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Memórias de um Troll

    Houve uma época em que o meu mundo era belo. O sol brilhava majestoso, e trazia vida para mim e para meus irmãos. No céu, do azul mais lindo que meus olhos já viram, belos pássaros faziam suas acrobacias aéreas, e chilreavam felizes. As árvores, eram muito mais do que fontes de alimento e abrigo, eram tão vivas quanto eu já fui, e nos protegiam de possíveis invasores, e nos contavam histórias de tempos remotos. E eu adorava nadar nas belas cachoeiras de minha terra, me divertindo com meus irmãos. Com um pouco de paciência, sempre era possível encontrar as belas e pequeninas fadinhas de cristal, que saíam de trás dos arbustos e voavam felizes em torno da gente fazendo-nos explodir em garagalhadas de pura alegria.
 
     E assim nós fomos crescendo, no seio de nossa Mãe, um mundo cheio de belezas e pureza, onde tudo era magia. Brincávamos de batalhas, lutávamos entre nós com toda a força e o vigor que nossos grandes e musculosos corpos permitiam, mas era só por diversão, e sempre existia algum curandeiro por perto para nos deixar prontos para outra. Depois, já estávamos agitados novamente, apostando corrida contra os velozes e selvagens Sisliths, grandes répteis de nossa terra, mas a verdade é que nunca conseguíamos alcançá-los.

     Mas então coisas estranhas começaram a acontecer perto de nosso belo povoado. Animais começaram a aparecer mortos, à noite podíamos ouvir gemidos e ver seres estranhos nos espreitando e maculando nossa terra. Contrariando os conselhos de nosso líder e professor, o sábio Clérigo Elemental, o grande Chefe dos Trolls resolveu sair para investigar por conta própria. Tolos, porém fiéis, eu e meus irmãos resolvemos seguí-lo.

     Nunca esquecerei aquela noite horrível. Nosso poderoso chefe destroçado por gigantescos seres feitos inteiramente de ossos. Nosso general caído ao chão, sem dar apenas um grito. Furiosos, corremos na direção daqueles seres saídos de pesadelo, que misteriosamente pararam estáticos. Então eu e meus irmãos sentimos uma horrível sensação, uma espécie de dor no peito e uma brisa fria, que gelou até a nossa alma. E detrás daqueles seres saiu um homem, ao menos acho que era um homem, que usava um manto e um capuz negro, e tinha crânios humanos formando um gigantesco e medonho colar. E ele falou conosco. Falou que vieram porque queriam nossa terra, que dela emanava uma grande energia que serviria para seus obscuros propósitos. E falou que seria magnânimo, e que se em uma hora, eu, meus irmãos e todo meu povo abandonássemos sem resistência aquela terra, ele permitiria que continuássemos vivos.

      Mas nós éramos jovens e cheios de vigor e energia. E além disso nosso poderoso e amado genaral estava morto e desonrado. Em fúria tentamos atacar o inimigo, mas os seres de osso voltaram a se mover. A última coisa que eu recordo é aquela lâmina óssea penetrando meu coração. E dor. Muita dor.

      Misteriosamente, eu acordei. Estava deitado em um confuso aglomerado de ossos. Tochas de chamas negras bruxelavam à minha volta. Sentia dores pelo corpo inteiro. Levantei-me com dificuldade e vi que os corpos dos meus irmãos jaziam em volta de mim, todos estavam mortos. Percebi que estava dentro de uma espécie de cabana, e com uma das tochas pus fogo em tudo, para que as chamas sepultassem meus irmãos. Do lado de fora, percebi que existiam outras cabanas, todas negras, mas investigando com mais atenção percebi que quase todas estavam vazias. Quase, pois na última existia um daqueles seres gigantescos, que me atacou com violência.

      Foi com certeza a luta mais difícil de toda a minha vida. Meu corpo parecia não responder aos meus impulsos, sentia dores horríveis a cada movimento. E então, sua foice de osso me atacou com velocidade descomunal, decepando meu braço esquerdo. Caí no chão em agonia, mas ele já vinha para me acertar novamente. Sem tempo para pensar e sem mais nada por perto para utilizar como arma, peguei meu próprio braço caído e acertei sua cabeça. Ele bambeou. Levantei e ainda com meu braço arrancado golpeei-o até que ele desmontasse por inteiro.

     Depois daquela luta minha vida nunca mais foi a mesma. Primeiro descobri que não tinha a menor idéia de onde eu me encontrava, eles deviam ter me levado para muito longe do meu povoado. Depois de incinerar todas as cabanas, entrei na floresta, mas os animais não mais me respondiam e as árvores se portavam como mortas para mim. Aproximei-me de um lago, e, quando fui me banhar, ao olhar para o meu reflexo fiquei completamente deseperado, aterrorizado, quase não me reconheci. Faltava carne em meu rosto, podia ver alguns ossos de meu próprio corpo. De alguma forma percebi que em mim não havia mais vida, apesar de ainda estar consciente.

     E hoje eu vago pela noite, procurando por minha bela e amada terra. Infelizmente, sei que meu povo não mais estará lá, talvez morto, mas espero que tenham fugido a tempo. Mas é para lá que eu vou. Porque as fadas não brincam mais comigo, e o sol agora ofusca meus olhos. Sinto dores pelo meu corpo inteiro, e às vezes, cai um pedaço putrefato de mim. Mas eu destruirei o homem de capuz. Ultimamente não tenho conseguido controlar muito bem meus pensamentos. Às vezes esqueço algo que fiz, uma vez esqueci até mesmo quem eu era, para depois me lembrar de tudo novamente. Outro dia encontrei um pedaço de carne cheia de sangue em minha boca, foi o gosto mais horrível que já experimentei. Mas nada disso importa realmente. O que importa é que um dia encontrarei minha bela terra.

      E então terei a minha vingança!
Renato Arfelli
Enviado por Renato Arfelli em 26/12/2005
Código do texto: T90730
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Sobre o autor
Renato Arfelli
Santos - São Paulo - Brasil, 34 anos
17 textos (1280 leituras)
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Renato Arfelli