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A BELA DO ESPELHO

Quando terminei de fazer os últimos ajustes da colocação do espelho na parede de meu quarto, nem sequer imaginava as emoções que ele ainda iria me proporcionar. Para mim, a maior emoção realizável era possuí-lo. Há exatos quarenta e nove dias paquerava aquele espelho no Antiquário da esquina, sem me dar conta de que, de fato, um dia ele poderia ser meu. Afinal de contas, mil e duzentos reais por um espelho não era uma quantia nada fácil para quem só ganhara salário mínimo na vida e há três meses estava desempregado. Eu não era páreo para aquele espelho... Mas sou brasileiro.

Como brasileiro é insistente, durante as últimas sete semanas alimentei o sonho de adquirir o espelho e não desisti das negociações. Para tanto freqüentava o Antiquário com assiduidade. Regatear era o meu forte e envidei todos os esforços para convencer o velho sebento, barbudo e barrigudo a me vender o objeto por um preço mais compatível. O velho tinha fama de bom negociante. Herdara do pai o gosto por usados e a arte de fazer dinheiro com o descarte de móveis e bugigangas que a classe média, mais afeita aos modernismos, fazia rotineiramente.

Nas conversas que a situação me levou a ter com o velho, abeberei-me em verdadeiras aulas sobre valorização de antiguidades. Para ele, a classe média preferia os móveis e utensílios de ocasião - produtos da modernidade tecnológica que arquitetos e decoradores lhe apresentavam continuamente -, apropriando-se de conceitos descartáveis que ela não entendia, mas que se constituíam transitórios, assim como o produto final de suas idéias. O velho reputava o moderno por superficial e lhe atribuía valores de descartabilidade que eu ainda não conseguia enxergar como neófito no assunto que era.

O espelho, se não tinha, beirava os cento e cinqüenta anos de vida. E que vida! Bem entalhado, num estilo Luiz XV, com moldura em jacarandá maciço e bisotado nas laterais, o espelho mais se assemelhava a um brasão de família importante. Trazia detalhes ricos em florões e formas geométricas como se fossem a panóplia de antigos senhores feudais medievais, desejosos de perpetuar sua influência por gerações e, dessa forma, constituía-se numa peça invejável.

Naquela tarde chuvosa de sábado arrematei o espelho pela metade do preço e corri para casa satisfeito. Regozijava-me também de tê-lo feito com dois cheques pré-datados para trinta e sessenta dias. Cheguei a casa rindo à toa e logo o pendurei na parede branca do meu quarto de estudos. De longe apreciava a beleza que o contraste escuro do jacarandá fazia na alva parede.

Um pensamento me veio à cabeça naquele instante mágico de apreciar a beleza antiga do espelho: “Este espelho é diferente! Não é um espelho para nele se ver, mas um espelho para ser visto.” Desde aquele dia, toda vez que cismava de utilizar o velho espelho para checar meu visual, não me enxergava mais por completo, mas via o espelho, seus entalhes, suas formas, seu mistério. Minha imagem refletida no espelho se dilua e esvaecia qual nuvem que desaparece na força do sol incremente do meio-dia. E os meus olhos, agora, deixavam de enxergar-me e viam o espelho, seu contorno e formosura.

O poder de sedução do espelho era imenso. A atração que ele exercia sobre mim sobressaltava meu coração que se acelerava ao defrontar-se com sua rara beleza. Gastava diuturnamente preciosos minutos a observar o espelho e examinar cada detalhe de sua manufatura. Que mãos habilidosas o teriam entalhado? Que mente prodigiosa o teria concebido? Por trás daquele objeto real havia a sua concepção virtual, elaborada como projeto na mente de seu arquiteto. Vi-me, por um instante, dentro da caverna de Platão, a sonhar com o mundo lá de fora pelo vislumbre pálido de uma réstia de luz que invadia maquinalmente meu ser.

Sonho e matéria se confundem na mente do cientista. Transcendência e realidade se unem no coração do sábio. De observador contumaz do espelho passei ao labor estudado de sua análise. Tocava os contornos e saliências gravadas na madeira e deixava meus dedos deslizarem suaves por aquelas reentrâncias curvas. Com aqueles gestos procurava reeditar a emoção do artífice quando no auge do seu trabalho. A sensação do toque na madeira envelhecida – e nem por isso menos bela – me impregnava de emoções transbordantes como se eu pudesse me transportar para aquele tempo remoto de um Brasil império, marcado pela influência francesa da Bellé Époque e dominado por uma estética da Paris do século XVIII.

