gostaria de ter feito amor com ela.
Como último ato de desespero falo baixinho no ouvido dela.
- Preciso do seu telefone.
Ela linda responde baixinho, enquanto Angela dorme no banco do carona.
- É claro que você precisa, mas eu não.
Ela me dá um beijo perto da minha boca e vai embora. As mulheres sabem ser filhas da puta quando querem.
E quem sou eu para reclamar.

Thom Ficman
Enviado por Thom Ficman em 07/12/2007
Código do texto: T768046
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Sobre o autor
Thom Ficman
Belém - Pará - Brasil
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Thom Ficman