Dias se passaram após a chegada do espelho ao meu lar. Em uma sexta-feira de lua cheia e estrelas brilhantes no céu, algo inusitado aconteceu. Estava só em casa. Na solidão de minha existência passei quase que o dia inteiro a navegar na Internet. Visitei sites de poesias, salas de bate papo e portais de relacionamento. Tudo isso em busca de algo que preenchesse o vazio daquele momento. Foi um dia intenso, de novos envolvimentos e novos afetos. Porém, a mais linda e agradável surpresa ainda estava por acontecer. E isto é a matéria principal desse conto.

Faltavam 15 minutos para meia-noite quando desliguei o computador com a resolução de dormir. Meu corpo ainda exalava o perfume do sabonete que usara no banho de fim de tarde. Agora, quando os sensores visuais são desligados no apagar da tela do micro, acionam-se os sensores olfativos que me recordam o banho. Passo em frente ao espelho. Detenho-me. Num relance imagino ter visto uma imagem escondida em seu fundo. Mas, que seres habitam o que se pode chamar de “fundo de espelho”? Ou haveria um mundo de fantasias apropriadas do real que se escondem no interior de um espelho?

Estive a pensar tais coisas naquele momento em que o cansaço das vistas e o peso do sono me embriagavam na madorna de uma cama que me convidava a entregar meu corpo em sacrifício à deusa Noite. Os gregos e latinos valorizavam essa deusa. A Noite, Deusa das Trevas, filha do Caos, é na verdade a mais antiga das divindades. Certos poetas a consideram como filha do Céu e da Terra; Hesíodo dá-lhe um lugar entre os Titãs e o nome de Mãe dos Deuses, porque sempre se acreditou que a Noite e as trevas haviam precedido a todas as coisas. Pois foi essa deusa, detentora dos sonos e das trevas que me convidou a renúncia dos pensamentos e a entrega servil do corpo ao relaxamento dos músculos e a cândida espera do amanhecer. Apesar de todo o clima convidativo, ainda não era chegada à hora do descanso.

Qualquer espelho é testemunha ocular de todas as cenas que se passaram diante dele ao longo de sua existência. Há espelhos que sobrevivem aos atores que diante dele protagonizaram histórias de amor e de ódio. Tentei penetrar no mundo imaginário de fantasias que se moviam flutuantes no interior daquele espelho. Quis decifrar os enigmas abstratos daquela obra de arte. Que mistérios escondidos havia dentro daquele espelho inquieto, que insistia em mostrar-se, quando nascera para mostrar? Foi quando me encontrava absorto em tais abstrações que vivenciei uma das experiências mais marcantes de minha vida. Dentro do espelho, no interior escondido de suas histórias e vivências, vi passearem personagens de histórias mil que me surpreendiam e me fascinavam pelo tipo, vestimenta e cenários. Uma cena, porém, me chamou a atenção: Uma bela mulher se deslocava na profundidade do cenário, e passeava sua beleza com desenvoltura.

Quem era aquela mulher? Em que tempo tinha vivido? Que sonhos teve e em que braços devotou seu amor? Por mais que tentasse decifrar aquele enigma, na busca de respostas para as minhas inquietações, o mistério permanecia. A Bela do espelho, como passei a chamá-la, passeava insistentemente de um lado para o outro e o sentimento que tinha era que ela fixava os olhos em mim, numa exposição de angústia tamanha que aumentava o meu desconforto e causava-me transtornos abissais.

A sensação que tinha naquele momento - ao presenciar aquela mulher tomada de angústia que passeava dentro do espelho mágico do meu quarto - era que ela queria se comunicar comigo e passar-me um pouco das suas inquietações. Mas seus lábios estavam cerrados e apenas seus olhos, quais duas jabuticabas enormes, brilhavam de forma incômoda e aprofundava-se em expressões vívidas de uma turbulência tal que me causavam comoção.

Os tempos se passaram e foram tantas as imagens capturadas naquele espelho centenário que alojei em meu quarto que, como num quebra-cabeça transcendental comecei a montar as histórias que ele me revelava através de seus personagens fantasmagóricos. A Bela do Espelho, descobrira, tinha sido uma princesa linda, do trono de Áustria, que havia sido obrigada pelo pai a desposar-se com um herdeiro de trono das Astúrias, podre de rico, mas que não tinha beleza nem graça pessoais e, por decorrência, era um homem bruto, voltado para a administração de seus negócios e o enriquecimento ilícito, esquecido de que tinha uma bela esposa no Palácio que precisava ser apreciada e amada devidamente.

As festas, os banquetes e os saraus que eram promovidos nos diversos palácios do reino, não eram suficientes para agradar o coração da bela princesa, pois a intenção de seu malfadado esposo era apenas criar um evento para distrair seus convivas e fazer negócios. A Bela do Espelho quase não tinha papel a desempenhar naqueles movimentos, posto que a criadagem de tudo tomasse conta e ela não se envolvia nos negócios do esposo.

As percepções que tinha de seus movimentos inquietos no fundo do espelho não representavam, necessariamente, algo voltado para a minha pessoa. Ela estava transitando solta nos acontecimentos, deslocada do que acontecia ao seu redor, numa busca insana por atenção e distração. Nada do que ocorria nas festas de seu esposo lhe agradavam, e ela deslocava-se pelos ambientes, com olhares sequiosos de encontrar algo em que depositar seu afeto e ternura.

Pois foram estes olhos que me fisgaram desde quando, ao deixar de observar-me no espelho passei a observar o espelho e os segredos que ele guardava em seu interior pelas muitas vivências que se descortinaram a sua frente. Os olhos inquietos e misteriosos da Bela do Espelho me cativaram e me seduziram a tal ponto que passei a ter uma história de vida com aquela mulher. Sonhava com ela, desejava seu corpo, tentava adivinhar seus pensamentos. E tanto forjei por penetrar seu mundo e conhecer seu coração, que me esqueci do mundo em que vivia e não mais gostava de sair de casa, e enfurnei-me no meu quarto e poucas eram as ocasiões em que saía para alguma coisa, exceto quando cumpria minhas obrigações domésticas e quando tinha que ir ao banco para retirar o valor da minha pensão.

Meus parentes começaram a me achar estranho e já não se relacionavam direito comigo e quando, nas raras ocasiões em que isto ocorria, a gente se esbarrava pelos corredores e compartimentos da casa, cochichavam entre si, tecendo comentários nem sempre edificantes acerca de minha pessoa e isto me levava a experimentar uma inadequação ao mundo moderno, seus ideais e seus valores.

Desliguei o computador, cancelei a Internet, não freqüentava a sala para ver televisão nem ter contato com meus familiares, mudei meus hábitos alimentares, troquei as roupas coloridas por roupas mais sóbrias, principalmente ternos de linho, e enfurnei-me no meu quarto ficando até dias sem dele sair. Lá, reuni os livros mais preciosos que tinha, exemplares antigos de Balzac, Tolstoi, Dostoievski, Stendhal, Proust, Dickens e Júlio Verne, além de um exemplar da Bíblia de Gutenberg que lia em alemão para tentar reconstruir o ambiente de minha princesa.

E foi assim que o tempo foi lentamente passando, minha vida substituindo pela vida da princesa que me encantara por entre as sombras de seu espelho mágico, e eu definhando, emagrecendo, tornando-me peludo ao extremo, qual um bicho do mato desvairado que pouco ou nada tinha a ver com a moderna civilização. Meus olhos tornaram-se vivos, grandes, numa proporção quase descomunal para o tamanho do meu rosto, já que vivia de leituras e de miragens extraídas mentalmente das aparições que tinha ou fabricava do espelho secular em meu quarto instalado.
Até que um dia, depois de sete dias seguidos sem descer para banho, higiene e refeição, meus familiares foram até meus aposentos e encontraram a porta trancada. Depois de muita insistência em me chamar e não havendo resposta, arrombaram a porta do quarto e encontraram meu corpo, esquálido, magro como um faquir, estendido no chão, com o rosto virado em direção ao espelho onde a Bela de minha vida morava há mais de cento e cinqüenta anos.

Só ouvi uma interjeição assim de uma tia minha que já não agüentava mais aquele estado de coisas que envolvia minha vida nos últimos meses:

- Finalmente descansou. É um fim para a vida tão triste que estava vivendo ultimamente.

Onde estava, observando-os naquela lamúria despropositada e hipócrita, sorri em cantos de lábios, piscando os olhos para minha linda princesa que me recebia em seus braços e me convidava para os seus aposentos reais, para juntos vivemos nosso idílico caso de amor.

Não conte para os meus familiares - percebi que eles saíram e foram tratar dos papéis para o meu enterro e começaram uma disputa louca para saber quem ficaria com os milhares de reais de minha pensão -, mas estou aqui, com a minha amada, dentro do espelho, e continuarei sabendo de todas as coisas que se passam nessa casa, sem me amofinar nem apoquentar com as desditas de gente materialista que vive para o dinheiro e esquece-se do melhor da vida que é o amor:

- Não é Julieta?
Alex Guima
Enviado por Alex Guima em 04/01/2006
Reeditado em 08/09/2006
Código do texto: T94359
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Sobre o autor
Alex Guima
Eunápolis - Bahia - Brasil, 43 anos
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Alex Guima